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A mostrar mensagens de Março, 2010

Sono Profundo.

Sem caminho de volta. É a ultima estação neste país onde és intruso. Não inimigo, não adversário, não desagradável. Apenas intruso, forasteiro, falante de outro idioma. O ruído da locomotiva embala-o num sono profundo do qual não consegue despertar. Despertar é maçada. Talvez lá mais para a frente quando o céu flamejante que espreita no limiar do horizonte impuser uma cor tórrida, insuportável, e o obrigue a erguer-se e a ler a enorme placa anunciando o Finisterra.
Mas por agora, dorme, desmaia, hiberna, prossegue um quase-coma físico e espiritual enquanto num pestanejar tudo vai decorrendo, desvanecendo, amarelecendo, desaparecendo.
Morde o lábio, e sente o sangue que vai apodrecendo nas veias. Por esta unção...

(repescado de O Passageiro da Chuva)

Sonhei Verde

Ela acordou e, com o braço mole, passou a palma da mão aberta pelo peito dele com os olhos ainda fechados sorridente ,e disse qualquer coisa...

Sonhei verde

Ele não pergunta o que ela faz o dia inteiro certo - as lições de inglês,certo... não sabia das horas dela,sentia que ela fugia. ( estas doida )?

Sim, verde.

As árvores grandes a volta da casa,o campo cheio de relva que o meu pai corta ao fim de semana,o terraço caiado de branco a sua mesa de madeira comprida e a sua toalha de algodão verde onde se almoça ao domingo,e o lago com os seus nenúfares...

Sim sonhei verde

Ele sentiu uma coisa indesejada uma coisa que não era desejada.
Pensou...ela vai voltar para la para os seus.
Ela tinha estado a sorrir para si mesma,apenas meio acorda,com a ideia de ter sonhado erradamente em verde, uma linha cruzada do velho armazém subconsciente de paisagens,quando na verdade tinha adormecido transportando-se para o brilho imenso do verde onde entrara naquela tarde para alem do tempo e do crescimento.

Num…

Vida não eussocial

Era uma vez, um contador de histórias cujo historial era composto por histórias historicamente historiada por um historiador.

O historiador, de nome Conto, vivia na terceira casa a contar do Largo das Contagens e conta a lenda que o largo foi contabilizado em mil contos de réis porque ao contarem as contas do colar da mulher do contador de histórias, foram contadas mil. O contador de histórias foi quem inaugurou o largo e este viria a ser o ponto de encontro de toda a população. Um largo largamente amplo, com margens largas, árvores de tronco larguinho, não muito porque ainda eram novas e digo isto com uma larga margem de certeza, porque as vejo todos os dias quando vou para lá alargar os meus horizontes através da leitura alargada.

O Conto não sabia escrever, por isso usava a memória como folha e o pensamento como caneta. Depois as histórias eram passadas ao contador de histórias e este publicava-as em livros. O último livro chamava-se “o laço” e o seu lançamento, tal como de todos os …

O Transeunte

O ar pesado infiltrava-se entre as preces devotas que zumbiam baixinho. Era chegada a hora…

É o momento final, dentro em breve, tudo estará envolto na bênção da paz, ele irá partir e resta-nos a nós, que atracados à costa como barcos sem vela, vê-lo-emos vogar pelo mar alto. Juntem-se agora irmãos e irmãs, acompanhemos este nosso irmão na hora da despedida.

À sua volta, um véu de angústia, de apreensão. Tinha sido uma longa jornada até chegarmos aqui, à beira do desconhecido, prestes a trespassar a arcada velada que guarda o portal sagrado. Para lá dela, o Outro Mundo….

Nós, que ficamos para trás. Nós, os néscios e pueris. Nós, que amamos sem saber, sabemos que haverá menos um de nós, entre nós. Mas para lá destes nós que nos enlaçam premente, entre estes atilhos que amarram nossas almas umas às outras, do entrelaçar de vozes que sobem ao ouvido do Criador, Te rogamos. Leva o nosso irmão pela mão, Senhor. Firme, paternal, jovial. Segredai-lhe que nada há a temer, para além da espiral de…

Felizes juntos

(Die Form - Inhuman)



Ela é como ácido, corrói-me por dentro. Revira-me as entranhas com garras de ferro e vidro. É implacável comigo, odeia-me, despreza-me, esmaga-me com violência contra a parede. E faz amor comigo.


Eu sou um mero espectador, vejo-me a mim mesmo, só e abandonado à minha sorte. Vejo. Observo. Gesticulo no ar com arpégios suaves, como se o seu corpo fosse um piano inalcançável, que eu quero tocar. Tocar. Mas não me é permitido. Não até ela dizer que sim. E fazer amor comigo.


Ela é doce, cândida, amável, paciente e delicada. Obediente. Ciente do que a espera. Ciente da besta que há em mim. Fomenta a besta que há em mim. Alimenta-a. Adorna-a com os pedaços rasgados de roupa que ainda a cobrem. Despe-se. Oferece-se. Submete-se. E faz amor comigo.


Eu sou cruel. Não amo, só desejo. Não temo o que ela tem para oferecer. Finjo ser cruel, mas sou um cobarde, vivo no terror dela. Vivo na agonia que ela me deixe. Nos deixe. Nos abandone. E não façamos mais amor. Juntos.


Ela. Ela. O e…

O silvo

Bruto impulso o que lhe bate.
Ergue-se e decide o dia.
Será hoje.

A noite havia sido de plumas. Os sonhos rendidos ao cansaço deixaram-se sonhar, em leve peso, e definiram passos por dar. A noite conselheira impôs-se e conquistaram-se as certezas. Trazidas na aurora, as decisões abriram o armário, vestiram o casaco e sairam, não sem antes se fortalecerem num pequeno-almoço.Os favos de mel no leite adoçaram a voz e pôde, então, calar a rispidez deturpadora da razão.

Há feridas que não se podem lamber.
A carne viva não sara.
Será hoje.

Saiu num disparo decidido. O Manta 1600 interrompeu o silvo da pressa que trazia e cumpriu a missão, mostrando o destino. Não era esperado, tampouco desejado. Os olhos encontraram-se na cruz do fogo e disseram a verdade. Sentiu-se de novo o silvo, mas já não era o seu. Não era fruto da pressa. A louca decisão dos sonhos de pluma em noite conselheira.

Foi hoje.

Destino

Ela estava parada, olhando para a estrada que se abria à sua frente.
O nascer do sol estava a despontar por detrás do monte.
Aquela manhã que estava raiando parecia uma pintura. E que bela pintura! Uma cena completa com cores, sons, cheiros... Cores diversas, que se entrelaçavam sons de vozes, crianças gritando, algazarra, conversas, alegria... Cheiro de café fresquinho, e também o perfume do jasmim que vinha do jardim... Ela respirou fundo, inspirou aquele que era um instante mágico. Se fosse possível congelar aquele momento, ela poderia ser feliz para sempre, dentro daquela paisagem. De repente, ela acorda de seu devaneio, percebe que esteve a sonhar acordada, esboça um sorriso, ouve o som de buzinas, percebe que o sinal está aberto e segue em frente.
Porém, a cena pode ser diferente... Ela estava parada, olhando a pilha de trabalho que a esperava. Seu chefe cobrando prazos, aquele cliente chato acabara de chegar, e ela ainda tinha que sair para levar sua mãe ao médico hoje... Ela repa…

O Sonho

Nas minhas longas noites de não fechar de olhos
o meu corpo forma linhas paralelas com o céu e a terra e
o dióxido de carbono que sai de mim é sempre perpendicular aos dois
Nas minhas curtas noites de fechar de olhos
giro em torno de mim mesma, num eixo imaginário e
marco os lençóis que ajudam a não sentir os pregos da minha cama
O meu não fechar de olhos é apático
faço promessas a mim mesma, dou ânimo ao meu corpo dorido
sempre com a eterna esperança que uma noite venha
montada no seu cavalo branco e mate esta vigília
Nas minhas infernais noites de pálpebras invisíveis
tenho os olhos secos num olhar fixo ao céu
imagino lágrimas que não existem
imagino soro que não tenho e
desespero por Hipnos
Nas minhas negras noites de não suspensão
grito em silêncio a ti
procuro-te no meu olhar
procuro-te no céu e na terra e
procuro um rasto teu nos meus lençóis…
Nas minhas tenebrosas horas
em que o meu corpo está na parte escura do planeta
a razão diz-me que não sabe onde estás
mas o coração diz-me que se escutar o seu …

Dormência

(Anathema - Sentient)

Não posso negar.
Cada vez que oiço a água a correr por entre as pedras, penso em ti
Sempre que os olhos me doem de ver tanta luz, penso em ti
Quando sinto o inverno a chegar à minha janela, penso em ti
E se procurar o pedaço que falta na minha alma, procuro-te a ti…

Por mais que eu tente, por entre nuvens de horas e pó dos anos
Por muito que tente recordar o peso que as palavras tinham em minha boca
Por tanto que passei só para poder esperar eternamente, paciente
Por tudo o que faria só pelo prazer de beijar a tua boca
Por tudo o que há em ti, que eu sinto que falta em mim

Eu caminhei mil vezes em torno de mim mesmo
Procurava a resposta para as questões que nunca te coloquei
Percebi então que perante o universo finito só teria uma solução
Fugir de ti
Negar-te a ti
Perder-me a mim
Dormir… por fim

E enquanto sentia o frio do destino final
Deixei-me ficar aqui, a ver as nuvens de horas a passar, o pó dos anos a assentar
A tristeza, o pesar, a dor, nunca me deixou voar para longe
Longe d…

Loucura ou Sabedoria...

É, a Velha Sábia me tomou pela mão há muitos anos e me conduziu por todas essas estradas vicinais... De vez em quando, engraçado, quando estou devorada de perplexidade, penso nela. E marcamos um encontro à sombra de uma árvore. Ela sempre está lá, envolvida num xale, cabelos longos presos num coque folgado. Sorriso de quem, embora já tenha visto tudo, ainda é capaz de maravilhar-se. E o melhor colo do mundo...
E diz-me na sua voz suave...

-O que é entendível para alguns é absurdo para outros.
-O que é correcto para mim, é detestável para ti.
-O que é convenção para alguns, é ridículo e inapropriado para outros.
-O que é novo para um, pode ser inaceitável para o outro.
E assim seguimos vivendo. Mas, qual é o ponto correcto em tudo isso?
Simplesmente, aquele que nos satisfaz.

Na vida não há certo ou errado. Há o que nos preenche e nos satisfaz.

Há uma frase célebre que diz:
Quando encontro a resposta, o Universo muda a pergunta!

Ou seja, estamos em constante evolução e precisamos de lucidez para…

Hora das Estrelas

A hora de dormir para ela era especial, não porque tivesse sono ou já não quisesse mais brincar, mas simplesmente porque era a hora de ver as estrelas. Saltava para a cama e pousava nela como se fosse uma pena, depois, de bruços colocava a cara na almofada de forma a fazer pressão nos olhos. Assim começava a “hora das estrelas”, aquelas que se vêem dentro dos olhos quando estes estão fechados por fora mas abertos por dentro.

Não era muito confortável aquela pressão nos olhos, mas para ela compensava. Estrelas mágicas de várias cores que se movem, que giram, umas mais depressa do que outras, que aparecem e desaparecem, que tilintam ou mantêm o brilho estático… E o melhor é que isto tudo acontecia dentro dela própria.

Respira… respira… respira… os pulmões imploravam para respirar, mas ela ia sempre até ao limite tal era o encanto. Inspira! Expira! Inspira! Sorriso e novo mergulho. Aquelas estrelas nunca se esgotavam, pareciam mesmo que se multiplicavam por cada nova tentativa de vê-las. E…

Auto de Fé

Aos 12 anos o meu pai deu-me o que nessa altura chamávamos “uma valente coça". Não foi a primeira e não seria a última, não é por isso que me lembro tão bem dela ao ponto de esquecer todas as outras.
Há 20 anos usava-se de tudo no que tocava aos cânones educativos dos progenitores: começava a dar-se liberdade a mais mas também os havia pidescos e castradores. Os meus pais não cabiam em nenhuma dessas gavetas. Eram estranhos simplesmente. Socializar resumia-se à insistência nas visitas à ranchada de primos e tios e avós e cunhados que havia espalhados pelos arredores de Lisboa, à ideia de que não existe outro clã que não o da família, guardiã dos segredos e fiadora de patifarias mútuas, ao ponto de eu começar a chamar às nossas reuniões ‘Domingos Corleone’. Acho que nunca perceberam a piada, até ao dia em que o meu pai viu uma reposição do Padrinho na televisão e me olhou de lado, sobrolho franzido e bigode à banda, com aquele ar dele de “ó rapaz… chega aqui que temos de conversar…

O lado

A esquerda era um lado, igual ao outro lado, tal como a direita era um lado, igual ao outro lado. Frente a frente, eram quase o reflexo uma da outra.

Mas a esquerda, que vinha sempre do lado esquerdo, trazia com ela, porque assim tinha de ser, uma etiqueta. “Torcida, torta, desajeitada, desastrada, mal-jeitosa, desagradável.”

Já a direita, que vinha sempre do lado direito, trazia com ela, porque assim tinha de ser, uma etiqueta. “Sagaz, astuta, esperta, desenvolta, entendida, ágil.”

A esquerda, sempre possuída pelo diabo, porque assim manda a tradição, foi levada para a praça pública. Ia ser queimada viva. A direita, menina bonita, oferecia o fogo e era aplaudida por isso.

A esquerda possuída, ia ser decapitada. A direita bonita, oferecia o machado.

A esquerda possuída, ia ser enforcada. A direita bonita, oferecia a corda.

A esquerda possuída, ia ser afogada. A direita bonita, oferecia a água.

A esquerda possuída, ia ser apedrejada. A direita bonita, oferecia as pedras.

A esquerda possuída, i…

A Ti...

A verdade é que às vezes parece que as coisas vão manter-se inalteráveis. Olhamos para trás, espreitamos para a frente e tudo permanece igual. Somos invadidos por toda a fraqueza que existe e perdemos a força até, para nos levantar. Às vezes descarregamos nos outros, na parede, no caderno. Muitas vezes. Demasiadas vezes descarregamos em nós, toda a fraqueza de que é composto o Mundo. Não alcançámos. Não chegámos. Não fomos suficientemente qualquer coisa que queríamos muito. Caímos derrotados – no chão. Não! Não estou a usar metáforas, estou a falar daqueles que caem literalmente no chão. Que esbarram o nariz contra o chão e derramam as suas lágrimas e os seus restos e que a dado momento se confundem com a própria sujidade que pisam.

A dada altura não há música que acalme, não há almofada que aconchegue, não há lembrança que nos faça sorrir. A verdade é que a única verdade que existe nesses momentos é que as coisas vão manter-se inalteráveis.

Passam horas, passam meses, passam estações…

Ela

Ela
Ela é a companheira que não acompanha
Ela é uma senhora fria e nublenta.
Ela é tão lógica quanto eu,
E é tão segura de si...
Ela tem as proporções que eu quis
E as que às vezes não queria.
Ela é linda,
E é fria;
Ela é luz,
Mas é noite...
Ela costuma estar a sós comigo,
Mas encontra-se muito na multidão.
Quando está faz-se notar;
Nota-se nos meus olhos.
Ela é perigosa mas sábia,
Ela é descanso mas errónea,
Ela é vida e ela é morte...
Ela nota-se nos meus olhos.
Ela é silêncio.
Ela é música em pensamento,
Mas é filha da ausência de som.
Ela lembra-me sempre um passado.
Ela é banco de jardim nocturno,
Ela é acre.
Ela é mãe do desespero
Ou madrasta da descoberta.
A sua chegada é sempre terrivelmente coerente
Pois ela é companheira da razão.
Ela é o caminho da sabedoria
Ou
Ela é estrada sem saída.

Ela é solidão.

Os sapatos na calçada

Toc Toc e os sapatos na calçada, a curiosidade de quem passa e o passar em todas as vidas de quem olha. Incorporamos milhares de momentos em milhares de vidas. Fazemos parte. Integramos. Uma mulher de vermelho que passa - sorri. Um velho encostado ao poste – estanque. A criança no chão parada – que chora.
Ser visível é simplesmente estar ao nível dos olhos. É chegar a casa, é sentar na esplanada,abres o livro ao acaso e reencontras palavras certeiras.
Tudo faz sentido, mesmo que não o reconheças, mesmo que agora não consigas ver. Lembras-te daquela tarde? Daqueles saltos altos e daquele poder? Lembras-te? É isso mesmo, pequena. Sorri. Sorri apenas se ainda não te apetece rir muito. Mas sorri porque daqui a pouco soltarás aquele sorriso – aquele sorriso enorme e conquistador de todo um mundo de sonhos.
Do teu mundo é fechar os olhos e recordar a mulher de vermelho, o velho e o poste, a criança e o choro. A nossa memória é feita não só dos que nos compõem, no seu sentido mais próximo ma…

Boleia

(Nota: texto já publicado n'outra 'encarnação')



De certeza que já vos aconteceu... irem a andar descansados da vossa vida e, subitamente, sentirem um enorme calafrio espinha abaixo. Sabem o que é? Eu também não sabia, ou melhor, julgava que sabia. Seria uma corrente de ar, uma gripezita a pegar, falta de sono, um pressentimento...
Um dia, há já vários anos atrás, descobri tudo, o que queria saber e o que desejava nunca ter conhecido...

Estávamos no primeiro ano da década de 80, num Portugal ignorante e desorientado que não sabia o que fazer com o bebé da democracia que agora lhe berrava aos ouvidos com fome. Eu já tinha experimentado de tudo quanto o PREC tinha para oferecer, desde a aventura fácil com as subalternas da repartição até às novas alternativas para inebriar a mente e confundir os sentidos. Sexo, drogas e rock & roll, yeah, era isso mesmo. Curtir os Stones, Genesis, Floyd, o Zeca e os cantares do Rancho folclórico de Arganil, isso é que era vida. Os russos tin…

O Chão

Nos dias de não inspiração, ele atiravas os pincéis pela janela do 3º andar. E pela quantidade de pincéis que existiam no chão, esses dias já tinham sido muitos. Ninguém tinha a coragem de apanhar os pincéis, onde caiam aí ficavam. Só o vento os conseguia mudar de lugar e quando o fazia desenhava no chão um rasto de tinta.

Era engraçado ver as pessoas, que passavam naquela rua, a saltitar de espaço em espaço, para não pisar ou escorregar em algum dos pincéis. As crianças apontavam para as pinceladas secas que já existiam no chão e os adultos respondiam sempre “isso não tem nada para ver”.

Nos dias de não inspiração, ele bebia sumo de limão. Arrumava as tintas por aquela ordem que vem nas caixas de lápis de cor. Lavava a paleta e era ver um rio multicolor a ir pelo cano abaixo. Encostava o cavalete à parede da estante. Bebia mais sumo de limão. Ia à caixa que tinha escondida no armário, tirava de lá novos pincéis e colocava-os dentro do copo vazio do sumo. Tudo pronto e arrumado para um …

O Erro - Desafio enredo

O homem de preto olha o céu carregado. Em três, dois, um segundos, agora. Começará a chover.
Mas não.
Agarrada à gigante pilha de madeira cuidadosamente disposta, como uma figura de proa agarrada ao mastro, um barco insano desafiando a tempestade por chegar, os cabelos como algas negras, a pele e as vestes brancas de fantasma ainda por ser, impoluta, a rapariga aguarda serena. Nada tem a temer. Tem três anjos à espera dela, e riem, estão sentados ali ao fundo, em cima daquele ulmeiro, chamam-na com as mãos liquidas. E ela quase sorri. Porque não conseguem vê-los, pergunta-se. Estiveram sempre ali, ali... Ou ao seu lado, cavalgando em selas de fogo, com braços feitos de gume a decepar as cabeças ímpias dos usurpadores.
Como é que eles nunca os viram em cargas de cavalaria alada, a quebrar o lacre do seu sétimo selo de justiça divina, eles e os seus cabelos de luz a cegar infantarias inimigas, a desviar flechas do peito branco e quente de raiva dela? Como é que eles nunca os ouviram sussur…

Amor Maior - resposta ao Desafio 'Enredo'

(Dark Sanctuary- L´Arrogance)


Amor Maior

Senhor, ouve agora este teu servo
Eis chegado o momento da expiação
No Teu colo encontrei conforto e amparo
Ao afastar-me de Ti só conheci a desolação…
E é agora a presença do Desolado
Que faz de mim um condenado
Ao rugir das flamas do submundo
Prestes a entrar no sono profundo
Lembro-me dela, Senhor
Recordo-me de todo o seu Amor
Um Amor Maior

A cobardia, Senhor, sabeis bem
É das mais odiosas características do pecador
É daquelas que nos fazem temer, Senhor
Por tudo aquilo que virá no além
Para aquém do medo e do terror
Pecador serei eu por ter acolhido
Tanta cobardia em meu coração perdido
Por temer o amor, o amor reneguei
Mas o que é o amor de um homem sem coração
Um pobre homem fugido de vossa Lei
Um vulto atormentado em oração
Uma sombra que se perdeu no vale do esquecimento
Uma sombra envolta em dor e tormento
Uma sobra perante vós, Ó meu Senhor
Perante o assombro de um sonho d’Amor Maior

Foi pela noite calada que encontrei a donzela
Foi a noite de minh’alma que me …

Desafio 'Enredo' - extensão por +24 horas

NOTA: a pedido de um participante em aflição :) vamos extenteder o prazo de entrega por mais 24 horas, até às 23:59h de 4ªf. Obrigado pelo vosso interesse :)

Olá a todos.

De modo a agitar um pouco mais este blog, a “administração” decidiu que seria divertido (pelo menos nas nossas cabeças meio loucas assim pareceu) criar desafios aos participantes. Segue então o primeiro de uma série de desafios (a serem anunciados periodicamente) com o tema ‘Enredo’. É muito simples, nós fornecemos um enredo muito básico e cabe a cada um elaborar um conto à volta deste ponto de partida.

E eis o ‘enredo’

- Uma jovem confessa-se publicamente no discurso final a que tem direito antes de ser executada. O padre é o único que sabe que ela não está a contar a verdade toda (por mentira ou omissão). Depois de ela ser executada ele renuncia à sua fé e abandona a igreja.

E é tudo. Tem até às 23:59 de terça-feira 9 de Março para participar. Have fun!

Nuno Oliveira e Cristina Correia
(e sim, nós também iremos criar as n…

Mentira absurda

Ela poderia tê-lo morto e teriam estado casados mais de uma semana.

Laura tinha sido encontrada sozinha perdida numa praia...o marido morto no quarto do hotel...foi condenada a morte.

Sou padre na prisão onde esteve presa nunca tinha conhecido ninguem assim...era esvaziada de orgulho e manchada de vergonha.Estava a morrer, a morrer na terrivel convicção que Deus não existia.Parva tinha desperdiçado o seu amor,e o ódio a seguir ao amor numa mentira absurda.

Assisti ao seu julgamento e defesa final.


-Ah, ele tinha sido um belo homem!Era forte e um profundo conhecedor em matéria amorosa.não admirava que eu o tivesse amado desesperadamente.não o matei!

-Gostavamos de martinis secos.

-Deve estar na hora de ires-disse-lhe-tenho martinis feitos.Queres um antes de partir?

-Obrigado-disse ele-vou chamar um táxi enquanto o vais buscar.

-Fui até a cozinha.

-Servi os martinis, deixei cair as azeitonas nos copos,peguei numa caixinha.

Por momentos segurei-a com ambas as mãos sob os seios,naquilo que era quas…

O hélio

Os balões eram um dos encantamentos dela. Daqueles que voam, daqueles que têm dentro pozinhos mágicos em vez de ar. Um dos momentos auge era quando o vendedor de balões enlaçava o balão ao seu pequeno pulso, porque isso significava que ele já era mesmo seu. Escolher a cor era fácil, desde que existissem balões azuis, eram sempre esses os escolhidos, ou pelo menos um com qualquer tom azulado. E tinham de ser ovais, nada de lagartas, nem coelhos, nem outro tipo de formato, ovais, balão dito comum.

Balão preso a ela e ela presa ao balão, a ligeira pressão que o fio lhe fazia no pulso era o suficiente para ela saber que ele lá estava.

À noite, para que a separação não fosse muito dolorosa, o balão era amarrado à cama e assim ela podia adormecer a olhar para ele. No dia seguinte, pela manhã, voltavam a ser atados um do outro. Quem assistia a isto perguntava a si próprio como é que um balão podia ser alvo de tamanha adoração.

Ao fim de dois dias, a menina pediu a alguém que lhe desenhasse uns …

Hoje é dia...

Há dias que acordam assim - cinzentos. Vestem-se de neblinas e combinam-se em tons degradé da cabeça aos pés. Há dias em que o céu é um edredon branco e a paisagem um enorme lençol incolor, que não convida a deitar, a sentar, a permanecer – um pouco. Há dias em que a chuva nos afasta das ruas e nos manda recolher aos nossos lugares, aos nossos recantos, aos nossos lençóis coloridos. Há dias em que só nos apetece ser gota e escorregar por caminhos novos, sem rumo definido. Outros em que nos apetece ser edredon branco em Mundo colorido. Mas há dias, há dias em que nos apetece vestir de neblina e ser paisagem incolor. Passar pelos lugares sem sermos vistos. Falar bem alto sem que nos oiçam. Chorar e rir sem que os outros sintam. Há dias em que parece que somos só nós e o mundo, a paisagem, a neblina e as gotas, na certeza porém, de que é apenas um dia da nossa vida, um dia – no meio – de tantos dias.
Hoje é dia de…
Inspira e sente o cheiro da terra molhada. Fecha os olhos e ouve o cair da …
[Este é um texto meu antigo. Apeteceu-me pô-lo aqui. É leve e por vezes faz-nos falta a leveza. A mim, faz.]


Atendi:
– Está, sim?
Uma voz feminina pergunta-me:
– Boa tarde. É o Sr. … … …?
Respondo:
– Sim, eu mesmo.
Pergunta ela:
– Pode dispensar-me uns minutos do seu tempo? Prometo ser rápida.
“A uma voz como a tua eu dispenso todos os minutos que tiver.” Não lho disse mas pensei. Em vez, respondo-lhe deixando passar o meu agrado na resposta:
– Sim, diga lá o que me quer vender…
Deu uma pequena risada, recompôs-se e começou a debitar alguma coisa previamente decorada.
Fiquei a ouvi-la sem a ouvir mas ao mesmo tempo tentando ouvir para além do que ela dizia.
A tonalidade era agradabilíssima. Quente sem ser mole, sem se arrastar, mas ao mesmo tempo, com um tempo de arrasto suficiente para revelar uma sensualidade serena. Firme, sem que nessa firmeza houvesse prepotência. Segura e insegura ao mesmo tempo; não era nenhuma criança e certamente já teria passado alguns momentos menos bons. Tenho para com…

Rádio

(Ulver - We are the Dead)


Ruídos, sons longínquos que se aproximam num crepitar sussurrante, que se vêem aninhar junto do fogo eléctrico do diálogo silencioso de transístores, resistências e condensadores.

Ondas fantasmagóricas invadem o éter, impelindo a dança rodopiante da energia com a matéria a assentar arraiais numa placa de sílica, plástico e desenhos de solda, ora plúmbea, ora acobreada. Uma fatia de sol codificada, um rasgão na quietude do turbilhão subatómico do velo invisível que nos rodeia, um convite ao desassossego, uma sedutora teia de nada que em tudo se enrola, que atravessa carne e osso, mente e alma, colide na pedra e reflecte no vidro e no metal, propaga-se, desdobra-se em harmónicos precisos, traz informação no seu ventre, qual cadeia de ADN prenhe de vozes, música... e ruído, um infindável ruído miudinho, sibilante como a serpente de Eva, que assobia como as areias do deserto a girarem no vento quente, áspero e seco da fúria do Saara ou do Sael.


Xavier escutava. Carr…

A Maldição

Não vou chorar. Exorcizo todas as gotas cadentes que abrem caminho na minha cara e morrem num lugar que ninguém conhece. Sou fraca se chorar.
Digo: inspira-as, absorve-as, consome-as, devora-as, recolhe-as, e se for preciso bebe-as antes de saírem. Em frente ao espelho, devolvo o olhar aos meus olhos para ter a certeza que nada vai brotar.
Penso: para onde vão as lágrimas que se escondem? Ora, vão para o lugar de onde nunca deviam ter saído! Pergunta estúpida! Tal como eu serei se chorar.
Sinto: dor. Maldito, que se sente por eu estar a reter estas gotas importunas. Sou capaz de te arrancar à machadada só por estares a viciar o peso da minha consciência. Ela não vai ceder a ti! Vou amaldiçoar-te! Sim, és maldito, mil vezes maldito! Que o sal das minhas lágrimas não nascidas cristalize nas tuas coronárias, que o oxigénio se extinga, que fiques necrosado. Não me importo. Não vou chorar.

Voo HLL 0969

(nota: texto anteriormente publicado no extinto grupo 'Desafio 500'





- Senhores passageiros, bem-vindos a bordo do voo HLL 969 com destino a…-

E por ai fora. É sempre a mesma conversa: “olá, bem-vindos, daqui a ‘xis’ horas aterraremos algures e entretanto mantenha-se sossegado”. Termino de encafuar a mochila no compartimento, não sem antes tirar o leitor de mp3 da bolsa da frente, preciso de companhia para as 6 horas que se seguem. Encolho-me para deixar passar um homenzito carrancudo que olha para mim de soslaio e esgueiro-me para o meu lugar à janela. Não faço questão nenhuma de ir janela, pois embora ache piada a ir vendo a paisagem, irrita-me de sobremaneira ir entalado entre a fuselagem e estranhos.

(…)

Sim, já sei, lá vem o hospedeiro, ou comissário, ou lá como é que eles se chamam agora dizer-me para desligar o telemóvel, nada de contacto com o mundo exterior, vamos levantar voo, faça favor de ficar quieto e permanecer isolado…

(…)

Finalmente. Estava complicado, mas já surgiu …

Do alto de um arranha céus

Do lugar de onde eu vejo o Mundo um homem toca trompete no alto de um arranha-céus. A música faz-se ouvir por todo o bairro e eu, da janela – espreito-o. Músicas desconhecidas de um tocador de céus. Há quem permaneça e procure de onde vem o som; mas há também quem passe alheio e desligado.

O que dirá o seu trompete? Uma declaração de amor; uma ode à vida; um grito de desespero; um grito de dor?

Do lugar de onde eu vejo o Mundo um homem toca trompete no alto de um arranha-céus e eu permaneço e vejo e oiço. Na realidade, não passa de uma performance de um jovem que decidiu subir ao prédio mais alto e mais velho da cidade. Movido pelo sonho, pelo amor ou pela tristeza subiu mais de 600 degraus e decidiu falar ao Mundo através, do seu trompete. Daqui a umas horas a polícia vai chegar, ele terá de descer e o bairro ficará novamente calado e vazio.

Do lugar de onde eu vejo o Mundo, milhares de pessoas vêem o Mundo comigo. Através dos seus olhos, das suas vivências, do seu imaginário ou do seu…

Um parêntese

"O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma oportunidade de meditação permanente ao nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba receber." (Artur da Távola)

(Todas as noites deixava a porta do meu quarto entreaberta. Quase com uma certeza matemática, sabia que ias entrar.

Não havia hora marcada, mas estava sempre acordada quando entravas e apesar de não conseguir ouvir os passos das tuas patas, conhecia exactamente o momento em que atravessavas a fronteira entre o corredor e o meu quarto. Conseguia, igualmente, anteceder o instante em que davas o salto e pousavas com a delicadeza própria do teu ser em cima da minha colcha. Como sempre, eu sabia que os teus passos picotados te iam levar até às minhas costas. Depois de deitado confortavelmente, o teu típico ronronar entranhava-se até aos meus pulmões e eu tinha de suster a respiração. Acertava os meus ciclos respiratórios com os teus e duran…
Quando a cidade adormece
e eu acordo sobressaltado com a minha própria respiração,
percebo que partiste e deixaste atrás de ti o perfume da minha humilhação

Percebo que os gatos que pisam periclitantemente o velho telhado
e os grilos que na penumbra cortam o silêncio à navalha,
me fazem querer gritar até as amígdalas implodirem
e a basílica vizinha implodir num repente.

1 Fogo extinto, o seu rescaldo, debandada progressiva, cinzas frias
o alinhamento deste canal televisivo demoníaco
A cortiça que é a minha garganta lasca-se em curtos intervalos
e a luz do candeeiro pendente lá em baixo, presencia este velório

O que faz de nós pedaços de papel amassado caídos ao lado de um cesto de lixo?