segunda-feira, 31 de maio de 2010

Contemplação




No céu escuro havia no ar somente uma bola enorme, dourada, que estava em permanente movimento, mostrando toda sua impressionante beleza e força. Impossível descrever em palavras, pois não se tratava somente de algo majestoso, mas sentia claramente que dela saia uma energia poderosa, incrível. Sabia intuitivamente que tudo o que existia saia de lá, era uma Fonte da vida.
Sentia-me em estado de graça; estava numa posição privilegiada, era uma observadora atenta de cada detalhe desta esfera que realizava movimentos deslumbrantes em sua superfície, exibindo tons e nuances nunca antes vistos, que me deixavam boquiaberta.

A contemplação de tamanha maravilha saciava me o espírito, dava-me alento e passava me somente serenidade, paz e harmonia.
Quando, de repente, começou algo que não podia esperar; da bola saiu um pequeno ponto de luz, que deixava um rasto nítido atrás de si; vinha aproximava se pelo meu lado esquerdo. Era uma criança de poucos anos, que ao passar por mim abriu um lindo sorriso. Senti desconforto, pois reconheci nele algo intrigante: tratava-se de um ex colega com quem tinha deixado de falar. Mas não deu para pensar muito, visto que mais um ponto de luz estava vindo, dessa vez pelo meu lado direito... sempre uma criança, sorrindo: era uma conhecida que tinha sido muito injusta comigo...
e outros vieram, praticamente todos os que eu preferia nunca mais ver na minha frente. Foi quando a meditação ressoou com uma voz pastosa, amorosa, como a de um pai que conforta o filho pequeno que ficou assustado com algo que viu.

As palavras, repetiam, como se, se tratasse de um mantra: Somos Todos Um, Somos Todos Um, Somos Todos Um...
E aquela bola transformava se rapidamente, achatou-se, mudou de cor e na sua superfície apareceram linhas como que marcando os meridianos e paralelos de um mapa No entanto, aquilo continuava,aos meus olhos. Uma linha vertical preta, definitiva, dividia o hemisfério esquerdo do direito; a informação que recebia era que se tratava da linha do tempo. Do agora, do eterno agora. Tudo didáctico, até simples de se compreender.
Em seguida, "A Bola dourada", ou melhor, suas linhas de meridianos começaram a deslocar se da esquerda para a direita. Ao parar, depois de um movimento por vezes demorado e acompanhado com as cores do arco-íris, uma tela saía da linha preta e nela podia ver os pontos principais de uma vida passada. Sem erro.

Em instantes, a transformação inversa ocorreu e a majestosa bola dourada resplandeceu novamente...
Foi quando, em percurso inverso, envelhecidos, carecas ou de cabelos brancos, todos os que tinham passado por mim, sorrindo novamente a olhar me, seguindo aquele cordão de energia, de luz, começaram a retornar ao ponto de origem. Um por um mergulhavam, como pequenos cometas e a cada retorno algo belo acontecia: a esfera tornava se ainda mais bela, luminosa, brilhante. Incrível como algo tão belo pudesse ficar ainda mais bonito!
De repente, após a volta de todos os "desafectos", ocorreu algo muito intenso, inesperado. De simples observador, que boquiaberto e confortavelmente assistia sentado no sofá a um filme de ficção científica, surgiu mais um ponto de luz se deslocando, desta vez, em minha direcção.

Em poucos instantes, percebi que aquela criancinha era eu mesmo, aproximando se veloz mente com um amplo sorriso e de olhos cintilando, o rosto manifestando uma alegria incontida.
Assim ele/eu nos tornamos algo único, uma só vida, uma felicidade verdadeira, completa.

Demorei bastante para retornar à consciência desperta, não queria mesmo sair de lá... Aos poucos, na penumbra do quarto (por volta das sete da noite de um dia da semana), voltei a lembrar me quem era, pensei
impossível e distante demais para ser verdade, voltei a ser aquela criança curiosa, sem preconceitos, sem medo de nada que, com certeza absoluta, e de coração aberto, poderemos ir além, muito além. Nada como termos estas experiências directamente,e em primeira pessoa.

Lembro me que pedi perdão e todo passou a fazer sentido e a transformar para sempre cada momento da minha existência...sigo na contemplação...

domingo, 30 de maio de 2010

Close up




O meu verso sentou-se, cansado, estiraçou as pernas, enrolou-se meio adormecido e olhou o relógio de mocho suspenso na parede em frente.

Esquisito aquele relógio com dois ponteiros - só de horas- um em cada olho. Ambos marcavam 3 horas, só que no olho da direita era sempre de noite e no olho da esquerda era sempre de dia (ou ao contrário, ele nunca tinha a certeza).

Ao meu verso apeteceu-lhe bolinhos (é um pouco louco e desorganizado o meu verso), um banho de abacate com perfume de violetas e cobriu-se depois, todo nu, com um roupão turco e macio cor de vinho forte.

Reclinado, projectou na parede do lado um slide onde se via muito vento (disse ele, vento).

Que chatice de vida, pensou. Se todas as mulheres se apaixonassem por mim, deixaria de haver complicações, angústias, amarguras, ciúmes ou remorsos. Tudo estaria certo e a vida correria feliz.

Mas não era nada disto que acontecia, disse ele subitamente alto, enquanto dava um pontapé num dos bolinhos.

Um pouco enjoado com os bolinhos (que aliás odiava) - é completamente doido já vos disse - o meu verso levantou-se e resolveu ir-se embora na noite.

Quase 4 horas, pensei, olhando o relógio que, em desassossego, parara. 4 da manhã do dia ou da noite? Tanto faz, ele é tempo, espaço e movimento. Embora não entenda nada do assunto.

Olho para um dos cantos da sala e percebo ali um espelho.

Um espelho.

Vou até ele lentamente e vejo um vulto um pouco diferente.

Vejo-me enfim transformada em mim mesma.

Numa perspectiva inesperada.

As lentes da cor



Ao fundo do corredor vive uma janela. Antes do nascer do sol, ele já está encostado à parede que fica no sentido oposto à janela, e aí espera pela luz. Quando a lente escolhida é verde, ele tem vontade de correr.

Correr por aquele prado fechado em direcção ao sol que brilha e ilumina toda aquela via, e que por isso mesmo ofusca os olhos de quem vive na noite.
Quando a lente escolhida é azul, ele tem vontade de nadar.

Nadar por aquele rio fechado em direcção ao sol que brilha e ilumina toda aquela via, e que por isso mesmo…
Quando a lente escolhida é amarela, ele tem vontade de voar.

Voar por aquele céu fechado em direcção ao sol que brilha e ilumina toda aquela…
Quando a lente escolhida é branca, ele tem vontade de saltar.

Saltar por aquelas nuvens fechadas em direcção ao sol que…
Quando a lente escolhida é vermelha, ele tem vontade de rastejar.

Rastejar por aqueles cadáveres fechados em direcção…
Quando a lente escolhida é negra, ele perde a vontade e fica na cama que conhece a sua cegueira de nascença. Fica o resto do dia a ver mexer os dedos dos pés que pertenciam às suas pernas amputadas. Fica o resto do dia a limpar as lentes dos outros óculos com as mãos que pertenciam aos seus braços e que vivem no mesmo sítio das suas pernas.

Nesse dia ele tira folga para dormir por entre os lençóis fechados…

… que ofuscam os olhos de quem vive no dia.

(Hoje, se eu pudesse escolher, queria ter uns óculos sem lentes)

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Mancha Negra









É como se uma rédea pudesse travar o raciocínio lógico. E este relinchasse prolongadamente, reverberante, em intervalos regulares.
Como se um chicote ameaçador te castigasse os neurónios.
É como se um torno invisível te apertasse o crânio.
Como se os pulmões fossem mungidos por uma maquina industrial como tetas de vaca.
É a garganta seca como cortiça e apertada por uma entidade alíen que não vês mas pressentes. É o hálito insuportável e os testículos reduzidos a ervilhas. Os pés como tijolos, e as mãos como balões. É como ter vontade de vomitar durante 24 horas, 24 minutos, 24 segundos, 24 centésimos, 24 décimos e 24 milésimos por dia.

E é assim à 40 anos. Diga-me sr. doutor, estarei a morrer.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Não era só um vestido...



Como em tantas outras vezes em que arrumei o meu roupeiro,reparei com algumas peças que não usava a muito , mas que também não tinha coragem de me desfazer delas. Poucas peças... mas o suficiente para ocuparem o lugar de outras que poderiam estar sendo usadas...
Peguei num vestido que adorava e que nem me serve mais... e pensei no motivo de estar tão ligada a ele... por que tantas vezes tentei retira lo e tornava a guardar na esperança de um dia voltar a usar... como se fosse parte de mim.
... no dia seguinte, de manhã, quando de novo o vi e já ia guardar para mais uma temporada no armário, sem uso...caiu inesperadamente um sentimento em mim...
Entendi que o guardava porque, de alguma forma, não acreditava que poderia encontrar outra roupa que me caísse tão bem como aquela... em que me sentisse tão bem como me sentia com ele... outra roupa... outra situação... e senti solidão...

Talvez não haja no universo sentimento mais profundo do que este: solidão interior. Aquela solidão da alma. A constatação fria e inegável de que, não importa o quanto eu esteja cercada de coisas e pessoas, ou o quanto outras criaturas tenham contribuído com a minha caminhada, na minha consciência eu estou sempre só, comigo mesma. Enfim, sós... Eis que, em algum momento da minha existência, minha consciência força me à transformação, à total, profunda e sincera revisão de tudo em que vinha acreditando. Ela faz me olhar novamente para tudo o que fiz, construi e aprendi e, de forma implacável, coloca me frente à frente com tudo que sou, de verdade, e nem sequer imaginava.

Não há fuga possível, não há como ou onde esconder-me. É como se todas as máscaras caíssem ao mesmo tempo e eu fosse obrigada a olhar num espelho vivo e límpido, onde estão reflectidas todas as minhas verdadeiras emoções, ideias, necessidades e tropeços. Meus medos e as minhas carências.

E, ao me deparar com tanto da minha verdadeira essência que eu desconhecia e ignorava, é como se algo se rompesse dentro de mim e criasse um imenso vazio, que me engole e deixa sem chão e sem tecto, flutuando, em completa suspensão. É como se eu vagasse dentro de meu próprio vazio interior.

As referências momentaneamente confundem se, como se, o tempo todo, eu estivesse seguindo um mapa falso, para um tesouro que idealizei, mas nunca existiu.

As crenças parecem diluir-se, como se não passassem de bonecos de açúcar, que criei apenas para me adoçar a existência, enquanto estava ocupada demais sonhando acordada.

As certezas se transformam em dúvidas, como se tudo o que eu sabia não passasse de um enredo destinado apenas a justificar a mim mesma.

O que fazia sentido fica pálido e borrado, como se o meu universo fosse apenas o produto de uma imaginação muito fértil, ou a lembrança de um sonho muito vivido, ou uma alucinação.

E tudo o que tenho é apenas a mim mesma, em toda a minha realidade nua e crua. Nem mais, nem menos. Sou eu me despindo para mim mesma, como nunca havia feito antes...

E, então, vem a dor... A dor de perceber que, talvez, essa solidão seja apenas reflexo de uma escolha, uma postura, uma atitude equivocada. A dor de saber que quem se afastou fui eu mesma, num movimento de defesa infantil e inconsciente, numa fuga assustada por medo de sofrer, ou de perder, ou de ser esquecida. A dor de me dar conta de que, o tempo todo, fugi apenas de mim mesma e que os outros apenas respeitaram a minha fuga, deixando-me fugir.

E a dor, às vezes, é tanta e tão grande, que faltam forças para sair do lugar, falta energia para fase-la parar ou mesmo para olhar para ela. Ela dói no corpo e na alma, dói por dentro e por fora, dói pesado e profundo.

Não pretendo anestesia-la, não pretendo também ignora-la. Não desta vez. Quero experimenta-la até a última gota, se possível, se eu suportar. Quero abraça-la para que ela se transforme em luz, a luz que ainda não tive coragem de buscar para me orientar nos meus caminhos.

Não quero apenas passar por ela, mas passar com ela, caminhar com ela, com partilhar seus segredos, conhecer sua história. A minha história.

No entanto, eu e ela estamos no mundo. E, estando no mundo, caminhamos com outras pessoas. Pessoas que estão em outros momentos, pessoas que têm outras necessidades, pessoas que só conseguem ver em mim o que já conhecem, sem conseguir, nem de leve, suspeitar do que também sou, e elas não conhecem e não conseguem perceber e compreender. E nem mesmo eu conheço bem...

E não há como explicar. Não há como colocar em palavras essa solidão que dói em meio a tanta gente, essa solidão plena que me faz sentir única como nunca me senti, essa solidão que me afasta de tudo e de todos e, ao mesmo tempo, quer desesperadamente estar em meio a outros que possam, ao menos, acolhe la, exactamente como ela é.

Não há como decifrar, não há como abrir o peito e mostrar o que está acontecendo bem ali dentro, onde a dor decidiu se instalar. Não há como mostrar o coração que dói, ao lado daquele que bate, pois só eu o sinto. Só eu sinto o que ele sente...

E, na nossa dor, somos cúmplices um do outro, nessa solidão que é triste, mas não é tristeza. Essa solidão que assusta, mas não é medo. Essa solidão que machuca, mas não deixa ferida. Uma solidão que é mais que estar sozinho, pois é solidão da alma. Entendi que para mim... aquele vestido tinha a ver com algo muito bom que vivi no passado... e que de alguma forma, por memórias equivocadas, não acreditava que poderia viver no presente... e foi com surpresa e alegria que me vi a pegar nele e noutras peças e por fim dei porque já não precisava mais ...

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Taquicardia



Corre olá! Vai de encontro ao tudo bem e diz-lhe que gostei muito de o ver hoje. Podes também dizer o bom dia e esperar que ele responda o igualmente.

Corre cá vamos! Vai de encontro ao é a vida e diz-lhe que amanhã a morte pode vir. Podes também dizer o ele era tão boa pessoa e esperar que ele responda o coitadinho.

Corre está de chuva! Vai de encontro ao já não é tempo dela e diz-lhe que o mundo perdeu o sol. Podes também dizer o já chega de tanta água e esperar que ele responda o isto está mau.

Corre adeus! Vai de encontro ao beijo soprado e diz-lhe o até sempre. Podes também dizer o vou ter saudades tuas e esperar que ele responda o eu conheço-o de algum lado?

Corre amo-te! Vai de encontro ao eu também e diz-lhe que o olá, o cá vamos, o está de chuva, e o adeus, nada valem. Podes também dizer-lhe que o mundo é pequeno e esperar que ele responda o a vida ainda mais.

Corre! Vai de encontro! E diz-lhe! Podes também dizer! E esperar que ele responda!

Pára! É aqui!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Contradição




Tomem este exemplo, por favor
dissequem-no como Galeno fazia aos cadáveres proibidos
e a demais ditadores não deis ouvidos
pois a palavra é a flecha venenosa
que mata o coração de forma vergonhosa

E se outro vos contar da Desditosa
não lhe tomais atenção, são calúnias
recusai desses abutres as suas pecúnias
ignorai as penas negras da ave agoirenta
que ferem olhos sãos qual negra pimenta

E da voz d’Ela não tomeis conta
são ruídos de animal tomado pela luxúria
não vos deixai levar em tal incúria
e se demais escutardes da Desditosa
preparai vosso coração para morte vergonhosa

Sua pele é ácida como limão
ferrugem e poalha em suas veias
tranças de palha feitas correias
amarram o amante da Venenosa
que lambe a sua pele preciosa

Os meus olhos fechei, perdi a coragem
a meu corpo permiti tal desventura
a violência atroz de sua candura
a luz que cega de forma danosa
deixei-me levar qual mariposa

No limbo todo o Homem perde horizonte
do medo que antes o deixava alerta
do horror iminente da morte incerta
da estultícia do vício tornado banal
da pequena morte do delito carnal

E eu lambi o veneno alarvemente
à medida que sua face se esvanecia
por entre a beleza do acto que então decorria
o corpo terno e quente que antes ardia
gelava em meus braços enquanto morria

E eu focava minha atenção em sua última palavra
tentando fingir algum interesse
no som asfixiado de sua derradeira prece
até que me aborreci de morte
e arranquei o fôlego da minha jovem consorte

O aviso que vos deixo é o seguinte
que tais actos bárbaros sejam jamais permitidos
como os de Galeno com os cadáveres proibidos
e reservai um minuto para reflexão
e descobri-de onde está a maldição

Em poucas palavras, o que é o amor
do desejo ao ódio tudo lhe pertence
da imagem poética de que tudo o amor vence
não será em si mesma uma enorme ilusão?
e o amor em si uma contradição?

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Então adeus




Então adeus, a gente vê-se por aí. Foi assim que se despediram, depois de dias de conversa amena em viagens no mesmo comboio. Ele, extrovertido, conversador, olhos escuros e indolentes. Ela, introvertida, arisca, olhos claros e tristes de quem fixa longamente o horizonte, vivera temporariamente naquela aldeia, por razões só dela conhecidas. Mas chegara a hora de partir.

Ouve-se o som duma música ao longe, acompanhando as palavras profundas, inéditas, pairando no ar seco e húmido da solidão .

O dia tinha o perfume do fim do Verão, o primeiro cheiro da chuva, das ervas, das árvores, das folhas, misturando-se com o odor das algas na areia da praia deserta e no ciclo das marés. Até chovia um pouco.

(......)

Os dois bombeiros eram muito jovens, tal como os dois agentes da PSP. Jovens, correctos, impecáveis.

- Quanto é?

- Não é nada, os nossos serviços são gratuitos.

Fiquei boquiaberta. Não resisti e ofereci-lhes duas garrafas de sumo de maracujá concentrado, F. Faria e Filhos (falta-me a tecla do respectivo símbolo comercial, do "e"), Rua das Maravilhas, n.º 25 CC e 25 D, Funchal, Madeira, que um dos meus irmãos me costuma trazer, em memória dos maracujás que devorámos quando vivíamos a infância nas ilhas.

(......)

Antes da despedida, tinham passado pelo largo da igreja, contornado o pelourinho, passeado na praia ondulante de marés vivas, e finalmente entrado num café, o "Berço do Mar", que cheirava fortemente a sardinhas assadas.

Não foi uma despedida trivial, ou de mero protocolo social. Era assim como que uma rendição, com um desvelo no olhar, como uma fatalidade. Como se a exaltação do primeiro encontro não se tivesse repetido, repetido, repetido, como um relógio que retoma sempre o mesmo prazer do tempo. Assim como se não tivesse havido fascínio, assim como se o olhar não se tivesse cortado no tempo em pequenas fracções de universo, assim como se não houvera tempestade.

Quis fugir. De repente senti-me sobreviver com um cesto de flores na mão, como conta Ovídio nas Metamorfoses, depois de, finalmente, ter conseguido entrar em casa.

Estiveram longo tempo sentados, expectantes, parecendo implorar ao tempo que se virasse do avesso, que não passasse demasiado depressa, que guardasse o calor que vinha deles, do fundo da terra, do centro da terra. Olharam-se, cada um na sua vida passada, nos seus amores passados, nas suas coisas passadas, emoldurados num anel, num livro, numa simples recordação, evitando o espelho em frente que transformava em diamante a pedra bruta.

Quando o táxi chegou, ele ajudou-a gentilmente a arrumar as malas, t-shirt por dentro das calças de ganga, o blusão de tecido de gabardine inclinando-se junto do porta bagagens, ela silenciosa e já sem o sorriso a abrir pequenas covinhas no seu rosto claro, lutando para não desabar, e o vento...(o vento!! já me esquecia do vento) a espalhar poeira em torvelinho na rua molhada á beira mar. Adeus, a gente vê-se por aí.

Ainda voltou atrás, tinha-se esquecido do guarda chuva que comprara na feira quando tinha apenas 7 anos e ainda havia escudos.

Sentei-me a beber um copo de gin tonico e a ler jornais. Um artigo do Vital Moreira no "Público" chamou-me a atenção, seguido de outro sobre o aumento das taxas moderadoras do Serviço Nacional de Saúde.

(.......)

Ainda ouvi o ranger do comboio. Ainda o vi, de calças de flanela, flutuando, a desaparecer no mergulho final.

Caminhei para o sofá, fui fazer festinhas ao meu cão que é também o meu melhor amigo, e ali adormeci sem apagar a luz.

Quando as Coisas do Espírito Falam ao Coração




Há coisas que as palavras não dizem.
Há sentimentos que voam na noite, como setas de fogo...
De coração a coração, iluminando os céus.
De espírito a espírito, por entre os planos da vida e além da mente.

Há coisas que os sentidos não percebem.
Algumas delas, muito boas. Outras, nem tanto.
As boas iluminam a consciência e abrem caminhos...
As outras tapam o discernimento e escurecem o coração.

Há coisas que os homens fazem a si mesmos, sem noção do perigo.
Como deixar o próprio espírito entorpecido e o coração seco.
Como viajar pela vida sem pensar e sem sentir, perdido em suas dores.
Como "viver sem viver", automaticamente, no vazio.

Há coisas que ninguém diz, mas todos sentem, de alguma maneira.
Faixas escuras que apertam o coração angustiado.
Pensamentos intrusos que invadem a mente.
E energias estranhas que chegam, sorrateiramente, e roubam o bom humor.

Há coisas obscuras rondando e muitos sofrem com isso.
No entanto, há aqueles que vêem e sentem o invisível directamente.
E se escoram na Luz, para iluminar a consciência e abrir os caminhos...
Ligam-se ao Alto, em espírito e verdade, para seguir em frente...

Há coisas que a mente não entende, pois transcendem o seu limite.
Mas alguns sabem voar nas asas da prece, para além das estrelas.
Sabem unir seu pequeno coração ao Grande Coração do Eterno.
Sabem que viver não é só viver, é muito mais do que isso.

Há coisas que ninguém explica, mas muitos sentem.
Como caminhar com um grande amor num pequeno coração.
Como valorizar a vida, rir de uma piada e ver o Eterno nisso.
Como se sentir gente, mesmo sendo espírito.

Há coisas que são consideradas do "Além", mas que estão por aqui mesmo.
Elas falam, não com palavras, mas com a força da vida, que jamais acaba na morte.
E há coisas daqui, que, muitas vezes, viajam ao "Além"...
Viagens espirituais, que poucos conhecem, mas muitos fazem, mesmo sem lembrar.

Há coisas que bloqueiam a felicidade e chamam a dor e o vazio.
Como o ódio e o desejo de vingança, que permitem às faixas escuras apertar o coração.
Como perder a própria canção no imenso concerto da vida.
Como entorpecer o espírito com fortes doses de arrogância.

Há coisas que são simples, mas de grande efeito no céu do coração
"De que adianta a uma pessoa ganhar o mundo, se ela perder sua alma?
Que falam de outros planos e estimulam as acções sadias e a valorização da vida.
Elas falam de um Grande Amor que está em tudo!

Há coisas que as palavras não dizem.
Setas de fogo varam a escuridão da noite, por entre os planos da vida...
E os corações se encontram, aqui e além, no Grande Coração do Ancião dos Dias.
Não há morte. E o Todo está em tudo!


O espírito reconhece o espírito. Assim como o Amor reconhece o Amor, e chama a Luz.
Mas, como muitos já sabem, isso não se explica, só se sente...
Às vezes, o Céu fala aos homens por meio de outros homens.
Em outras, directamente ao coração. Ou ainda, pela música, ou pelos sonhos, durante o sono.

E há coisas... vai haver sempre.....

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Ausente



Rezo por mim própria, pois sei que não o posso esconder por muito mais.
Escondo a minha cara envergonhada e transvazo de angústia e pesar. Não há mais nada a negar nem a defender. A desolação esfumou a esperança que se entretinha a assomar por entre as caras dos fantasmas dos meus medos. Agora quem me vai segurar? Não há nada que eu possa fazer que não o tenha já feito, nada que eu possa ver, apenas presenciar enquanto tudo se desmorona. Ninguém para me dizer o que fazer, isto não tem um fim se eu não compreender que não posso retornar a fazê-lo.
Não há palavras que me saiam, não há uma verdade que eu consiga ver. Resta-me deixar isto acabar, sabendo em consciência que não posso refazer o que foi desfeito. Sabendo que não há reinicio. Sabendo que não há nada à minha espera do outro lado.

(...)

Mas o que estou a dizer? Ah, que estupidez, que vontade de rir!... Terminar? Coitada, como se fosses capaz! Ri, sorri, cura. Caminha comigo e canta-me ao ouvido. Sou invisível e não posso desaparecer mais que isto. Se me quiseres abandonar, se me deixares, eu seguirei, sempre. Se ousares caminhar para longe serei o som dos teus passos. Continuarás a tropeçar em cordas invisíveis e a escutar gargalhadas de escárnio e ilusão.

(...)

O mundo é o meu caixote de lixo, a minha poça de lama. A minha banheira transbordante de medo e mentira. Há um sonho dentro de outro sonho que não me deixa dormir quando adormeço. Aqui estou sozinha quando estás comigo. Sou o meu próprio deus, juiz e carrasco.

(...)

Porque não decides por mim? Porque não vens a mim, minha querida? Deixa-te enlear pelos meus braços, beijar pela minha boca, tocar pelos meus cabelos e embalar pela minha voz. Dorme bebé, estás a salvo aqui, dentro do círculo de luz, dentro do Sol que amanhece, dentro da minha infinita piedade e dormência. Dentro de toda a demência. Lento, ainda mais lento, o meu coração relaxa e inunda o frágil corpo de morfina e ...

(...)

Mas será que não há verdadeiro silêncio neste mundo? Será que só me restam os ensurdecedores silêncios abafados de átrio de hospital, de uma imensidão de estranhos que se reúne ao acaso para ver este paranóico espectáculo? Antes queria estar só... porque não me deixam estar só!!!...


- Doutor, venha depressa. Ela está outra vez a revirar os olhos e com convulsões!

- Enfermeira, mostre-me a ficha da paciente por favor... Humm, aumentem a dose de Diazepam em 5 mg. Mantenha-me informado do seu estado.

- Sim Doutor, assim farei, fique descansado...








(...)

Vogo num mar sem ondas, apenas uma ligeira brisa na minha face rosada pelo pálido luar. A noite engole-me e leva-me com ela para longe, para o outro lado da Lua. Escuto o som do mar e do espaço que me envolve. Sinto a água a respingar nos meus dedos à medida que os arrasto pela superfície. Porque estou aqui? Tão distante de mim mesma, o meu coração está tão triste... O que faço aqui? Porque me sinto tão abandonada..? Porque me ardem as lágrimas que escorrem dos meus olhos feridos? O que faço aqui?

(...)

Um poder maior saberá o que foi e o que será de mim. Espero pacientemente e reflicto no que isto significa para mim. Nunca ninguém saberá de mim, só eu sei o que é estar tão só. O fim estará próximo ou a uma eternidade de distância?.... aaahhh.... abandona-me por favor, agora…

(...)

Lembro-me de ti, antes do dia que me marcou. Sonho contigo a ser criança e a brincar, a andar descalça pela relva e a apanhar as borboletas com o teu chapéu. Sonho que sorrias para mim e me enviavas beijos pelo ar. Sonho que eras linda e eu era feliz.

(...)

Não o faças, por favor. Não fiques assim triste e doente. Não olhes para mim com os olhos vazios de fé e vontade de viver. E dar-te-ei a fé e a razão, farei com que te sintas mais brilhante do que o Sol. Lembrar-te-ei que és especial, que és única e valiosa. Não me deixes aqui sozinha, fica comigo ou leva-me contigo.

(...)

Tu nunca nasceste e eu amei-te mais do que a mim própria. Lembrar-me-ei sempre da tua cara que nunca vi, da tua pele que nunca senti, do teu amor que me enchia de força e vontade de viver... para sempre! Amo-te meu bebé, amo-te tanto que jamais conseguirei voltar a sentir seja o que for, a não ser dor e eterna saudade. Nada mais há para mim, nada mais me prende. Quero ir para junto de ti e ficar contigo, de mãos dadas a vogar no infinito…






(...)

Galderia, cala-te e para de choramingar! Quem te oiça até vai dizer que não gostaste do que fizeste. Adoraste cada instante, cada momento. Tu sabias que estavas irresistível, apetecível, a caminhar sorridente e deslumbrante, a gozar com os homens que deixavas para trás, exibindo-te despudoradamente. Foste uma ordinária, estavas tanto a pedi-las... Nem o fruto em teu ventre te fez travar a vaidade. Foste tu, ordinária, tu que o atraíste, tu que tens a culpa! Tu é que tiveste a culpa!!!



- Doutor, tem que vir já! As convulsões estão cada vez piores e os gritos são de enloquecer. Acho que ela está a morrer de desespero!

- Pobre coitada. Os casos de violação são sempre complicadíssimos. Ter perdido o bebé deixou-a profundamente traumatizada... Aumentou a dose de Diazepam como lhe disse?

domingo, 9 de maio de 2010

Degraus de madeira



Na manhã em que ele caiu pelas escadas, recebeu um forte aplauso de todos aqueles que acham que a queda só traz tristeza. A queda… e um novo acordar. A queda… e uma nova subida.

Na tarde em que ele pôs o pé esquerdo no primeiro degrau, ainda lhe doía o direito mas, mesmo assim lembrou-se da cara de todos aqueles que batem palma com palma ao mesmo tempo que acham que a queda só guarda mágoa. Recordou-se ainda de como é bom sentir a planta do pé a empurrar a planta que forra o degrau.

Na noite em que ele pôs o pé direito no segundo degrau, o pé esquerdo já morria de ansiedade para poder abusar da força da perna direita e redescobrir o terceiro. Suave toque, forte peso, grande vontade e “vamos a mais um degrau? ”

Na manhã em que ele caiu, ele sabia que cair só ia ser triste enquanto a queda durasse, porque à tarde já ia estar a iniciar a subida, e à noite já se ia lembrar sem grande esforço, como pôr um pé à frente do outro, acima do outro.

Já lá em cima, olhou para baixo, viu todos aqueles que acham que a queda só aspira melancolia e pensou “quantas vezes terei de cair pelas escadas para que eles percebam que após sacudir o pó da palma das mãos, a planta dos pés tem de ir agarrar mais madeira?”

Pobre Edward O. (Parte III de III)

Parte III: A Cidade Esfomeada

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Cena 1. Onde estás Edward O.?

Dia após dia após dia. Edward O. acordava cansado de vazio, podia confirmá-lo sempre que olhava ao espelho. Nada olhava de volta, a não ser um profundo e negro buraco, onde um dia esteve sua alma. Não havia surpresas, excitação ou alegria. Edward O. era um escravo da rotina, retido dentro de si mesmo, esquecido do ser que um dia nasceu de sua mãe, esquecido pelo mundo, perdido dentro de pesados maços de livros e processos. 

Onde estás tu, Edward, onde te escondeste? Ainda te posso ver ai, por de trás esse baço olhar, escondido pelos milhares de anos que te pesam nesses ombros descaídos, com as palavras presas nos lábios hirtos de pesar, agarrado a nada, esse nada que te enche o peito e te sufoca, dia após dia após dia.


Cena 2. A mancha de tinta

“Rapaz, tens aqui as facturas e os balancetes do primeiro trimestre. Confirma tudo, eu vou ali receber uma sobrinha que veio de fora, não quero ser interrompido, compreendes?”

Lá dentro, no salão, uma mãe trás o seu menino, talvez com 6 ou 7 anos, para comprar uns sapatos de cerimónia. Ela é austera como o seu negro traje de viúva, rígida como uma raiz de cerejeira, de olhar furtivo e aterrador. 
Segue com impaciência os movimentos do petiz, o seu braço tenso como uma mola, pronto a disparar um tabefe à primeira desculpa. Eis que surge o primeiro, mal o infeliz gaiato ousa coçar o nariz… Este não chora, grita ou sequer soluça. Apenas se encolhe e olha para o chão. Olha para os seus pés e suspira. 

Edward O. vê tudo, regista cada momento daquele triste quadro, toma nota, em sua mente, grava-o a ferro e compara. Compara com a memória da sua infância. Com a memória de sua mãe, austera como o seu negro traje de viúva, rígida como uma raiz de cerejeira e tão afável como um violento incêndio de Agosto. Será que o menino pelo menos conheceu o pai? Ou terá este também morrido na guerra, lá longe, para além do mar, demasiado longe para cantar baixinho e adormecer o bebé, aninhado em seu berço, a criar sonhos e memória frágeis e assustadas. 
Está frio, tanto frio… Será que o menino sabe que a sua mãe também tem frio, sozinha no seu espartano leito, sem o calor de seu homem, levado para longe em nome da pátria, muito para além da desolação e dor que esmaga este coração de mãe e o deixa seco e atrofiado, como sua alma. 

Não, o menino ainda não sabe o que lhe falta, ainda é feliz, pois acaba de esboçar um sorriso para sua mãe que por um fugaz momento, quase sorriu de volta. Quase. Edward O. franze a testa e tenta recordar-se da última vez que sorrira, mas é em vão…

Volta à sua secretária, ainda meio absorto pelo constrangedor episódio. A distracção leva-o a derrubar um tinteiro e a espalhar uma pequena mancha de azul metileno sobre o papel amarelecido. Num gesto rápido e quase atlético, consegue apanhar o tinteiro antes que haja mais estrago. Senta-se e retira os óculos para esfregar os olhos. Ainda meio atarantado, olha para a mancha, que alastra devagar. Retrai-se na cadeira e tenta focar a visão, abrindo com força os olhos e piscando vigorosamente. Quase diria que a mancha tenta mover-se na sua direcção, se aproxima para lhe dizer algo, para lhe sussurrar um segredo incontável. Parece até mudar de cor, tornando-se espessa e negra, com um formato cada vez mais improvável, parece quase… um anjo!

A tarde termina abrupta e veloz, o Sol aproxima-se do horizonte e é chegada a hora de ir para casa. Não há qualquer ilusão, apenas o peso de mais um dia que se aproxima do seu fim…


Cena 3. O Rio

A violência da cidade encandeia-nos, com gritos de âmbar e carmim, rasga por entre as muralhas do exílio que nos auto-impomos, esconde-se ao anoitecer e desperta os lobos do seu torpor. A noite cai e a cidade está esfomeada…

Edward O. lembra-se vagamente de um tempo em que as crianças brincavam no jardim, os mais velhos davam a mão aos mais pequenos para os ajudar a subir ao banco de pedra, os rapazes gritavam enquanto se digladiavam por uma bola de trapos e as meninas brincavam às mamãs com as suas bonecas de faces de porcelana. 
Parecia impossível que ali houvesse medo, raiva, luxúria ou simplesmente, falta de sentimentos de compaixão e solidariedade de uns para com os outros. Hoje é cada um por si, esfomeados, encadeados pelo brilho ruidoso do farol que os orienta em direcção ao lugar que lhes é reservado, assumindo a posição de eleitos, escravos e senhores, todos se empurram e esmagam quem se lhes atravessar.

O caminho é rigorosamente sempre o mesmo: das traseiras para a ruela, da ruela para a avenida, da avenida para o beco. Mão no bolso. Chave à porta. Átrio, escadas, nova porta. Nova chave. Casa. 
Mas hoje vai ser diferente…

Começou a chover ainda a tarde ia a meio e, meu Deus, como chovia! A ampla avenida parecia agora um largo e negro rio, impossível de atravessar, onde apenas alguns carros mais afoitos tentavam em desespero cruzar, quais seixos aplastrados a rodopiar saltitantes, ficavam pelo caminho, não conseguindo chegar à outra margem. 

Edward O. encolhia-se, quase desaparecendo dentro de seu sobretudo e escondido pelo chapéu, desaparecia de vista em direcção a um atalho, uma ruela estreita e sinuosa, ladeada por decrépitas roseiras e velhos choupos. Mas, há medida que subia a íngreme e soturna ruela, Edward O. sentiu que não estava só, alguém o seguia. 
Subitamente, sente no coração uma pontada de dor forte, como se fosse o gume de uma faca a penetrar lento em seu peito. É a ansiedade que se apodera de ti, oh pobre Edward O.


Cena 4. Um segundo

- Senhor, por favor, tem lume? -

Mas quem é que se lembraria de, a meio de um voraz temporal, perseguir Edward O. para lhe pedir lume? Olhando à sua volta, perscrutava a escuridão mas nada via. Sentia-se como uma erva sacudida pelo vento da tempestade, mantinha-se agarrado a si mesmo, mas ciente de que nada era perante tal força imensa. A força do destino.

- Por favor, tem lume? Pode ajudar-me?-

Edward O. virava-se lentamente para o homem atrás de si, vendo-o primeiro com o canto dos olhos, conseguia descortinar apara além da sua retina baça um enorme vulto negro que lhe apontava uma arma.

- Devagar agora. Dá-me a tua carteira e o que tiveres nos bolsos do sobretudo. Mexe-te homem, sem surpresas nem sobressaltos. Passa-me já tudo o que tens! –

Edward O. 39 anos. Sozinho no mundo. Contemplava o Anjo Negro que o viera libertar. Sentia algo vibrante e inquietante dentro de si. Era vida, vida que lhe escapava e agora pulsava forte! 

- Mas estás parvo ou quê? Mexe-te idiota, passa para cá essa carteira, tu não me desafies! Queres levar um tabefe? – 

Num acesso de clarividência e auto-conhecimento, Edward O. tomara uma decisão. Olhava fixamente o seu formidável oponente e, com o olhar iluminado de um inesperado fulgor, sorri e empurra-o contra a parede!

Num segundo, Edward estaria livre. Assustado e atónito, o pobre assaltante dispara inadvertidamente a arma ao embater contra a parede, mas à medida que o dedo pressiona o gatinho e a bala inicia a sua viagem rumo ao coração acelerado e em êxtase de Edward O., este sonha com tudo o que sempre desejara, com o homem que gostaria de ter sido, com a glória de ser honesto consigo mesmo e a certeza de que era o dono de seu próprio destino...

Edward O. 39 anos. Jaz morto no chão de uma ruela. Qual cordeiro sacrificado aos lobos, a cidade acaba de o devorar. À medida que o sangue escorre, arrastado pela chuva em direcção ao grande rio que alaga a grandiosa avenida, a sua alma desprende-se de um corpo gasto e vazio. 

Finalmente, é livre…

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Pobre Edward O. (Parte II de III)

Parte II: O Anjo Negro



Cena 1: Crepúsculo

A tarde ia avançada e Helios beijava a linha do horizonte pela última vez, era chegada a hora de Silene se erguer sob os mortais que dentro de algumas horas se iriam recolher nos braços de Morfeu. Mas Hades espreitava, ansioso e faminto… A hora da ilusão descia sobre nós…


Cena 2: (Não-)existência

O caminho é rigorosamente sempre o mesmo: das traseiras para a ruela, da ruela para a avenida, da avenida para o beco. Mão no bolso. Chave à porta. Átrio, escadas, nova porta. Nova chave. Casa.

Despido o sobretudo e pousado o chapéu, encaminha-se para a bacia e lava as mãos e o rosto. Aquece um pouco de água para o chá e passa a manteiga no pouco de pão que ainda lhe resta da manhã. Sentado no cadeirão, lê mais alguns capítulos d’Os Irmãos Karamazov de Dostoievsky: "Com a força que sinto em mim, creio-me capaz de suportar todos os sofrimentos, contanto que me possa dizer a cada instante: "Eu existo". Entre tormentos, crispado pela tortura, mas existo! Exposto ao pelourinho, eu existo apesar de tudo, vejo o sol e, se não o vejo, sei que está lá. E saber isso já é toda a vida."

Pousados os óculos e exalado um profundo suspiro de consternação, Edward O. decide tomar a noite como berço e aninhar-se entre memórias, escurecidas e gastas, como sua alma. E era a sua alma que mais o fazia temer por tudo o que havia sido, mas mais, muito mais, pelo que não havia sido. Em breves instantes viria o abismo, a profundeza do esquecimento, o sono que tolhe o juízo do inquiridor. Dorme pobre Edward, que a noite escura te ilumine…

Edward O. Só consigo mesmo e os seus sonhos. Só entre as muralhas do infinito e perante Deus. Só. Mas por pouco tempo, pois esta noite, Edward O. era visitado por um Anjo Negro errante…


Cena 3: Mensagem


“Não te movas Caminhante. Não ouses saber quem sou nem porque te visito. Deixa fluir a narcolépsia que te enrola o sentir, pois nada há para sentir nas minhas palavras, apenas a mensagem interessa.”

Edward O. era uma erva sacudida pelo vento da tempestade, mantinha-se agarrado a si mesmo, mas ciente de que nada era perante tal força imensa.

“Em três dias a tua vida termina. Despirás tuas vestes e seguirás viagem na escura estrada. Oh pobre Edward, aproveita, aproveita bem estes 3 dias, pois são os teus derradeiros momentos na Terra.”

Edward O. não estava só consigo mesmo e os seus sonhos. Perante ele, abrira-se uma brecha nas muralhas do infinito e Deus era o farol que incendiava a noite com rasgos de âmbar e carmim. Logo a ele, a quem a vida escapara por entre os dedos, secos e ásperos, como a sua alma, fora desvelado o Apocalipse, os dias do fim…

A hora antes da aurora foi tão extensa como as histórias que a sua senhoria lhe contava, sempre que o apanhava a entrar ou a sair de casa. Mas valeu-lhe sentir na baça retina o primeiro brilho do dealbar. E á medida que o fulgor aumentava, renascia algo em Edward O. Algo vibrante e inquieto. Era vida, vida que lhe escapava e agora pulsava forte…


Cena 4: Os dias do fim

Dia 1.

Edward O. regista tudo, meticulosamente, grava a azul metileno o papel amarelecido pelo tempo, velho e gasto, como a rotina que ainda o prende.

Regista tudo, a entrada e saída da menina do dia, que vem alegrar a manhã do patrão. Aponta a despesa no seu livro sob o tema ‘Outros Serviços – solicitação de prostitutas’. Pousa o seu livro e redige a sua carta de demissão. Cerra-a num envelope cinza claro e dirige-se até à secretária do patrão. Pousa o envelope sem dizer uma única palavra ao chefe que, ainda a apertar o cinto, se sobressalta com a sua presença, enquanto tenta disfarçar ao dizer para a jovem que o acompanhava “As botas de veludo estão muito na moda este ano, a senhora vai-se sentir magnífica com elas”. A jovem desfazia um pequeno riso enquanto olhava parva para Edward O. Este sorriu de volta para ela. Curioso, Edward O. estava certo de que haveriam passado anos a fio desde que sorrira pela última vez…

Confiante e altivo, segue porta fora, passa pelo salão da sapataria, cumprimenta os clientes e empregados uma última vez, com uma vénia ligeira e um ‘até sempre meus caros’. Caminha com a aura excelsa de quem se despediu de um verme pequeno e mesquinho. Ao sair esbarra-se com a mulher do Patrão. Pede-lhe perdão. Primeiro pelo encontrão. Depois, pelos anos de ocultação e vergonha a que se submeteu. Atónita, esta deixa cair o seu caniche de colo e, mais violentamente, a si mesma, esparramada na carpete de feltro da sapataria que erguera como altar a seu divino esposo.

Edward O. 39 anos. Desempregado. Vive o seu primeiro dia na cidade, debaixo do Sol. Livre do cheiro a papel amarelecido pelo tempo e do travo a azul metileno. Azul agora, só o do céu que o cobria.




Dia 2.

O tempo voa e com ele levanta as folhas das árvores e a poeira dos anos perdidos. A água que agora te molha não é para beber, são as lágrimas que nunca derramaste, a saliva dos beijos que ficaram presos nos teus lábios, o suor de um dia de Verão passado no campo a apascentar ovelhas, a chuva que te haveria de molhar, enquanto rodopiavas a mulher dos teus sonhos, agarrada a teus braços, a suspirar por ti, enquanto carregava teu fruto em seu ventre.

Hoje vais observar as crianças no jardim, puras e doces como as camomilas que perfumam o ar. Tu és uma delas, estás mesmo ali, de mão dada ao mais pequeno, para o ajudar a subir ao banco de pedra, a gritar que te passem a bola para marcares golo, a ver no carreiro as formigas a carregarem sementes com cinco vezes o seu tamanho, a sujares os calções de lama sem te lembrares do ralhete que irás receber ao chegar a casa…

Irás dormir exausto de tanta excitação e brincadeira. E este será o dia mais feliz da tua vida.



Dia 3.

Edward O. acorda pouco após o nascer do Sol, mas hoje, não tem pressa que o dia comece, pois quanto mais depressa o inicie, mas depressa se encaminha para o seu fim…

Quando finalmente se resigna e se apronta para abandonar o leito, sente no coração uma pontada de dor forte, como se fosse o gume de uma faca a penetrar lento em seu peito. É a ansiedade que se apodera de ti, oh pobre Edward O.

Vestiu o seu melhor fato, a mais cara gravata italiana de seda e o par de sapatos de couro de búfalo que estava a guardar para o seu próprio funeral. Hoje parecia-lhe ser o dia indicado para os usar. Colocou o seu chapéu e pegou no sobretudo. Deixou as chaves em cima do aparador da entrada. Saiu e fechou a porta, sem olhar para trás.

Ao passar pelo átrio encontrou a senhoria, mas antes que esta pudesse abrir a boca para falar, Edward O. espetou a sua mão aberta em frente dela e disse com calma e suavidade: “Minha cara senhora, deixo-lhe o meu profundo agradecimento pelos anos à sua guarda, mas hoje saio desta porta pela última vez, para não mais voltar. Por favor, trate de que venha alguém mais sorridente e falador para ocupar o lugar triste e oco que ora abandono. Bem-haja, cara senhora, bem-haja.” E saiu pela porta da rua, passando pelo beco em direcção à avenida.

Edward O. passou o dia a caminhar pela cidade, até sair para além dela, caminhou até sentir a lama a cobrir os seus sapatos de pele de Búfalo, foi andando e largou a gravata de seda sob as roseiras bravas e ofereceu o sobretudo a uma velha árvore decadente que parecia gritar por um final aconchego.

Agora estava perante o grande rio, largo e grandioso. Aproximou-se das margens saibrosas e fez planar sobre as águas turvas um par de seixos mais aplastrados, tendo o mais ligeiro saltitado quase até à outra margem, do outro lado, para além do seu conhecimento.

O dia chegava ao fim e no peito de Edward O. restava agora a sensação de plenitude e autoconhecimento. Ele soubera finalmente quem era, o que poderia ter sido e o que decidira ser. No que se tornara. Edward O. via-se a si mesmo reflectido nas águas paradas do rio e nada mais lhe trazia angústia ou arrependimento. Aceitara o seu destino.

O Sol cumpria mais uma jornada e puxava agora atrás de si o manto de trevas estreladas que para alguns seria apenas mais uma noite. Em 5 segundos estava terminado o terceiro dia que o Anjo anunciara.

5… 4…
Edward O. suspira de alívio e sorri. Está pronto.

3… 2…
Nada teme. Abraça a morte com a entrega de quem reconhece a própria Mãe.

A última luz que brilha no seu olhar é profunda e infinita. Como a sua alma.

(continua)

terça-feira, 4 de maio de 2010

Pobre Edward O. (Parte I de III)



Parte I: Edward O.

Edward O. 39 anos.
Vive sozinho num apartamento exíguo alugado na parte mais sombria da cidade. Conhece a senhoria, uma velha senhora que mimetiza a simpática avozinha que nos presenteia com histórias de tamanho infindável acerca de pessoas que ela conhecera e que já à muito são pasto para vermes, algures por entre mármore e ciprestes, haja paciência para a aturar…

Da sua janela vê um muro de alvenaria, antigo e decadente, como a sua alma. Edward O. tem uma vida discreta, da sua habitação para o escritório de contabilidade onde assenta meticulosamente as entradas e saídas de materiais e dinheiros da mais afamada sapataria da cidade. Edward O. regista tudo, meticulosamente, grava a azul metileno o papel amarelecido pelo tempo, velho e gasto, como a sua alma. Bem, quase tudo. Edward O. recusa-se a registar a entrada e saída de acompanhantes que satisfazem o vício do patrão. Não, estas despesas não são declaráveis para fins fiscais, oh não. Alem de que a mulher do patrão o matava, sim a ele. Ela acredita que o seu homem é um santo e vê Edward O. como um verme, pequeno e mesquinho, que se alimenta dos detritos rejeitados pelo seu excelso marido.

Edward O. nada tem para contar, a vida escapou-lhe por entre os dedos, secos e ásperos, como a sua alma. Mas Edward O. hoje teve um sonho…

(continua…)

sábado, 1 de maio de 2010

Bilhete de Autocarro



Sentada no banco do pendura, a cabeça apoiada para trás, a folhagem densa das árvores na beira da estrada corria-lhe um filme inteiro de reflexos na cara. O céu de Abril, azul azul, pontuado por nuvens a viajarem em sentido contrário. O silêncio. O barulho surdo do motor da carrinha e os pássaros. A paisagem de um verde demasiado intenso, desfocado, a passar-lhe pelos cantos dos olhos.
Não estava ali. Há quanto tempo andavam? O homem não ia parar nunca?

Susana saiu de um semi-transe para deitar um olhar rápido ao condutor: o boné de pala, os óculos escuros, a camisa aberta para um peito seco e envelhecido de onde pende uma corrente grossa. E ela podia jurar que, no bícepe esquerdo, conseguiu descobrir-lhe uma aquelas tatuagens que se fazem na guerra ou na tropa, quando pararam para comer naquele tasco de camionistas à beira da estrada nacional. Ele passa a língua pelos lábios ásperos. Acende um cigarro com o travo dos mata-ratos de taberna e um meio sorriso suspenso, uma euforiazinha contida de chegar a qualquer lado que só ele sabe.

É o primeiro trabalho dela. Sim, pode considerar-se o primeiro, se não contarmos com o Oscar, o marido da tia, que há uns dois ou três meses a apanhou desprevenida na despensa, dobrada pela cintura, a catar da cesta da quinta as batatas para o almoço de sábado. Enquanto as mulheres escamavam o peixe e trocavam desgraças de soleira de porta, ele saiu de manso para se roçar nela. Cravou no chão os tacões das botas de lavoura, enormes e marciais, enquanto lhe segurava as ancas por trás: “Moça... estás boa para a estreia...” Ela endireitou-se, mais em fúria pelo atrevimento que por susto. “Tio, sente-se lá que já lhe chego um copo de vinho.”
Mas à tarde, durante a renda das comadres e a sesta dos homens, não lhe escapou, ao pé do tanque. Virou para ele os olhos de lince enquanto lhe desapertava o cinto: “Se é isto que quer, ao menos faça as coisas bem feitas.”
Três minutos depois, o homem meteu-lhe na mão vinte escudos: ”Prós teus botões.”

Por isso, não se pode dizer que tenha sido bem um trabalho, antes uma compensação pela maçada, uma gorjeta pela estreia auspiciosa. Fada dos dentes, versão quatorze anos.

Arnaldo – é esse o nome do condutor — veio recomendado pelo tio Oscar. Já o tinha visto na tasca, junto com os outros homens, em tardes de bagaço e sueca, quando os pensionistas interrompem o silêncio da cartada, atirando vazas à mesa numa fúria muda, como reis que jogam fronteiras à sorte. Arnaldo foi simpático quando ela foi até à taberna, atrás do pai, que encontrou a jogar com o mesmo ar circunspecto dos ministros, acompanhado do cunhado.
— Pai, vá a casa, que o rendeiro está lá para falar consigo.
— Mas não pode esperar, isso?! O homem vem sempre na pior altura, raios o partam!
Oscar convidou-a a ficar e matar a sede da corrida num copo de gasosa enquanto o pai saiu porta fora, num resmungo, esquecendo-a. Arnaldo sacou logo da carteira:
_ É bonita, a garota. Como te chamas, cachopa?

E pronto, dali ao passeio de carro foi só o tempo do tio se aperceber das potencialidades do negócio e das suas qualidades de artista de circo. Semana atrás de semana, vinha para lhe provar o gosto, para a apanhar quando os outros não viam, não estavam ou não queriam saber, para misturar o cheiro ocre dele com o cheiro a erva dela, para lhe mexer entre as coxas e lhe enterrar os dentes no pescoço, para no fim se surpreender ao vê-la afundar-se nele, sentada no seu colo como quem monta um potro, até ele se transbordar nela num esgar de quem morre.




Para o passeio com Arnaldo não foi às escuras, apesar do Oscar só lhe ter dito no domingo, à saída da missa. “Terça-feira vens ter comigo às Fontaínhas, às duas. Não te preocupes que eu já tratei de tudo com os teus pais.” Mas, nesse dia, ela não apareceu à hora combinada. Levantava da mesa os pratos do almoço quando a mãe lhe lembrou:
— Não devias ir para a horta com o teu tio?
— Já não sou precisa.
— Como não és precisa?!... Fez tanta questão, que precisava muito de ajuda, que tinha as batatas todas para apanhar e ninguém para o trabalho...
— Ó mãe, se lhe digo que o homem me dispensou!...
Nunca imaginou o desaforo de ele lhe aparecer em casa mal as palavras lhe saiam da boca, as botas de capataz a cruzarem o pó do terreno, lá ao fundo, ao fim do campo, a avançar em direção a ela, como uma tempestade que chega devagar para depois varrer tudo de fúria e arrancar telhados.
— Vim buscar a miúda. — disse cuspindo fumo.
A mãe, numa vergonha medrosa:
— Ó Susana, francamente! Quando voltares a gente conversa, rapariga. Leve-a lá Oscar. — E assim que o cunhado virou costas, pegou-lhe com força pelo braço — E tu não te atrevas a chegar antes do sol posto. A ver se o trabalho te verga essa língua mentirosa. Uma vergonha destas... Onde já se viu!...

Odiou-a profundamente, naquele momento. A sua estupidez, a subserviência, a cegueira negligente. Cerrou os punhos num silêncio furioso.
— Julguei que tínhamos um acordo, Susana...
— Qual acordo, seu filho da puta!? E o seu amigo vem de brinde, é?
— O meu amigo vem do que eu te mandar fazer, se não queres que conte aos teus pais que andas a dar a rata ao primeiro que te pague uma gasosa.
— Faça isso, seu cabrão! Faça! Eu levo-o ao fundo comigo. Você queima-se, juro-lhe!
— Tem juízo, rapariga!... Achas que alguém vai acreditar em ti? Mas... quem és tu? — parou a meio do caminho e olhou-a como se olha uma rês de gado. — Basta-me dizer que te apanhei com um desses fedelhos da vila e mandam-te servir para Lisboa em três tempos. Ao passo que, se fizeres o que te digo e estiveres caladinha, sai daqui toda a gente contente: eu, tu e o Arnaldo — a boca dele cheirava a incêndios, a noites escuras, quando se aproximou para lhe dizer ao ouvido — Vais fazendo uma poupançazita jeitosa, vais tendo prós alfinetes, e um dia sais daqui de vez. Não era isso que tanto querias? Sair daqui?... Ir para Lisboa? Pois bem... é trabalhares para isso. Só depende de ti. E depois... é só um passeio de carro. O Arnaldo gostou de ti, achou-te jeitosa e esperta, quer levar-te a passear. Não vem mal ao mundo por isso... ou vem? Não digas que enjeitas assim a sorte de uma tarde bem passada. Leva-te à vila... compra-te um gelado e tudo... Hã?! Diz lá se não é bem melhor que passares a tarde a arrancar batatas...

Portanto, aqui vai ela, cordeiro de sacrifício, bilhete na carreira para Lisboa assentadinho na mente como uma certeza a cumprir o mais breve que possa. Encosta a cabeça para trás no banco e goza a viagem, as sombras da ramagem na cara, como um filme mudo, a passarem por ela com os dedos transparentes. É o seu primeiro trabalho. O primeiro de muitos. Arnaldo há de parar o carro num barranco perto da barragem e ligar o rádio na emissora nacional e passar-lhe a mão pelo joelho e dizer todas as deixas vulgares que ouvirá o resto da vida, a respiração descompassada, o resfolegar de besta ansiosa, “és tão bonita... és tão bonita...”, o suor a correr da testa e as mãos de cavador a conspurcarem tudo à sua passagem. E ela há de ceder e abrir-se num vórtice a crescer para ele, para o engolir, um vórtice no meio dela a sugá-lo como matéria negra. Depois, vai sair daqui direitinha a Lisboa, deixar para trás a sopeira da mãe e o seu sonambulismo estúpido. E vai ter uma modista só para ela. E sair para jantar aos dias de semana, como a mulher do dono da herdade, embrulhada num casaco de peles dentro de um carro preto. E comer carne todos os dias.