domingo, 31 de outubro de 2010

Felizes na Terra



Na natureza, nada se perde, verdade?
Tudo se transforma... Inclusive, as pessoas.
Então, essa é a esperança da Companhia do Amor.
Que torce para que os tolos se transformem em sábios.
E que as trevas de muitos se transformem em poemas luminosos.
E que a mão que hoje bate, passe a curar...
E que o Amor se faça em todos os corações.
Porque tem alguém que nos ama, muito mais do que imaginamos.
E Ele ri junto connosco... E sabe tudo o que somos e pensamos.
Sim, está, sempre presente...
E é por Ele que escrevemos sobre as coisas do coração.
E também sobre a imortalidade da consciência.
E vamos continuar... Bem do nosso jeito, com toques de primeira.
Porque ele pediu para nos descer mos a lenha na morte.
E, como tudo se transforma, vamos transformar o luto em luz.
E que assim seja! Pela Vida. Pelo Amor. Pela Alegria.
E por ele. Porque Ele é alguém que nos ama!
É... Tudo se transforma, inclusive nos.
Mestre?
E quem não é mestre de si mesmo, também não será dos outros.
Porque quem não faz o que fala, não está com nada
Mas, quem ri do próprio ridículo, já começou seu mestrado...

Hoje és minha (um 'miminho de Halloween')

Hoje és minha



Podes aninhar-te no sofá e esperar
Podes beber um chá quente e suspirar
Mas nada te irá salvar
Nada me poderá parar
Porque hoje és minha

E se conseguires fechar os olhos
Suspender a respiração por um segundo
Tentar desaparecer dentro do teu mundo
Não vai resultar
Não poderás escapar
Porque hoje és minha

Então, concentra-te
Prepara-te
E deixa fluir
Não tens que fugir
Não tens porque resistir
Porque hoje és minha

E se um sorriso te escapar
E entre tremores te sentires
A desfazer como neve
E num momento tão breve
Aceitares
Redescobrires
Aquilo que sempre soubeste
Dentro de ti
Aceitarás o que temos
Saberás como só nós sabemos
Porque hoje és minha

Entre a dor e o prazer
Saberás escolher
Com autoridade
Dominar
A energia que entre nós flui
Quando no espelho me reconheceres
No brilho do teu olhar
Eu, o teu par
Dentro de ti, eternamente
Almas gémeas inseparáveis
Voltarás para o teu quarto
De novo juntos na tua cama
Amantes em dual possessão
Duas almas num só corpo de deleite
Porque esta noite
Como em todas as outras
Tu és minha

Para todo o sempre…

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Dia Mundial da Criança (que há em nós)


Levantou-se cedo apesar do cansaço.

Há que ignorar forças que nos tolhem os movimentos e pensar que é a preguiça.
Hoje , neste dia especial em que recebia mimos dos pais, independentemente da idade, resolveu partir numa viagem pela cidade, até à sua infância.

Trajecto longo. Mas a vontade de ficar no conforto dum espaço onde foi tão feliz, era mais forte que tudo.
Vestiu branco e preto, uma túnica marroquina e calças de linho. Sentiu-se bem a recuar no tempo.
Em que as maçãs eram o doce da ternura e as cerejas colhidas das árvores.
Em tons de rubor de pureza anunciada.

São Paulo. A Igreja onde fez a primeira comunhão. A porta do prédio onde cresceu.
O Elevador da Bica estava quase a partir, esperou por ela (sempre às voltas com a mala a abarrotar de inutilidades).
A emoção de tantas viagens. Os mesmos lugares sentados e em pé. A mesma velocidade .
O regresso ao passado.

A chegada do fim da viagem. Virar à esquerda de encontro ao Jardim do Alto de Santa Catarina. Agora com esplanada. Magnífica. Quantas tostas mistas...
Prefere encostar-se ao gradeamento (onde tantas vezes tentou passar o corpo para o lado de lá) e olha o Tejo.
Quantas imagens
ternas avista sobre os telhados da cidade.
Tantas andanças de triciclo, saltar à corda, jogar ao ringue.
Ecoam sons de gargalhadas, fresca, infantis, sem receio de serem escutadas.
Ouve-se a si própria a rir do joelho esfolado, quando rebolava na relva.
Nessa altura, o Adamastor era monstruosamente enorme e causava-lhe pesadelos.

A esplanada enche-se de jovens. Alguns idosos no bancos à sombra, no passeio.

Leva o livro de memórias, mas não consegue escrever.
Deslizam as lágrimas por juras de amor eterno. Naquele jardim.

Deslizam lágrimas de felicidade pelo que teve. E de tristeza do que não terá, apesar das promessas.
Sacode os pensamentos que se soltam nas lágrimas que os óculos escuros protegem de outros olhares.

O som da natureza impregna-se na alma remendada.
O corpo está firme. Antes tivesse o corpo retalhado e a alma inteira.

Mas há dias assim: em que a saudade bate e o dia ferve.

Demora o sentir naquele espaço, que sabe poder visitar quando lhe apetece.
Mas não é a mesma coisa sozinha. Tem vontade de visitar a creche-escola primária, mas não tem coragem. Tinha a promessa que a acompanhariam...

Escuta musica sem ouvir rádio.

Começa a descida pela Calçada que vai dar ao outro jardim da sua infância.
Passei-se com alguma rapidez. Muitas saudades para uma manhã.
Tem que regressar a casa. E libertar-se em palavras.
Apanha o eléctrico.

Não tirou fotografias.

Há momentos que se guardam com o coração; e para não doerem, não devem ser recordados com o olhar.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Estrela...Estrelinha...



Estrela, Estrelinha...
Que desceu na terra
Para cantar a Luz.

Estrela, Estrelinha...
Que voltou para casa, lá em cima,
Porque não era do mundo, era luz.

E, hoje,acordei lembrei-me de uma canção.
Uma das tuas...
E senti uma saudade doce, como um rio dentro de mim.

Sim, uma saudade com sabor de estrela.
E a visão de alguém cantando e dançando no Céu.
Uma saudade, Estrelinha.

E não questiono o que senti, porque sempre escuto o meu coração.
Assim como tu fazias .
E, hoje, além do meu pai, eu também me encanto com o teu canto.

Estrela, Estrelinha...
Algum Poder Maior me despertou no meio da madrugada.
Para escrever algo sobre ti - e alegrar o meu pai.

Daqui a pouco irá amanhecer...
E eu fico aqui pensando nos desígnios celestes.
E no quanto todos nós somos guiados invisivelmente.
Como pode um pequeno coração aguentar um Grande Amor?
Talvez, cantando e dançando. Ou, escrevendo e deixando ir...
E, assim, partilhando linhas secretas e invisíveis.
Quanto mais eu vejo o infinito, menor eu me sinto.
E, diante de tal grandeza, eu me encanto, agradeço, e oro.
E, enquanto a Estrelinha canta e dança no Céu, eu escrevo, aqui em baixo.
Porque, no Céu ou na Terra, é só o Amor que nos leva...

terça-feira, 26 de outubro de 2010

24, horas.




Por mais que tudo pareça igual,
Por mais que reconheça,
Apetecia-me voltar ao desconhecido.
Depois de ver o jardim,
De ver as horas a serem contadas nas folhas
Que movem-se em câmara lenta.
Depois de o chocolate derreter,
E ver uma colher a ir ao seu encontro,
“Queres um bocadinho?”
“Não, come tu.”
Apetecia-me mesmo voltar.
Irrita-me o facto de não conseguir voltar,
A chávena de café, o açúcar, o mexer…
As imagens dos grãos de café a serem triturados,
A serem colhidos,
A serem plantados,
A serem pó.
O livro na estante.
As folhas outra vez em câmara lenta,
E as letras a derreterem,
“Queres ler?”
“Não, lê tu.”
O som da madeira, o cheiro.
O risco do compasso.
O corte do formão.
O entalhar.
O relevo.
A mensagem.
A chuva que tem acidentes contra o vidro,
Que chora por isso, porque doeu, porque dói sempre.
O sol que teima em vir atrás e secar sem piedade a chuva.
Mas a marca da chuva é sempre mais teimosa,
“Já limpaste as janelas?”
“Não, limpa tu.”
O rodar perfeito da chave,
O conhecer de cor a fechadura,
Mas mesmo assim,
Sentir um arrepio de cada vez que a porta se abre,
Cada vez que os pés descalços pisam o tapete,
As cócegas,
O interruptor, a luz, o clique,
O sorriso, são horas de dormir,
Cheira a sonhos.
“Podes apagar a luz?”
“Não, apaga tu.”
O céu que embala,
As nuvens que desaparecem,
As estrelas que iniciam o turno,
O som das palavras,
Do silêncio que fica entre elas,
Do respirar que fica entre o silêncio,
Do pestanejar que fica ente o respirar,
Dos pensamentos que ficam entre o pestanejar,
Do sentir que fica entre os pensamentos,
Do doce que fica entre o sentir.
"Não dormes?"
"Não, dorme tu."

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O Regresso dos Heróis: Memórias de Batalhas Esquecidas, em 4 Actos

Quadro IV – Glória



Enquanto as maças adoçam ao sol do fim do Verão
Os sorrisos das crianças elevam-se por entre nuvens e brisas frescas
O cheiro a terra lavrada enche-nos de esperança e conforto
Algures, para além dos limites da nossa existência, existe algo maior


E lá, não haverá morte
Tu e eu poderemos deambular pelo parque da cidade
Longe do terror dos céus de metal
Para lá do alcance dos gritos de desespero
Para lá das balas, da lama das trincheiras, do meu sangue nas tuas mãos
Para lá do desespero de sobreviver, que nos corrói e mata em vida
Para além do olhar de quem assiste ao nosso último momento
Envolto no riso imortal das crianças que nos rodeiam, felizes
Longe dessa amargura que te irá matar,
Longe do campo de batalha, onde me sobreviveste
Perto do sonho
Eu e tu, meu irmão, todos nós
Seremos um só


Quando a chuva me escorrer pela face e cair a meus pés
Quando o som das minhas palavras for como a seda dos teus beijos
Quando o dia nascer, finalmente limpo e luminoso
Eu serei como me desejaste, minha querida
O prometido
O dono do teu primeiro beijo
O amante que te cobre os pés de flores silvestres
O marido dedicado que te seca as lágrimas
Quando eu redescobrir o que é sonhar
Irei renascer, a teu lado
Permanecer
Envelhecer
E, feliz no embalo dos teus braços,
Morrer


E o sabor das maças será mais doce
E as nuvens mais altas, inalcançáveis
A terra transbordará de vida novamente
Como no mundo imemorial das histórias do meu avô
O espírito dos homens voltará a ser uno com a da Natureza
E seremos filhos de algo maior
E não mais, nunca mais
Deixaremos que esta batalha nos ensombre em esquecimento


Mas o barco partiu e voga por entre a tristeza e a despedida
Eu ficarei, entre ciprestes, de mão dada com os meus irmãos de armas
Certos de que cumprida foi nossa missão
E em profunda exultação, ascenderemos ao Paraíso
Longe deste marisma de morte e horror
Para lá do inferno dos homens, regressaremos
Unidos, como verdadeiros irmãos de sangue
Abandonaremos os corpos destroçados que nos prendem
E assim partiremos, sem dor
Sem temor
Regressaremos ao berço da eternidade
Como heróis
E num último fôlego
Gritaremos
Glória!
Glória!
E eternamente nosso será o reino dos Céus

Lusco-fusco


Saiu atrasada. Como sempre. Quase descomposta, o vestido amarrotado (a tentar telefonar-lhe enquanto aguardava o elevador e deixava os dossiers no secretariado) nos seus saltos altos em equilíbrio precário.

Esperava-a não muito perto, onde, no meio da multidão que sai dos empregos na pressa de chegar a casa, seriam mais um casal. A passar despercebidos. Em pecado. Desfrutado. Revivido. Intenso.

Mas sempre como se fosse a primeira vez.

Ele está no "café deles", jornal e bica na mesa.
Observa-o sempre através do vidro, antes de que ele a veja. Ou pensa que assim é...

E entra encantada, numa paixão adolescente, a diferença de idades não se sente. Somente na sensatez dele e na impulsividade dela. Quase feroz, arrebatadora.

Ergue o olhar, surpreso por ela já estar junto de si, tão absorvido que estava pela leitura . Porque por vezes, levanta-se e vem buscá-la à porta.
E ela sente-se a mulher mais amada do mundo, por a proteger assim.

Ele sorri e o mundo dela centra-se nele, naquele sorriso infinito que morrerá com ela.

Olham-se e o Mundo pára, avança, rodopia, muda. E no entanto, está tudo no seu lugar. Ele à frente dela à espera que lhe conte o dia, o que a deixa sem palavras porque estiveram sempre em contacto. Ela à espera que ele diga como foi o dele, que apesar do contacto e da faladora ser ela, tem sempre algo a acrescentar.

Entretanto o silêncio toma conta do momento, porque a olha, ela cora, adivinhando-lhe os pensamentos. Desejos escaldantes...

E ficam assim, sem falar, mão na mão sob a folha de jornal, numa contemplação mutua, embevecida e terna.

Mergulham os olhares e ela desperta com o gesto dele em dizer-lhe que são horas de ir, porque o semblante dele muda e ela percebe.
Ela tem o comboio para apanhar e ele o ensaio.


Caminham lado a lado, abraçados, passo acertado. Os coração batem, em uníssono no sentido dos ponteiros do relógio da Estação de Comboios.

Encosta-a suavemente contra o muro, afasta-lhe o cabelo dos olhos, sorri e beija-a num tocar de lábios indescritível, depressa uma boca na outra, as suas mãos nela... Estão em publico. Mas é lusco fusco.

Desprendem-se a custo, ele pergunta se ela quer levar o jornal.
Não.
Até casa, prefere ir pensando-o, sonhando com amanhã, em que a rotina não cansa. Só quer que ele não chegue atrasado ao ensaio...

Enquanto sobe as escadas, chega uma mensagem dele:"Adoro-te".

Ela também. E é assim , para sempre.

(Desde o tempo em que um guarda-chuva servia para abrigar os dois).

sábado, 23 de outubro de 2010

O Regresso dos Heróis: Memórias de Batalhas Esquecidas, em 4 Actos

Quadro III – O Valor dos Homens




O dia ainda se espreguiçava no horizonte gelado, as ervas vergadas sob o peso da orvalhada serviam de testemunha à noite fria dos dias antes da lua nova. Estava na altura de partir em missão.

Os dois batedores avançavam por entre o matagal espinhoso, em busca dos ambicionados troféus, a prova de que são guerreiros de valor, os mais bravos entre seus pares. À medida que se embrenham entre a vegetação cada vez mais densa e o Sol aquece sob os seus ombros sabem que é hora de entrar na floresta escura, onde existem menos probabilidades de serem vistos pelo homem-branco. Esta vil e traiçoeira criatura, tão parecida com os seus irmãos de tribo e, no entanto, tão diferente. Ele não é como o Lobo que caça para a sua tribo quando precisa, ou como a cobra que se defende com presas venenosas quando acossada. Ele é mais como a chuva violenta do princípio da Primavera. Se a aldeia estiver no seu caminho quando esta surge a correr pelos desfiladeiros é engolida sem piedade, para nada mais restar, pessoa, casa ou memória.

Ouve-se um ronco baixo e profundo para além das árvores. Estamos no território do puma, o feroz leão-da-montanha… Aqui não é terra para principiantes, olhos, nariz e ouvidos não chegam para sobreviver, as mãos não são tão lestas a disparar a flecha e os pés trocam os passos por entre a folhada e os rochedos que afloram escondidos entre as moitas floridas e prenhes de néctar. Esta é a vida do batedor, a vida na fronteira e para além dela, da fronteira da terra, da fronteira do medo e da alma. Para lá da encosta há terra nova, quem sabe boa para milho e inhame, com água fresca a correr, boa para caça pequena que encha o pote ou até uma via de passagem das grandes manadas de bisontes. Mas para já, tem que lidar com o ronco, o medo e a expectativa…

O prémio para quem levar a pele da besta é a pena maior da ponta das asas da águia, um símbolo de virilidade e estatuto que qualquer homem deseja. Assim, os dois batedores desenham o plano e decidem agir. Agora, não haverá lugar para passos em falso, para pingos de suor que sublinhe o odor dos dois homens. Concentração máxima. Atenção aos detalhes. Rigor, disciplina e coração a bater como um tambor de guerra. O mais experiente retesa o arco e aponta a flecha para a orla da floresta. O ajudante rasteja em total silêncio em torno da fraga onde o portentoso animal descansa, a fim de o surpreender e assim assustar o senhor da montanha.

O momento adensa-se e o tempo pára. Num segundo serão heróis ou presas… Falta só mais um esforço… um metro para rastejar e um tiro certeiro… 3… 2… 1…

(…)


Nessa noite, dois irmãos de 8 e 6 anos regressam a casa, de sorriso largo e expressão de quem venceu a maior batalha da sua vida. Como heróis, entram em casa e beijam o avô, um antigo chefe Pikuni, conhecidos pelo homem-branco como tribo dos Pés-Negros. Inspirados pelas histórias de batidas e caçadas dos idos tempos de glória, as crianças contam como foi hoje caçar o grande puma, enquanto erguem em mãos o seu gatinho de estimação, que hoje foi a estrela no filme que decorreu ali mesmo atrás, a poucos metros do seu quintal. Juntos riem-se felizes e pedem ao avô para contar mais memórias de um mundo entretanto extinto…

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

À sombra do loendro


Caminha lado a lado do homem de sorriso aberto.
Aos poucos vai ficando para trás, a cadela exige atenção, o caminho é pedregoso, sinuoso, íngreme.
O mundo rural em toda a sua beleza numa força da natureza.

O rio cada vez com menos caudal, as macieiras com frutos caídos, oliveiras semi-abandonadas...
Sementeiras recentes em nuvens de pó. Vegetação viçosa, ainda verde, não ardida.

Os odores acompanham os passos. São perto das seis da tarde e o suor anuncia-se na testa, ensombrada pelo chapéu de palha. De fita azul.

Pernas firmes , morenas, macias , apesar das silvas que atravessam. Calções e t'shirt.

Na mão um pau que já foi ramo de árvore. Como apoio. Como apontador da direcção. Embora siga o homem.
E a cadela que pára até que ela se aproxime. E salta e brinca. Cachorra.

O homem conversa, ri, tenta recuperá-la dum mutismo inapropriado e irreconhecível.
Tenta recuperá-la, na força das palavras, no interesse dos assuntos, no humor e boa disposição que a caracteriza(va).
O homem tenta tudo: um beijo mais fogoso, um abraço terno, uma implicância infantil.
Ela sorri só com os lábios. Não quer que o homem entristeça pelo esforço inútil.
Ela não é a mesma. Mudou.

O caminho agora é a descer. Continua ágil apesar da idade. E do peso.
O que carrega no corpo e na alma.
Descalça-se, enquanto a cadela insiste em ir buscar o pau atirado e chapinha no rio. O homem solta risadas altas e cristalinas, como a água que corre, mesmo que pouca.
Ela senta-se num muro de pedra.

O homem chama-a. Ao mesmo tempo um chilreio, uma brisa suave, um fustigar de ramos e folhas. O sol por entre a folhagem, direito ao olhar infinito.

Reclamam-na.
Finge que não ouve.
Distancia-se, eleva-se. Sonha.

Ausenta-se para um tempo em que o amor é sentir o coração saltar do peito, num galope selvagem. E onde ela deixa que a paixão tome conta da razão e...

...Soergue o corpo.

E deixa alma à sombra do loendro, já sem flor, que só ela sabe existir. Ali.

Compõe o sorriso esperado e regressa à cidade, onde esconde os segredos para que não saibam que está sem alma.

O outro lado do espelho

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A Primária



Estou na primeira classe e tenho um grilo.
Mora numa caixa de fósforos com buraquinhos.
Mas porque os irmãos mais novos devem de sofrer de uma doença chamada “irmão-mais-velho”, e eles falam sempre demais, tive de devolver a caixa à cozinha da minha mãe.
Quem me dera ter nascido de uma macieira.
Hoje era uma maçã e teria como animal de estimação uma minhoca grande e gorda, dentro de uma caixa de folhas que teria ido buscar à cozinha da árvore.

Estou na segunda classe e tenho uma estrela-do-mar.
Mora numa caixa de morangos.
Mas porque os irmãos do meio devem de sofrer de uma doença chamada “irmã-mais-nova”, e elas estragam sempre demais, tive de devolver a estrela ao mar dos meus sonhos.
Quem me dera ter nascido de uma bicicleta.
Hoje era uns pedais e teria como animal de estimação uma estrada longa e magrinha, dentro de uma caixa de pedalar constante que teria ido buscar aos gémeos das minhas pernas.

Estou na terceira classe e tenho uma joaninha.
Mora numa caixa de bolachas.
Mas porque os irmãos mais velhos devem de sofrer de uma doença chamada “irmão-ainda-mais-novo”, e eles choram sempre demais, tive de fazer da caixa tambor e tornar-me cantor.
Quem me dera ter nascido de um rio.
Hoje era uma ondinha cor de céu brilhante e teria como animal de estimação um peixe saltador, dentro de uma caixa de conchas que teria ido buscar ao estuário do sol.

Estou na quarta classe e tenho um crocodilo.
Mora numa caixa de frigorífico.
Não há doença crónica que sobrevivia a bocas grandes e dentes afiados.
Quem me dera ter nascido de um cesto.
Hoje era um bolo de mel para a minha avozinha e teria como animal de estimação um caçador, dentro de uma caixa de chumbo que teria ido buscar à barriga do lobo mau.

Tenho saudades dos meus animais de estimação.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O Regresso dos Heróis: Memórias de Batalhas Esquecidas, em 4 Actos

Quadro II: O Bom Soldado



- Doutor ajude-me, por favor. Não se vá embora, oiça-me, eu preciso de falar com alguém…


Está uma manhã magnífica de sol e frio, o ar gélido paralisa o olhar de quem procura o seu momento de paz, um instante no desenfrear violento do infinito devir das coisas, uma fatia de tempo para saborear, um minuto de silêncio em honra dos heróis do passado. Nas ruas não há almas, apenas pessoas atarefadas e absortas no seu dia-a-dia, nem um som para além do ruído infernal do caos tranquilo da vida nos subúrbios, tudo está em paz, à medida que o mundo desaba e a esperança de cada um colapsa como um castelo de areia fustigado pelas ondas violentas da maré da inquietude. Um dia como os outros que se passaram e tornarão a passar.


- Eu era apenas uma criança… sabe doutor, nestas coisas nunca sabemos como seria se fosse diferente. Eu queria que tivesse sido diferente, queria saber que eu poderia ter sido diferente. O doutor percebe-me, não percebe? Eu sei que percebe, eu sei que me perdoa, eu sei que se há alguém que veja para além desta face destruída pelo horror é o senhor.


Um carro passa por uma poça de água e salpica a criança que vai para a escola. O seu vestido fica sujo de lama, mas a menina não se importa, segue contente. Pois assim são as crianças, nada as suja, nada as polui, são puras aos olhos de Deus. Que a graça do Senhor te acompanhe minha menina e te proteja dos males deste mundo.


- Estão lá fora, não estão? Eu sei. Eu sei que me aguardam, sei que me vão levar e me lançarão nas trevas a pão e água. Mas sabe doutor, eu já estou nas trevas, eu sou as trevas, eu tornei-me a morte.




Casas alinhadas, já um pouco velhas mas sólidas, como o bairro que as agrupa e as pessoas que lá vivem. Solidários uns com os outros, os vizinhos revezam-se a vigiar o bairro, os olhos atentos das senhoras perscrutam os jovens rapazes que planeiam alguma ou as raparigas atrevidas que, entre risinhos, escolhem os namorados entre os mais rebeldes e ‘maus rapazes’, pois assim é a ordem das coisas. Os homens jogam-se entre vinho barato e cigarros, falam do vazio que os preenche com o desapego insalubre de quem vive, de quem se torna em cascas vazias e gastas.


- A guerra doutor começa em nós, grassa feroz pelos campos dos sonhos incumpridos e torna-nos predadores. O doutor sabe o que é um predador? É uma besta sanguinária e descontrolada, que não para até desfazer entre presas e garras a sua vítima. Que se banha no seu sangue e guarda troféus nas paredes de seu covil. O que o doutor não sabe é que os predadores não são o topo da cadeia alimentar, oh não. São joguetes doutor, meros joguetes…


Quando a chuva falta e a terra greta ergue-se o pó da desconfiança e paranóia. O vento sopra como um animal faminto e os nossos corações desfazem-se entre estilhaços de sangue e crueldade. Ninguém sobrevive neste mundo, estamos condenados. Abençoados dos ignorantes que nada sabem destas coisas, pois deles será o inferno dos céus.


- Quando nós voltamos as bandeiras e cartazes enfeitavam todas as portas. As mulheres acenavam, os homens brindavam, os sinos das igrejas retorquiam e havia alegria no ar. Mas durou tão pouco doutor, foi apenas uma efémera luz que connosco gozou, aludindo a uma possível saída, um fim do túnel. Agora, para mim, o túnel é a luz e apenas a escuridão no fim me aguarda.



O dia avança e aquece. Disparam os aspersores automáticos que saciam os verdes tapetes de ilusões e enganos que cobrem os quintais das casas. Negligente, um rapazinho atravessa a estrada sem olhar e quase que é atropelado por um carro da polícia. Sem uma preocupação no mundo, aquele menino ia a correr, sem prudência mas com a divina providência a cuidar dele. Estava seguro nas mãos dos anjos.


- Ei vi o que o homem é capaz de fazer ao seu irmão. Vi corpos desfeitos de soldados a serem devorados pelos abutres e não me chocou menos o facto de usarem um uniforme diferente do meu. Vi políticos e senhores da guerra sorrirem à mesa do pequeno-almoço, enquanto decidiam o nosso destino. Vi a morte sorrir e a convidar-nos a violar aquelas pobres mulheres que, sem nada mais que as protegesse, valiam-se de preces vãs, pois Deus estava demasiado ocupado para as livrar do mal que se abatia sobre os seus ventres. Eu vi aquelas crianças, negras de fome, brancas de desespero, azuis de agonia e cinzentas como o céu que nos encobria. Eu matei crianças doutor. Eu matei crianças...




Ao passar pela casa velha e decadente, uma vizinha mais diligente assomou por entre os farrapos da cortina e viu um vulto. Era o pobre homem, prestes a cometer uma terrível desgraça…


- Obrigado por me ouvir doutor. Sei que poderei sempre contar consigo, mas o meu momento chegou. Ir-me-ei juntar a meus irmãos. Juntos, como heróis, regressaremos para perto de Deus, a seu lado ficaremos sentados a contemplar o infinito, homens por fim, em paz. O soldado cumpriu o seu destino. Eu não posso escapar doutor, sabe porquê… eu matei crianças doutor, eu vi-as a correr para mim, em absoluto pânico e terror, a pedir guarida em meus braços, a gritar, a gritar em absoluto desespero, absoluto desespero… eu tive tanto medo, tanto medo… elas estavam em pânico, elas queriam ajuda, doutor, elas queriam ajuda… eu perdi a consciência e quando despertei, tinha despejado o cartucho de balas sobre elas… os seus corpos tombados sobre a terra suja e molhada de sangue, a inocência morreu nesse dia doutor, eu matei crianças… eu não aguento mais doutor, eu não aguento mais as noites de vigília, o horror que me consome, eu quero chorar doutor, mas não consigo, ajude-me a chorar…




Lá fora, a polícia anunciava ao ocupante que estava a cercar a casa, pedia para que baixasse a arma e saísse tranquilamente, que prometia ajudar, se ele baixasse a arma.


- Eram tão pequenas, talvez uns 5, 6 anitos, talvez irmãos e primos, talvez filhos e netos das mulheres e homens tombados em resultado do nosso raid sobre a aldeia. Talvez fossem os meus filhos, talvez fossemos nós que lá estávamos doutor, eu e o senhor, a correr para os braços de um desconhecido, uma criança grande com uma AK47 nas mãos… eram os meus meninos e meninas, filhos de Deus… eu matei crianças doutor…



Quando o negociador da polícia e os dois atiradores entraram na casa já era tarde demais. O bom soldado era agora uma carcaça, uma casca vazia, terminara sua missão com um disparo de caçadeira na boca. 

Com a cabeça deitada no seu colo, com olhos tristes de quem foi a testemunha final do martírio do herói, lá estava ele, o seu cão, o seu confessor, a sua única companhia nestes últimos anos, que ouviu e registou as últimas horas do seu dono neste mundo...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Chove, Chove Sem Parar...




Chove lá fora...
E ai dentro também.

Mas a chuva dai...
É no coração.
É chuva de Amor...
E não tem igual.

Porque limpa o ego...
E transforma tudo.

Ah, tem uma chuva ai...
Mas não há nuvens pesadas no teu horizonte.

Porque é chuva de Amor...
E clareia o céu do teu coração.

Tu olhas a chuva lá fora...
E emociona te com a chuva de dentro.

Ah, chuva que limpa o mundo...
E corre para se entregar ao mar.

Ah, Amor que chove ai dentro...
E sempre corre para se entregar à Luz.

Chove chuva, chove sem parar...
Chuva de Amor, que não se explica; só se sente.

Chove chuva, chove no coração...
Chove Amor, sem parar...

Ah, tem uma chuva ai...



PS. (Às vezes,perguntam me se estou apaixonada.
E eu respondo afirmativamente.
Sim, estou apaixonada, desde que nasci.
Ou, melhor dizendo, até bem antes disso.
Fiquei apaixonada pela Vida, que é muito mais do que percebo.
E porque o Amor é um estado de consciência.
E eu não sei explicar nada disso, ainda bem.
Porque, se explicasse, seria algo só da mente.
Então, escrevo e deixo os outros especularem sobre os motivos.
Sim, eu estou apaixonada!
Sempre estive, e pretendo continuar...
Pela Vida! Por um Grande Amor!
E eu sei bem pouco sobre essas coisas grandiosas.
Na verdade, mal sei sobre mim mesmo.
E isso é maior do que eu; é maior do que tudo.
Ah, eu estou apaixonada, sim!)


Chove, Chove Sem Parar...

Além Tejo


A manhã apressa-se ao som do rock-pop refrescante.

O gorgolejar de água pincela de azul, o quadro de pastos adourados pelo calor do vento.

Os sobreiros erguem-se imponentes, competindo com as oliveiras de sabor mediterrâneo.

Sons de "espanta-pássaros" cortam o ar quente dum sol escaldante.

Uma aragem toca d-e-v-a-g-a-r o meu corpo deitado.

Sento-me entre um beijo calado e um poema inacabado.

Agarro as palavras com que amanheço (s)em sono.

As formigas são a distracção quase hipnótica do momento em silêncio.

Calo a voz, solto os cabelos e apago o sol para um exílio inacabado.

Vai o dia a meio.

E sorrio.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O Regresso dos Heróis: Memórias de Batalhas Esquecidas, em 4 Actos

(Nosound - Fading Silently)


Acto I: Em ombros

O ranger do soalho acompanha o ranger das portas da memória, à medida que estas se entreabrem com o soar dos passos sob o alpendre. O aproximar do mensageiro acelera o pendular ritmado da cadeira de baloiço.

Nada lhe importa agora. Nada se sobrepõe à sua memória, que agora flui selvagem entre as portas escancaradas, varrendo qualquer esperança ou cor. O Mensageiro está à porta. Ela sabe o teor da missiva. Ela sabe o que a espera. E sabe, no íntimo recanto do seu peito onde antes o guardava que não mais o irá esperar. Ela sorri, ansiosa. Levanta-se, com a calma solene do olho da tempestade, apoia os seus braços cansados de preces incontáveis sobre os apoios gastos do berço áspero em que se aninhava noite após noite de espera e ilusão e, como Cleópatra aceitou o cesto de figos onde vinha a áspide, também ela irá aceitar a carta.

O texto não a surpreendeu, chocou ou sequer a comoveu. Dizia o que ela já sabia desde o dia em que ele partira. Algures, num país longínquo, agreste e em caos, morrera em combate o homem que um dia a tinha beijado na boca pela primeira vez, que um dia lhe tinha oferecido flores silvestres pelo aniversário, que um dia se zangou com ela quando desabafou que não se achava bonita, que um dia lhe secou as lágrimas com um sorriso meigo, que um dia a tomou no altar e que um dia partira para a guerra…

No dia do funeral chovia ininterruptamente, o céu desabava sobre os poucos que se aglomeravam para ver passar o cortejo. Em ombros, era levado o caixão de um soldado, perante os olhos de sua viúva, triste como a noite que para sempre iria cobrir os restos mortais de mais um herói que regressava tombado, morto por gente que nunca conhecera, por razões que nada lhe diziam, lançado às feras, um gladiador perdido numa terra distante...

domingo, 10 de outubro de 2010

(Im)Pura



Lava-te. Não te quero assim impura. Nem te reconheço, quase... não pareces tu. Quero que a água te dissolva a mágoa e o cansaço, as olheiras e o sal seco das lágrimas, as palavras e as marcas do mundo lá fora.

Quero que venhas lavada e nua até mim. Quero-te em jejum de sentimentos e nutrientes. Quero-te pele e osso, vazia por dentro, como um tambor onde as minhas mãos possam ressoar. Quero o teu silencio de neve a cair. Branca e imaculada. O teu silencio de sempre, vazia como sempre.

Nem pareces tu...

Gosto que não adormeças nos meus braços e fiques toda a noite de olhos abertos no escuro, os teus olhos rasgados sem nada dentro. Gosto de olhar para eles e não saber se mora lá alguém.

Estou cansado de gente que chega com bagagens e passado e invade todas as divisões da minha casa com escovas de dentes, livros, fotografias, roupa, recordações de infância, animais de estimação que me odeiam e que eu odeio, opiniões, jarras de flores, dedadas no vidro, migalhas no chão, promessas de amor eterno, palavras e mais palavras e mais palavras que, às tantas, parece que nunca vão parar e se transformam numa massa sonora disforme ao fim dos 30 primeiros segundos. Estou cansado de pessoas que dizem que me amam e que me abandonam ao fim de uns meses, com indicadores espetados e acusações de que não me abro. O que há para abrir? Não gosto que me abram nem gavetas nem armários nem a porta dos pensamentos.

É por isso que te amo, sabes? Quando rodo devagar a fechadura para te abrir, tu não estás lá dentro. Só há uma divisão branca e vazia, de janelas abertas e cortinados a voar ao vento, o sol da manhã a entrar por elas e o teu cheiro. Quando rodo a fechadura para te abrir, fecho os olhos e inspiro o teu perfume de fantasma. Não preciso de mais nada. Depois sim, posso finalmente entrar em ti. E apesar de não estares, sei que estou em casa e tudo se passa em câmara lenta, o tempo suspenso.

Mas hoje nem pareces tu... Vens com lágrimas. Cheiras a incêndio. Rodo a fechadura devagar e de repente estás lá dentro, parada no meio da sala a olhar para mim com um olhar de ressentimento. Não te reconheço, aí a tremer. Há palavras a sair da tua boca como nuvens de vapor mas sabes bem que não consigo condensa-las e entende-las.
Porque choras? Lava-te primeiro e depois deita-te ao meu lado. Há demasiada informação em ti hoje. Estás impura. Quero entrar em ti e não te encontrar, só ao teu cheiro a manhãs de neve. Fria e imaculada.

sábado, 9 de outubro de 2010

Musical(idade)

Choro do colo perdido

abraços (de) passado(s).

Corro de encontro ao espelho

pelo caminho de reflexos

tardios

baços

nos espaços

luzidíos

e

brancos

os

olhares de navios

que ondulam (n)os teus cabelos

crespos

os sorrisos

lestos

os

p

a

s

s

o

s

que desviam os teus dedos de pianista

das minhas mãos

de musica.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Miles away from



Distance in me
I wonder were the ability went
For the travelling light
Weight on the floor
Oh miles, oh miles…

Today I’m contemplating the inner me
The mathematical theory of knots.
The unknot!
Surviving in the loop?
Oh miles, oh miles…

Brain aches come over
The unknot.
Sleeping without resting.
Never resting.
Oh miles, oh miles…

The path was never clear
Still there were paths.
I’m standing here
Like a dot in the end of the final sentence.
Oh miles, oh miles…
Oh miles, oh miles, oh death.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Mãe


Por vezes a solidão invade-me apesar de tanto amor à minha volta.


Uma solidão castigante de incompreensão e abandono.



Flutuo sem pertencer a lugar algum, talvez fazendo parte dum meio etéreo e suave em que te encontro a sorrir.



Sinto-te em mim nas gargalhadas sadias, no olhar doce e nas palavras caladas vindas do teu coração de anjo.


O teu toque ampara-me (n)as quedas em que estremeço nos sonhos- pesadelos infantis.



O teu perfume inebria-me os afectos, tornando-me numa pessoa melhor.



Por vezes, ignoro os sinais e revelo o que de mais primitivo há em mim.



Instantes que se prolongam por momentos.



Então, concentro-me no teu afago mágico e parto com a música.


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Nem luto, Nem dramas... Só estrelas!



(Quando o Amor faz a dor ir embora...)

Ninguém morre...
É só a vida que sorri em outro plano.

Os sentidos do corpo não registam quase nada.
Muito menos a totalidade do universo e seus desdobramentos.
Há coisas que não se vêem, só se sentem...

O Invisível é tão real quanto o visível.
Mas só o coração é que sabe disso.
Por isso, ele compreende o mistério...

Há canções que não se escutam com os ouvidos.
E toques que não são físicos.
Ah, quem é capaz de medir ou pesar um sentimento?

Muitos sentem saudades vão ver os seus mortos
Mas há outros que olham para cima...
Porque sentem que o lar espiritual é o mesmo das estrelas.

Alguns olham fotos e choram, por um passado que não volta.
No entanto, outros olham para frente, e seguem...
Porque eles sentem algo a mais...

Ah, isso não se explica...
Porque é toque do Invisível no coração.
E faz olhar para cima, com os olhos brilhando.

Saudade não tem idade; nem nenhum espírito.
Sete palmos de terra não seguram o que é subtil.
Ah, a vida canta em tantos lugares...

E quem pode afirmar que só tem vida aqui?
O corpo dissolve se na terra a consciência, não.
O que é da Terra retorna para Ela; o que é das estrelas volta para elas...

A canção dos astros retumba por todas as esferas...
Mas só o coração escuta, e se encanta.
Muitas vezes, a dor de uma perda faz tudo ficar sombrio.
Então, do Invisível descem toques subtis e amigos.
Que, de alguma maneira, sempre chegam a quem precisa.

Não são toques físicos, nem podem ser pesados ou medidos.
São como os sentimentos. Quem pode explicá-los?
Nas ondas do amor, desaparecem as tombas, e só se vê estrelas.

E a dor vai se ... E as flores ficam tão lindas.
Dá vontade de oferecê-las para outro coração, pela vida.

Dá vontade de fazer algo bom, em homenagem a quem partiu.
E o luto vai se... Na vida, que sempre chama.
E isso não se explica, só se sente.

A vida pulsa em todos os planos...
E quem ama sabe disso.
Porque seu coração escuta o som das esferas.

Ninguém morre...
É só a vida que segue cantando, por aí...

sábado, 2 de outubro de 2010

Bilhete de volta



Desdobro-me em pensamentos e, nenhum me cativa. No canto do céu da minha cabeça, vive Hipérbato e, que fazer não sei já. Naquela noite, rainha dos crepúsculos, todas as estrelas brilhavam ao som do sol e, a lua sentia-se vaidosa por conseguir destacar os seus continentes e mares lunares. Naquela manhã, todo o sol, gabava-se dos seus feitos nocturnos e, o céu azul claro espelhava o mar. Naquela tarde, à sombra da sétima árvore do terceiro jardim, da primeira rua da cidade, o meu canto ficou habitado repentinamente e, outra noite como a anterior, nunca mais viram, os meus dias.
Ainda não tenho noção da gravidade do meu alojamento, digamos que a cabeça já não faz tanto eco, mas os pensamentos estão trocados… quando o meu tempo se confunde, batem os ponteiros, os minutos querem seguir, os segundos preferem parar… e estou a olhar para o relógio… apesar de já serem horas de dormir, a noite nunca mais chega. Não há estrelas, a lua não brilha. Resolvi meter-me para dentro e falar com o novo inquilino. Bati à sua (minha) porta, esperei. Espreitei pelo buraco da fechadura, esperei. “Já paguei a renda, não voltes mais aqui, estou a almoçar os teus sonhos.”
A almoçar os meus…? Fiquei a pensar durante algum tempo sobre o que eram sonhos. Não me lembro da palavra. Resolvi responder que não estava aqui para cobrar a renda, só queria saber o que se passava e, já agora, o que eram os sonhos. “Péssimo canto, muito mau, cheio de humidade, nunca fizeste obras por aqui?”
Se fechar os olhos talvez tudo isto desapareça. É imaginação minha. Foi do desdobramento, depois passa.
“Um sonho é aquilo que pensas que, mas quando vais, já deixou de.”
Naquele dia, passei da tarde para a manhã e o mesmo aconteceu nos restantes. No canto da minha cabeça, nunca é de noite… e, sei não dormir eu de dia.
Resolvi ocupar o meu outro canto da minha cabeça e ser vizinha de Hipérbato. De manhã, Hipérbato canta, à tarde escreve em alto, de manhã almoça sonhos, à tarde limpa a humidade, de manhã abre a porta e olha em frente, à tarde fala baixo, de manhã acerta o relógio, à tarde olha as palavras, de manhã troca tudo…
E que fazer não sei já. Um som invertido soou à minha porta. Quem é? “Vizinha, posso trocar umas palavras contigo?” Não! “Tenho noites em promoção, queres?”
No dia em que Hipérbato foi viver para o canto do céu da minha cabeça (lembro-me como se tivesse sido ontem), comprei um bilhete de ida e, gastei todo o dinheiro que tinha nele.