sexta-feira, 30 de abril de 2010

(Sem) Contemplação

Nascera de olhos abertos, crescera a rasgar páginas e quando lera aquela frase, ainda um jovem, parecera-lhe que fora escrita como epígrafe da sua vida: “A beleza está nos olhos de quem vê”. Percebera que para aceder ao sublime bastava olhar em profundidade.

De facto, nunca escutara todos os andamentos de qualquer sinfonia, nunca se encrespara com o acre do limão salgado, nunca perdera os seus dedos nas crinas de um cavalo, nunca se entregara só pelo cheiro de um corpo. E... honestamente... não planeava fazê-lo. Só queria ver em absoluto. Ser, durante toda a sua vida, um esteta da cor, um mestre da luz e da sombra, um filósofo da proporção.

Tornara-se, sem hesitação, pintor.

Viajava pelo mundo à procura de sensações fortes, naturalmente visuais e belas, que refundia a óleo e a carvão. Abstraía-se do resto. E quando as mãos estendidas, o sangue seco, o bolor, o pó da terra, as moscas e as unhas negras se tornavam insuportáveis, recolhia aos seus museus, ao Louvre, ao Hermitage, ao Prado, ao Tate, onde o êxtase era impoluto e servido em salas vazias.

Numa dessas visitas, vira-a. Um manequim articulado, cuidadosamente colocado na posição perfeita. Contemplava a “noite estrelada”, tão absorta que parecia querer tornar-se uma pincelada de Van Gogh. Aproximou-se e, sem entrar no seu campo de visão, perguntou-lhe se não achava sublimes aquelas estrelas, se não era admirável a forma como o holandês conseguia o paradoxo de representar a noite através de efeitos de luz. Ela sorriu um esgar e, sem se virar, respondeu que provavelmente o tipo teria sido astigmático. Depois colocou os seus óculos exageradamente escuros no rosto e prosseguiu a visita, ignorando-o.

Ele seguiu-a à distância pelas salas do museu, pelas ruas de Nova Iorque, até ao Metropolitan, até ao Guggenheim, até ao vestíbulo do hotel, até ao aeroporto, até à próxima cidade, até ao próximo hotel, até ao próximo museu. Partilhavam gostos, percursos, rituais.... e ele sabia-a sua igual.

Queria-a. Queria-a em pleno. Ansiava pela jugular entre os dentes, pelo lento estilhaçar da camada de verniz damar. Era uma questão de tempo porque saberia insinuar-se e era um amante incomum, viciante... Não lhe interessava a mera excitação fisiológica. Interessava-lhe a escultura dos corpos, os contrastes da pele, o olhar que os seus homens e mulheres lhe dirigiam. O olhar de quem entrega o último pedaço de inocência. Ele queria aquele olhar nos olhos dela. Olhos perfeitos, como os dele. Olhos que, afinal, ele não conhecia porque ela protegia-se atrás dos óculos escuros que só tirava quando se perdia nas telas.

Teria prolongado aquela tempestade de areia por mais tempo, esperando que o desejo o garrotasse, que a posse se tornasse urgente, condição de vida... Mas ela cansou-se do jogo. Um dia, sem aviso, sem que anteriormente tivesse indiciado que sabia da sua sombra, voltou-se, caminhou até ele e tirou os óculos negros. O que ele viu naqueles olhos sem cor foi a negação seca, foi desprezo pelo vulgar, foi sarcasmo, foi intangibilidade. E foi o reflexo do seu próprio olhar de adoração e de entrega.

Ele só queria ver a sua beleza espelhada nos únicos olhos que sabia absolutos e iguais aos seus. Mas vira apenas o pouco que era. E foi nesse dia que passou a perceber todas as coisas como ilusões ópticas, espectros de luz, simples radiação electromagnética. Foi nesse dia que esqueceu qual o uso a dar às palhetas e aos pincéis. Foi nesse dia que deixou de olhar. Foi nesse dia que cegou.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Levemente



Se os meus pés soubessem que iam andar tanto, talvez nem aqui estivessem. Neste momento gostavam de estar a caminhar à beira-mar, único sítio onde as ondas apagam as pegadas, levam-nas para o mar e aí as deixam a navegar de forma leve.

Se a minha cabeça soubesse que ia pensar tanto, talvez nem aqui estivesse. Neste momento gostava de estar perdida no céu, único sítio onde as nuvens a conseguem levar para outras paragens leves, como se de tapetes mágicos se tratassem.

Se os meus pulmões soubessem que iam respirar tanto, talvez nem aqui estivessem. Neste momento gostariam de estar cá fora, único sítio de onde podem ver, de uma vez por todas, de onde vem o ar leve que tanto insiste em os visitar.

Mas se os pulmões não fossem tão curiosos, talvez a cabeça não precisasse de pensar tanto e os pés pudessem finalmente parar de andar às voltas.

Talvez um dia o ar leve consiga ir ter a outras paragens sem deixar nenhuma pegada. Talvez um dia as nuvens se misturem com a espuma das ondas e consigam deitar cá para fora tudo o que lá dentro já não quer ficar. Talvez um dia, beira-mar seja igual a beira-céu e tudo fique à beira de ser leve para sempre.

Ritual da Dissolução



I Momentum
Abre a porta da Mente
Liberta os grilhões da Alma
Agora és vulnerável
Oferece o peito à Tempestade que se aproxima

II Momentum
O medo não tem lugar aqui
O amor não tem lugar aqui
A piedade não tem lugar aqui

III Momentum
Observa a Luz que transita
Sente o calor que irradia
Prova o sal das minhas feridas
Estás cada vez mais perto

IV Momentum
O medo não tem lugar aqui
Se sentes medo desiste

V Momentum
O Amor não tem lugar aqui
Se tens amor por ti desiste

VI Momentum
A piedade não tem lugar aqui
Se acreditas que serei piedoso desiste

VII Momentum
Se resististe até aqui já não podes desistir
Eis que chegamos ao Ponto de Não Retorno
Agora começa o Grande Ritual da Dissolução

VIII Momentum
Pão, Carne, Vinho, Sangue
Sémen, Terra, Leite, Mercúrio
No teu peito está a Chave
Para aceder à Câmara Secreta
Onde Ela nos Ilude e Se esconde

IX Momentum
Onde havia calor é agora gélido
Pois eu penetrei nos Seus aposentos
E ela sorriu para Mim
E Ofereceu-se a Mim
E Ligou-se a Mim
E Abandona-te a Ti

X Momentum
Ela dança no Jardim da Eternidade
Ela bebe da Fonte da Imortalidade
Ela controla a Força e a Virtude
Ela é a Luz
Ela saiu da Câmara
E deixou lá o Negro e o Vazio

XI Momentum
Maria chora no seu trono de pedras e espinhos
Ela sabe que a Tempestade chegou aos Céus
E o seu Filho será para sempre impotente
A Guerra pelas Almas dos Mortais está aberta
E uma a uma são colhidas e levadas
Mas o Grande Paraíso está vazio

XII Momentum
Estamos juntos no Jardim da Eternidade
Bebemos todos da Fonte da Imortalidade
A Grande Mãe é a nossa Força e Virtude
Pão, Carne, Vinho, Sangue
Sémen, Terra, Leite, Mercúrio
Não mais vestiremos Carne Mortal

XIII Momentum
É tudo uma Fantasia
Imagens, Formas e Sensações
Tudo Ilusões
Agora dorme
Pois quando acordares estarás completamente só

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Pressão...

Pressão...

Parte I


O som da fechadura a desarmar desperta-me para a realidade. Finalmente cheguei a casa. O piloto automático que todos os dias me reencaminha do trabalho apaga-se, dando lugar ao modo “senta-bebe-esquece”, o meu estado favorito.

De acordo com o BI tenho 51 anos, mas a dor de cabeça que me estala os ossos do crânio insiste em informar que me devo andar a arrastar à séculos pelo peso que sinto sobre mim.
Lembro-me vagamente do que era estar vivo. Lembro-me vagamente do que foi ser feliz e empreendedor. Lembro-me, muito vagamente de me olhar ao espelho e gostar do que via...

Na cozinha, uma tigela vazia no chão lembra-me da companhia da Elisa. Durante 11 anos da minha incipiente vida fui abençoado com a gata mais carinhosa do mundo. Não era aquele tipo de bichano que vive enrolado nos pés do companheiro humano (só fala na palavra ‘dono’ quem nunca teve um gato...) ou que se desfizesse em mimos por tudo e por nada. A Elisa ‘lia-me’ com uma transparência e detalhe que jamais alguma mulher logrou alcançar. Ela sabia confortar-me sem exigir quase nada em troca, sem insistir que eu tinha de mudar, de crescer , de maturar, de ser mais empenhado, menos agressivo, mais homem, menos criança, mais isto, menos aquilo... E era com todo o prazer que eu lhe retribuía o gesto, afagando-a gentilmente no espaço entre as orelhas e o cachaço, deixando-a aninhar-se junto a mim, enquanto víamos televisão pela madrugada.

Frequentemente, a Elisa dava o seu passeio pela rua, saltando da janela da cozinha para o quintal, e daí para o mundo. Ia explorar, descobrir, socializar, andar por ai. Tinha a sua agenda, os seus encontros, a sua vida. Ia e voltava para mim, para o seu companheiro humano. Ia e voltava sempre. Há três meses atrás deixou de voltar. A roda de um carro desenfreado dum daqueles putos asquerosos do tunning, com o seu bonézinho patético e as argolas à pirata nas duas orelhas que separavam o espaço morto e atascado de diarreia onde deveria haver um cérebro e uma alma fez com que a Elisa não voltasse para mim.
Agora, quem me iria acompanhar de madrugada? Sobrava a televisão.

Desde que ela morreu que não durmo, apenas pairo no limbo etílico da minha inconsequente ausência. Arrasto as pálpebras vagarosamente, uma de encontro a outra, mas pelo meio sempre sobra um rasgão de íris e retina que insiste em sobrar para me fustigar com os ásperos fotões do mundo que ruge e brama pela minha alma.

E o que me oferece a televisão? Morte, espectáculo, negligência, sexo fácil e intimidade falsa, porcos e cabras a viver numa quinta, mas que quase parecem pessoas, notícias falseadas, aclamadas, comentadas, esmiuçadas, detalhadas, deturpadas...
Não aguento mais. Pego na caçadeira, calmamente. Carrego os canos...

No andar de baixo instala-se a confusão. Após um sonoro estrondo a bebé da vizinha começou a berrar em pânico e a velhota do 2ª esquerdo corre a ligar para a polícia...


Parte II


Era Primavera. O Sol brilhava quente numa daquelas tardes divinais de Março. É assim que a velhota se lembra do dia em que aquele casal chegou ao prédio... Já passou tanto tempo...20 anos?!?

Lembrava-se como se fosse ontem. “Chegou o casal de engenheiros”, dizia ela. Eram os meninos dos olhos dela, “gente bonita” num prédio enfadonho, fruto da explosão de ganância e mau gosto que espalhou betão pela cidade.

A velhota que sempre morou ali (talvez desde o início dos tempos...), descrevia o casal com acuidade:
“Ela era muito vistosa, uma mulher mexida e desinibida. Por onde passava levantava poeira, parecia que tinha o Diabo no corpo, mas era muito boa rapariga, benza-a Deus... Já ele... parecia que nunca estava cá! Era ‘bom dia - boa noite’ e pouco mais, sempre carrancudo e sisudo, parecia que toda a gente lhe devia e ninguém lhe pagava. Aquilo foi uma questão de tempo, sabe... feitios muito diferentes. Ela, uma moça de genica, ele um homem demasiado recatado, e... aqui entre nós... não devia dar ‘conta do recado’. Não tardou 3 anos que ela o deixou, trocou-o por outro mais à laia dela. Olhe, fez bem a pobre rapariga, por muito que ele fosse bem parecido, não lhe dava a atenção que uma moça daquelas precisa...”


Elsa, é o nome da bebé da vizinha do lado. Uma menina linda, faz hoje 5 mesitos. A Elsa vive num mundo muito limitado, entre o berço, o parque e os braços da mãe. Tem problemas de saúde algo graves, parece que nasceu com uma deficiência cardíaca congénita, além de ser extremamente alérgica.
Uma vez por outra, era ela um bebé de semanas, deparava-se com a Elisa sentada no parapeito da janela a olhar para ela. Era apenas uma questão de minutos ou segundos até a mãe vir a correr a gritar “raio da gata, a andar daqui p’ra fora, que ainda me faz mal à menina”. A mãe da Elsa detestava gatos, ainda mais os siameses. “Dizem que até se viram aos donos e lhes podem cegar d’uma vista”, dizia ela. Isso para uma siamesa de gema, caprichosa e elegante como a Elisa era apenas um desvario de gente pouco interessante.


Toda a gente assoma à janela assim que escuta o lamento das sirenes dos bombeiros e da polícia. Alguns esfregam as mãos de contentamento pelo espectáculo gratuito, outros elaboram fantásticas teorias sobre o acontecido mesmo antes de saber a quem aconteceu o quê. A velhota grita para que sejam mais lestos, pois “certamente foi uma desgraça, ai minha nossa senhora, ai que foi aqui uma grande desgraça...!”


Arrombam a porta.
Espreitam para dentro da sala de onde ventilava fumo. Deparam-se com uma televisão espatifada, um post-it amarelo sobre a mesa e um trilho de roupas que segue até à janela. Da TV pouco resta. No post-it lê-se “A Fine Day To Exit”.

Na janela vê-se um casal de gatos a roçarem-se um no outro, uma siamesa e um gato preto meio escanzelado que parece aliviado...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Unidade imaginária



Hoje acordei ao som de três pancadas e, dada a violência do eco de cada uma, quase que arriscava a dizer que fizeram pontaria à minha cabeça. Acordei mas não abri os olhos, simplesmente deixei-me ficar. Ao som da primeira pancada lembrei-me das palavras e do som que elas fazem na nossa cabeça quando pensamos nelas. Pensei naquelas palavras que são constituídas por uma parte real e outra imaginária e que por isso são chamadas de complexas. Difícil é decidir qual das partes gosto mais. Será que a parte real é apenas imaginação minha, ou será que a parte imaginária é a verdadeira realidade?

À segunda pancada concluí que o melhor é ter as duas partes, poder sonhar sem nunca deixar de ter os pés na terra, ou então poder ter os pés na terra mas não sentir o chão tal é o poder da imaginação. Gosto desta complexidade… a clareza só torna as coisas desinteressantes.

Palavras e a boa disposição que elas podem trazer…

Ao som da terceira pancada abri os olhos e antes de conseguir dizer a primeira sílaba do dia ouvi uma voz que me disse: “já eras para estar no palco!”.

Por favor, Molière, só mais cinco minutos…

(Já alguma vez sentiram a quarta pancada? Não queiram, dói que se farta!)

Em palco...

domingo, 18 de abril de 2010

Girando...






Deviam fazer uns 5 minutos que ela girava na porta, entrando e saindo, sem conseguir decidir-se: ficar ou ir? O que é que tinha vindo fazer ali, afinal? Era um bâton que vinha comprar? Ou um perfume? Tentou lembrar- se: precisava mesmo de um bâton? De perfumes ela sempre precisava, costumava dizer que não tinha sofisticações, apenas o gosto (que estranha misturança de sentidos!) pelos bons perfumes.

OK, a situação começava a ficar horrível! Uma parte do cérebro colava na sensação de que alguém com certeza viria reclamar 'isto não é um lugar para brincadeiras', a senhora está a atrapalhar o bom andamento da porta giratória, esta a sentir se bem? ela odiava a possibilidade de ser abordada em geral, de ser repreendida fazendo alguma coisa errada em particular,nada era pior do que o olhar duro 'dos outros'.A própria imagem da mais elegante compostura. Sobretudo, não perder jamais a tal compostura. Ainda mais ali, numa terra que nem era a sua. Ridícula a última frase, aquilo era Londres, aquela era a porta giratória da Harrods e ela era ou costumava ser uma mulher perfeitamente adequada para ambientes assim. A não ser pelo fato de que hoje não conseguia parar de girar.

Com certeza, iam pensar que ela tinha algum problema, ia acabar numa camisa de força, se não conseguisse decidir-se: entrar ou sair? Pensou no espanto do marido: 'sim, sim, sua mulher veio hoje à tarde, não, não, é do tipo manso, mas louca total, mas mansa, ah, sim, obrigado, vou já, o senhor disse mansa?

Andou pelas ruas geladas desde de manhã. Nada de galerias hoje, nada de museus, apenas andar, sentir o vento congelar a ponta do nariz. Sempre gostara das margens dos rios, 'go with the flow', dizia a placa anunciando os passeios de barco pelo Tâmisa. O filho sempre reclamava do tempo. Onde tinha ela lido isso, que falar do tempo era coisa tão inglesa? Em Portugal também não se falava do tempo, só das tragédias que o tempo traz.

Era um bâton ou um perfume que tinha vindo comprar? Podia aproveitar, ver se achava qualquer coisa para levar para a filha. E girou na porta, mais uma vez. Caramba, começava a ficar preocupada, e se fosse um sintoma exótico de alguma doença neurológica? 'Doutor, não consigo parar de girar!'

Viajava de férias com o marido férias, modo de dizer, que ela vivia de férias, mas, sim, sobrava tempo, muito tempo. porque não conseguia parar de entrar e sair da bendita porta giratória da Harrods?

Agora tinha certeza, já via o reflexo do fato preto do segurança no vidro. Ai, Meu Deus, ele vai prender me. `I beg your pardom, madam, posso ajudá-la?´ e sem esperar uma resposta, pegou gentilmente no seu braço e resgatou-a enfim da vertigem do carrossel.

Devidamente depositada no passeio que o gelo cinzento fazia brilhar, uma parte dela se indignava. O moço alto olhou para ela ou através dela: não se preocupe, senhora, muitas pessoas da sua idade têm medo destas portas, e ela viu perplexa o seu reflexo nas pupilas escuras a cara simpática de turista, cabelos brancos, óculos modernos, rechonchuda, sim, ombros tímidos, sorriso afável. Posso ajudá-la a chamar um táxi? Ela sentiu ganas de lhe responder torto, idosa??! Medo da porta?? justo naquele momento travesso em que esteve num jogo de sedução com a loucura...Ela, uma mulher sempre tão civilizada?

Deu um pontapé na neve com a ponta da bota e virou-se. Não responder, tinha sido uma vitória afinal...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A um passo de ti... (resposta a um enredo)

Regras para um Enredo:
Fernanda - 30 muitos anos, arquitecta. Vive num espaçoso apartamento perto da praia. É solteira, vive com uma iguana, três hamsters e uma recordação que não consegue apagar há já 14 anos: a do namorado que se suicidou à sua frente.
Paula - 20 e poucos anos, enfermeira num hospital, no serviço se Oncologia. Vive com a mãe e um irmão mais novo. É muito solitária e psicologicamente instável.
Mafalda - 23 anos, operadora de caixa numa grande superfície. É muito bonita. Vive frustrada contando as horas que faltam para ir dormir.
João - 50 e poucos anos, mecânico de automóveis. Três divórcios, dois filhos maiores emigrados na Alemanha. Vive em união de facto com uma cabeleireira com menos de metade da sua idade.



A um passo de ti.



Acto I – O Detective



“Mas isso deve ser fascinante!?”
Sim, por incrível que pareça, essa é uma das frases mais comuns que eu oiço quando conto a alguém da minha profissão. Sou detective acerca de 5 anos. Já me passaram pelos olhos muitos casos estranhos, até bizarros. Já conheci muita gente, demasiada até, que parecem a Madre Teresa de Calcutá perante a família e os amigos, e que vivem uma vida paralela digna de qualquer Borgia. Conheci homens de família simples e banais que no outro lado da cortina eram traficantes de droga, pedófilos, prostitutos ou escravos de uma Dominatrix que os usava como cinzeiros humanos. Pouco havia para me surpreender. Mas a vida guarda sempre uma surpresa para quando menos esperamos...

Há 12 anos atrás, quando me mudei para esta cidade, deixei para trás uma vida da qual não acreditava voltar a encontrar rasto. Mas, por mais que o neguemos, o mundo é um quintal, e com maior ou menor distância, estamos todos ligados.

O dia era isso mesmo, mais um dia, mais uma picadela no cartão de serviço, menos um dia para a reforma. Até que fui chamado pelo director do serviço para me ser dada uma investigação que iria alterar profundamente o rumo da minha vida. Um miúdo de 17 anos tinha aparentemente cometido suicídio de um modo demente e invulgarmente bizarro. O seu corpo foi encontrado num motel de estrada, em cima da cama. Teria fumado crack e, num aparente acto de erotismo suicida, praticou auto-sodomia com uma glock semi-automática, semelhante às que usamos na nossa força policial, acabando por díspar com ela introduzida no recto.
Quando cheguei ao local já a equipa forense tinha feito a maior parte do trabalho. Foi-me entregue um relatório preliminar onde constavam os dados da vítima, as condições em que foi encontrada e que haveria indícios da presença de outra pessoa no cenário do crime.



Acto II – As Vítimas (não somos todos?...)


O nome dele era Artur Dias e vivia com a mãe e a irmã numa pequena casa arrendada num bairro de classe média-baixa. A mãe, Adélia, era divorciada de um mecânico de automóveis conhecido por ter um gostinho particular pelas “facadinhas” no seu percurso matrimonial.
Adélia tornara-se uma mulher distante e perturbadoramente fantasista, que insistia em viver num mundo de ilusão paranóica de que o ex-marido não a tinha abandonado, mas sim morrido, e que por vezes voltava à noite para fazer amor com ela na cama que compraram juntos. Tinha-lhe sido diagnosticada depressão grave e estava em casa com baixa psiquiátrica há mais de 5 anos.
A meia-irmã Paula, filha de outra relação que a mãe tivera mais cedo, era enfermeira no serviço de oncologia do hospital central. Também ela uma personagem curiosa. Muito atraente, embora não fosse exactamente bonita. Tinha um corpo magro e aparentemente débil, cabelo muito escuro e liso, olhos afundados nas órbitas escurecidas por anos de olheiras e angústias. Tinha um sorriso magnífico, discreto e encantador, enternecedor, capaz de fazer qualquer homem fixar-se na sua face que de repente se iluminava com uma doçura fulminante. Era sol de pouca dura, e a sua fragilidade irrompia com frequência à flor da pele, desfazendo o sorriso em milhões de estilhaços amargos. Paula raramente era vista com mais alguém fora do serviço. A excepção era a Mafalda, uma amiga um pouco mais velha que ela, que fazia 23 anos no dia em que a interroguei. Conheciam-se dos tempos de liceu, onde Mafalda era a estrela ‘teen’ que coleccionava namorados como se fossem troféus, e Paula a ‘craniozinho’ que lhe dava explicações em troca de um possível arranjinho com alguém que estivesse disponível para a amar.

Mafalda tinha uma irmã quase da mesma idade, a Irene, que era agora ajudante de salão de cabeleireira. Tinha trabalhado com a irmã como caixa no hipermercado, mas não aguentava a rotina de embalar as compras em silêncio. Era uma mulher muito activa, na boca de alguns a palavra era ‘vadia’ ou ‘leviana’. No entanto havia já quase 2 anos que vivia com o ex-padrasto da Paula, o Dias da oficina. Conheceram-se num bar de engate, onde mais podia um homem de 53 anos feitos arranjar uma miúda de 25 disposta a aturá-lo?



Acto III – Amar/Arma



À medida que procedia com a investigação e desenhava os perfis das pessoas próximas do Artur, ia desvelando alguns factos perturbadores. Fossem boatos ou não, talvez me ajudassem a desenhar o perfil do Artur e compreender como pudera ele ter chegado a um fim tão macabro.
O que constava era que, no verão desse ano que agora entrava no final de Novembro, Artur conhecera o filho mais velho do Dias, o Victor, de 33 anos. Este tal Victor vivia na Alemanha, onde supostamente trabalharia em mecânica de automóveis, tal como o pai. No entanto, o que se diz é que ele vivia de negócios muito negros ligados ao mundo da pedofilia e tráfico de drogas. Um ‘belo rapazinho’, segundo consegui perceber pelo seu já longo cadastro. Ao que tudo indica, Victor e Artur tiveram algum tipo de relação, muito escondida, que não se tratou de simples amizade casual entre meio-irmãos.

Segundo me consegui aperceber das conversas com Paula, Artur tinha uma amiga, uma senhora mais velha, que era uma espécie de segunda mãe (ou mãe de substituição, como dizia a Paula).
Tratava-se de uma arquitecta que vivia num casarão junto à praia. Paula conhecia-a bem, pois via nela um modelo do que se haveria de tornar: rica, excêntrica... e completamente só. Segundo ela, a Sr.ª Arquitecta (era assim que ela a tratava) rodeava-se de objectos de arte requintados, provenientes de todo o mundo e arredores, prestando uma devoção quase doentia aos seus animais de estimação, desde os cães que lhe guardavam a casa, à Iguana que tantos calafrios causavam a Paula. Esta contava que, sempre que Artur andava mais frágil ou desequilibrado ia a correr para casa da Sr.ª Arquitecta e vinha de lá sempre mais calmo e seguro. Mas desde Junho que a tal arquitecta partira numa viagem à volta do mundo, dizia-se que ela sofria de um enorme desgosto que nunca a ultrapassara, mas que ninguém sabia bem o que afinal se tinha passado, pois só à 7 anos é que ela vivia naquela comunidade.

Não foi difícil ligar Victor com Artur. Passados menos de 3 dias de investigação, recebo notícias do laboratório criminal de que foram encontrados vestígios de pele e de sémen no corpo de Artur, e que o DNA destes correspondia ao de Victor. Sem dúvida, este estivera no Motel com Artur no dia da sua morte.
Mais duas semanas de investigação, entrevistas, interrogatórios e referências cruzadas permitiram-me chegar à triste conclusão: Artur de facto suicidara-se. Os seus 17 anos não tinham a maturidade suficiente para admitir perante todos a sua homossexualidade. E para piorar a sua angústia e dor, o seu primeiro e único amante fora o seu meio-irmão. Depois de terem passado parte da noite juntos a fumar crack e envolvidos em actividades sexuais, Victor deixou Artur só no quarto de Motel. Mas esqueceu-se da arma que sempre trazia no bolso do blusão, rotina de ‘dealer’. Ou talvez não se tivesse esquecido, mas teria sido Artur que a surrupiara num instinto pré-programado…
O resto é demasiado doentio e triste para contar. Artur não conseguiu lidar a sua própria identidade sexual e, num acto de desespero ou de delírio tóxico induzido pelo crack, introduzi-o a pistola do irmão-amante no seu corpo e, num simbólico acto final de encenação, disparou...

Esta era a história sórdida que tinha para contar. Mas a minha própria história ainda teria um capítulo cruel para me acrescentar…



Acto IV – (A)mar sem fim


Há 15 anos atrás tive uma relação amorosa extremamente intensa durante um ano com uma professora de Geometria Descritiva do liceu onde tinha aulas. Eu tinha 18 anos e estava a preparar-me para a admissão na faculdade.
Vivemos toda a plenitude do amor proibido, do secreto romantismo dos amantes, da emoção e da luxúria. Mas eu sabia que mais tarde ou mais cedo tudo iria ser descoberto, e que ambos seriamos crucificados pelos nossos actos, perdendo para sempre a honra e ficando eternamente marcados a fogo. Temia mais por ela do que por mim. Então decidi optar pela única saída possível, a única alternativa que me parecia resultar na altura…

Foi no final do verão, em Setembro, nas semanas em que o vento de nortada agita as águas para causar marés vivas. Fomos até à ‘nossa’ praia, num dia que foi o dia mais feliz da minha vida. Acordámos juntos, e juntos passámos todo o dia. Perdi a conta do tempo entre corpos, das horas que nos deixámos ficar nos braços um do outro, que prometemos amor eterno... e impossível...!
No fim da tarde, após o por do Sol disse-lhe que ia nadar. Ela olhou para mim e viu o vazio que me enchia o olhar. “Estás a mentir!”, disse-me. “Queres abandonar-me!”. Eu virei a cara e num acto encenado de desespero respondi-lhe que a ia deixar, a ela e ao mundo. Ela gelou e não se conseguiu mexer, nem dizer uma única palavra. O pânico e o horror tolheram-lhe todos os sentidos, a alma dela submergiu num inferno negro para não voltar a ser vista. Beijei-a uma última vez e entrei mar adentro.
Ela não gritou, não ergueu um braço, nem sequer teve força para chorar. Viu-me desaparecer diante dela, que estacou impotente enquanto contemplava em câmara lenta o meu desaparecimento, enquanto o mar me engolia...

O plano foi perfeito, o desaparecimento progressivo da luz do Sol impediu que ela me visse a nadar por trás da ondulação tremenda que se abatia sobre a costa. E assim morri para ela e o seu mundo, e fui ‘ressuscitar’ noutra costa, com outra vida e outro nome. Fiz o curso de Investigação Criminal e mudei-me para uma nova cidade.

No dia em que terminou a investigação da morte do Artur decidi voltar para casa de avião. Eram 16h45m e encaminhava-me para a zona de embarque, faltava ainda 1 hora e meia para o meu voo. Ouvia-se no sistema de som “O voo KLM 722 proveniente de Reykjavik acaba de aterrar”. “Islândia”, pensei eu em voz alta. Era um dos meus destinos de sonho quando era adolescente. Contava a toda a gente que ainda um dia havia de lá ir.

No lobby daquele imenso aeroporto, por entre uma amálgama de gente de várias nacionalidades, por entre viajantes de todos os cantos do mundo, contra todas as probabilidades... cruzei-me com ela, acabada de chegar de Reykjavik, aquela que eu deixei no areal soprado pelo vento de nortada, aquela que me tinha dado como morto. O reconhecimento mútuo foi imediato. O sobressalto fez-me sorrir nervosamente, tentando obter algo de volta.
Mas o que recebi em troca foi uma expressão gélida de desgosto e infinita dor. Durante os 5 segundos que ela me olhou fixamente senti 14 anos de dor, tristeza e imensa culpa a serem descarregados nos meus olhos. Depois virou-me a cara e abandonou-me, tal como eu o fizera naquele fim de tarde, e entrou pelo mar de gente adentro, e nunca mais a voltei a ver.
Hoje pergunto-me se terei feito o que devia. Questiono-me sobre que direito tinha eu de tomar a decisão que tomei. Mas ficou claro para mim de que amei e fui incondicionalmente amado.

Eu sei que nunca te esquecerei, minha querida… tal como agora sei que tu serias tão mais feliz se me tivesses esquecido…

mudança de estado


Pareceu-me sempre fácil.

As conversas entre nós eram água de nascente, fluíam naturalmente, sempre. Alimentavam-se de memórias, saberes, cumplicidades, viveres mútuos e escorriam, sempre. Umas em queda abrupta. Convertiam-se em farpas de gelo, estalactites de palavras agudas. Rasgavam as minhas certezas, derrubavam os meus sólidos confortos e, ao derreterem, inundavam-me de tristeza e desassossego.

Outras não. Nos momentos em que o calor de dois corpos acolhia tépidas vontades, a sintaxe anatómica do amor expressava-se em frases de entendimento. E as verbalizações de dentro de ti enchiam o ar vazio, para num voo se aninharem aqui, dentro de mim, e escreverem textos de paixão.

As conversas entre nós não se deixavam pensar. Tudo era instinto, impulso, resposta a estímulos que a razão não compreende.
Tacteaste os meus sentidos, lambeste as minhas palavras, sugaste-me as emoções. Levaste a receita dos genuínos amantes, e obrigaste-me a esquecê-la.

Parece-me tão difícil agora. Como um dia cinzento nas ruas lavadas de lama ou uma noite em que o tecto negro da insónia nos esmaga.

Difícil.

E não encontro o caminho de volta.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Neo Crustáceo



Se pudesse escolher não ia. É um daqueles apertos que não passa nem com uma inspiração profunda. Inspirar ainda faz doer mais. Às vezes consigo algum consolo quando suspendo a respiração mas depois é bem pior, o ar que esteve cá fora impaciente para poder entrar ainda faz mais estragos. Penso “respira com cuidado, suavemente, sem presa”, mas cada vez que penso tenho lágrimas a atropelarem-se dentro de mim para conseguirem sair.
E se um raio caísse em cima de mim? O “ir” deixava de ser uma decisão minha, já não era eu que desistia. Ia ser uma espécie de “chegou a hora mas como podem ver, não estou em condições de ir, por isso, não vou!” Mas não, estas coisas não são assim e a bem ou a mal, eu sei que vou. Eu sei.
Posso falar contigo? Tens alguns minutos? Não precisas de dizer nada, escuta, só te peço que escutes.
Está cada vez mais perto, sinto isso. Depois, vai ser sempre assim, sempre esta ansiedade, sempre este aperto e eu… eu nem queria isto. Nem sei porque estou aqui. Posso voltar para casa? Levas-me para casa?
Leva-me para longe deste caranguejo. Lá em casa não o vejo tão nitidamente, mas aqui não sei como fugir dele. E agora? Luto de mim para mim? Ele conhece as minhas fragilidades, sabe onde atacar, sabe onde dói mais.
Leva-me daqui! Não te peço mais nada… Eu sei que não posso fugir, mas não tenho de estar aqui hoje, amanhã volto. Leva-me…

Um dia disseste-me que íamos viver para sempre. Eu concordei contigo, mas agora já não quero. Já não quero viver para sempre. Assim não. Leva-me para casa e deixa-me viver lá a minha não eternidade.

Invenção de uma dor



As pedras não se quebram.
Se ao menos as pedras se rompessem.
O dia apaga-se no meu permanente naufrágio.
Feridas cansadas de se chamarem feridas
No amanhã que devia ser um corpo incompleto.
Dias como vésperas de dias iguais.
Porque todos os dias perco o que um dia perdi.

domingo, 11 de abril de 2010

Aqui desta Janela



Célia era uma mulher simples, bonita dedicada a sua casa e aos filhos.
Dia a dia, o avental e o lenço na cabeça e o chinelo de dedos compunha o visual dela.
À tarde, recebia o marido, toda perfumada e pronta, para servi-lo!

Os passeios eram escassos, vez por outra acontecia uma viagem, para visitar parentes.
Um dia, debruçada na janela, sonhou e como por encanto viu lá fora um mundo diferente.

Quem quiser ver novos horizontes, precisa olhar com o coração aberto e a consciência generosa... Para ver o que é real e além das aparências.
Para ver, não só as coisas do mundo, mas a luz que anima a própria vida.
Para perceber que há algo além do que os cinco sentidos podem captar.
Para ir além de si mesmo...

Ah, é preciso ver com o coração... Para não se enganar!
Para aprender a lição que o amor tem para dar.
Para apaziguar as emoções e se sentir integrado consigo mesmo.
É preciso ver com o coração... Para compreender outro coração!
Para perceber que há outras consciências, sem o corpo físico, também olhando os corações e o que cada um carrega por dentro.
E ela compreende e torce pelo melhor, pois vê o Divino em cada ser.
Sim, é preciso ver com o coração, para além do mundo, lá na casa das estrelas... Para perceber outros corações, que vêm de outros, em suas naves reluzentes, para tocarem outros corações, na mesma luz...


Quando o amor fala, o ego cala se!
E só fica o silêncio da compreensão serena e pacífica.
Quem vê com o coração, sabe...
Mas, é preciso ver com o coração...

Célia acordava...despachava se a correr e seguia para a janela e sonhava...

As lições da sabedoria custam caro!
Ninguém ganha ou perde nada.
Viver não é estar ao sabor da sorte ou do azar.
Viver é muito mais!
Em determinadas datas, os homens comemoram algo e trocam presentes.
Hoje recebi um presente...veio um pássaro e levou os meus sonhos nas suas asas...
Amanhã cá estou eu e esse pássaro volta com os meus sonhos todinhos realizados para mim!

É todo o dia... Sempre! era igual...É a vida.
E só vivendo é que se aprende...

Célia ainda estas a janela?

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O tempo do compasso



O sol, para ele nascia todos os dias a partir da segunda linha da pauta musical. Durava exactamente meio tempo. 1/2. Depois durante o resto do dia, desfilavam pausas umas a seguir às outras até ele cair em si e adormecer em cima da terceira linha, dois tempos perfeitos de duração. 2.

O som da sua vida era marcado pelos tempos da colcheia e da mínima. As pausas não tinham nome porque ele não sabia ao certo quanto duravam, só sabia que o silêncio que o seu som fazia, para além de eterno, tinha a capacidade de lhe perfurar os tímpanos.

Resumo do seu dia: sol, pausas não identificadas, si. sol, pausas não identificadas, si. sol, pausas não identificadas, si. sol, pausas não identificadas, si. sol, pausas não identificadas, si. sol, pausas não identificadas, si. sol, pausas não identificadas, si. sol, pausas não identificadas, , pausas não identificadas, si. sol, … … …

!

??

Durava oito tempos, 8.

Ela tinha vindo de , de muito longe, e era uma cidade que ocupava o segundo espaço da pauta musical, exactamente entre a linha do sol e do si. A sua vida era somente marcada pelos tempos da breve.

O que nos acontece quando estamos habituados a sucessivas pausas e depois algo quebra o som do silêncio mesmo a meio?

Resumo da vida dele: ansioso durante 1/2 tempo por ver o sol nascer, ansioso para que o silêncio comece, silêncio, silêncio, silêncio,… e vem ela e 1 e 2 e 3 e 4 e 5 e 6 e 7 e 8 e silêncio novamente, saudades dela, saudades dela, saudades, saudades, cai em si, adormece e 1 e 2 e ansioso durante 1/2 tempo por ver o sol nascer,…

Resumo do dia dela: inquieta à espera dele, sabe que ele passa sempre por aquele espaço, ouve o som do sol, o seu coração dispara, quer tocar para ele, quer quebrar as longas pausas dele, quer vê-lo sorrir, e 1 e 2 e 3 e 4 e 5 e 6 e 7 e 8 e ele passa, saudades dele, saudades dele, saudades, saudades, vê ele cair em si, adormecer, saudades, saudades, inquieta à espera dele, …

Resumo da vida deles: agora os dois fazem parte da mesma pauta. Ele nunca se importou por a breve ser uma figura musical extinta, ela nunca se importou por ele cair em si e nunca a levar. Que importa? Enquanto o pêndulo do metrónomo deles não parar terão sempre o som do sol, das pausas, do , das pausas, do si, porque só não dá valor à música quem não a sente.

domingo, 4 de abril de 2010

Diálogos...



A cena é clássica: Um casal, sentado numa mesa de restaurante, um de cara para o outro, um sem olhar para o outro, apenas comentários casuais entre as garfadas que cavam o tempo, rítmica, metodicamente.

"Vamos sair para jantar?", "OK", "Onde queres ir?" "Tanto faz, um lugar com gente". Aqui, eles estão no tempo dos 40, um pouco antes, um pouco depois, mas já vi casais muito mais jovens e a mesmíssima cena, o que não deixa de ser ainda mais melancólico, apenas porque nós gostamos de imaginar que os jovens de alguma forma estão protegidos das nossas angústias, pois é, não estão, nem conseguir curtir um jantar a dois é questão de idade, é questão de interlocução!

Olho em volta do vento nas folhas,alguém ao telefone, uma música lá longe, uma sirene, um carro que chega, um que parte, talvez passarinhos fazendo algazarra em uma árvore da rua.tudo, todo tempo, se comunica,é som,não qualquer som, gratuito, inocente, o som do universo é fala, tem uma intenção, seu alvo é o Outro.

E envolvidos na fala do mundo,acabamos achando que é fácil entrar na melodia de todos os seres, mergulhar no compasso do outro. Evidente que estamos enganados, o diálogo está bem longe de ser um dado, é exercício, treino, conquista, sem a qual estamos destinados a ser eternos protagonistas da solidão.

A arte do diálogo, o desafio de descobrir a pergunta que mora dentro dos olhos do outro, viram o filme argentino belíssimo, La pergunta de tus ojos, de Juan José Campanella? Então, é disso que se trata, os olhos do outro estão lá, abertos, prontos. A gente olha e não entende. As palavras, os olhos, todo o nosso corpo fala de nós, são expressões disso que chamamos de 'eu', discurso que nem sempre o outro ouve e, quando ouve, nem sempre entende.

Nada a fazer. Mas aos 40, um pouco antes, um pouco depois, nós já vimos muitas e muitas vezes pequenas faíscas provocarem grandes incêndios. Arghhh, lugar comum, mas é neles que nós reparamos um de cada lado da mesa, as garfadas cavando o tempo.

Olhei de novo para a mesa, um pouco mais de perto, imaginei que do outro lado essa figura familiar de repente se acenda e eu conseguia ver, por trás dos olhos vazios, uma estranheza, uma pergunta, um convite.

É esse convite que comparti lho contigo, como antídoto, quem sabe, contra os silêncios da mesa do restaurante:

Não me interessa o que tu fazes na vida.

O que eu quero saber é pelo que tu anseias e se te atreves a sonhar com os desejos do teu coração.

Não me interessa saber que idade tu tens.

Eu quero saber se tu te arriscarias a parecer tolo por amor, pelos teus sonhos, pela aventura de estar vivo.

Não me interessa se o que tu me contas é verdade.

Quero saber se tu correrias o risco de desapontar alguém para seres verdadeiro contigo mesmo.

Se aguentarias ser acusado de traição,sem atraiçoar a tua alma

Quero saber se tu consegues ver a beleza mesmo quando ela não é bela todos os dias.

Quero saber se aguentas ficar sozinho contigo mesmo e se amas verdadeiramente a tua própria companhia nos momentos de solidão.


Em fim... gostava de saber porque teimo em dialogar sozinha....

sábado, 3 de abril de 2010

Fada do Lar



Estás à espera de quê para te ires embora? Hã?... Não te disse já que não te queria aqui, que me estorvas? Vai! Empecilho... Travas-me a vida toda, tu.
E não chores! Pára com essa lamechice estúpida, que quando te vejo chorar só tenho vontade de te bater. Já sei... sou uma besta, não mereço o ar que respiro, não consegues conceber como alguém pode ser tão cruel... ok, poupa-me à lengalenga. Sabes, pouco me importa aquilo que concebes ou deixas de conceber. Fartei-me dos teus olhos de cão pedinte, da tua figura paquidérmica a virar os dias à espera mais amendoins para tocar a sineta. Da tua apatia, do teu conformismo, da tua pacificidade, dos dias sempre iguais, das tuas falhas, das tuas perguntas, das tuas promessas de que vais mudar e, agora sim, tudo será diferente, tudo será como eu quero. Nunca tiveste nem terás capacidade para me bater com a porta na cara, de me dizer 'ó meu filho da puta, com quem pensas tu que falas?'. O teu servilismo incomoda-me, o teu amor incomoda-me. Não quero um amor assim, preciso... sim, agora vejo isso... durante todos estes anos precisei de quem me pusesse na linha e tu nunca tiveste estofo para isso.
Cresce. Já és mulherzinha, caso não tenhas reparado. Não vives mais debaixo das saias da tua mãe e a vida não é um chá de bonecas.
O que têm as outras que tu não tens? Não é o que elas têm, é o que eu não tenho por ti: tesão. Já não tenho vontade de te morder quando sinto o teu cheiro e a tua pele perdeu a firmeza, já não há luas cheias nela, nem me transformo mais num animal uivando a ela quando soltas o cabelo. Aliás, deixaste de o soltar, agora és uma anã, uma criaturazinha encolhida no canto do quarto com medo, em vez de te agigantares para mim e de me rasgares a garganta com os teus dentes. Estive anos à espera que me rasgasses a garganta com os dentes e as costas com as unhas. Estive anos à espera da minha fada do lar, da minha musa, do meu carrasco, julguei realmente que, com um pouco de crueldade, tu mudasses, porque eu sei que tu só aprendes assim, a mal. Tens falta de pai, é o que eu te digo. Ele não te soube educar para seres senhora de ti e não teres que ouvir merda de tipos como eu. Ele, minha querida, tirou-te o escudo e a espada e lançou-te às feras.
Ainda aí estás? Credo, não aprendes, mulher!.. Podem lançar-te esterco à cara, dizer que têm nojo de ti, deixar-te sozinha por dias que não atinges. Pensas que te engano? Deixa-me rir... Julgas que isto é amor disfarçado de raiva, que no fundo não posso viver sem ti e que mais dia menos dia te telefono a perguntar por onde andas, se queres beber um café. Coitada, tenho pena de ti. Isso não vai acontecer. Não me vou esquecer de ti, já o fiz há anos.
Agora vai. És um empecilho, uma pedra no meu sapato. Não quero olhar mais para a tua cara. Fazes-me perder a fome, tu, com o teu ar de rafeira a mendigar migalhas de afecto.
E não julgues que não sei que estás aí, nas escadas, atrás da porta da rua, a chorar e a pedir para voltares.
Eu sei que estás...
Eu sei que estás...
Consigo ouvir as tuas lágrimas a bater no chão e a despedaçarem-se.
Consigo ouvir-te...
Eu sei que estás aí...

Clara?... Estás aí?...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Rei de Espadas (parte II de II)


Miranda Sex Garden - Are You The One

‘R_U_D_1’ tinha um estilo muito próprio a escrever. Era como ácido, primeiro fervilhava sob a superfície das nossas mentes, depois, lentamente, corroía-nos por dentro. Há 3 semanas atrás escreveu um texto bem curto chamado ‘E se eu fosse tua?’, rezava assim:


Se eu fosse tua pele,
Afagavas-me lentamente
Até estares todo arrepiado?

Se eu fosse tua fome
Deixavas-me avançar pela noite adentro
Até mirrares como uma flor na geada?

Se eu fosse o ar que respiras
Conspucar-me-ias de veneno
Até sucumbires de asfixia?

Seu eu fosse tua filha
Deixavas-me nas mãos de quem me violenta
Até descobrires que é a ti que ele quer?

Se eu fosse quem tu pensas, quem tu sabes
Se eu fosse tua, voltavas a ser meu
Como nunca fomos, um do outro…






‘King#§pades’ contemplava nervoso enquanto relia a sua última actualização de ‘Lovers in Gehenna’:

- Agora que olho nos teus olhos, directamente, sem pudor, medo ou respeito, posso dizer-te tudo o que penso e sempre pensei de ti: és uma besta… e eu quero-te! –




- O que é que estás a fazer, amor? –

Era ela, só podia ser ela. Ele sentia o peso no ar, a desconfiança latente, o sorrido doce e venenoso de quem vai saber a história toda, de uma maneira ou de outra. Mas será que ela já sabia ou apenas o está a testar? Tudo é um teste, sempre dizem e é bem verdade. Estava a ser testado, depois de hoje ter posto alguém a teste, melhor dizendo, em cheque…


Esta tarde finalmente se encontraram, cara a cara, frente a frente, homem a homem. Em território neutro, como convinha.

Quarto 209 do Hollyday Inn. ‘King#§pades’ nem queria acreditar, estava demasiado ansioso e excitado, era algo que já perseguia há meses, tinha que perceber quem era afinal, tinha que ver com os seus próprios olhos se a sua fantasia sobrevivia ao confronto humano, desprovido de interface gráfico, olhos nos olhos, homem a homem.

‘B_minE’ era uns bons 15 anos mais velho, experiente, experimentado, explorado, explosivo… Toda a sua vida tinha sido construída à volta de ilusões, mentiras, redes de enganos e de jogos duplos. De ‘B_minE’ quase nada se sabia, era elusivo, mas por vezes deixava pistas nos seus textos, de onde transparecia a sua ambiguidade sexual, um passado de múltiplos parceiros de várias naturezas, havia até quem dissesse que o grande esqueleto no seu armário não era a sua bissexualidade mas sim um amor intenso e profundo que tivera por uma mulher mais velha, quando ainda era jovem, de corpo, alma e coração. Mas um dia ela desapareceu, abandonou-o. Diz-se que ele nunca mais voltou a amar ou sequer a confiar, nem nas mulheres nem em ninguém.
Diz-se também que ele só voltou a saber notícias dela 20 anos mais tarde, através de um amigo em comum de outros tempos. Ao que parecia, ela tinha morrido de cancro há quase uma década, deixando apenas um deprimente e espartano casebre nos arredores de Évora, alugado, uma colecção de bonecas de porcelana chinesas, velhas e sujas de pó e teias de aranha e uma polaróide já descolorada dela com uma menina de 5 ou 6 anos ao colo. Nas costas da foto estava escrito a lápis “Valverde, 1994. Auri e Luna”. Pelo que se percebia, a menina deveria ter tido um daqueles infortunados episódios de acidentes infantis com objectos lacerantes, pois tinha uma visível cicatriz na face esquerda.



Esta tarde, quando finalmente se encontraram, a ideia era só falarem, verem-se em carne e osso, eles que tantos posts já tinham trocado entre si. ‘King#§pades’ queria mais. Queria que ‘B_minE’ o ajudasse a descobrir quem ele próprio era. ‘B_minE’ sabia que era da maior imprudência deixar que isto acontecesse, mas não resistiu, mesmo sabendo o perigo que é acreditar na bondade de estranhos.

Pouco o excitava nestes dias, notava-se pelo desleixo com que escrevia, deixara de ser um provocador bardo do conto erótico para se transmutar aos poucos num escriba desinspirado de pornografia rasca e sem sentido. Nem os avisos de ‘LaDyoFtHeLakE’ tomou em consideração. Ela era o fiel da balança, sempre que aquele blogue perdia qualidade ou descambava em rixas virtuais e insultos violentos a ‘B_minE’, ‘LaDyoFtHeLaKe’ intervinha, com o seu divino sentido de humor e de oportunidade, mantinha a corja na ordem era mestra na arte de brandir o chicote e de com esse gesto carregar de delírio e prazer os seus súbditos. Ela era de todas a mais madura, não tinha a acidez de ‘R_U_D_1?’ nem a provocação violenta de ‘B_minE’, mas tinha algo que nenhum dos dois tinha. O poder do êxtase colectivo. Os seus textos eram conhecidos por gerar dezenas de admiradores e de serem partilhados (roubados, copiados, plagiados…) por outras tantas dezenas de blogues menores. Ela era a Hierofante, certamente teria um apelido estrangeiro que combinava com os laivos de sangue azul que transpareciam na sua escrita. Era sábia, conhecedora dos pecados do Homem e sua principal instigadora.

No entanto, ‘B_minE’ preferiu ignorar toda essa sabedoria e optar pela fronteira com o desconhecido.



Nessa tarde, quando finalmente se encontraram, ‘King#§pades’ estava demasiado ansioso e sentia-se a tremer, os joelhos a ceder, a boca a secar e as palavras a amalgamarem-se no seu neo-córtex. Os seus gestos saiam bruscos e descoordenados à medida que via alguém que só podia ser ‘B_minE’ a aproximar-se no corredor suava em bica e doía-lhe o estômago. O escorpião estava nervoso…

Nessa tarde, quando finalmente se cumprimentaram com um tenso aperto de mão, ‘King#§pades’ deixou cair o seu telemóvel. ‘B_minE’ apanhou-o, calmamente debruçando-se sobre o chão do corredor, em frente ao quarto 209 do hotel Hollyday Inn. Quando apanhou o telemóvel, ‘B_minE’ olhou inadvertidamente para o visor e reparou na foto do casal. Ele à esquerda no ecran, de óculos escuros, a olhar em frente e barba por fazer. Ela virada para o beijar, expondo a sua face esquerda, onde era perfeitamente visível uma cicatriz de lhe cobria quase toda a bochecha ao alto. ‘B_minE’ estancou de súbito, congelou. Ergueu a cabeça e, com a voz trémula, perguntou:

- Quem é esta mulher que está contigo? –
- É a Laura, a minha … bem, entendes… namorada, vamos. –
- De onde a conheces? –
- Sei lá… mas o que é que isso interessa, estou aqui por ti, não quero saber dela agora… então, mas o que se passa? –
- Ela sabe que estás aqui? Ela sabe quem eu sou? Responde-me filho da puta!! –
- Eh, calma pá, o que se passa?!? Parece que és pai dela, porra qual é a tua agora, julguei que era a mim que querias! –
- Animal estúpido, não sabes nada meu idiota de merda! Cala-te e desaparece, vá sai da minha vista, DESAPARECE antes que te parta as trombas, sai daqui, SAI DAQUI! -


Em pânico e em total confusão, ‘King#§pades’ desata a correr, voa pelo corredor e desce os lances de escadas quase sem tocar no solo. Tudo tinha corrido mal, ao contrário do que esperava, mas sem perceber bem porque, tinha conseguido o seu objectivo, o seu coração acelerava como há muito não fazia, sentia-se vivo!
Corre coelho, corre para a toca, que o medo da morte não te apague o espanto e excitação que levas no rosto…


Enquanto ele corria, ‘B_minE’ usava o seu telemóvel para falar com Laura. LaUrA. Falaram durante 21 minutos. Falaram o suficiente para ‘B_minE’ saber que ela era a ‘tal’, aquela que ele procurava desde que vira a foto, que estivera este tempo todo ao seu lado, a escrever no seu blogue.

Are you the one?
Yes, she was the one.

Antes de desligar, minutos antes, ‘B_minE’ disse-lhe o seu verdadeiro nome e contou-lhe como conhecera sua mãe e como lhe doeu a separação. Após desligar, minutos depois, ‘B_minE’ era um homem morto. Ainda respirava, o suficiente para se manter de pé por umas horas. Eram quase duas quando estacionou o seu carro no meio da ponte 25 de Abril. Passava das três quando respirou pela última vez, o derradeiro fôlego antes do mergulho sobre as águas negras do Tejo.
...


Na manhã seguinte LaUrA não acordou mais. Em vez dela, ergueu-se Luna, agora órfã, agora liberta, agora independente para seguir o seu destino. Luna era livre, pois LaUrA já não a mantinha cativa e ‘R_U_D_1?’ tinha-se juntado a ‘B_minE’ no mesmo salto para as trevas. Luna já não tinha passado, só futuro.
Faltava porém uma pequena nódoa por limpar, um joguete por eliminar, um Rei de Espadas que ela usou para o seu bluff final e que já não tinha qualquer uso.


Espantoso o que se aprende e memoriza quando se vive com alguém uns tempos. Todos os dias, ao pequeno-almoço, ela comia uma torrada e um sumo de laranja e ele uma tigela de leite com cereais, leite que ela aquecia no fervedor, pois ele adorava leite do dia e detestava micro-ondas, uma mania qualquer que ela nem queria perceber, estava-se nas tintas. Ela acabava sempre primeiro e despachava-se para ele ter tempo de ir tomar duche antes de ir para o trabalho.


Nessa manhã, Luna estava recordada da sua infância no Alentejo, em Valverde, perto de Évora. Junto à ribeira cresciam lindos os Loendros, com as suas flores magníficas, de rosa real, que brotavam nos dias quentes do Verão. Dizia-se que o Loendro era uma planta traiçoeira, pois a flor venenosa era a melhor amiga das viúvas, antes destas o serem. Tornavam-se viúvas graças à flor, pois assim se livravam dos maridos bêbados que as espancavam e violentavam sem remorsos. Duas a três flores de Loendro, deixadas a ferver com o leite, era o suficiente para o canalha ir parar à morgue sem traços do que lhe sucedera. Seria mais um caso de ‘paragem cardio-respiratória’, que em linguagem de médico legista significa simplesmente ‘morte inexplicada/natural’, sem demais delongas.


Nessa manhã, tomaram o pequeno-almoço juntos, mas ela teve que sair a correr, já estava atrasada. Fez barulho a descer as escadas e cumprimentou sonoramente os vizinhos do andar de baixo. Uma hora depois já ele tinha tomado os seus cereais, estava ela longe dali, já instalada e à frente de todos, no seu posto de trabalho.


A meio a tarde teve que voltar para casa mais cedo, pois recebera dois telefonemas, um do colega de trabalho dele a perguntar se ela sabia onde ele estava e outro dos vizinhos do 2º esquerdo a avisarem que o chuveiro deveria ter ficado aberto sem querer, pois já estava a pingar água do tecto deles, que ficava por baixo do seu apartamento…




Ele abre os olhos e define o contorno das nuvens lentamente, volta a fecha-los como se a eternidade tivesse sincronizada com um tic-tac trémulo. Os cabelos longos e sedosos dela, roçavam-lhe na face enrugada e empedernida. Um riso quase infantil, e a respiração ressonante sentida de peito para peito quase sem recurso a audição. Um loop quase, que um mantra, abafado por um crescente olho de furacão, mais veloz que a luz, como os que corta os sonhos a meio e quase termina num ataque de asma, meio suado, meio gritado. Nada, apenas as ondas a morrerem a seus pés, alguns cães a correrem no relvado atrás de si, crianças a rirem e pontapés numa bola. Um suspiro...
um crescente olho de furacão, mais veloz que a luz, como os que corta os sonhos a meio e quase termina num ataque de asma, meio suado, meio gritado. Um loop quase, que um mantra, surge com uma respiração ressonante sentida de peito para peito quase sem recurso a audição. Um riso quase infantil. Os cabelos longos e sedosos dela, roçavam-lhe na face enrugada e empedernida. Ele abre os olhos e define o contorno das nuvens lentamente, volta a fecha-los como se a eternidade tivesse sincronizada com um tic-tac trémulo que se vai desvanecendo lentamente.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Rei de Espadas (parte I de II)

NOTA: O seguinte texto, dividido em duas partes, surgiu da resposta a um desafio colocado no extinto grupo 'Desafio 500'. O enredo era o seguinte:

Um tipo é co-autor dum blog erótico. É perseguido, insultado de maricas, travesti, e outras coisas absolutamente horríveis. Toma uma decisão. Não por causa das perseguições na net, mas sim pelos problemas pessoais que não sabemos quais são. Suicida-se.
Na madrugada de 24 de Maio, mais ou menos pelas 3 da manhã, atira-se da ponte 25 de Abril. Na manhã seguinte, o tipo que o perseguia na net morre, de repente.
Agora o Desafio está do seu lado. Pode contar-nos o que se passou?



Amber Asylum - Black Phoebe



Rei de Espadas (parte I)


“Agora que olho nos teus olhos, directamente, sem pudor, medo ou respeito, posso dizer-te tudo o que penso e sempre pensei de ti: és uma besta… e eu quero-te!”


‘B_minE’ olhava para o monitor do seu portátil, mas doía-lhe (ou talvez não quisesse aceitar) o que estava a ler…

Já estava habituado a tudo nas respostas que os seus seguidores lhe deixavam nos seus posts. ‘B_minE’ era conhecido na blogosfera por moderar o blog mais ‘quente’ do momento, era um autêntico bordel da palavra, onde santos e pecadores, anjos e demónios participavam numa esplêndida orgia virtual, uns com(iam) os outros, mas sempre sob a forma de textos incrivelmente criativos, arrojados e belos. O erotismo é beleza, a pornografia êxtase e a escrita…bem, a escrita pode ser vista como a mais subtil e dedicada forma de masturbação mental e emocional.

Mas algures há um limite, a ténue fronteira nebulosa da qual não existe retorno, o acumular da infindável pressão, o ser esmagado pela sua própria memória, a destruição do eu, a alma que se afoga no mar da sua própria sede, o fascínio pelo abismo… ‘B_minE’ estava lá, para além do limite, escolhera ele próprio a palha que quebra as costas do camelo e agora o animal vergava-se sobre ele próprio, contemplava o salto para a imortalidade…


Tudo começou quando descobriu quem ela era e tudo culminou quando aceitou ser cúmplice da sua própria auto-destruição…

(…)

- Agora que olho nos teus olhos, directamente, sem pudor, medo ou respeito, posso dizer-te tudo o que penso e sempre pensei de ti: és uma besta… e eu quero-te! -

- O que é que estás a fazer, amor? –

‘LaUrA’ era uma hardcore fan que um dia me descobriu e me seguiu até ao café onde vou amiúde tomar o meu chá das cinco, que não dispenso, sempre acompanhados de uns deliciosos scones. Ao princípio foi um choque, mas assim que anuí a falar com ela descobri que ela era a peça que faltava, a minha musa, a minha ‘Mad_@Lena’.

- Anda para a cama, é tarde, já é tão tarde, quase duas… e sinto-me sozinha nestes lençóis, vem aquecer-me –

‘LaUrA’. 21 anos, ruiva, linda de morrer, ‘petite’, ancas torneadas, olhos azul cobalto, pezinhos minúsculos e perfeitinhos, dedinho a dedinho, tudo tão ‘inho’!

‘LaUrA’. 21 Anos de demência, desequilíbrio, drogas, sexo com estranhos, sobrevivente.

‘LaUra’. LUa e aUra. Pecado aos pedaços, entre beijos e abraços, recebe-me com violentos sobressaltos e deixava-me entrar na sua mente. Jogávamos os dois ao gato e ao rato, como crianças ébrias pela Primavera, descalças a correr no meio da erva, a aceitar doces de desconhecidos.

‘LaUrA’ é um poema nu, presa a si mesma, pois não sabe que é livre.

‘LaUrA’ está obcecada por mim, mas hoje, como quase todos os dias desde há 3 meses atrás, a minha obsessão não é ela, mas ele. ‘B_minE’. Ela não sabe que hoje estou exausto, sem fôlego, sem cabeça para a aturar, muito menos para a amar, na cama onde ela me espera. Hoje brinquei com fogo e queimei-me. Mas adorei cada momento…

- Anda amor, não te demores, larga lá o portátil e não te ponhas especado a olhar pela janela, a ponte não foge… -


‘B_minE’. 47 anos. Pelo menos era o que constava no perfil. Há quase meio ano que este espectro assombrava a blogosfera com fantasias eróticas que nem os mais libertinos ousavam sonhar. Tudo mentiras e fantasias, isso mesmo, fantasias, dizia-se. Escândalos. De um drogado, ele devia ser um ‘tweaker’, viciado em ‘meta’ e pornografia obscura, só podia, senão de onde vinham aqueles textos (que tanto excitavam as senhoras de bem e confundiam os playboizinhos de segunda categoria)? .

Ele e ‘LaDyoFtHeLakE’ eram os algozes da nossa vergonha, chacinavam preconceitos e pudores, destroçavam corações digitais e deixavam um rasto de destruição, saliva, suor e sémen por entre os esqueletos que os leitores ávidos tiravam dos seus armários e jogavam para a pilha, agora em chamas de caos e orgasmos recalcados.

Se ‘LaDyoFtHeLakE’ era ‘Guinevere on acid and Lilith’s milk’ (assim aparecia no seu perfil), ‘B_minE’ era ‘O filho perdido de Florbela Espanca-me e Oscar Wild’.


Havia ainda um terceiro elemento, que nenhum deles conhecia pessoalmente, mas que, imprudentemente, a autorizaram como participante no seu blog. Nome de código: 'R_U_D_1?' (lia-se 'are you the one?')


Ah, querem saber o nome do blog? ‘Lovers in Gehenna’… Este era o Inferno da nossa obsessão colectiva, onde a santíssima Trindade nos abria as portas para nós mesmos entrarmos onde nunca antes sequer ousámos pensar. Mas ‘B_minE’ era obcecado por tudo isso e ainda mais uma pequena coisa… sonhava com a fantasia final, a derradeira loucura, a imprudência maior dos homens que querem ir até ao fim da linha…



Um dia antes do dia, ‘B_minE’ não resistiu. Finalmente cedeu aos pedidos insistentes de ‘King#§pades’ e encontraram-se. Mas o golpe final foi quando ‘B_minE’ descobriu que mais que o anseio secreto da homo-eroticidade latente deste convite venenoso, havia algo que ele nunca iria conseguir aceitar, a porta para a insanidade.

‘King#§pades’ era o escorpião negro que o iria levar a vergar-se sobre si mesmo e no seu derradeiro fôlego, mergulhar para o abismo as Tágides…
(continua)

Impossibilidades

É onde a cabeça de uma sweet little sixteen cai, frequentemente. Rola, desespero abaixo e, pum, estilhaça-se no vazio. Foge, acelerada, do...