Mensagens

A mostrar mensagens de Julho, 2010

O sorriso do rei

O esqueleto que passeia pelo campo de concentração, tem olhos, tinha olhos que viam acima e por cima das montanhas que existiam no seu dedo mindinho do pé esquerdo. Dói ter de transportar tantas rochas, terra, plantas, animais, poluição, em cima de um só dedo.
O esqueleto coxo que caminha pelo campo de concentração, tinha na mão direita e preso ao dedo anelar um iô-iô que subia e descia e marcava o ritmo dos seus ciclos respiratórios, os que sobraram dos seus pulmões fantasma, mas que ainda respiravam porque há coisas que nos atormentam para o resto da vida mesmo depois de já não fazerem parte dela fisicamente.

O esqueleto que deambula pelo campo de concentração adora bolas de sabão e gostava de as tomar ao pequeno-almoço acompanhadas por algodão doce barrado com as letras dos cartazes que anunciavam que o circo vinha a chegar à aldeia.
O esqueleto trapezista que sofre de aerofobia, gostava de jogar xadrez nas pedras da calçada que estavam no chão da biblioteca e era aí que via a dama a …

O homem descarnado

Perdeu-se no deserto e apareceram miragens dele, primeiro era só um depois dezenas dele e centenas e milhares dele todos com a mesma cara e todo o corpo igual ao dele e aproximavam-se dele e rodeavam-no até taparem o sol. Afastavam-se todos em sintonia como uma orquestra desaparecendo em nuvens brancas e brilhantes, restavam o silêncio da noite gelada, das estrelas puras e da mansidão de dunas paradas e de horizontes invisíveis, era à noite que tinha forças para rastejar, quem sabe alguém me descobre, no deserto passam caravanas de beduínos e berberes. Segundo sei o Atlas fica próximo mas não tenho a certeza por isso vou rastejando na noite à procura do Eden, ou de outro sítio onde possa viver, foi por isso que me meti nesta aventura, vim procurar o Eden fora de mim, todos os meus companheiros desistiram, vi os seus corpos enterrados com as bocas cheias de areia e os olhos em forma de cacto, e depois foram-se enterrando ainda mais, só um pé ficou de fora, arranquei-o e comi-o todo, ch…

Sílabas

(estava a arrumar a 'casa' e reencontrei este texto já com 4 anos, mas como continua a ser um dos meus favoritos, aqui vai uma 'reedição'. Hope you like it!)



Que mundo mesquinho. Estou farta de os aturar...

Sirvo-os à mesa, todos os dias, neste café de beira de estrada, farto de brutos e ‘meninas da vida’, de penduras, pelintras e pedintes, de cretinos, descrentes e credores em viagem. E cabe-me a mim, no meio deste inferno, aturar toda esta canalha. Dar-lhes de beber, de comer, e se eu os deixasse, de f.....

Ninguém diz nada que valha a escuta, que preencha o vazio, que alegre o dia, que me eleve a alma, que me conforte a dor, que me faça sentir humana, pessoa, útil, amada! Nada, apenas a rudeza dos gestos e o lixo da palavra de rua, suja e bruta como todos são, do patrão à colega mais nova, da velha da caixa ao puto do posto de serviço, do miúdo que me olha para o decote com vergonha ao porco do Mercedes que devora o rabo com os olhos e saliva nos cantos da boca.

Dona Morte

O mundo está cheio de sonâmbulos.
Sim, isso mesmo!
É que são tantos semiconsciente andando por aí, não é brincadeira.
E o pior é que eles pensam que estão acordados.
A quantidade de gente hipnotizada é enorme.
É gente que não pensa e apenas gravita em torno das percepções limitadas que os seus sentidos físicos lhes proporcionam.
E isso é um problema, pois, quando a Dona Morte chega e bate...ficam perdidos nas brumas de seus condicionamentos e limites.
A Dona Morte não é brincadeira, não!
Quem vive na carne, que se cuide.
Viver não é só comer, beber, dormir, amar, e um dia, finalmente, morrer...
Viver é muito mais e não cabe numa só vida.
E é triste só descobrir isso após a chegada da Dona Morte.
Despertar é preciso!
Quem está desperto (e esperto), valoriza a consciência limpa.
E a velha senhora dizia isto de uma forma clara e doce...nunca mais a vi nem ouvi...
Penso nela muitas vezes, principalmente quando estou na minha varanda ao fim do dia
E as cerejeiras começam a dar flor.

Ap ne ia

Menina canta ao som das pancadas que sofreu no passado e daquelas que se anunciam à medida que a sua voz se espalha ao ritmo do fumo e assim menina desenha as notas musicais de tudo aquilo que não sabe ouvir e por isso espera que o medo a venha obrigar a fugir ou a permanecer naquele lugar que sonha e vê mas não parece real porque menina sabe que os olhos choram e rasgam a face sempre em direcção ao chão que não faz barulho à sua passagem mas mesmo assim menina quer tocar e sentir que tem cócegas nos pés plantados ao som das pancadas que sofreu num futuro que fez o fumo desaparecer e deixar menina sem ritmo suficiente para fugir e por isso tem de permanecer naquele lugar que fala e lhe segreda ao nariz que neste momento não tem fôlego para continuar a sonhar e por isso menina sorri amargurada ao mesmo tempo que sente o toque dos seus fios de cabelo a acariciarem a face cicatrizada pelo ácido ocular que dói que dói muito pelo que menina resolve pôr-se em pontas e olhar para as nuvens b…

Devia ser assim...

Os melhores curadores são discretos.
Eles calam o ego e deixam o coração fluir o amor sereno...
O toque de suas mãos é gentil e generoso.
Eles têm mãos de Luz!

Pelo alto de suas cabeças desce a sabedoria celeste.
Ao mesmo tempo, a vitalidade da terra beija seus pés.
Enquanto isso, as pétalas dos lótus dos seus corações abrem se...
E eles tornam se templos vivos da Luz que cura!

Não carregam posturas arrogantes; são simples e alegres.
Transitam pela existência sem julgar ninguém.
Eles são da Luz serena!

Eles são curadores, dos outros e de si mesmos.
Não se magoam com coisa alguma,são felizes.
Os seus actos são lúcidos!

Ah, esses curadores,belos e tranquilos, que fazem voos na luz!
São estrelas na carne, agindo em nome do Alto.
Muitas vezes, quietinhos, eles abraçam a humanidade.
Eles nada esperam, só abraçam a alma do mundo.

Eles estão no mundo igualmente com todos, mas há colunas de luz sobre os seus caminhos.
Muitas vezes, eles sentem a dor do mundo, em si mesmos.
Nesses momentos, eles se recolhem na pr…

Estranho(s)

É importante para mim
Que depois do dia venha a escuridão
Que a cegueira não nos tire a visão
Que o mundo seja feito de ilusão
Até que descubro por fim
No meio de tanta inquietação
É só mais um dia, enfim

É tão importante para mim
Compreender porque temos que viver
Arrumados em caixas, a enlouquecer
Presos a detalhes, sem nunca saber
Que tudo se dilui no dia de morrer
Entender porque me sinto assim
Tão ansioso por conhecer
O que causa o frenesim

É então que descubro, em mim
O estranho que sempre procurei
Mas que nunca encontrei
Até me encontrar, por fim
Um sentimento de infinita plenitude
Por reconhecer no estranho em ti
Outro igual a mim

na noite

A criança já dormia a sono solto mas o velho continuava junto à cabeceira dela.
A história não tinha acabado; raramente chegava ao fim porque ela adormecia durante.
Já não se lembrava de si na sua meninice, não se recordava se o mais importante eram as histórias que ouvia ou se a voz e presença de quem lhas contava. O dar a mão era fundamental. Sim, disso lembrava-se.
Também ela entrelaçava os dedos nos seus e iam perdendo força à medida que o sono vinha. Até que a mão ficava ali, perdida na sua.
O silêncio do quarto apenas era interrompido pela respiração suave mas profunda dela. Nesse sono, nessa respiração e no abandono à sua presença a criança respondia àquilo que o velho nunca lhe tinha dito porque não era necessário: dorme. Estarei cá e vigiar-te-ei o sono.

Quantas vezes as mais belas coisas são aquelas que não precisam ser ditas?

Fica aqui

Que sorte a minha ter te aqui na minha frente.
Enquanto teus olhos percorrem estas linhas e palavras, eu consigo sentir os ruídos do teu coração e do seu corpo.
O coração ameaça sangrar de tantas dores que traz, mas o teu corpo abranda este sofrimento quando ouve a voz... dizendo palavras de coragem e fé.
Este é um raro momento... evita olhar para os lados,Fica aqui...

Tu és uma alma bela! O Universo fez os contornos do seu corpo com mãos de luz...
O teu semblante foi esculpido num singular momento de prazer de duas pessoas que se amaram naquele instante.
Sabes, tu és uma fruta deliciosa que a vida guarda no pomar da terra.
E há muitas criaturas e seres da natureza que se deliciam com teu cheiro e sabor.
Os que passam pela tua vida são como abelhas que pousam na tua alma, bebendo o que há de melhor no teu ser...
Não! Em hipótese alguma, te sintas seca, consumida.

E se algum dia, as lágrimas forem o teu único instrumento, deixa as cair no peito e rega o teu coração para que nele nasçam novas s…

Janela das três e onze

Aquilo que se sente quando… a olhar pela janela, sei que vai acontecer. Fixo as linhas brancas da passadeira e imagino palavras, palavras e palavras, que sabem porque saem, mas estão totalmente vazias de texto. Sabem que são palavras mas não sabem como conseguiram juntar as letras. Sabem que dia é hoje mas já se perderam no passado que futuramente vai trazer mais palavras que nem sabiam que existiam. Depois de atravessar a rua chego ao passeio e este é outra longa linha onde desfilam mais palavras, de mãos dadas, ou com o peso dos sacos das compras, ou ainda de mochila às costas. Mas as minhas preferidas são aquelas que vêm a mascar pastilha elástica e a fazerem balões de dióxido de carbono com letras misturadas. Quando esses balões rebentam, milhares de palavras são formadas com as letras que se soltam. Sustenho a respiração. Volto para trás. Entro em casa e regresso à janela. Imagino sons, sons e sons, que sabem porque saem, mas estão totalmente vazios de música e de… palavras. Nest…

Artesanato

“Pára quieta com a mão! Menina insolente… assim não consigo cortar a direito. Pronto, já está. Dez dedinhos. Toma cão, já tens jantar para hoje.
Raios! Pára de me berrar aos ouvidos… bela medricas me saíste. Já aqui estive melhores do que tu.”

Na cabana, ao fundo do bosque, vive ele, o homem que tem como forma de vida a arte da morte. Não uma morte pelo simples prazer de ser morte, mas uma morte que tem sempre um propósito. Chama-lhe morte útil, e para ele é uma simples forma de expressão.

Ata uma corda à volta dos tornozelos e deixa-a pendurada de cabeça para baixo. Dez canais jorram para o chão até que ficam só a conta gotas. Chão vermelho, a chão vermelho escuro, a simples nódoa… Corta a corda com um só golpe e ela cai. Ouve-se um estalar e ele pensa “raios, é mesmo frágil, já partiu o pescoço, que má caçada, nem luta deu.”
Arranca os olhos das órbitas, nunca gostou de sentir olhares fixos nele, nem mesmo daqueles que davam tudo para nunca ter tido o azar de olhar para ele. Litros de …

A Rapariga que não sangrava... (Parte IV de IV)

Cena 4 (final). Outono.


“Apanha-me se puderes
Faz como o gato matreiro
Esconde-te atrás da árvore mais alta
E quando eu passar…. Salta!
Vira vira, não me apanhas
Eu sou gato e tu és cão
Tu polícia e eu ladrão”

As crianças brincam com alegria à apanhada, entoando rimas antigas que desde cedo as ajudam a compreender o quão complexa é a teia que a todos nos prende. Vivas, de olhos cintilantes, saltitando nas poças rasas que se espalham pela grande praça da cidade. O céu está fabuloso, como se o Sol tivesse explodido em chamas, com imensas labaredas espraiadas por entre os véus da manhã. Por todo o lado a luz, clara e fria, como são as manhãs de outono na cidade. Mas como será no resto do mundo?...

Para além das poças onde a alegria se passeia sob a forma de pequenos e esvoaçantes corpos infantis, há um muro enorme que se levanta, estampado na face dura e vazia dos habitantes da cidade. Há muito que a esperança e alegria se desvaneceu, foi-se apagando, tal como o brilho da velha estátua q…

A rapariga que não sangrava

Paradoxalmente, começou com o anúncio final. Inexplicáveis corpos celestes em rota de colisão com a Terra, um planeta a preparar-se para morrer. E realmente alguns embateram e muitas vidas ficaram por viver, mas a maior parte das rochas vermelhas ficou suspensa na atmosfera, pairando, contrariando as leis da física. As pedras, afinal organismos vivos, torturadas pelo cheiro do medo e pelo silêncio da dor e do arrependimento, tinham-se condoído com as súplicas. E, quais divindades, por lá ficaram a escutar o nosso sentir mais íntimo e a interferir nos nossos destinos.E, debaixo daquele céu coberto de ilhas escarlate filtrando suavemente a luz do Sol, calaram-se os cientistas e levantaram-se os profetas. As rochas tornaram-se um símbolo de redenção e uma nova doutrina nasceu. Os sábios de ocasião, únicos capazes de ouvir o cântico das pedras, ordenavam que o tempo parasse e decretavam o fim da mudança, da evolução, da revolução, do devir... Perante a crença colectiva no presente perp…

A Rapariga que não sangrava... (Parte III de IV)

Cena 3. Verão


Lucia era uma menina vulgar, uma entre tantas, centenas, que vagueavam pela cidade negra, entre mourisqueiros e bugios, crentes e gentios, uma chama entre sombras, uma sombra entre homens que a ignoravam, invisível, indizível, insensível a todo o fel que escorria dos muros da cidade e onde, em azáfama e frenesim, os insectos se banhavam e alimentavam.

Mas da lama do mais fétido pântano podem nascer flores belas e luminosas, com perfumes doces e nunca antes apreciados. Assim era Lucia, doce, luminosa, bela, a vaguear pelo mundo fétido dos homens ignorantes, invisíveis e insensíveis. E foi numa noite de Verão que esta flor exalou o mais cândido aroma que aquela cidade alguma vez iria sentir, ao derramar sobre nós todo o que de precioso pulsava em seu coração.

Entre os anciãos, há muito que se falava da lenda da ‘menina da luz’, um ente que um dia viria dos céus para nos salvar a todos e mostrar o caminho para um admirável mundo onde não haveria mais medo, pestilência, fome…

A Rapariga que não sangrava... (Parte II de IV)

Cena 2. Primavera


Houve tempos em que me era fácil escrever-lhe cartas de amor, tempos de inocência e paixão pueril, tempos de sonho e fantasia romântica, tempos em que eu ainda não sabia o que era realmente o amor.

Lá estava ela, perfeita e inatingível, a cidade a seus pés. Lucia era a inspiração dos fracos e inocentes que se ajoelhavam perante ela em suplício, arrastando-se até ela, só para lhe tocar nos pés, pois não ousavam sequer sonhar em estar mais além do que isso, ao nível dos seus pés, dos passos que estes simbolizavam, da memória que estes tinham arrastado atrás de cada passo marcado, vincado na memória que perante aqueles pés se estendia, fria e escura como uma manhã precoce de Primavera, ainda por vestir de Sol e flores. E a seus pés, rezavam que ela os abençoasse, lhes concedesse uma palavra de mérito perante o guardião dos céus, lhes aprouvesse bonança e expectativas de bons augúrios para os dias que haverão de chegar, tal como chegam as andorinhas nesta altura e com el…

Deixem sangrar

E vinham multidões de todo o lado para ouvir a profeta a rapariga que não sangrava.

E ela falava do que estava por vir e na dor tormentosa que lhe ia no coração e no seu corpo seco.

- Não será um penso a tapar uma ferida mas uma pálpebra que protege os olhos.

-Vocês não querem ver porque aquilo que vos existe de infinito habita no castelo celeste , cuja porta é bruma da manhã e cujas janelas são canções e os silêncios da noite.

-E cantaremos uma canção e se o meu coração seco se encontrar noutro sonho construiremos uma torre até ao infinito .

- Agradeço ,a alma irmã
-Fazendo -me canal mesmo singelo
-De assistência e alivio aos semelhantes!
-Por tudo o que me foi tirado
-Por tudo o que me foi dado
-Repito-te no amor que a palavra não diz:
-Deixem -me sangrar...

E quando ficava sozinha sobre si mesma apenas num instante de repouso sobre o vento...

Pedia, leva -me faz me sangrar

E outra mulher me dará a Luz....