quarta-feira, 30 de junho de 2010

A Rapariga que não sangrava... (Parte I de IV)

Nesta praça, onde tudo começou, irei contar-vos a história de Lucia.

Cena 1. Inverno


O céu abate-se sobre a cidade e desfaz-se em pungentes gotas gélidas que trespassam o incauto e devoram o fumo esparso que se esgueira por entre os cones aprumados das chaminés das casas de madeira e alvenaria. Gigantes e prenhes de negritude, as plúmbeas naves de gelo fustigam a metrópole adormecida por um inverno sem fim.

Está entregue a si própria, a derradeira espectadora deste teatro grisalho e soturno. Nós, estamos perante os tempos que nos atam as pontas soltas do pensamento, como é apanágio do comum mortal, que se intriga perante a morte mas que, torpe, desperdiça a dádiva da vida. Corremos para dentro do covil ao menor estrépito, de olhos cerrados aguardamos que o terror passe, acocorados a um canto sombrio, titubeantes e apavorados, perto da flama que afasta as bestas, entoando as palavras solenes dos rituais antigos que visavam apaziguar os eternos guardiões do mundo superior. Somos os restos que tombaram da mesa do grande devorador, ínfimos e mesquinhos, patéticas sombras entre sombras, tendemos a desaparecer, por entre a chuva e o afã do quotidiano, reféns de toda a religião que nos atordoa o pensamento livre, em eterna penitência por falhas que não sabemos como controlar, prisioneiros amarrados ao temor do invisível e impiedoso, implorando perdão por simplesmente existir e desejar, assustados e manipulados, neste Inferno sem fim.

O céu envolve-nos e acarinha a néscia dependência que todos temos do Protector, lavador de pecados, do pastor que embala seu rebanho em suave estultícia e, irrelutante, as conduz ao algoz. Gigantes perante os insectos que nos infestam as vestes, agitamo-nos em desdém pelos seres menores que se apressam a sair debaixo dos nossos pés, correndo lestos para os seus covis onde, em pânico, irão aguardar até que venha Morfeu e nos embale entre anjos que tangem lamentos em melopeia, rumo ao universo oculto da noite. Ai, em solene procissão, alinharemos nossos corpos em sinal de fé, para sobreviver a mais um dia que se avizinha. Nesse momento em que nos ausentamos da segurança da claridade, voltam os insectos e despertam Incubi e Succubi, para nosso tormento e luxúria. Envoltos na espiral de desejos e medo, tendemos a desaparecer, por entre as trevas e a apatia da narcolépsia, neste Inverno, por fim.

Ela mantem-se atenta, em serena vigília. Contudo, é impotente perante tamanha violência deste mundo e chora, à medida que o céu se abate sobre a cidade e sente a esperança a gelar e a desfazer-se em esparsas manchas de fumo sem forma. Entregue a si própria, adormece e afasta-se do afã dos insectos que empestam a cidade e aguarda pelos primeiros sinais da Primavera.

Parte II: http://aitd-text.blogspot.com/2010/07/rapariga-que-nao-sangrava-parte-ii-de.html

sexta-feira, 25 de junho de 2010

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(ou como ocupar o intervalo antes do deadline do Desafio ‘A Rapariga que não sangrava’)



Nós
Sempre sonhámos
Com alguém maravilhoso
A redentora dos hereges
Assim como tu, gentil, delicada
Uma flor nascida da lama escura
Que nos afoga sem dó ou piedade
Mas agora chegaste para nos salvar
És a virgem da Luz
Então à lama volverás
Em supremo sacrifício
Por nós
Afogada

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A saudade



Esta é a história do vaso sanguíneo que sofre por já não recordar o que é ter o amor do líquido quente. Sofre desde o dia em que este lhe foi totalmente raspado com uma espátula de metal. Esse dia ficou conhecido por “coagulação final” e foi-lhe dado como justificação “teve de ser, estavas entupido de amor”.
O amor… o vaso não acredita que o amor tenha coagulado o líquido. Ele corria, ele não estava estagnado, ele estava vivo, tinha cor, tinha cheiro, tinha tacto, tinha tudo aquilo a que um líquido tem direito: espaço, porque as paredes eram elásticas; protecção, porque um dos maiores medos dos líquidos é transbordar; caminho certo, porque o vaso fazia questão de se posicionar para os melhores destinos (o seu preferido era o coração, era mágico ver o líquido a atravessar o coração) e sorrisos, porque o que faz os líquidos correrem são aqueles sorrisos tímidos, que aparecem e desaparecem num segundo, mas ficam eternamente guardados nos olhos de quem os presenciou.

Hoje, de cada vez que chove, o vaso abre-se e armazena gotas de água dentro dele. São frias, são transparentes, mas mesmo assim, conseguem matar algumas saudades. Fazem-no recordar a sensação de sentir algo líquido a massajar-lhe as paredes. Depois, a água evapora e a sede volta. “Tenho saudades tuas, sou um vaso de estômago vazio”.

Hoje, o líquido quente, mora dentro daquelas palhinhas coloridas, são frias e sem vida, mas mesmo assim, conseguem simular o aconchego de um lar. O líquido ainda tem as marcas do ferro que o trespassou e despedaçou. Conta-se por entre artérias e veias que ele morreu de desgosto e dissipou-se. “Tenho saudades tuas, sou um líquido com um pulmão em vácuo”.

És um líquido? Não… Hoje és um coágulo.

Apresento-vos a rapariga coágulo, sonha voltar ao estado líquido. Sonha voltar a percorrer o interior do vaso. Sonha com o dia em que o amor a vai fazer sangrar até à morte.

Pimentas Sonoras





De repente, os dias parecem mais cheios de sons, e os sons parecem menos melodia e mais algazarra.

Estranhamente, também se sentia mais e mais.surda! "Pode repetir, por favor?", "Hã?", "Quê?" um pouco depois, sussurrava para si mesma, os ouvidos cansam.

Ou talvez precisem de novos sabores, experiências exóticas, pimentas sonoras.

Um silêncio absoluto,interrompido apenas pela fala da água, dos pássaros, do vento. a música do universo quando os humanos se recolhem.

Mas não existe o tal silêncio absoluto, ela sabe, mesmo assim - de que outra maneira falar das grandes aventuras, sonoras... o som dança no ar e só no vácuo seria possível experimentar a quietude mais completa.

Ela gostava de construir simulacros imperfeitos desse silêncio e dizia que a música e a gargalhada são as únicas coisas que não precisam de significar nada!


Andava obcecada com o silêncio. De repente, os dias parecem mais cheios de sons, e os sons parecem menos melodia e mais algazarra.


Pensando bem, antes que o silêncio a envolva, saiu à caça de pimentas sonoras para ouvidos cansados de monotonias...

sábado, 19 de junho de 2010

As escolhas



Interessante como aquele contacto com a têmpora é tão confortante. Quase que lhe deu vontade de se encostar mais à pistola como se ela pudesse tornar aquele momento menos doloroso ao mesmo tempo que acaba com ele.
A mão direita segura a pistola, firme, sem tremer. Está mais do que decidido e é só uma questão de alguns segundos. Em cima da mesa redonda da sala está a carta que explica a incompreensível decisão à família ausente. Ausente mas mesmo assim merecedora de saber o porquê, nem que seja para não ir inventar justificações aos estranhos quando estes lhes perguntarem “porque fez ela aquilo?”.
Ela tem tudo para ser feliz, tudo. Mas… apetece-lhe apressar as coisas e esta é a altura certa. Decidiu-se pelo tiro porque lhe parece o método mais rápido e por isso mais suave. Decidiu-se por hoje porque hoje é um dia melhor do que ontem e melhor do que amanhã e, como é véspera de fim-de-semana sempre facilita a vida aos familiares se o funeral for antes de segunda-feira, pelo menos assim não têm desculpa para depois dizerem que calhou num dia de semana e tiveram de faltar ao trabalho.
A casa fica arrumada, pronta a vender ou arrendar se for esse o caso. Espera não sujar muito a sala, é sempre difícil tirar nódoas de sangue da carpete, mas tinha de ser ali. Decidiu-se por casa porque é o único sítio onde se sente realmente bem e confortável e para ela não fazia sentido nenhum ir para um lugar público lavar a roupa suja.
Por falar em roupa, vestiu-se com um vestido largo para ser mais fácil despirem-na. Espera ficar com o corpo numa boa posição para que depois de arrefecida não terem de lhe partir muitos ossos. Imaginar aquele som oco sempre lhe fez muita impressão.
Todas as contas estão pagas, não há dívidas pendentes. O carro fica guardado na garagem. Água e gás fechados. As portas que dão acesso à casa ficam destrancadas, pois não vale a pena andarem a arrombá-las. O gato foi oferecido a uma amiga de confiança.
Aparentemente está tudo em ordem. O resto das explicações e últimas vontades estão na carta. Junto a esta fica um cheque com dinheiro mais do que suficiente para pagar o funeral. O resto do dinheiro da sua conta já teve outro destino mais solidário.

“Pronto, olhos fechados e é só premir o gatilho… Sim, pode ser agora. Obrigada.”

Ela jaz no chão da sua sala, tal como desejou. Ele, ainda com a arma na mão respira fundo e segreda a si mesmo “está feito”. É sempre um momento complicado, mas os anos já se encarregaram de o banalizar. Ter esta profissão nunca foi fácil. Não a escolheu, foi obra do acaso. Ser Auxiliar de Suicídios é algo que exige muito, mas ao mesmo tempo faz com que ele se sinta estranhamente útil.
Nunca gostou muito deste tipo de escolha, a arma, o tiro… faz muito barulho e o resultado final é sempre muito “expansivo” em termos de projecção. Mas o slogan diz “Morra à sua vontade, nós ajudamos”.
Olha para a sua agenda, faltam mais dois clientes para terminar o dia, um tiro e um enforcamento. Entra no carro e verifica a próxima morada. Longo vai o dia. Não vê a hora de chegar a casa e poder descansar… em paz.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Buraco



Ando pela estrada.
Há um buraco fundo.
Eu caio...
Estou perdida... Sem esperança.
Não é culpa minha.
Levo uma eternidade para encontrar como sair.

Ando pela mesma estrada.
O buraco fundo esta la.
Finjo que não o vejo.
Caio nele.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.


Ando pela mesma estrada.
O buraco fundo.
Vejo que ele esta la.
Ainda assim caio... É um hábito.
Os meus olhos abrem se.
Sei onde estou.
É minha culpa.


Ando pela mesma estrada.
Ai o buraco fundo.
Dou a volta.
Vou outra estrada.

Será que aprendi? a estrada que escolher leva me aonde eu quero ir.
Mas agora com a certeza que me permite mudar sempre a meio do caminho!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Desafio de Escrita

Caríssimos,

Como há muito tempo não temos um desafio criativo por aqui, apresento-vos um novo, que partiu de um título proposto pelo Nuno Oliveira: "A rapariga que não sangrava".
Inspirem-se no tema/título e publiquem aqui os vossos textos, em formato livre, até à meia-noite de dia 3 de Julho (NOVIDADE), sábado. Participem!

Obrigada... e que a musa vos inspire. :)

:)




Mar.
Sol.
Céu.
Vela.
Água.
Sal.
Espuma.
Pele.
Sabor.
Riso.
.
Cheira a verão.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Para te dizer...




Queria muito poder, através da palavra escrita, transmitir bem mais do que na realidade consigo. Gostaria de tocar directo no teu coração,tu que lés este texto para que sentisses a vibração que me envolve num estado de serenidade, de calma e agradecimento, neste dia ensolarado. Momentos especiais assim não são rotineiros, mas a plenitude e a paz, de repente, torna-se claro e faz sentido...


Dá vontade de chegar devagar e tocar com a ponta do dedo, pedir licença e começar a comunicar ao pé do ouvido, olhos nos olhos, com amor verdadeiro sobre a beleza da vida, as descobertas feitas, as experiências libertadoras que nos permitem receber aqueles fugazes, mas definitivos insights, os quais chegam e nos transformam para sempre.
Queria contar como isso pode ser fácil e directo, visto que não precisamos procurar lá fora...
Queria dizer o quanto é compensadora esta viagem interior que pode começar simplesmente mergulhando no silêncio, ou começando a observar em volta com os olhos procurando na criação a inspiração para imediatamente pular numa nova dimensão de realidade, na qual os ruídos intensos do mundo da ilusão que nos cerca não mais nos ferem, lá onde o brilho é real e nada é fugaz, falso, vulgar.

Falaria sobre um lugar magnífico -que é aqui mesmo-, onde voltamos a ser crianças, irrequietas, curiosas. Livres de dogmas, de preconceitos, felizes por desvendar e poder participar, sem medo ou controle, dos mistérios e da magia que são habituais companheiros quando somos crianças.
Tentaria explicar que somos muito mais que este limitado corpo físico de desgaste rápido e data de vencimento predefinida; sim, infinitamente mais, e que basta te desfazeres, jogar fora esta identificação equivocada com o pequeno eu para mergulhar no "Nós" e fazer de cada momento de nossa vida algo sublime, divino, criativo e inesquecível, independente da data de nascimento gravada no nosso documento de identidade, pois.

Confessaria que pouco ou nada sei, mas que a busca pela verdade é maravilhosa e liberta... e não existe diferença entre mestre e discípulo, pois de fato ambos são aprendizes da Luz. Teimaria em afirmar que o Paraíso é aqui mesmo na Terra, visto tratar-se de um estado de espírito, uma vibração que podemos conquistar e manter, ainda que por vezes nos percamos quando as emoções fortes tomam conta de nosso ser...
Insistiria muito a propósito de Amor Incondicional e suas tão variadas formas, esquecendo de nós mesmos em prol dos outros, ajudando, nem que seja somente uma única pessoa.

Despedir-me-ia com um beijo, agradecendo teres me escutado com paciência, pediria gentilmente até que tu te apressasses, pois sei que tens pouco tempo para tantas coisas a fazer; que ficasses atento e lembraste ia que a tua maior riqueza é o amor que o teu coração puro consegue manifestar, indo muito além do que é agora, com coragem e determinação, que espalhes compaixão, carinho e o teu exemplo será decisivo...

Se tu tivesses aprendido isso seria tudo... porque tudo que a Vida nos pede é para fluir com ela...

No início era assim... um fluxo contínuo.... um pulsar natural como o ritmo do coração que vibra Fluir com a Vida momento a momento e receber o presente não requer esforço...

E é... nesse tempo que nos encontramos... um tempo único... um tempo mágico onde possibilidades se oferecem a quem tem coragem de experimentar... a quem acredita que merece todas as coisas boas...

É nesse tempo que estamos... um tempo de conflitos... de caos... de mudanças profundas... mas de riqueza infinita.
Um mar de energia borbulhante...

Por fim dizia te se feliz, somente isso.

domingo, 13 de junho de 2010

Nossa Senhora



Inamorada, entre escombros
Passeia Libera, a sonhadora
A mão invisível sobre seus ombros
Visões de espanto e assombros
Sussurra mansa, sedutora

Entre a brisa, passageira
Inebria os homens incautos
Arrepios, medo, sobressaltos
Cada um a sente à sua maneira
Somente uma vez, a primeira e derradeira

Incantata, tem a marca do fogo
Da paixão pela carne, eterna
Cegos de luxúria, entregues ao jogo
Cegos pela luz, na escuridão da caverna
Reféns do ar que tudo envenena

Passionata, o domínio
Das artes negras, do fascínio
De tudo o que se move, das trevas
Do que se esconde, entre névoas
De toda sanidade, extermínio

É o que nos move, a devoção
São os laços doces que nos prendem
São vãs promessas que a tudo cedem
Entregues a Ela, com total submissão
À Morte, absoluta Senhora da compaixão

sábado, 12 de junho de 2010

Dou alvíssaras a quem encontrar a minha loucura perdida



"Desculpem.... Podia pedir um minuto da vossa atenção?

Eu sei que não me conhecem bem. Sou apenas aquela criatura alienada que vos olha fixamente quando saem de casa de manhã e seguem apressados a caminho da vossa vida normal, muito aprumados e bem cheirosos, a gritar aos miúdos para se despacharem, a rosnar ao semáforo que não abre...

Já percebi que vocês não gostam do meu olhar. Desviam o rosto porque já sabem que eu não pestanejo. Custa muito não permitir que as pálpebras se fechem. É uma teimosia que aperfeiçoei com força de vontade e à custa de muitas lágrimas mas agora domino-a na perfeição. Não cerro os olhos nem mesmo para dormir... o que é bom. Assim os sonhos não me surpreendem. Vejo-os chegar, cumprimento-os educadamente e se não gosto deles mando-os embora com elegância. Se são bons, convido-os para dormir comigo. Nunca tenho pesadelos, excepto quando dizem que estão sozinhos e não têm mais ninguém com quem partilhar a noite. Aí cedo e aceito-os na condição de saírem logo de manhã e nunca mais voltarem.

De tarde, quando regressam da vossa vida normal, com um ar mais esboicelado e triste, eu evito olhar para vocês porque não quero ser contaminada. A normalidade pega-se e à tarde parecem ainda mais iguais uns aos outros do que de manhã. Não tenho nada contra a normalidade mas não tenho jeito para ela. Prefiro ser uma louca de primeira do que uma pessoa normal de terceira categoria, entendem?

Já tenho tentado conversar, explicar-vos que deve haver algo que vos oprime a vontade, mas vocês não querem escutar-me. Escorraçam-me e chamam-me demente. Tudo bem... eu sei o que sou. Mas vocês dizem esta palavra, tão bonita por sinal, assim....como se fosse um insulto. Quando fazem isso vou-me embora. Não por me sentir agredida, mas porque não percebo a máquina que trabalha nas vossas cabeças.

Mas....mas vamos directos ao assunto. A razão de estar a tentar falar convosco é simples: não estou bem e preciso de ajuda. Nada físico. É mental. Por favor não façam essa cara de gozo. Isto é difícil para mim... nunca estive tão próxima do chão. O meu problema é que perdi parte da minha loucura e não me lembro onde foi que a deixei. Já procurei por todo o lado e nada. E dói-me viver sem ela.

Começo a achar ridículas uma série de coisas que fazia por serem lógicas e inquestionáveis aos meus olhos. Coisas que têm que ser feitas como, por exemplo, dar boas noites à lua. Coitada. Vem visitar-nos pontualmente todas as noites. Vem suave, luminosa, disponível, toda bonita para nos agradar.... E nós, mal educados, não a cumprimentamos. E é preciso que alguém o faça, bolas! Ultimamente andávamos a ter longas conversas, a ganhar intimidade.... queria descobrir para onde é que ela vai quando desaparece. Mas ela é tão bela quanto misteriosa. É preciso ir muito devagar e agora que perdi parte da minha demência já nem consigo dizer "olá" sem corar de embaraço. Vocês costumam dizer que as pessoas insanas estão com a lua, não é? Pois eu já não consigo estar com ela e assim não sou feliz.

Outra coisa que já não me apetece fazer é beber a chuva. Sinto-me estranha assim parada no meio da rua, de boca aberta para o céu. Mas antes fazia sentido porque, caso não saibam, a água da chuva é constituída por uma miríade de partículas de nuvens negras que se reagrupam quando são bebidas. E estou convencida que para nos sentirmos gente todos nós temos de ter um pedaço de nuvem negra no nosso peito. E de vez em quando temos de deixar que ela chova e nos lave por dentro. Não sei... é o que eu acho. Ou achava, porque ultimamente ando confusa...

Mas agora falemos de negócios. Sou louca mas até eu sei que tudo tem um preço. Assim, comunico formalmente que dou alvíssaras a quem encontrar o bocadinho de demência que perdi. Ofereço, mas nunca percebi muito bem o que é isso das “alvíssaras”. Tive de pensar muito sobre esta palavra e concluí que se refere a uma parte do nosso corpo ou da nossa alma... porque são as únicas coisas que são realmente nossas e que podemos dar, não é verdade? Mas se tiver que dar alvíssaras a alguém, preferia que não fosse um bocado da alma porque gostava muito de levá-la inteira quando partir. Espero, por isso, que se contentem com os meus cabelos ou parte do meu sangue....

E pronto, era só isto. Não vos incomodo mais. Vocês não são bons ouvintes e eu não tenho muita prática de falar. Não tenho com quem... excepto a lua, claro. Talvez seja por isso que estou a sentir esta sensação estranha na garganta.... como algo que a aperta de dentro. Agora vão.... sigam com as vossas vidas. Acho que a minha nuvem vai chover e eu não quero que vocês vejam.”

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Porto de abrigo



Tentei tudo o que sei.
Naveguei todos os mares e nada encontrei.
Navego agora para os meus abismos, para o fundo da terra.
Sem histórias e sem mitos.
Navego para o fundo de mim mesma.
Navego, mas de vez em quando aparecem-me gaivotas nos olhos.
Aceito a serenidade que elas me dão.

E é quando me perco que o olhar se transfigura.
Em imaginação, em delírio, em fracasso, em desejo e em exaltação.
Quanto de azul, quanto de mar, quanto eu quereria ser o que nunca fui.
Quero gaivotas nos meus olhos.
Olho os grandes tons de azul que dominam o universo da memória.
Fragmentos de rostos que não conheço e ali ficam, impávidos, invencíveis, eternos.
Terrivelmente eternos.

Pergunto-me apenas porquê. E vejo-os. Porquê? Rostos
Vestígios de terras interditas.
E espanto-me.
Espanto-me de não os ter exorcizado.
Não quero descobrir novas terras, novos rostos.
Preciso de sair daqui. De ser rebelde.
De saber de mundos para olhar.
Olhar o mundo.

Para onde devo navegar? Como navegar neste fim de mundo?
Como escapar deste pouco ser que sinto em mim?
Quero ter olhos de gaivota, olhos livres de olhar.
Ir ao fundo da terra e voltar
Errante.
Quero ser alga, e ter olhos de alga.
Reinventar-me, sem Camilo, sem os seus amores de perdição.

Sem barcos que me levem , sem cantos de trágicas sereias.
Sem abutres enlouquecidos que me rodeiem e me comam a carne.
E é nos meus olhos cansados que quero o resto do meu destino.
E é nas minhas mãos cansadas que procuro um porto de abrigo.

E se não houver abrigo haverá um porto que me acolha.
Um rochedo, uma árvore, uma imagem de mim. Como um holograma.
E nele terei todos os sonhos acordados, e todas as minhas fantasias.
Terei a raíz. Sem abrigo, sem qualquer drama.

Apenas a raíz, desfazendo-se aos poucos.
No ar.
E voarei agarrada aos seus restos
Com as mãos enclavinhadas
Com o corpo que me resta
E esperarei pelo renascer.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Agora Chocolate



A gotinha de areia que trago no meu bolso foi-me oferecida por aquele que não recordo o nome, mas sei que desde então, sempre que me sinto sozinha, aperto-a com a minha mão e tudo parece tomar contornos mais suaves. Não menos importante é a pétala de vapor que guardo atrás da orelha e que me foi oferecida por aquele cujo nome ainda cá mora, mas que já não produz qualquer som quando dito. Sempre que me sinto triste coloco-a dentro do meu ouvido e ela canta-me notas harmoniosas.

Todas as noites, antes de me deitar, guardo a gotinha de areia enrolada na pétala de vapor para que nenhum grão se perca. Todas as manhãs, antes de me levantar, deixo a pétala de vapor respirar fundo e passear-se pelo quarto enquanto a gotinha preguiçosa ainda dorme na palma da minha mão. Das duas, acho que a mais infeliz é a pétala porque não sabe a que flor pertence… só sabe que é pétala. A gotinha não sabe o seu local de origem, mas está sempre tão atarefada em não perder nenhum grão que não pensa muito no assunto.

Há duas semanas que encontro a pétala a chorar para a gotinha todas as tardes. Alguma vez ouviram vapor a chorar? Faz o som de quando o vento passa debaixo de uma porta. A gotinha simplesmente seca o som das lágrimas, absorvendo-as por entre os seus grãos, mas nunca diz um único “ping”, escuta tudo o que a pétala tem para evaporar e adormece enrolada por ela.

Há três dias atrás, sem querer, descobri o porquê da pétala chorar. Está apaixonada por um dos grãos de areia da gotinha. Quem me contou foi a gotinha, porque tem medo de perder uma ínfima parte dela. “Um grão não consegue agregar-se a vapor, vai ser infeliz… uma pétala tem de se apaixonar por outra pétala”.

Não sei o que fazer para resolver este amor…

Ontem de manhã, ao acordar, fui pegar na gotinha para a pétala poder passear e reparei que esta tinha desaparecido. Pela primeira vez na vida ouvi a gotinha a chorar. Alguma vez ouviram areia a chorar? Faz o som que os caleidoscópios fazem enquanto os pequenos objectos que estão dentro deles rodam para formar as imagens. A pétala fugiu com o grão de areia por debaixo da frecha da janela. A gotinha, preguiçosa nem deu por nada.

Não sei o que fazer para resolver esta saudade…

Hoje de tarde, ao apertar a gotinha de areia na mão, ouvi um “ping”, seguido de muitos outros… quando abri a mão tinha areia a escapar por entre os meus dedos. Um suicídio premeditado. Como pude deixar isto acontecer?
Agora tenho um espaço vazio dentro do meu bolso, mais um espaço aberto atrás da minha orelha. Alguma vez ouviram-me a chorar? Faço o som de quando o vento quer passar por debaixo de uma porta e não consegue… ao mesmo tempo que um caleidoscópio quer produzir imagens e não consegue…. Como pude deixar isto acontecer?


Era uma vez, um grão de vapor, nascido de um grande amor. Foi-me oferecido por uma brisa de final da tarde. Gosto de o guardar debaixo da minha língua quando estou infeliz, pois ele dissolve-se e o seu sabor a chocolate faz-me sorrir.

Todas as noites, antes de me deitar...

terça-feira, 8 de junho de 2010

Ouvir





Hoje, Senhor,fico diante de ti para confessar que estou na descoberta de caminhos novos.


Diante de criaturas que falam de suas dores consigo ouvi las com a alma.


Antes, só havia um burburinho e eu tinha uma infinidade de verdades, de ansiedades que se acotovelavam no meu peito, impedindo-me de sentir o outro.


Hoje eu consigo calar me integralmente e, então, as palavras dos outros penetram nos meus ouvidos e deslizam pelo meu corpo e alma e encontram guarida no meu coração e um porto seguro nos meus pensamentos .


Sabe, Senhor, às vezes eu nem preciso responder ou finalizar caminhos. Elas, as outras pessoas, por si só vão encontrando soluções.


É maravilhoso, Senhor, observar essas outras pessoas andando calmamente, após terem realizado as suas confissões.
Assemelham-se a pássaros que encontram os seus ninhos e as mães que as acalentam no peito.


Uma outra descoberta fiz, Senhor. Posso ver as pessoas em situações de uma maneira diferente. É delicioso ver o outro lado, ver o que elas sentem e pensam sem que eu faça um julgamento pré-concebível. Antes eu observava tudo com os olhos de ontem tendo como referência o que aprendera ou as atitudes que elas tiveram no passado.
Era complicado e, às vezes, doloroso.


Pois é, agora estou a aprender a olhar, com o coração... olhar a alma de tudo e de todos. É só dizer o que sinto em sintonia com o universo ou com a alma da própria pessoa.
Aprendi que não tenho todos os caminhos nem soluções. Sou também um viajante desse universo e só posso iluminar meus caminhos ou aqueles que eu já percorri. O que posso dizer, Senhor, é que elas façam o melhor por si mesmas, amem-se intensamente e se perdoem infinitamente.

Ah, Senhor! Quantas pedras carreguei em meus ombros; quantas imagens nocivas guardei no meu cérebro e coração. Agora, quero ser livre, quero libertar me de medos e culpas para poder levar com leveza esta vida.


Ouvir é uma arte! E sabes que um dos órgãos mais complexos e completos que o teu corpo possui é o ouvido. É um aparelho perfeito que pode transformar sons em palavras. No entanto, fica sabendo que esses ouvidos nada podem perceber quando o coração está ausente.

Ouvir é a arte de aconchegar almas... quando tu ouves com o coração, a sensação que é transmitida ao outro, assemelha-se ao carinho que os seios de uma mãe oferecem ao rosto da criança na amamentação.

Ouvir com o coração é ter uma antena com o Deus que existe no outro ser.Tu tens dúvidas de como te iniciares nessa arte? é simples, é só ouvir...



E EU CANTAREI PAZ E AMOR.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Lógica



[Duas notas prévias: isto passou-se quando a minha filha tinha 11 anos. Hoje dificilmente aconteceria, o que é absolutamente normal; a música escolhida era a sua canção favorita da altura. Adorava o na-la-la-la la-la-la do princípio...]

– Pai, ontem sonhei que tu eras de chocolate.
– Ahn????
– Pois… é isso.
Esperei mas ela não adiantou mais nada. Apercebi-me que aquele era o tipo de silêncio de quem se sente comprometido.
– E então, o que aconteceu depois? – perguntei.
Mais uns momentos de silêncio,
– Bem, a certa altura tu ias a fugir.
– De quem?!
– De mim e do Pantufa.
– O quê? Que me queriam vocês fazer?
Estávamos ao telefone mas quase consegui vê-la corar.
– Comer-te.
Inventei uma resmunguice e, sempre brincando, refilei com ela dizendo coisas do género: – Que filha a que eu tenho que me transforma em chocolate e depois me quer comer!
Ela interrompeu-me.
– Mas, ó pai, tu não entendes? Tu sabes muito bem que não resisto a chocolate. Por outro lado, eu gosto muito de ti e como também gosto muito de chocolate faz todo o sentido que tenha juntado as duas coisas numa só. É ou não é?
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Certa lógica não há que rebater. Há que abraçar.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Tormento de Deus (Parte III e final)



Nas sombras ergue-se discreto um olhar de um vulto. Absorto pela dor que contempla, fixa os seus olhos no cordeiro, enquanto este é arrastado pelos verdugos, segue a procissão do seu calvário com ansiedade. Está entre sombras, o espectador, estático e mudo de pesar. O medo verga-o até ao chão, para lá da linha do horizonte perdido, onde a fé dos homens se desvanece entre o frenesim das hienas e abutres. Fede a morte. Tornou-se morte. Morte de toda a fé dos homens, perdido num horizonte longínquo, a vogar desolado, entre risos de escárnio e vigílias dos oportunistas. Está perdido, o vulto, dentro das sombras que infestam a sua mónada, agrilhoam seu corpo à pesada pedra, que se afunda, afunda no negro abismo, afunda no rio que a todos nos aguarda. E o mundo, envolto em gritos dos condenados, arde em violentas chamas. Tudo isto ele agora pode ver e sentir, dentro de si, para além do seu olhar, perdido no horizonte indefinido.

Passa o cordeiro, espalha o sangue entre as pedras do caminho, aspergidos de sangue e desespero, os espectadores do calvário atónitos, estáticos ou em desespero assistem ao principio do fim dos tempos. A ilusão desenvolve-se nas suas mentes, entre frémitos inquietantes quase orgiásticos, atropelam-se, agridem seu irmão e espezinham sua mãe por um lugar à frente, na prima linha, para sentir o cheiro do sangue, o cheiro do desespero, tocar nas vestes do acossado Messias. O nosso coração está preso por uma linha, essa linha é a correnteza do rio que nos aparta. E o que nos aparta, é a morte. Morte de toda a fé, fé na morte do cordeiro. Fé que a morte do cordeiro nos salve, que Deus seja apaziguado de toda a sua fúria, pois Ele é seu Filho, feito à Sua imagem e semelhança, mas agora caminha para o tormento final, seu e de seu Pai, a desolação que a todos nos une e aproxima, a assembleia de testemunhas prepara-se para o julgamento, decreto da pena, condenação, castigo e eterna absolvição. Pois o cordeiro carrega em si todos os nossos pecados, pois o cordeiro leva em si a marca da pureza, pois no cordeiro depositamos a nossa fé, de que os dias do futuro serão de bonança e abundância, de paz e amor, de liberdade e solidariedade, de união entre os povos, de redenção de todo o mal oferecido pelo Anjo caído.


Mas o vulto, entre sombras sabe que não será assim. O vulto, devorado pelas sombras, conhece a razão do desgosto dos céus, ele é a raiz do tormento que enche os céus de fel e pestilência. Esgueira-se para a frente do espectáculo, assoma o condenado e perfila-se diante dele. Embebido em torpor, tenta em vão dirigir-lhe uma palavra, dar um passo em frente, fazer algo que seja para capturar a sua atenção.


Cordeiro de Deus, porque não suplicas por tua vida?


E enquanto atravessa toda a vila, com a morte ao seu lado, entre gritos animais e desespero, entre a farra da decadência dos que exultam o seu sacrifício, o cordeiro claudica. Definha a linha de tempo que desafia toda a lógica, esquecem-se os homens de sua fé, abandonam o Paraíso, renegam a Mão divina que se estende e condenam as suas almas ao inferno. Assentes na fé cega e temor aos céus, os dias do futuro serão assim, conduzidos pelas bestas de força, entre gritos e chamas, por entre a luxúria e ganância, loucura e sede infinita de poder, homens que irão devorar a terra e tudo que há nela e os fracos jamais irão herdar a Terra do Senhor.

E ao contemplar a cruz, onde ficará entronizado para a eternidade, o cordeiro recorda a decisão que tomou, em consciência, há três noites atrás…

(...)

- Tudo faria por vós, tudo farei por vós. Mesmo que se abata sobre mim a ira do Senhor.
- Judas, perdoa-me, pois este fardo não é teu para carregar, mas eu não consigo nem posso, meu irmão, não está ao meu alcance abraçar os desígnios do Pai dos céus, não serei o ungido que apregoam, pois não acredito em meu coração que deverá ser pelo medo e dominação que o homem chegará à iluminação. Sou um mensageiro, meu irmão, um adornador da realidade, mas não sou o salvador que o mundo quer recordar como a água que lava todos os seus pecados, aquele que será recordado sob a cruz. Mas tu meu irmão, és abençoado, o verdadeiro filho pródigo. Pois em teu poder está a minha libertação e a de todos os homens de fé. Terão o seu Messias e eu serei livre para desaparecer da face do Mundo e da memória dos homens. Quem sabe assim, vestindo outras vestes, mudando de nome, exilado noutras terras ainda poderei trazer ensinamentos aos que vivem sem a palavra de meu Pai. Preciso de ti irmão, preciso desta oportunidade de me transformar, abandonar a pele do cordeiro e ser eu mesmo, livre da Sua mão em meu ombro, só perante o mundo, aluno e mestre, visitar outras paragens e gentes, espalhar a palavra de que o poder não está nos céus mas sim na mente e coração de cada um de nós. Amo meu Pai, mas morrer para ele e por todos quantos me bajulam em nada irá servir. Deus está só, no seu trono, entre música das esferas e adulação dos anjos. Mas em terras estranhas vi povos que muito sabem de outros conhecimentos e nada sabem de meu Pai. Preciso de descobrir a razão, a raiz da sabedoria, banhar-me na filosofia e renascer para o conhecimento, a verdade da matéria e do pensamento. Para além da fé, deverá existir outros mundos. Por isso, preciso de ti, ó Judas, que aceites o supremo sacrifício e lhes dês a fé que pensam precisar. Pois eu tenho que descobrir se outro futuro é possível.

- Por ti, Jesus, cometerei a suprema heresia. Agora ajuda-me meu irmão, chegada é a hora da transformação. Adorna-me com tuas vestes e ilumina a minha face. Por Ti, serei o cordeiro!

Naquela noite, Deus perdeu o seu filho. Pois tão grave seria a farsa que para toda a eternidade iria viver em profundo tormento. Deus todo poderoso olhou para baixo e perguntou-Se: Filho, porque me abandonaste?

Nas sombras ergue-se discreto um olhar de um vulto. Absorto pela dor que contempla, fixa os seus olhos no cordeiro, enquanto este é arrastado pelos verdugos, segue a procissão do seu calvário com ansiedade. Jesus, o Cristo, devorado pelas sombras que dissolvem a sua fé, conhece a razão do desgosto dos céus. Esgueira-se para a frente do espectáculo, assoma Judas, o condenado, e perfila-se diante dele. Embebido em torpor, tenta em vão dirigir-lhe uma palavra, dar um passo em frente, fazer algo que seja para capturar a sua atenção. O falso profeta cruza um último olhar com o falso cordeiro, enquanto os seus carrascos o prendem à cruz.

De Profundis Clamo Ad Te, Domine. Das trevas apelo a ti, Pai. Recebe este cordeiro em sacrifício, sem desonra nem vergonha. Condena-me a mim, que tenho dúvidas, condena-me a mim que serei fraco e egoísta, pois esta será o meu legado menor, o fruto das sociedades vindouras, o princípio do final dos tempos. Vaguearei muito para além do Vale da Morte, sem bordão, sem compaixão. Escreverei no pó a tua história Pai, para nunca ser encontrada, lida ou contada. Pois acredito profundamente que haverá outro caminho para os homens, para além da fé e da entrega a algo que só podem sentir, nunca ver ou tocar. Preciso de saber Pai, como vivem e porque vivem aqueles que durante eras passadas, nunca tendo ouvido falar de Ti, são sábios e prósperos. Partirei para Oriente e irei indagar entre homens de lei e de filosofia, sábios, artífices, monges e mestres. Tenho que saber, Pai, o que há para além de Ti, pois eu, nada sei, nada sou e no entanto sei que nada sou perante a grandeza de tudo aquilo que me transcende. A iluminação poderá estar para além da crença, tenho que saber, ou morrer a tentar descobrir.

Atormentado e em desesperante agonia, o Pai revolta-se contra os pecadores, cegos, estúpidos e imerecedores de seu reino. Foram incapazes de ver para além da pele do cordeiro, incapazes de perceber quem era o Seu filho, incapazes de perceber, entender e guardar a mensagem, incapazes de separar a fé da realidade. Mas este era o Plano, um mundo em que o homem se deveria desconhecer a si mesmo e, cego, oferecer-se à palavra imutável e inquestionável do Senhor. Todos aceitavam o Plano, menos o Seu próprio Filho. O céu está em fúria e para sempre, fechado.

A humanidade, dominada pela força da fé e da vontade em crer nas palavras duras de quem nos queira dominar, conhecerá o seu esplendor, subirá ao mais alto patamar de Babel, para depois cair, cair no abismo das trevas, apagar-se de Sua memória, num último extretor, devorada por chamas, o Mundo que assentava a sua ordem na fé, doutrina e jogos de poder terminará em gritos…




Resta-nos a esperança que, algures em suas viagens, o destronado tenha colhido e semeado um admirável mundo novo, que irá brotar das cinzas do caos e destruição para onde caminhamos. Então, em Glória, Igualdade e Fraternidade, fundaremos um novo e harmonioso reino, assim na terra como no céu.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O Tormento de Deus (Parte II)

Estaremos a viver os dias do fim?



Em cada rosto o desespero, a soberba, um esgar de crueldade
Em cada olhar o medo, a angústia, o gasto dos anos de labor
Nas mãos de quem nos guia a aspereza da pura iniquidade
Só no coração das mães de todos resta um pouco de amor

Algures no caminho, perdemos a direcção
Pai nosso onde estais, que é feito de vosso reino
Pai nosso, porque dormis e abandonas a criação
Perdidos no vale da Morte entoamos o nosso hino

Selo após selo, abafada mais uma prece
Sinal após sinal, renegamos o paraíso
O cálice está perdido num mundo que anoitece
Entra gritos e penumbra, apaga-se o aviso

É este o nosso destino, a cegueira
Tudo o que desejámos, sobreviver
Da morte que se oculta por trás da bandeira
De nações insanas, ébrias de poder

Mãe, porque choras, de saudade, de dor?
Mãe, rogai por nós que estamos tão sós
Mãe, alumia a nossa noite, Mãe, por favor
Mãe, não nos abandones, fica perto de nós
Mãe, protege-nos da chegada da nossa hora
Mãe, salva-nos deste horror
Mãe, nunca te vás embora
Mãe, dá-nos o teu amor

Algures, na névoa do tempo
Entre passos perdidos, palavras trocadas
Algures terá existido um momento
Onde nossas vidas foram atraiçoadas

Se ao menos pudéssemos desfazer este nó
Que nos prende ao inferno de nossa demência
Regressar ao passado envolto em pó
E em acto de contrição implorar por clemência

O que falhou no grande plano, qual a raiz da corrupção?
Qual a origem da geração de tanto mal que nos violenta?
Onde terá o profeta obnubilado e perdido a sua visão?
Que pecado foi este que Deus tanto atormenta?

A Terra está a saque, a vida está por um fio
Anjos caem mortos entre rosas e jasmim
A sociedade colapsa, o céu está vazio
Estaremos a viver os dias do fim?

Pai nosso, porque tanto nos desprezas
Que crime vil foi este e por quem cometido
Estamos perdidos, sem rumo entre trevas
Sem esperança aguardamos o regresso do Prometido

Com o sinal da cruz recordamos o Teu Filho
Com o sinal da cruz imploramos perdão
Pai nosso porque vives em tanto tormento?
Porque nos negas Pai a salvação?

(continua...)

terça-feira, 1 de junho de 2010

O tormento de Deus (Parte I)




- Irmão, porque me olhas desse modo? Sabeis que jamais seria meu desejo, mas a Sua palavra prevalece!

- Tudo faria por vós, meu amado irmão, mas por favor, reconsiderai, vê-de para além da esfera negra que nos envolve, a penumbra será passageira, a brisa do rio vai alimentar nossas preces, clamai pelos anjos, virão em teu auxílio!

- Os tempos mudam, mas o Homem é o mesmo, o Leão faminto que nos devora por dentro, corrompe em absoluto. O meu sangue ferve de inquietude e nem em todo o meu esplendor poderei alguma vez abraçar tanta dor. Irmão, estendo-vos a mão, perante vós me ajoelho, ajudai-me neste meu momento de necessidade.

- Tudo faria por vós, tudo farei por vós. Mesmo que se abata sobre mim a ira do Senhor.

- Atenção agora, Deus está a chegar...

(continua)