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A mostrar mensagens de Maio, 2010

Contemplação

No céu escuro havia no ar somente uma bola enorme, dourada, que estava em permanente movimento, mostrando toda sua impressionante beleza e força. Impossível descrever em palavras, pois não se tratava somente de algo majestoso, mas sentia claramente que dela saia uma energia poderosa, incrível. Sabia intuitivamente que tudo o que existia saia de lá, era uma Fonte da vida.
Sentia-me em estado de graça; estava numa posição privilegiada, era uma observadora atenta de cada detalhe desta esfera que realizava movimentos deslumbrantes em sua superfície, exibindo tons e nuances nunca antes vistos, que me deixavam boquiaberta.

A contemplação de tamanha maravilha saciava me o espírito, dava-me alento e passava me somente serenidade, paz e harmonia.
Quando, de repente, começou algo que não podia esperar; da bola saiu um pequeno ponto de luz, que deixava um rasto nítido atrás de si; vinha aproximava se pelo meu lado esquerdo. Era uma criança de poucos anos, que ao passar por mim abriu um lindo sorris…

Close up

O meu verso sentou-se, cansado, estiraçou as pernas, enrolou-se meio adormecido e olhou o relógio de mocho suspenso na parede em frente.

Esquisito aquele relógio com dois ponteiros - só de horas- um em cada olho. Ambos marcavam 3 horas, só que no olho da direita era sempre de noite e no olho da esquerda era sempre de dia (ou ao contrário, ele nunca tinha a certeza).

Ao meu verso apeteceu-lhe bolinhos (é um pouco louco e desorganizado o meu verso), um banho de abacate com perfume de violetas e cobriu-se depois, todo nu, com um roupão turco e macio cor de vinho forte.

Reclinado, projectou na parede do lado um slide onde se via muito vento (disse ele, vento).

Que chatice de vida, pensou. Se todas as mulheres se apaixonassem por mim, deixaria de haver complicações, angústias, amarguras, ciúmes ou remorsos. Tudo estaria certo e a vida correria feliz.

Mas não era nada disto que acontecia, disse ele subitamente alto, enquanto dava um pontapé num dos bolinhos.

Um pouco enjoado com os bolinhos (que …

As lentes da cor

Ao fundo do corredor vive uma janela. Antes do nascer do sol, ele já está encostado à parede que fica no sentido oposto à janela, e aí espera pela luz. Quando a lente escolhida é verde, ele tem vontade de correr.

Correr por aquele prado fechado em direcção ao sol que brilha e ilumina toda aquela via, e que por isso mesmo ofusca os olhos de quem vive na noite.
Quando a lente escolhida é azul, ele tem vontade de nadar.

Nadar por aquele rio fechado em direcção ao sol que brilha e ilumina toda aquela via, e que por isso mesmo…
Quando a lente escolhida é amarela, ele tem vontade de voar.

Voar por aquele céu fechado em direcção ao sol que brilha e ilumina toda aquela…
Quando a lente escolhida é branca, ele tem vontade de saltar.

Saltar por aquelas nuvens fechadas em direcção ao sol que…
Quando a lente escolhida é vermelha, ele tem vontade de rastejar.

Rastejar por aqueles cadáveres fechados em direcção…
Quando a lente escolhida é negra, ele perde a vontade e fica na cama que conhece a sua cegueira de…

Mancha Negra

É como se uma rédea pudesse travar o raciocínio lógico. E este relinchasse prolongadamente, reverberante, em intervalos regulares.
Como se um chicote ameaçador te castigasse os neurónios.
É como se um torno invisível te apertasse o crânio.
Como se os pulmões fossem mungidos por uma maquina industrial como tetas de vaca.
É a garganta seca como cortiça e apertada por uma entidade alíen que não vês mas pressentes. É o hálito insuportável e os testículos reduzidos a ervilhas. Os pés como tijolos, e as mãos como balões. É como ter vontade de vomitar durante 24 horas, 24 minutos, 24 segundos, 24 centésimos, 24 décimos e 24 milésimos por dia.

E é assim à 40 anos. Diga-me sr. doutor, estarei a morrer.

Não era só um vestido...

Como em tantas outras vezes em que arrumei o meu roupeiro,reparei com algumas peças que não usava a muito , mas que também não tinha coragem de me desfazer delas. Poucas peças... mas o suficiente para ocuparem o lugar de outras que poderiam estar sendo usadas...
Peguei num vestido que adorava e que nem me serve mais... e pensei no motivo de estar tão ligada a ele... por que tantas vezes tentei retira lo e tornava a guardar na esperança de um dia voltar a usar... como se fosse parte de mim.
... no dia seguinte, de manhã, quando de novo o vi e já ia guardar para mais uma temporada no armário, sem uso...caiu inesperadamente um sentimento em mim...
Entendi que o guardava porque, de alguma forma, não acreditava que poderia encontrar outra roupa que me caísse tão bem como aquela... em que me sentisse tão bem como me sentia com ele... outra roupa... outra situação... e senti solidão...

Talvez não haja no universo sentimento mais profundo do que este: solidão interior. Aquela solidão da alma. A c…

Taquicardia

Corre olá! Vai de encontro ao tudo bem e diz-lhe que gostei muito de o ver hoje. Podes também dizer o bom dia e esperar que ele responda o igualmente.Corre cá vamos! Vai de encontro ao é a vida e diz-lhe que amanhã a morte pode vir. Podes também dizer o ele era tão boa pessoa e esperar que ele responda o coitadinho.Corre está de chuva! Vai de encontro ao já não é tempo dela e diz-lhe que o mundo perdeu o sol. Podes também dizer o já chega de tanta água e esperar que ele responda o isto está mau. Corre adeus! Vai de encontro ao beijo soprado e diz-lhe o até sempre. Podes também dizer o vou ter saudades tuas e esperar que ele responda o eu conheço-o de algum lado? Corre amo-te! Vai de encontro ao eu também e diz-lhe que o olá, o cá vamos, o está de chuva, e o adeus, nada valem. Podes também dizer-lhe que o mundo é pequeno e esperar que ele responda o a vida ainda mais.Corre! Vai de encontro! E diz-lhe! Podes também dizer! E esperar que ele responda! Pára! É aqui!

Contradição

Tomem este exemplo, por favor
dissequem-no como Galeno fazia aos cadáveres proibidos
e a demais ditadores não deis ouvidos
pois a palavra é a flecha venenosa
que mata o coração de forma vergonhosa

E se outro vos contar da Desditosa
não lhe tomais atenção, são calúnias
recusai desses abutres as suas pecúnias
ignorai as penas negras da ave agoirenta
que ferem olhos sãos qual negra pimenta

E da voz d’Ela não tomeis conta
são ruídos de animal tomado pela luxúria
não vos deixai levar em tal incúria
e se demais escutardes da Desditosa
preparai vosso coração para morte vergonhosa

Sua pele é ácida como limão
ferrugem e poalha em suas veias
tranças de palha feitas correias
amarram o amante da Venenosa
que lambe a sua pele preciosa

Os meus olhos fechei, perdi a coragem
a meu corpo permiti tal desventura
a violência atroz de sua candura
a luz que cega de forma danosa
deixei-me levar qual mariposa

No limbo todo o Homem perde horizonte
do medo que antes o deixava alerta
do horror iminente da mort…

Então adeus

Então adeus, a gente vê-se por aí. Foi assim que se despediram, depois de dias de conversa amena em viagens no mesmo comboio. Ele, extrovertido, conversador, olhos escuros e indolentes. Ela, introvertida, arisca, olhos claros e tristes de quem fixa longamente o horizonte, vivera temporariamente naquela aldeia, por razões só dela conhecidas. Mas chegara a hora de partir.

Ouve-se o som duma música ao longe, acompanhando as palavras profundas, inéditas, pairando no ar seco e húmido da solidão .O dia tinha o perfume do fim do Verão, o primeiro cheiro da chuva, das ervas, das árvores, das folhas, misturando-se com o odor das algas na areia da praia deserta e no ciclo das marés. Até chovia um pouco.

(......)

Os dois bombeiros eram muito jovens, tal como os dois agentes da PSP. Jovens, correctos, impecáveis. - Quanto é? - Não é nada, os nossos serviços são gratuitos. Fiquei boquiaberta. Não resisti e ofereci-lhes duas garrafas de sumo de maracujá concentrado, F. Faria e Filhos (falta-me a tecla…

Quando as Coisas do Espírito Falam ao Coração

Há coisas que as palavras não dizem.
Há sentimentos que voam na noite, como setas de fogo...
De coração a coração, iluminando os céus.
De espírito a espírito, por entre os planos da vida e além da mente.

Há coisas que os sentidos não percebem.
Algumas delas, muito boas. Outras, nem tanto.
As boas iluminam a consciência e abrem caminhos...
As outras tapam o discernimento e escurecem o coração.

Há coisas que os homens fazem a si mesmos, sem noção do perigo.
Como deixar o próprio espírito entorpecido e o coração seco.
Como viajar pela vida sem pensar e sem sentir, perdido em suas dores.
Como "viver sem viver", automaticamente, no vazio.

Há coisas que ninguém diz, mas todos sentem, de alguma maneira.
Faixas escuras que apertam o coração angustiado.
Pensamentos intrusos que invadem a mente.
E energias estranhas que chegam, sorrateiramente, e roubam o bom humor.

Há coisas obscuras rondando e muitos sofrem com isso.
No entanto, há aqueles que vêem e sentem o invisível directamente.
E se escoram na L…

Ausente

Rezo por mim própria, pois sei que não o posso esconder por muito mais. Escondo a minha cara envergonhada e transvazo de angústia e pesar. Não há mais nada a negar nem a defender. A desolação esfumou a esperança que se entretinha a assomar por entre as caras dos fantasmas dos meus medos. Agora quem me vai segurar? Não há nada que eu possa fazer que não o tenha já feito, nada que eu possa ver, apenas presenciar enquanto tudo se desmorona. Ninguém para me dizer o que fazer, isto não tem um fim se eu não compreender que não posso retornar a fazê-lo. Não há palavras que me saiam, não há uma verdade que eu consiga ver. Resta-me deixar isto acabar, sabendo em consciência que não posso refazer o que foi desfeito. Sabendo que não há reinicio. Sabendo que não há nada à minha espera do outro lado.
(...)
Mas o que estou a dizer? Ah, que estupidez, que vontade de rir!... Terminar? Coitada, como se fosses capaz! Ri, sorri, cura. Caminha comigo e canta-me ao ouvido. Sou invisível e não posso desapar…

Degraus de madeira

Na manhã em que ele caiu pelas escadas, recebeu um forte aplauso de todos aqueles que acham que a queda só traz tristeza. A queda… e um novo acordar. A queda… e uma nova subida.

Na tarde em que ele pôs o pé esquerdo no primeiro degrau, ainda lhe doía o direito mas, mesmo assim lembrou-se da cara de todos aqueles que batem palma com palma ao mesmo tempo que acham que a queda só guarda mágoa. Recordou-se ainda de como é bom sentir a planta do pé a empurrar a planta que forra o degrau.

Na noite em que ele pôs o pé direito no segundo degrau, o pé esquerdo já morria de ansiedade para poder abusar da força da perna direita e redescobrir o terceiro. Suave toque, forte peso, grande vontade e “vamos a mais um degrau? ”

Na manhã em que ele caiu, ele sabia que cair só ia ser triste enquanto a queda durasse, porque à tarde já ia estar a iniciar a subida, e à noite já se ia lembrar sem grande esforço, como pôr um pé à frente do outro, acima do outro.

Já lá em cima, olhou para baixo, viu todos aqueles …

Pobre Edward O. (Parte III de III)

Parte III: A Cidade Esfomeada
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Cena 1. Onde estás Edward O.?
Dia após dia após dia. Edward O. acordava cansado de vazio, podia confirmá-lo sempre que olhava ao espelho. Nada olhava de volta, a não ser um profundo e negro buraco, onde um dia esteve sua alma. Não havia surpresas, excitação ou alegria. Edward O. era um escravo da rotina, retido dentro de si mesmo, esquecido do ser que um dia nasceu de sua mãe, esquecido pelo mundo, perdido dentro de pesados maços de livros e processos. 
Onde estás tu, Edward, onde te escondeste? Ainda te posso ver ai, por de trás esse baço olhar, escondido pelos milhares de anos que te pesam nesses ombros descaídos, com as palavras presas nos lábios hirtos de pesar, agarrado a nada, esse nada que te enche o peito e te sufoca, dia após dia após dia.

Cena 2. A mancha de tinta
“Rapaz, tens aqui as facturas e os balancetes do primeiro trimestre. Confirma tudo, eu vou ali receber uma sobrinha que veio de fora, não quero ser interrompido, compreend…

Pobre Edward O. (Parte II de III)

Parte II: O Anjo Negro



Cena 1: Crepúsculo

A tarde ia avançada e Helios beijava a linha do horizonte pela última vez, era chegada a hora de Silene se erguer sob os mortais que dentro de algumas horas se iriam recolher nos braços de Morfeu. Mas Hades espreitava, ansioso e faminto… A hora da ilusão descia sobre nós…


Cena 2: (Não-)existência

O caminho é rigorosamente sempre o mesmo: das traseiras para a ruela, da ruela para a avenida, da avenida para o beco. Mão no bolso. Chave à porta. Átrio, escadas, nova porta. Nova chave. Casa.

Despido o sobretudo e pousado o chapéu, encaminha-se para a bacia e lava as mãos e o rosto. Aquece um pouco de água para o chá e passa a manteiga no pouco de pão que ainda lhe resta da manhã. Sentado no cadeirão, lê mais alguns capítulos d’Os Irmãos Karamazov de Dostoievsky: "Com a força que sinto em mim, creio-me capaz de suportar todos os sofrimentos, contanto que me possa dizer a cada instante: "Eu existo". Entre tormentos, crispado pela tortura, …

Pobre Edward O. (Parte I de III)

Parte I: Edward O.

Edward O. 39 anos.
Vive sozinho num apartamento exíguo alugado na parte mais sombria da cidade. Conhece a senhoria, uma velha senhora que mimetiza a simpática avozinha que nos presenteia com histórias de tamanho infindável acerca de pessoas que ela conhecera e que já à muito são pasto para vermes, algures por entre mármore e ciprestes, haja paciência para a aturar…

Da sua janela vê um muro de alvenaria, antigo e decadente, como a sua alma. Edward O. tem uma vida discreta, da sua habitação para o escritório de contabilidade onde assenta meticulosamente as entradas e saídas de materiais e dinheiros da mais afamada sapataria da cidade. Edward O. regista tudo, meticulosamente, grava a azul metileno o papel amarelecido pelo tempo, velho e gasto, como a sua alma. Bem, quase tudo. Edward O. recusa-se a registar a entrada e saída de acompanhantes que satisfazem o vício do patrão. Não, estas despesas não são declaráveis para fins fiscais, oh não. Alem de que a mulher do patrão…

Bilhete de Autocarro

Sentada no banco do pendura, a cabeça apoiada para trás, a folhagem densa das árvores na beira da estrada corria-lhe um filme inteiro de reflexos na cara. O céu de Abril, azul azul, pontuado por nuvens a viajarem em sentido contrário. O silêncio. O barulho surdo do motor da carrinha e os pássaros. A paisagem de um verde demasiado intenso, desfocado, a passar-lhe pelos cantos dos olhos. Não estava ali. Há quanto tempo andavam? O homem não ia parar nunca?

Susana saiu de um semi-transe para deitar um olhar rápido ao condutor: o boné de pala, os óculos escuros, a camisa aberta para um peito seco e envelhecido de onde pende uma corrente grossa. E ela podia jurar que, no bícepe esquerdo, conseguiu descobrir-lhe uma aquelas tatuagens que se fazem na guerra ou na tropa, quando pararam para comer naquele tasco de camionistas à beira da estrada nacional. Ele passa a língua pelos lábios ásperos. Acende um cigarro com o travo dos mata-ratos de taberna e um meio sorriso suspenso, uma euforiazinha c…