domingo, 28 de fevereiro de 2010

ZEN




Tudo aqui é branco; as paredes, as cortinas, o edredão da cama alta e larga onde só eu durmo, as orquídeas japonesas, o tapete de lã virgem, a cama de dossel comprada num antiquário (disseram-me que pertenceu a uma raínha-por-ser, suicida).
Tenho um armário para a roupa de Inverno (que é toda preta), outro para a roupa de Verão (que é toda branca).
Tenho um jardim de Inverno com Aves do Paraíso e begónias e estrelícias e outras flores alienígenas e hera a trepar pelas paredes e aranhas a fazer ninhos entre ela.
E um gato persa que vê fantasmas.
Tenho este espaço todo só para mim. Tenho silêncio. O silêncio é branco, sempre achei, e feito da luz das manhãs de Inverno, quando te enrolas na cama e cegas de tanto sol.
Não como carne nem peixe. Só sementes, como os pássaros. Só vegetais e fruta que caiu dos ramos. Como Newton.
Mas, ao contrário dele, engano a gravidade. Engano os anos. A minha pele é alabastro. Não apanho sol. Não fumo, não bebo, não reparto fluidos, não rezo. (Deus morreu. Deus sou eu.) Prezo muito a minha espitualidade. Cultivo-a como um bonsai. (Vou podando... podando... podando...) Mil cuidados.
Os homens são máquinas movidas a raiva e sangue e sémen. Poluem tudo. Poluem o silêncio. Ocupam espaço. Por isso sei estar comigo. Por isso aprendi a amar-me. O maior amor de uma mulher deve começar nela.
A minha vida é um poema Zen.
A minha vida é caligrafia japonesa: requer todo um ritual, horas de concentração e depois faz-se num só suspiro, numa exalação apenas. O resultado final está sempre a um passo da perfeição, negro sobre o branco. Irrepreensível, organizada. Pontual ao passo dos ponteiros. Uma bailarina numa caixa de música, numa redoma. Virem-me ao contrário, agitem-me e cairá neve.
Branca e silenciosa

Era uma vez...

(Fields of the Nephilim - Elizium http://www.youtube.com/watch?v=xsNwOMjmd-8 )

- Era uma vez...
- Bem, que início mais aborrecido, não te lembras de nada mais banal!?!
- Sabes, tanto tempo sem dizer nada deixou-me com a boca seca, os olhos vidrados e as mãos inquietas.
- Queres tu dizer sem nada para contar!
- Curioso, quem não te conheça poderá ignorar o nervosismo que tens sentido com o aproximar desta hora, o frémito com que golpeias as meias palavras que balbucias sem nexo, a intolerância que demonstras pelo silêncio que te consome, consome, te abre um buraco na alma e te reduz o estômago a poeira.
- detesto quando fazes isso!
- Isso o quê, lembrar-te o que faz bater o coração e arrepia a espinha de prazer?
- Isso de me quereres controlar, insistires que estás por dentro do jogo, que vives o que eu sinto, que sentes o que já não vivo, que não vives o que eu sonho ou que sonhas delírios de morte e de angústia pela viva que insistes estar por viver. Olha para ti e diz-me o que é real.
- Eu sou real, tu também o és.
- Não sou real, não posso ser! Sou uma aberração, um sabor amargo na boca, o corte do frio na cara nua, o palpitar das sombras e o nada, eu não sou nada!
- E no entanto falas, não é curioso?
- Falo contigo, quem mais está aqui para falar?!?
- Ele.
- Ele quem?
- O que ainda dorme, mas já não por muito tempo...
- Dorme? Queres dizer, que não esta morto?
- Morto!? Morto?... realmente, achavas que seria assim tão simples, morria e era tudo o que havia para dizer.
- Então há esperança, queres tu dizer? Que posso sonhar que irei voltar a ...
- Sentir? Sim, meu caro. Sentir, vibrar, correr, respirar, viver, tocar... matar!
- Troças de mim. Estou triste e doente e gozas com os meus desejos de liberdade.
- Liberta-te aos poucos, meu amigo, não caias no pecado da gula nem da luxúria. O dia de hoje não é igual aos de outros tempos. O mundo é grande e tu és um simples verme cósmico, pequenino, ainda te pisam.
- Sou um traço de giz na negra ardósia, um borrão de tinta nas mãos do incauto, uma mancha de lama nos sapatos do viajante e, no entanto, eu sou.
- Somos!
- Somos...
- Sim, somos. Agora, está na hora.
- Sim, sinto o nervosismo do momento, a febre a subir e o sangue a pulsar violento no coração.
- É tempo...


- Dr, pode chegar aqui por favor?
- Diga enfermeira, o que se passa?
- Acho que o paciente da cama 129 está com alteração nos sinais vitais, o pulso está a subir para 66 e a pressão a 120/60. Quer que o ligue ao electroencefalograma?
- Deve ser falso alarme, o paciente está em coma profundo há 2 anos, só está vivo porque ainda não chegou autorização para desligar a máquina e, além disso el...
- Dr, venha ver, acho que está a abrir os olhos!
- Enfermeira, chame depressa a equipa de neurologia, parece que o paciente está mesmo a acordar!

(O mundo é branco, estou cego de tanta luz)

Bem-vindos!

Esta é uma casa para as letras, longe da gaveta onde tantas vezes ficam esquecidas, com espaço para contos, desafios subordinados a temas, textos livres, poemas, divagações e o mais que vossa imaginação ditar.
A servir com música: siga a experiência sonora no Facebook - Alone in the Dark.