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A mostrar mensagens de Agosto, 2010

O condomínio

É um simples prédio de subúrbio. Sem cor, sem varandas, sem elevador e sem porteira. Vulgar. Dois andares, paredes texturadas da Robbialac, espadas de são jorge em vasos de plástico e escadaria ladrilhada que todas as terças-feiras tresanda a limpeza e amónia. Igualmente comum é o hábito que os residentes têm de pendurar placas de barro vermelho com provérbios na sua porta exterior. Estas jóias da sabedoria popular em suporte argiloso, colocadas um pouco acima do óculo da porta acabam por ter a mesma função que o dito, mas de forma invertida. Com a lente vê-se de dentro para fora, com a placa vislumbra-se algo de fora para dentro. No rés-do-chão esquerdo do “Grão a grão enche a galinha o papo” mora a Dona Maria. A placa foi comprada há cinco anos em Porches quando, nas bodas de prata, finalmente conseguiu convencer o esposo a passar férias no Algarve em vez de ir à terra. A festa durou quatro dias, até que as saudades dos caracóis no café da igreja falaram mais alto. Foi nessa altura qu…

Grandes Músicos

Desafio: Brinca Comigo

Carissim@s,
Para aqueles que gostam de um bom leitmotif para concretizar em bits e bytes esses sonhos, imagens e contos que por ai vão dentro, aqui fica um desafio:
- Criem um texto (conto, poema...) que terá que ser apresentado obrigatoriamente em 2 partes com o seguinte título:
BRINCA COMIGO
NOTA: a razão para ser um desafio a duas partes é para que possa ir aparecendo material antes do fim do prazo! Assim, vamos lendo as partes I...

Tem até dia 11 de Setembro (parece-me uma bela data). A partir dessa data será lançado um pequeno 'concurso' no grupo 'mãe' da Alone in the Dark - A Radio Project, para determinar qual a versão preferida dos nossos 'ouvintes'.

Quem alinha?
Saudações AitDianas D.U.

O toque

Lembras-te do clique que o interruptor da luz fazia quando chegavas a casa e eu estava sentada no chão, encostada ao sofá? Ansiava por aquele som o dia todo. Estava de tal forma memorizado na minha cabeça que às vezes pensava que o ouvia mesmo sem ele existir. O meu coração disparava e os meus olhos voltavam-se repentinamente para a porta da sala. Depois sentia como que uma onda de frio a cobrir-me o coração quando via que os teus dedos ainda não estavam a tocar no interruptor. Voltava a encostar a minha cabeça aos joelhos e adormecia. Mas sabia que mais cedo ou mais tarde tu virias, era só uma questão de tempo. Sempre gostei dos teus olhos, acho que foram eles que me obrigaram a querer conhecer-te. Ainda me lembro do dia em que eles olharam para mim pela primeira vez, tão doces, tão calmos, tão felizes. Consigo sorrir só de pensar nisso. E o toque das tuas mão? Do teu corpo? Ganhava forças cada vez que te sentia, era capaz de enfrentar o mundo só porque sabia que teria sempre um abra…

Eu vejo-te...

Escondido
Seguro que ninguém te vê
Para além do reflexo pálido do luar
Soturno
Nocturno
Mas nunca ausente

Encriptado
Entre senhas e enigmas
Uma serpente entre rimas
Perplexo
Sem nexo
Mas sempre diferente

Eu vejo-te, irmão
Na tua sombra, a minha luz
No teu respirar, o meu sufoco
Na tua teia, liberto
Sem querer
Sem sofrer
E no entanto, sem nunca te ver

Encontro-me em ti
Nas pausas entre linhas

Eu
Sei
Tudo o que se oculta
Nesse ninho de ilusões auto infligidas

Eu vejo-te...
Não me escapas mais por entre os dedos
Porque agora, apanhei-te!

Tu e eu
Esta noite
Ajustamos contas

E pela manhã, mais ninguém nos verá

Jamais!

Palavra

Porque talvez eu saiba que aqui dentro existe uma agressividade ferrenha e uma língua felina querendo sair.
Talvez exista alguém que pense demais, que sinta demais, que doa demais e que quer jogar isso tudo em cima de alguém pra ver se pára de doer.
As feridas profundas, mágoas, fivelas fechadas, faixas que circulam e que querem só ser libertadas.

Não sei falar de pouco. Sou pessoa de muito! E talvez tenha optado em algum momento, pelo silêncio.
O silêncio que não cura a minha dor de garganta. Um silêncio auto-imposto e auto-impostor. Um silêncio que me mata aos poucos, e que não faz questão nenhuma de falar. Sim, tenho medo da reacção das pessoas. Tenho medo de expor coisas que são tão minhas que doem em sair.
Falar é como um parto, dorido, sangrento, cheio de gritos de horror. Palavras mal ditas (e deve ser daí que vem o termo maldição) são veneno puro. E claro que todos nós dizemos coisas das quais nos arrependemos e, principalmente, pensamos coisas das quais nos arrependemos. Não q…

Selecção

Sem saber se seria suicídio sério, Simão sentava-se sozinho. Silenciosamente saboreava seis sorrisos singelos sem sofrer saudades. Simplesmente sentia sombras sedentes sob si, sentia sóis salgados, sentia sonhos salpicados sem siso, sentia sujidade solta, sentia sono sufocante, sempre sem saber se seria sério.
“Salta, Simão” segredava-lhe Satanás. “Salta, sofredor!”
Setecentos séculos sacrificados sem sentido. Sozinho, sempre sozinho, Simão sofria, sangrava… saqueava sementes sem ser, sem salvação, sem sanidade.
Semana sim, semana sim, Simão sentava-se. Semana sim, semana sim, Satanás seringava-lhe sílabas sombrias. Simão suportava, sempre suportou.
Sem saber se seria sério, Simão suplicou segundos seguidos “Serei salvo, sim, serei salvo, sentirei sonhos sorridentes, sentidos sem sombras sinistras”
Subitamente, sem sagração, sob sobrolho, soou sibilo selvagem. Satanás sorriu.
Sábado sempre saiu saimento. Setecentos séculos secos, senis, sedimentados, saqueados, sepultados…
Setecentos séculos…

Ruínas

Há anos que tinha isto na cabeça. Apresento-o agora, em primeira mão, «aqui». Obrigado Nuno pelo repto.

Nota:
A quem ler isto…
Se quiseres mesmo entender o texto que se segue, ouve primeiro esta música soberba de Rodrigo Leão e deixa-te enlevar por ela.
http://www.youtube.com/watch?v=5B4Lw58Tx-o

O texto tem vários significados para mim e duas dedicatórias… a primeira, óbvia, ao talentoso Rodrigo L., e a outra verás no fim.

Agora sim, convido-te a ler o texto (se puderes fá-lo em voz alta), novamente ao som de "Ruínas" e, por favor, tenta seguir o ritmo e os tempos da música.
Só assim o poema poderá, eventualmente, fazer algum sentido.

Ficarei atento às tuas críticas que desde já agradeço!




Ruínas


Tu que estás aqui comigo
e eu que estou aqui contigo
gostaria de saber o que dizer
só p'ra te ver sorrir.

Tu que estás aqui sozinho
e eu que estou aqui sozinho
gostaria de dizer o quanto
tu significas p'ra mim.


Sim, eu tudo irei tentar
mesmo se parecer vacilar.
Sim, eu vou ter que lutar
e não vo…

O Louco

O louco fugiu do paraíso
por saber que dele precisam
no mundo das grandes ilusões
onde os destinos se cumprem
(mas raramente se realizam)
e os ignorantes se nutrem
(mas comodamente se escondem)
em fervilhantes multidões.
O louco fugiu do paraíso
para oferecer o seu sorriso
por saber que é preciso
mesmo por entre o pior
porque homem algum é Homem
se não deixar o mundo, melhor!
O louco fugiu do paraíso…
Por isso não evita as lágrimas
nem menospreza os sentimentos
por isso faz delas os seus escritos
com entrega em todos os momentos
pelo prazer de dar e de servir.
E nas páginas que de si sangra
revela as forças que nos movem
(numa onda que só ele vê a chegar)
transforma o caos em ordem
(sabendo que a verá triunfar)
e então desvela-nos o seu amor!
O louco fugiu do paraíso
para enfrentar o nosso inferno
com a singeleza de um sorriso
e a coragem de afirmar o Eterno!

Ventos de esperança

De tanto ouvir falar do mestre,resolvi procura-lo.

Primeiro, disseram-me que ele estava em um determinado templo, fazendo ablações. No entanto, não o encontrei por lá.
Na soleira do templo, alguém me disse:Ele está no Astral de África, ajudando invisivelmente as crianças daquele continente tão sofrido.
Noutro momento, fui informado de que ele estava participando de uma assembleia com um grupo, no Astral da Índia. Fui até lá, mas ele já se tinha ido embora.
Um dos sábios me disse:Ele foi ajudar um espírito a desprender se da matéria e a realizar sua passagem final, rumo aos sítios espirituais do Eterno.
Posteriormente, alguém me disse que ele estava no Astral do Brasil, visitando um discípulo. Rapidamente, desloquei-me para o grande país ensolarado e cheio de esperança; contudo, só encontrei o seu discípulo, que, aproveitando-se dos momentos de descanso físico, projectara-se para fora de seu corpo e flutuava nas correntes energéticas extra físicas.
Sorridente, ele cumprimentou me e disse: Ol…

de Costura

Máquina
Que pára
Ao ponto
Redondo
Perfura
A agulha
Um sinal
Sem cura.

Máquina
Que anda
À linha Recta
Prende Bainha
À Vida
Encoberta.
Máquina
Que sofre
Ao lado
De mim
Motor
Que gira
Numa carretilha
Sem fim.
Máquina
Que sabe
Ao nascer
Sorrir
Quer
Parecer
Para nunca
Iludir
Máquina
Que escuta
O pedal
De metal
Cortou
Estancou
E por fim Assentou… ...uma mortalha.

Salvamos. Não importa o preço.

O velho abriu a porta do quarto e lentamente caminhou até ao leito onde ela dormia.
A criança estava agitada; o seu sono era povoado por um qualquer pesadelo infantil.
O velho sentou-se na borda da cama. Ergueu a sua mão trémula e num movimento vagaroso passou-a pela cabeça e rosto da menina.
A pele rugosa sorveu o mal que a atormentava. A partir desse instante o sono dela foi tranquilo.

O velho levantou-se e a andar penosamente conseguiu passar a porta. Depois, sentiu o coração ceder. Encostou-se à parede e deslizou… até parar, sentado no chão, a cabeça pendente.
Aí ficou.

Viagem encantada

Ah, como queria ser um poeta, ou quem sabe um escritor, um iluminado... uma pessoa sensível, leve, livre, um sábio a navegar pelos maravilhosos planos subtis da Criação, para buscar e desfrutar somente o belo, o verdadeiro, a essência e o sentido da vida... com certeza, saberia agora como colocar por palavras tudo o que me foi permitido observar, perceber bem além dos sentidos, com a Alma.
No entanto, devo assumir o fato de que nesse campo sou apenas um humilde servidor da Luz, cheio de boas intenções, porém, ainda limitado na comunicação, com aqueles nos acompanham, amparam e inspiram.

Os roteiros da viagem são tantos... As poucas instruções sugerem deixar para trás quase tudo que nos limita, que separa... começando pelo nome, profissão, cor, raça, nacionalidade, género e, por fim, boa parte dos conceitos e aprendizado que nos foram ministrados desde a mais tenra idade. Precisamos mesmo é voltar a ser criança, livre, curiosa, alegre e feliz. É bom nos esvaziarmos totalmente, para deixa…

A importância da dualidade

Imagem
Há muito tempo atrás... Surgem dois seres opostos, sendo eles pouco definidos energeticamente. Começaram por comunicar numa linguagem que era só deles. No ínicio, daquilo que parecia ser um diálogo, surgiram muitas discórdias e conflitos. Certo dia, dá-se um fenómeno, como que o desencadear de uma enorme tempestade, com raios e relâmpagos. A energia da escuridão, que teimosamente vibrava negativamente, sentiu-se perder no seu ser e toda essa tempestade despoletou em si reactividade ao medo, ódio e raiva. A Luz que vibravana sua energia mais pura e divina, sentiu toda a dor e angústia que o seu irmão dual emanava. Chorou e despertou uma nova emoção no planeta. Foi um desbloquear de emoções de dois opostos que se atrairam e que através das suas diferenças, ambos contribuiram para a sua Cura. Deu-se a fusão e um enorme despertar que se transformou numa infinita chuva de estrelas, através do Universo Cósmico. Assim, esta importante União, através da Compaixão, Amor Incondicional, aceitaçã…

O remo

Tenho tudo tão apertado cá dentro. Abro os olhos e com uma certa mágoa levanto-me. Eles ainda ardem, mas mesmo assim olho para o horizonte e penso que nunca vou chegar a ele. Começo a andar à beira-mar. De repente oiço o meu nome a ser chamado e volto-me para trás. O corpo continua onde estava e com um sorriso irónico diz-me “cobarde”.
Só quando a espuma da onda chegou à ponta dos meus dedos é que reparei que…
Lembro-me do toque suave das tuas mãos e apetece-me agarrar a onda como se por segundos pudesse entrelaçar os meus dedos nos teus.
É que reparei que... continuo sempre no mesmo sítio. Por mais que ande, tenho sempre o corpo preso, à beira-mar, àquela areia e a suplicar por algo que quero, mas nem para isso tenho coragem. Nunca vou chegar a ele.

“Cobarde”

Cala-te!

“Que linda falua,
que lá vem, lá vem.
é uma falua que vem de Belém…”

Não há faluas em alto mar. Cala-te, cala-te!

“Eu peço ao Senhor Barqueiro
que me deixe passar,
tenho filhos pequeninos
não os posso sustentar…”

Não os posso sustent…

Aberratio Rei

O que importa hoje, nesta segunda-feira perdida no começo de Agosto?
O que vai cá dentro, lá fora, no mundo, nas gentes, noutros terrenos que nem conhecemos o nome? Sabemos alguma coisa do que realmente se passa? Sim. Há homens e mulheres de um e de outro lado.Figuras. Homens e mulheres que de repente não têm identidade, não têm vida. Que de repente são só um número. O número setecentos e quarenta e oito, por exemplo. Que não conta para nada. É apenas uma série de algarismos sem sentimento. Ou as suas sombras. O escuro que escorre do tempo quente. Se nos toca? Não.Entretém. Como os tigres, os furacões, ou os explosivos. Para que servem as notícias? Essa procura desenfreada de franjas do alheio? De vítimas, de epidemias, de coisas más. De medos. De testemunhas oculares. Tragédias e loucuras várias...Digam-me o que é importante? O que importa nos noticiários, ou na pessoa aí ao lado que não pára de respirar? Digam-me, gostava de saber.
Lembro-me dos anos ingénuos em que trabalhei nos trib…

Lamentos

Sim, a consciência espiritual é imortal.
Que arma do mundo poderia ferir o espírito?
O fogo não pode queimá-lo, e nem a água pode molhá-lo.
O corpo pode cair e desfazer se no seio da terra...
Mas a entidade espiritual é pura Luz e é eterna.
Por isso, não te lamentes...

Nenhuma tumba pode conter o Ser real, que é do Céu.
Se o corpo desce de volta à terra, o espírito ascende às estrelas.
O teu lugar não é de baixo de sete palmos de terra.
Nada disso. O teu lugar é lá em cima, no reino celeste.

Não te lamentes...
Porque a vida segue...
Encontros e desencontros acontecem.
Chegadas e partidas também.
E tudo isso faz parte do jogo de viver.
E segue em frente... Sempre a aprender
Ah, chega de choro e de dor!
Limpa o coração do luto e resgata a sua Luz.
O que passou, passou.
Todo dia é chance de recomeço, para aprender e crescer.


Ah, não te lamentes...
Porque as estrelas brilham lá em cima...
E elas nada têm a ver com luto e túmulos cinzentos.
Como falar de visitar os mortos, se nada morre?
Que sentimento estranho é…

Fogo t'abrasse

Isto começou à meia noite numa cidade barulhenta e suja, com casas de pilares em decadência misturadas com campos de ervas sem nome de socalcos traiçoeiros, e hastes de bambu ultrapassando a altura de um homem.
Nunca soube o nome da cidade ou a etnia do seu povo, nem recordo as suas feições, excepto três.
Andava à deriva quando elas me apareceram. O que faz aqui? Não sei ,nem sei porque estou aqui. Estamos de férias, disse a mais velha, este é o lugar ideal para usar sabão de alcatrão e tirar o fedor dos sovacos. E riu-se. A mais nova disse eu quero goma de macaxera branca, por causa da sífilis, e riu-se perdidamente.
A mãe estava vestida a rigor, com um comprido vestido vermelho com lantejoulas e uma coroa de diamantes na cabeça loira. A mais nova e que também era loira, vestia um comprido casaco. É de marta, sabes? Toquei nas costas, senti a suavidade do animal.
Queres ir connosco à tasca? Aqui só há tascas, deves saber. Sorriu-me ironicamente. Anda, é lá que ele te espera , tens que vi…

A Grande Devoradora: A Morte da Inocência em 4 actos (Acto IV)

Acto IV: Paraíso Perdido




Avançamos hesitantes. Arrastamos connosco as feridas de guerra que, para sempre, nos marcarão quem verdadeiramente somos, soldados ou generais, todos fazemos parte do rol de testemunhas que um dia assistirá ao derradeiro sonho do Homem. E porque sonhamos, sabemos, sabemos que a obra ficará incompleta, que pelo caminho deixaremos estilhaços de esperanças inférteis que nada irão gerar a não ser um enorme manto branco vazio de significância ou actos de glória. Não há glória no inferno colectivo em que optámos viver, não há plenitude da alma quando se soçobra por entre mentiras e a pequena mesquinhez do quotidiano, não há êxtase maior quando a exultação é a do prazer menor do momento, da oportunidade, da violência exalada pelos poros de uma sociedade doente, decadente, diferente daquilo que foi o sonho das eras distantes, quando a Terra foi semeada por deuses e astronautas, qual Jardim do Éden, decorado de fantasia e benevolência, uma esfera azul e verde a pairar …

A Grande Devoradora: A Morte da Inocência em 4 actos (Acto III)

Acto III: Sangue




Sentados numa laje de granito, a contemplar o rio selvagem a correr adestrado entre meandros, lá em baixo, por entre o vale encaixado entre vertentes íngremes, memórias verticais de uma Terra ancestral, de dias distantes, algures nas memórias varridas pelo tempo, eras antes de Adão ter perdido a sua divindade e de Eva ter aprendido a domar a serpente com o seu corpo de êxtase…


Sentados, encaixados entre braços e pernas, ele protege-a dos monstros deste mundo e dos outros que se escondem para lá das sombras, cobre-a com o seu corpo e envolve-a entre sonhos e murmúrios. Ela responde, inspira profundamente e deixa-se cair pura e inocente no enleio onírico de quem se apaixona e se deixa adormecer. O dia segue manso, entre brisas tépidas que agitam as cerejeiras bravas e os pinheiros, cheira a campo, aquele campo frutuoso, prenhe de vida, cor e zumbidos, aquele campo imenso e silvestre que se estende por entre fragas e pequenos prados floridos e veredas de riachos sibilant…

Amando o Caído

Deixo sempre as coisas chegarem até a mim de forma natural. Mas é no contacto espiritual íntimo que vêm as informações mais profundas como esta que compartilho agora.

Ele traz no pescoço uma cobra enrolada, segura na mão direita um tridente e está sentado sobre um tigre. Tudo muito forte e muito vivo.

Num diálogo mental, ele perguntou me :
"Tu tens medo?"
Sem pensar respondo que não. Completo dizendo que tenho amor.

Em seguida, ele mostra me que a sua pele é azul porque bebeu o veneno do mundo; então, aparecem as feras lutando num patamar abaixo da montanha. Homens caçando leões e tigres, seres sendo devorados, Ele explica me que essas energias representam o nosso ódio, raiva, luxúria, ganância. Energias que estão misturadas no homem.

Subitamente, tudo se transforma em luz e vejo um oito luminoso e dele surgir a nossa galáxia. Neste momento, assisto ao alinhamento planetário que está acontecendo agora. Ele mostra-me a Terra recebendo essas influências e, de repente, sou tra…

A Grande Devoradora: A Morte da Inocência em 4 actos (Acto II)

Acto II: A Aurora Branca



Perante o universo, nus
Pois nada nos cobre a não ser a fraca carne
A armadura ficou lá em baixo, esquecida
Por entre pedras e poeira dos dias do passado
Por entre o sopro que já não se sente
Do frio vento de leste, da memória
De dias obnubilados, entre ruínas
Da cidade que se afunda no horizonte
Onde nos perdemos para não mais sermos achados

Perante o espelho, a sós
Reparamos nos olhos que olham através de nós
Tememos o estranho que nos assoma, distante
Errante, por entre os gélidos cristais de vidro
Absorto, no reflexo dos labirintos onde perdemos a nossa inocência
Sem consciência, iludidos com o fluxo e refluxo
Da maré que leva os nossos sonhos de infância para o oceano
Onde para sempre perdurarão
Se perderão
Na eterna e infindável espiral quebrada

Perante esta manhã, esquecida
Vejo a aurora chegar, completamente branca
Cegos, admiramos os céus antes azuis
O mundo que era preenchido de formas e cores
É agora branco absoluto
Pois nada é mais assustador que …

Encontros com a fada verde

"Por momentos à sombra de árvores e a desenhar os recortes dançantes que as folhas fazem no chão, com o meu dedo indicador. O meio-dia dos plátanos projetado na relva que cheira a corte e rega recentes. Descalço-me para senti-la e aos seus microscópicos dedos frescos de clorofila nas plantas dos pés, de onde imagino raízes a crescerem para baixo e a entranharem-se na terra, todo o meu corpo a entranhar-se na terra, os meus novos amigos de cem patas e sem patas a chamarem-me, os torrões fofos da minha nova cama.


Não devia ter saudado a fada verde na chegada à festa. Ela tem sempre uma queda para o declive, para abismos de rochas aguçadas, leva-te pela mão e lança-te: “Voa agora”! Boa… assim é fácil. Tu tens asas, não é verdade?... Mas hoje disse-lhe: “Não, ficamos aqui a desenhar recortes na relva, lençóis de sombras chinesas para a nossa cama.” Ela concordou, parece. Não tem jeito para o desenho mas tem jeito para dançar. É ela que faz as folhas do velho plátano valsar lá em cima.…

A Grande Devoradora: A Morte da Inocência em 4 actos

Acto I: A Guerra


Há uma guerra a decorrer dentro de cada um de nós. É filha do medo e da ganância, foi gerada no seio da confusão, enquanto esta era violentamente penetrada pelo horror e a mesquinhez. Esta guerra não tem fim, vive e prospera nos corações corruptos, banqueteia-se dos pensamentos de engano e traição, da estultícia, enrola-se connosco em sevícias decadentes, na busca da vã promessa de compensação orgástica. Nos meandros dos nossos pesadelos, esta guerra ganha força, empurra-nos para o abismo das nossas paixões e embala-nos na cantilena da mãe, suaves e ignorantes, adormecidos entre estilhaços de nós próprios, fragmentados pelo devir infinito que nos leva a construir os nossos próprios abismos, os nossos sarcófagos de pedra, enterrados vivos entre o clamor da batalha que se trava na nossa mente, alma e coração. Sim, esta guerra não tem limites, não conhece tréguas e jamais poupa os vencidos. Nesta guerra só há vencidos, derrotados, generais depostos dos seus cargos vazio…