segunda-feira, 29 de novembro de 2010

... Corda



A boneca de loiça tem ar de criança crescida e criada, naquelas casas de cristal barro. As mãos estão sempre na mesma posição, uma a segurar na bainha do vestido, outra a guardar na mão fechada uma maçã maioritariamente marcada a vermelho. Não é doce, mas não tem de ser amarga. É daquele sabor que só as bonecas sabem comentar entre elas. Tem os olhos bonitos, pupila loiça, a combinar com boca quase bonita, lábio vidro vincado e vivido sempre na mesma posição. Não é sorriso, mas não tem de ser triste. É daquela inércia que só as crianças sabem ver em movimento. A respiração, sem corrente de ar, faz-se aquando da oxigenação do barro, nariz redondo, bem feito sem narinas. A boneca, unhas cor de crescida, é oca por dentro. Só ela sabe o que custa ter pensamentos que soam a sopro para o interior de uma garrafa. Se ao menos todas tivesse um barco lá dentro. Velas e tábuas com ar de cacos, terra de térmitas, água de rochas e fogo de algodão. A criança crescida, sabe que não se pode mexer, mesmo assim, não critica o pó que tomba como um nevão lento, felizmente é quente. Não tem cabelos, tem um molde com jeitos. Se não tivesse as mãos sempre na mesma posição gostava de poder enrolar os jeitos no dedo indicador. Rodar, pião, corda. A boneca de loiça, sonha com o dia em que se vai partir. Hoje, por favor, dá-lhe...

domingo, 28 de novembro de 2010

O Anjo Destruidor (em III actos)

Parte II



13 de Junho
Querido Diário. Hoje é o dia mais feliz da minha vida, pois hoje sei que estou viva e que a vida em mim vibra ainda mais intensamente, pois vida trago dentro de mim. Abençoado seja Deus e os seus anjos, pois agora sei que um deles cresce dentro de mim.

8 de Julho
Querido Diário. Estou exausta mas feliz. Ainda não me habituei às náuseas, vómitos e tonturas repentinas. Mas sei que tudo é prova de amor, prova de que fui a escolhida…

22 de Agosto
Querido Diário. Abençoado seja o Senhor por me dar este menino. Foi o que me disse o doutor, é um menino, um menino! Sou a mulher mais feliz do mundo!

28 de Setembro
Querido Diário. Mal tenho forças para escrever, hoje pensei que fosse morrer. Acordei com sangue entre as pernas e em pânico fui de imediato ao hospital. Pensei que fosse perder o bebé, pensei que tudo estava acabado. Diz-me o doutor que não, que o bebé está bem mas que tenho que estar em repouso absoluto para que ele se volte a unir a mim com toda a sua força. Mas porque é que isto me aconteceu? Serei uma má mãe? Terei abusado da felicidade, sido inconveniente, mostrei falta de fé, terei sido pouco diligente? Amo tanto esta vida que em mim cresce, tudo farei para o proteger, até às últimas consequências!

24 de Dezembro
Querido Diário. Este é o mais angustiante Natal de sempre. Deveria estar radiante de felicidade, mas a impaciência, a imobilidade, as dores, a ansiedade está a deixar-me louca. Hoje, dia do nascimento de Jesus, sinto mais empatia por Santa Maria do que pela criança, pois só uma mãe compreende toda a extensão do sofrimento e martírio que é a génese de uma nova vida.

19 de Janeiro
Querido Diário. Já não suporto esta cama. Já não aguento que me digam que é uma bênção, que tenho que ter calma, que tudo irá correr bem… Por vezes sinto-me mais possuída do que grávida, é como se tivesse um ser estranho que me devora por dentro, a crescer e a deixar-me louca… Mas é o meu filho, eu amo-o, sei que não estou em mim por vezes, eu amo-o muito, amo-o muito… Mas, entre lágrimas escondidas, já me senti arrependida de engravidar. Mas isto fica entre nós, eu e a textura das tuas folhas, nunca ninguém poderá saber que me senti assim. Nunca!

30 de Janeiro
Querido Diário. Não sei se te volto a abrir. As dores são muitas, as contracções não param e vão-me levar esta noite. Dizem que a criança poderá estar a sofrer… e eu sei que a culpa é minha, as coisas que eu pensei, nunca o deveria ter feito. Simplesmente abraçar esta dádiva dos céus, nada mais. Não sei se volto, poderei morrer enquanto entrego esta nova alma à luz dos dias… deveria morrer, pois não sei que tipo de mãe serei eu. Tenho medo, tanto medo…

3 de Fevereiro
Querido Diário. Tudo vale a pena, tudo! Hoje sei isso, pois quando olho o meu filho, o meu menino nos olhos e o sinto junto a mim sei o que é o amor. Apresento-te o Raphael, o anjo que veio ao mundo para trazer cura e paz. Sei agora que seremos felizes, para todo o sempre.



31 de Fevereiro
Querido Diário. Sei que este dia não existe, mas deixa-me sonhar com um dia imaginário, onde eu consiga dormir um pouco, descansar por uma hora ou duas… Não estou a aguentar, o bebé não pára de chorar, mal dorme, agarra-se a meu peito sôfrego e depois quase não come… está a perder peso, está a sofrer. Mas eu sou uma boa mãe, eu sei amar e dar e … por vezes sinto que ele me despreza, me odeia, sabe que eu nem sempre fui feliz durante a gravidez e que poderei mesmo ter pensado que estaria melhor sem… mas não, é o meu filho, o meu filho.



11 de Março
Querido Diário. O meu bebé não sorri. Dizem para não me preocupar, que não é suposto sorrirem assim tão pequeninos, mas eu sei que é mentira. Ele exige tudo de mim, não consigo descansar um momento. Estou aqui a escrever estas linhas enquanto ele dorme, nem que seja só por uma hora ou duas. Sinto-me tão aliviada quando ele dorme. Vou também tentar dormir um pouco… boa noite, meu fiel amigo.

13 de Junho
Querido Diário. Faz hoje um ano desde a anunciação, como eu quis um dia acreditar. À minha volta todos parecem felizes, existe alegria, contentamento por se verem. O Raphael adora o pai, os avós, até os primos e os vizinhos. Mas sinto que não tem a mesma alegria quando me vê. Por vezes sinto até que me quer mal, que me tortura, que me puxa para além do limite. Por vezes vejo-o a brincar sozinho, com os seus bonecos, deitado no parque, tão pequeno… mas parece-me que lhes sussurra algo às minhas escondidas, que esperam pelo momento em que me sento e fecho os olhos para me chamar, com um grito ou choro repentino. Não consigo descansar, queria tanto poder dormir, mas cada vez que me sinto a entrar em sono profundo ele acorda, grita, berra, chora, tortura-me…

14 de Dezembro.
Querido Diário. Hoje o meu filho deu os seus primeiros passinhos. Ficaria muito mais alegre se fossem dados na minha direcção e não como quem quer fugir de mim. Algo não está bem com esta criança, ou serei eu que não sei compreender e amar este anjo que Deus me deu. Às vezes quase que sinto que me quer vergar, ver de rastos, destruir… sinto-me a desesperar e temo que um dia possa perder o controlo. Este bebé é especial, eu sinto-o, pela maneira como prende a atenção de quem dele se aproxima, pelos olhos vorazes com que apanha tudo o que o rodeia, pela maneira como parece conjurar baixinho quando o deixo só entre os seus brinquedos… Por vezes sinto que mais alguém está com ele e que ele sabe-o, escuta os sopros do vento e os estalidos da madeira, procura algo nos seus livros infantis que para mim é invisível, mas para ele está lá… eu oiço-o nos meus sonhos e sinto-o nos meus pesadelos. Isto quando ele me deixa dormir…

22 de Janeiro
Querido Diário. Hoje cheguei ao meu limite, sinto-me a enlouquecer e ninguém repara! Mas ele sabe, o Raphael sabe… é ele que me faz enlouquecer, este menino é especial, sem dúvida, mas não é o anjo que eu esperava. É apenas uma criança, repito para mim vezes sem conta, apenas uma criança. Tenho que ter paciência, ele precisa de mim, para comer, tomar banho, vestir, cuidar, adormecer, precisa de mim, é por isso que chora, eu é que não lhe sei dar o que precisa. Mas eu estou tão cansada, tão cansada…




26 de Março
Querido Diário. Finalmente sossego. Agora vou adormecer, sem que ninguém me acorde.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O Anjo Destruidor (em III actos)

Parte I (de III)



Mamã, sabes onde está o teu menino? Está lá em cima, no sótão, sozinho a brincar com os brinquedos e sombras esquecidas, emaranhado nas teias e segredos, coberto de pó e de medo, tanto medo que lhe dá vontade de rir.

O teu menino sorri, entre os reflexos gastos do espelho de estanho onde antes te olhavas, enquanto te penteavas e aguardavas pelo príncipe encantado.

O teu menino é puro, pois é com pura maldade que encosta a cara fina de porcelana das tuas bonecas à chama que se contorce, agarrada ao pavio, assustada com o sorriso puro do teu menino.

Mamã, porque não lhe levas um copo de leite, uma bolachinha, alguma coisa, o pobre do menino deve estar com fome. Pois os olhos dele estão famintos, percorrem alfarrábios e buscam conhecimento mortal. Folha a folha, os volumes antigos são lambidos sofregamente pela mente eléctrica e voraz do teu menino. Ele sabe que o segredo está ali, escondido entre estrofes e ensaios, entre heróis e vilões que disputam a alma dos puros, como ele.

Quando ele nasceu baptizaste-o de Raphael, não porque o amasses, mas porque procuravas a cura, o toque suave de Deus, a dissolução da dor. Mas que dor é essa mamã? Porque buscas a cura de teu mal se sabes que, quando gerado, não mais conhece fronteiras do ser e do saber? Porque invocaste o arcanjo quando nomeaste a tua criança? Porque a apontas agora?

Mamã, o teu menino está entre trevas, cego pela sedutora luz da manhã e, dentro da sua mente, desce a espiral, passo a passo, andar a andar, circulo a círculo.

Ele está à procura de algo, alguém, algures…

Mamã, ouves o som de passos, lá em cima?
Ele não está sozinho…


Mas tu estás!

Mea culpa



Não lhe apetece escrever.
Não que tenha as ideias cansadas mas o corpo acha que a ponta dos dedos já não tem de comandar letras. O corpo vê que as palavras contraem sempre a mesma cor do fundo onde capitulam. A presença constante tornou-as áridas.
Agora, em vez de escrever, fica à janela a apreciar a paisagem através de um copo de água. Tudo fica mais bonito através de um copo de água, é como se o mundo inteiro se assumisse em mililitros.
O braço ainda se inspira para segurar no copo, os dedos ainda obedecem, o vidro é aderente, mas o que fazer quando a água ficar turva? A luz reflectida vai perder-se e misturar-se com a cor pálida da mão. Coloca o copo no parapeito da janela e vai buscar os pincéis com restos de guache para obrigá-los a largar tudo o que têm. Se é para ter um desgosto mais tarde, que seja agora, se é para ficar turva que seja pelo resto de várias tentativas de arte inacabada, se é para perder o mundo que seja pelo egoísmo de mais tarde dizer “a culpa foi minha”. Sim, não lhe apetece escrever e a culpa é sua.
Enquanto desce as escadas, o verniz do chão reflecte a luz artificial dos candeeiros enquanto a porta da rua deixa passar por debaixo a luz tímida da lua. Sai para a rua de óculos de sol só para ofender as estrelas enquanto sorri ao som dos pa-sso-s inc-e-r-tos. Não quer saber, no dia em que lhe ofereceram um sítio para escrever não lhe disseram que ia ser para sempre. Tal como no dia em que lhe ofereceram um sítio para pintar também não lhe disseram que a verdadeira inspiração estava três andares abaixo.
Amanhã vai comprar um violino e pensar que tudo fica mais bonito através de um arco.
No outro dia vai comprar uma máquina fotográfica e pensar que tudo fica mais bonito através da imobilização.
Ao terceiro dia vai criticar todos aqueles que não lhe disseram que a música precisa de ser escrita em pautas e que as fotografias precisam de cores. É angustiante pensar que não lhe apetece escrever e que não lhe apetece pintar. Fecha os olhos e aquilo que vê não faz o mundo ficar mais bonito mas, é como se o mundo inteiro se assumisse em palavras, escritas em arcos que projectam cores e que sorriem ao som dos passos cer-tos que sobem as escadas. Lá em cima está a janela. Hoje vai pintar estrelas nos vidros, esperar que elas se sintam compensadas por terem sido ofendidas, vai fotografa-las, escrever sobre a fotografia, beber muita água e quem sabe se não vai receber a visita da inspiração.
…Se não receber, é egoísta o suficiente para não ficar triste. Vai baralhar as letras todas porque tem medo que mais tarde, a meio da noite, lhe venham dizer que é inútil. De quem é a culpa?
É do dormir. Não vale a pena ser egoísta. Basta dormir e ter pesadelos.

domingo, 14 de novembro de 2010

Cristal (Eternidade em III actos)

Acto III: A Lenda



Inspirada na antiga história que seu tio lhe contara, decidiu que era hora de visitar aquele homem tenebroso, aquela criatura que tanto transtorno lhe causava. Era hora de ir bater à porta de Mestre Fausto. Ia confrontá-lo, e perguntar-lhe que segredos guardavam aqueles cacos de vidro glorificado, aquela bonecada resplandecente, aqueles incómodos seres de cristal. Tudo na esperança de encontrar entre a parafernália de bibelôs desalmados uma última morada para o seu sopro imortal. O horror alimentado pelo catolicismo vigente de que um Inferno em chamas a poderia engolir para toda a eternidade fê-la tomar atitudes drásticas, tudo em nome da salvação da última das Khroner.

Mal Angela se aproximou da loja de Mestre Fausto ouviu a pesada porta de carvalho ranger e entreabrir-se. Ela sabia que era esperada, ainda que em mais de quarenta anos nunca tivesse posto os pés lá dentro mais do que duas ou três vezes.

- Aproxime-se Sr.ª Khroner, estava à sua espera – disse Fausto, com a sua voz seca e profunda como a caverna da alegoria.

- Salve velho diabo. Fostes vós quem andou a zombar de mim com partidas infantis para me despertar do meu sono?

- Não fui eu, mas sou capaz de saber que tenha sido. Ela passou por mim esta noite para me cumprimentar e disse que ia a tua casa.

- De quem falais? – perguntou Angela tentando passar por mais surpreendida do que de facto estava.

- Da Ceifeira, daquela que a todos visita pelo menos uma vez. –

- Um dos seus bonequitos assustadores, é isso que estais a insinuar? –

- Vossa Senhoria viu do que falo, quando se mirou ao espelho, quando sentiu o seu sopro gélido ao despertar, quando ouviu o cabo de sua gadanha a bater no solo carcomido de térmitas de seu quarto.

- Fantasmas? Pensais que me assusto assim tão facilmente? Não sou nenhuma catraia para me impressionar com historietas de tigres e traças e outras assombrações para tirar sono a crianças, ficai sabendo...

- Não diga mais nada Sr.ª Duquesa. Não é a primeira vez que tenho um Khroner na minha loja a tentar convencer-me que seus intentos são outros dos que o cá trouxeram. Quereis ver uma peça em particular, um artefacto arcaico do tempo das primeiras trevas, um pequeno e delicado objecto, um vaso.

- Não.... Sim,... como sabeis?!

- Foi vosso tio quem mo deixou à guarda, com o aviso de que mais tarde a Sr.ª Duquesa o viria buscar. Pois aqui está ele, este pequeno vaso de cristal antigo. É vosso, para fazerdes dele conforme seja vosso desejo.

Angela olhou para o vaso, surpreendida com o desfecho excessivamente rápido de sua visita. Aparentemente era apenas um vaso de cristal, simples e translúcido, sem nada que o denunciasse como mágico ou com poderes para enganar a eternidade. Fausto sorria tranquilamente, permitindo ao seu corpo magro e alto alguns momentos de descanso num velho cadeirão de veludo carmim.

- Mas estais seguramente a gozar com a minha pessoa. Para que quero eu isto? É alguma piada. Estais a divertir-vos às minhas custas, é isso, não é?

- Adeus Angela, a nossa conversa terminou!




Naquela manhã fria de Novembro, a Duquesa acordara com um solavanco violento que a fez erguer da cama repentinamente. Qual louva-a-deus bêbado, esbracejou inconsequente em busca dos óculos enquanto volteava a cabeça para um lado e para outro numa tentativa desesperada de perceber o que se estava a passar nos seus aposentos embebidos na obscuridade da pré aurora. Mas apenas o silêncio ensurdecedor se sucedeu ao tremendo baque abafado...

Angela ergueu-se e lentamente compôs-se do susto. Acendeu o castiçal de prata brasonado e aproximou-se do espelho de madeira de cerejeira do século XVII. Mirou-se e viu a sua cara pálida e ainda trémula do susto que a despertara. Tinha a cabeça pesada, como acontece quando temos um sonho demasiado intenso e perturbador.

Estava tudo no seu lugar, tudo na mesma... ela procurava por perturbações e parecia que nada se tinha alterado. Mas não era bem assim. Sobre o seu toucador, na intimidade de seu boudoir, havia agora um pequeno vaso de cristal que luzia com a primeira claridade do dealbar frio. Angela aproximou-se dele, primeiro com receio, depois, lentamente, com uma sensação de esperança e desafio. Ela estava pronta a fazê-lo, a tocar no vaso eterno, a saltar para dentro deste e para sempre iludir a morte. Era o momento, ela estava convencida de que era isso que desejava e nada iria demovê-la. Adeus carne fraca, a eternidade de Gaudentio seria o jardim de sua alma. Ângela soluçava e seu corpo tremia de antecipação. Mas a sofreguidão paga-se cara e num gesto de amplitude desmedida fez cair o candelabro no chão, onde a chama das velas foi encontrar pasto para progredir sobre o tapete persa do século XVI. Em menos de três minutos todo o boudoir estava em chamas, ardendo como se fosse o dia do juízo final para a Duquesa de Khroner. Em menos de nada, estava tudo acabado, toda a casa reduzida a escombros e cinzas...


Só no dia seguinte é que a polícia e os bombeiros puderam começar à procura dos vestígios mortais da Sr.ª Khroner. Encontraram apenas os restos calcinados de seus ossos e alguns vestígios do que antes foram os seus pertences. Pouco havia para reconhecer: os suportes da cama antiga, o espelho quebrado com a prata enegrecida pelo fumo e um curioso pequeno vaso de cristal, que dava a ilusão de ter no seu interior uma ténue luz branca a pulsar...

Cristal (Eternidade em III actos)

Acto II: A Duquesa



Ela representava os restos mortais de uma linha aristocrática extinta e esquecida. O sangue que lhe corria nas artérias empedernidas pela velhice avançada era o último vestígio dos Khroner, a família maldita que regera aquele pequeno condado durante mais de quinhentos anos. No entanto, Angela era uma mulher altiva, muito segura de si e que nunca hesitava em fazer-se valer dos seus privilégios de derradeira Duquesa de Khroner. Era a primeira a ser atendida nas lojas da aldeia ou da vila, era-lhe reservado o que de mais refinado havia para degustar e o que de melhor recorte havia para vestir ao seu corpo encurvado e senescente. Ela era gentil para quem se dirigisse a ela como Sr.ª Duquesa, admitindo mesmo que por uma vez ou outra se dirigissem a si como Sua Senhoria ou Sr.ª Khroner. Em relação a este último epíteto, o melhor era não abusar, pois mesmo Angela não gostava de ouvir o apelido infame demasiadas vezes, por muito estatuto que este tivesse.


Naquela manhã fria de Novembro, a Duquesa acordara com um solavanco violento que a fez erguer da cama repentinamente. Qual louva-a-deus bêbado, esbracejou inconsequente em busca dos óculos enquanto volteava a cabeça para um lado e para outro numa tentativa desesperada de perceber o que se estava a passar nos seus aposentos embebidos na obscuridade da pré aurora. Mas apenas o silêncio ensurdecedor se sucedeu ao tremendo baque abafado... E contudo, Angela sabia que já não estava sozinha...


Levantou-se com a calma a que noblesse oblige e iniciou o seu ritual diário de toilette. Ao dirigir-se ao espelho de madeira de cerejeira do século XVII que tinha sobre o toucador com igual antiguidade verificou algo muito invulgar. A sua imagem não aparecia nítida e contrastante com o luminar bruxuleante das velas espetadas no tridente de prata brasonado dos Khroner. Ela mal se vislumbrava na superfície de cristal e prata, apenas uma névoa aparecia, e rodopiava no sentido contrário aos ponteiros do relógio, arrastando o tempo consigo para um ponto branco baço que era o centro de toda a actividade. Angela assustou-se e num acto de pânico atirou com o castiçal para o chão.

Felizmente, as velas apagaram-se com o embate, não causando maiores estragos. Na penumbra de seu boudoir ela tentava recuperar lentamente o fôlego, quando subitamente lhe ocorreu uma antiga história que seu tio, o venerável Conde de Chambourcy, lhe contara.



O Vaso Eterno

Era um segredo antigo, dos tempos imemoriais que se sucederam à queda do Império Romano, quando os bárbaros saqueavam os despojos de Roma, Antioquia, Mediolanum, Carthago, Lutecia, Londinium... e o mundo civilizado entrava na agonizante primeira fase da idade das trevas, a era Medieval.

Era o início da Escola Universal Alquimista, onde sábios romanos, persas, orientais, árabes, hebraicos, gregos, germanos, egípcios, normandos entre outros se uniram pela primeira e última vez. O intuito final era atingir os segredos maiores da magia divina, da alquimia dos soberanos do Universo, o segredo da imortalidade da alma, a Pedra Filosofal. Numa primeira fase, muitos destes sábios morreram em resultado de experiências mal sucedidas, de misturas mortais de componentes, vítimas de conspirações entre facções...Ah, sim, a humanidade sempre fora pródiga em traição e jogos de poder.

Gaudentio era um patrício romano, filho bastardo de um poderoso senador e da sua amante dalmace, uma digna representante do povo eslavo que tanto sangue e suor romano exigiram em troca do controlo de suas terras a sudeste dos Alpes. Os seus antepassados maternos eram artífices do metal, fogo... e cristal.

Gaudentio aprendera com sua mãe alguns dos segredos incontáveis de como tratar, talhar e polir cristal e, como curioso inato, aprendera nas ruas e mercados muita da sabedoria antiga dos múltiplos povos que antes enxamearam a gorda e velha Roma. Era um virtuoso da magia prática com seres e objectos e aquilo que hoje se poderia chamar de um brilhante químico. Sabia quais os segredos que o fogo revelava, quais os elementos que viviam no âmago do cristal, e como os poderia invocar. No seu laboratório trabalhava juntamente com um foragido príncipe nardo e um velho alquimista egípcio. Juntos, trabalhavam o cristal na perfeição e criaram a solução para o tempo de espera que dizimava os clarividentes anciãos que aguardavam e desesperavam pela descoberta da matéria mágica que lhes conferiria vita aeterna, a Pedra Filosofal.

Gaudentio, Augutinius e El-Ashmeed construíram um vaso mágico de cristal, onde a alma se poderia refugiar durante séculos ou milénios até que fosse descoberto o segredo da carne imortal. Só então se poderia proceder ao transvase, o acto de passar a alma guardada no vaso para o novo corpo imortal.
O tempo tratou de fazer desaparecer completamente a Escola de Gaudentio e seus pares, e levou consigo o mistério do Vaso Eterno...




Angela sabia que era feita de carne mortal, e sabia que o fim estava próximo. Aquele estranho e insano episódio matinal poderia não ser mais do que um sonho que se arrastou para além do fim da narcose nocturna, mas era sem dúvida um aviso.

A Duquesa de Khroner não iria durar muito mais tempo na superfície da terra...




Olhar para trás e vislumbrar a imagem distorcida do presente,
miragem de um corpo desidratado,
e a ilusão que o trás pela trela.

Desvanecem-se as letras e ilustrações de um livro que leu mas que nunca decorou.
As paginas tingem-se lentamente de negro, ásperas e sem vida,
antes dos portões baterem com estrondo reverberante, e o deixarem no escuro.

sábado, 13 de novembro de 2010

Cristal (Eternidade em III actos)

PS: recuperada de outros tempos..



Acto I: As Criaturas

Os primeiros dias de Novembro fustigavam a aldeia com chuvas fortes e ventos castigadores. Era o anúncio do Inverno, que deixava bem claras as suas intenções de ser longo e tenebroso. Era tempo das pessoas se recolherem nas suas casas, nos seus abrigos, longe das tormentas da estação. E longe dos olhares dele

Era uma criatura peculiar. Alguns diriam pacato e recatado, outros chamavam-lhe “avozinho dos bonecos”. E também havia aqueles que o olhavam com desconfiança... e medo, muito medo.

A loja era de facto extraordinária, uma delícia para os olhares curiosos, um passeio entre o maravilhoso e o macabro. Centenas de pequenos bonecos de cristal, todos diferentes uns dos outros. Muitos, a maioria, eram para venda. Dizia-se que uns vinham da Bohemia, outros eram recordações do Brasil colonial, enquanto que muitos eram italianos ou mesmo chineses. Vinham de todo o mundo, e desfilavam nas prateleiras de teixo antigo da loja do Mestre Fausto.

Mestre Fausto vivia naquela aldeia desde sempre, nem mesmo os mais velhos se lembram da chegada dele. Era um homem alto e magro, de feições vincadas e pele encortiçada, olhar fundo e encovado, e tanto era capaz do sorriso mais cordial como da expressão mais esfíngica. Tinha o dom de encantar as crianças com as histórias dos seus bonecos de cristal. Entre tantas que foram contadas, houve duas que ficaram particularmente famosas: a do Tigre e a da Traça Aqueronte, a Caveira-da-Morte. Ninguém sabe todos os pormenores, pois foram as duas contadas há muito tempo e a várias pessoas, que ouviram de maneira diferente. A cada um a música que lhe encanta o ouvido.


O Tigre

O Tigre veio da Índia, de onde mais ? Dizia-se que teria feito parte da colecção luxuosa de um rico capataz inglês, nos tempos em que a Índia era a jóia da coroa do Império Britânico.

Não tinha preço, era uma peça única, de detalhes fora do comum, um cristal deliciosamente fino e leve, sem uma única marca de entalhe, como se tivesse sido o próprio Shiva a esculpi-lo com o seu fogo.

Mas tanta beleza tinha o seu lado negro. Não era possível contemplar o Tigre demasiado tempo, não mais do que um ou dois minutos de cada vez. Quem deixasse o seu olhar perscrutar o valioso espécimen com demasiada demora caia num transe profundo, onde era visitado por pesadelos violentos e claustrofóbicos, em que imaginava ficar perdido na selva, sem saber para onde ir, e em que o Tigre o perseguia... até à morte! Se conseguisse sair do transe antes do Tigre o apanhar, ficava apenas marcado para o resto da sua vida com terrores nocturnos, mas se o Tigre o reclamasse, ficaria remetido a um estado vegetativo, com o corpo contorcido pelo pânico e a cara deformada com a máscara da morte.


A Aqueronte

Uma peça de classe incomparável. Uma enorme traça Aqueronte, mais vulgarmente conhecida por Caveira-da-Morte, dado o padrão que exibia no seu dorso, uma assustadora caveira de expressão fria e cativante. A Aqueronte era uma antiguidade que havia passado de geração em geração, sendo que o último dono, o Conde de Chambourcy, a deixou em legado ao Mestre Fausto, em honra da sua inigualável colecção de seres de cristal.

A lenda rezava que a Aqueronte vinha da Grécia dos heróis e dos deuses. Constava que a infame pertencia a Pitonisa que, no seu Templo de Delfos, o Oráculo de Apolo, adivinhava o futuro e via para além do tempo.

A Aqueronte era uma das suas duas companheiras, sendo a outra o Grifo Assírio, que se terá perdido numa das inúmeras trocas de dono ao longo dos séculos. Consta então que a Pitonisa ouvia o que a Aqueronte e o Grifo lhe diziam sobre o visitante que vinha à consulta do oráculo, e que eram portadores das vozes dos condenados, os esquecidos do reino profundo de Hades.

A Aqueronte seria a voz do barqueiro que levava os mortos para o submundo. Ela sabia sempre o que as pobres almas tinham para pagar neste mundo... e no próximo. O que o Mestre Fausto dizia era que nunca fizessem nenhuma pergunta à Aqueronte, a não ser que estivessem seguros que queriam mesmo saber a resposta. Não, o boneco de cristal não se iria mover e desatar a falar. A resposta viria mais tarde, após o segundo sono da noite. Por vezes, quem obtinha a resposta da Aqueronte durante o pesado repouso acordava insano, tresloucado, profundamente apático ou simplesmente suicidava-se em poucos dias.


Mas não lhe vou contar mais histórias de bonecos assustadores, ou de velhas lendas sem tempo. Vou-lhes contar a história de Ângela, e de como ela procurou descobrir o segredo de Mestre Fausto e dos Cristais malditos…

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Requiem

Regressa a casa . A fadiga é insuportável. Redes sem elasticidade nas pernas cansadas. Senta-se ao piano e solta a voz. Num grito de desespero.

É o piano desafinado, numa melodia incontrolável.

Sabor a morango, do qual só aprecia o aroma. Cerejas no vermelho dos lábios a disfarçarem o amargo dos medicamentos. As nêsperas são mais doces quando descascadas por mãos alheias. Inverte-se o olhar numa caminhada singela. Hábito de dor. Levanta-se, abre a janela e debruça-se no parapeito numa espera de Verão. Mesmo sabendo que a Primavera não aconteceu. O calor sufoca as nuvens dos olhares embaciados.

Mergulha no sonho e com o coração a palpitar atravessa indiferente a tarde desarrumada no peito.
Numa espera de quem não sabe aguardar.



29 de Maio de 2009

domingo, 7 de novembro de 2010

Redenção (Acto III de III)




São 02h36. Dia 16 de Junho. Hoje.


Fui eu que escrevi o parágrafo anterior, bem como todos os outros que o antecederam.

Durante as últimas duas horas e meia olhei em vão para o monitor, à espera que algo acontecesse. Que alguém ou algo se manifestasse. Nada. Nem um som, uma variação de luminosidade, um pixel fora do sítio. Nada. Tal como seria de esperar...

Lamento minha querida, mas não há nada que eu possa fazer para parar o teu destino. Estás fora das minhas mãos, escapaste-te por entre os meus dedos. E por mais que eu tente, por mais que volte atrás na minha mente, não posso mudar o que aconteceu. Nem sei se alguma vez o pude fazer…


Lá fora o tempo arrefeceu bruscamente, a lua brilha no firmamento, mas aqui estou, entre trevas. A lua brilha, refulgente e prateada, infinita, desafia as nuvens que pairam entre mim e o firmamento sem fim. Mas é assim que eu te quero recordar. Um raio de luar que passou pela minha vida, um clarão de esperança que me cegou de medo, de cobardia, de estupidez. De amor. É assim que eu te lembro, maior do que eu alguma vez fui, brilhante e infinita. Longínqua, como a Lua esta noite. E eu só te dei trevas e às trevas te condenei. Está gelada a madrugada. Longa e gelada, tão longa quanto foi o teu último dia, demasiado longa, como são os meus dias desde que te perdi.


Nunca sobrevivemos à morte de quem amamos. Há algo que morre com eles, que cai na espiral negra da eternidade que nos espera, que se separa de nós para nunca mais ser visto, tocado ou sentido.

Continuamos a viver? Sim, aqui estou, nesta madrugada de geada, a aguardar que a primeira claridade da primeira hora após a madrugada me resgate das trevas que me envolvem.

Recordamos? É pois esta a nossa tarefa, ficar deste lado, neste plano. Avançar em direcção a algo em que já não acreditamos e do qual nada esperamos.

Sonhamos com o reencontro, como se o Eterno algum dia o permitisse.

Ansiamos. Ansiamos para que alguém nos diga para continuar, que a vida prossegue, que nos mostrem o que é a felicidade, a facilidade com que a crianças sorriem, com que os amantes declaram amor eterno, imortal.

Negociamos, constantemente. Dizemos para nós próprios, ‘que mais poderia eu ter feito’? Sussurramos a nós próprios, ‘tens que te erguer, esse era o seu desejo, não te martirizes, tens que te erguer e seguir caminho’.

Enganamo-nos a nós próprios, ‘acho que vou conseguir voltar a amar, voltar a encher o peito de verdadeira paixão, sei que desta vez irei libertar-me e oferecer o meu coração’. Mas cá dentro, neste canto negro e funesto em que nos escondemos, no âmago do inferno a que nos auto-condenámos, entre as cinzas e o pó das lágrimas que já não correm, sonhamos com uma só coisa.

Redenção...




07h16.
A aurora rompe as trevas da noite, o Sol nasce lentamente, sente-se a sua luz ténue e gelada por entre as nuvens negras que toldam o horizonte. Parece-me que vai ser mais um daqueles longos dias de chuva…

Redenção (Acto II de III)



Eu lembro-me perfeitamente desse dia...

Aquilo que eu não me lembro é dos dias anteriores. Mas se os tentasse reconstruir, pegando nos destroços e peças soltas que me invadem a mente seriam algo assim:



9h15.
- Oi. Hoje atrasaste-te, não apareceste ao primeiro tempo. Nem parece teu, adoras Filosofia!
(Olho para trás e a única coisa que me lembro dela naquele momento é da sua expressão inquisitória. Como se eu tivesse que lhe contar tudo, explicar por que carga de água me ‘baldara’ a Filosofia.. Achei a atitude insuportável, ter que me explicar, ter que me justificar, ter que dar satisfações a mais alguém… afinal quem é que ela pensava que era, minha dona? Minha mãezinha? Que raio, era só uma namorada, porque é que para as mulheres tem que ser tudo tão claro? Branco ou negro, dizem elas. Detesto isso. Detesto que me controlem. Odeio que… bem, acho que é melhor parar)


12h43.
– Falta muito para esta seca acabar?
- Calma, mais dois minutinhos e estamos livres. Ficas sempre irritado quando temos duas horas de matemática antes do almoço. – (sorriso).
- Mas agora tens que fazer sempre comentários ao que digo ou deixo de dizer? Há sempre uma sentença no fim de cada coisa que te digo, sempre uma observação qualquer! Ou porque não vim de manhã, porque me farto desta merda, porque estou sem paciência, porque antes era mais atencioso e meigo contigo… irra, não te podes limitar a ver as coisas como elas são, só isso? –
- Vocês ai, algum problema?
- Não professor, está tudo bem. Eu é que fui a culpada pela agitação.
- Tu, sempre tu! Tu isto, tu aquilo, tem sempre a ver contigo, és o centro do universo, a menina perf…
- Oh rapaz, mas que parvoíce vem a ser esta? Não se trata assim uma menina, haja respeito. Ontem andavas só atrás dela e agora é isto? Mas o que é que tens na cabeça?
(Soa o toque de fim de tempo)
- Peço desculpa, vou-me já embora. (baixa a cabeça enquanto se levanta, pega no seu caderno e desaparece pela porta, sem olhar para trás…)



22h23.
A casa está mais sossegada por fim.

Isto aqui é como um covil, apertado, sufocante, asfixiante. Sinto-me a enlouquecer. Não quero mais saber de amor, é horrível, deixa-me nauseado, doente, fraco. É demasiado intenso para mim, demasiada pressão. Eu amo-a, até demais. Só penso nela, no seu corpo macio, no sorriso lindo que me encanta, na voz doce que me embala, naqueles olhos profundos onde me apetece viver para sempre. Mas não a entendo. Ela está comigo porque sim, porque o outro gajo de quem ela fala, o tal que está no 11º ano, o alto, louro e de olhos azuis como aquele jogador de futebol lorpa que ela adora, está sempre a descrevê-lo, que enjoo… uff.

Se ele viesse ter com ela, com o seu ar de Adónis dourado, idiota, se ele viesse ter com ela, era na hora. Deixava-me. Sou só um consolo e estou p’ra aqui apaixonado, a bater mal de amores!...

Sou um idiota, mas que estúpido, porque é que eu alinho nisto? Sou como sou, gosto do que gosto, já nem me importo com os outros, com o que dizem de mim, com as alcunhas de ‘freak’, ou qualquer que seja a inspiração daquele dia. Não suportam quem os desafie, quem não alinhe nos seus joguinhos e pertença à sua tribo.
E agora deixo-me cair nas mãos desta rapariga tóxica? Ela não me ama, quanto muito suporta-me! É falsa, só pode. Eu nem faço o estilo dela!... Não conhece nada do que eu gosto, diz que as minhas t-shirts são esquisitas, que raio de bandas são aquelas, pergunta-me sempre…

Quem me dera que simplesmente parasse. Sei que mais um destes momentos e o meu coração desfaz-se em pó. Demasiada expectativa. Demasiado esforço. Demasiado tempo a chorar por ti. É sempre o mesmo. No fim acordo só comigo próprio. E tu ficas onde estás. A milhas e milhas daqui, para lá deste mar imenso que sempre nos separará. E eu nunca encontrarei a minha casa no seio de nenhuma mulher.

Sou um visitante, não um inquilino. Chega. Vou matar este sentimento. Amanhã mesmo.


Não foi amanhã. Foi passadas duas semanas.

Pelo meio fomos ficando junto, passamos bons bocados nos braços num do outro, horas perdidas a trocar afectos. Mas a insegurança crescia, em vez de desaparecer. E a inquietude pairava no ar. Era como se atmosfera estivesse carregada de vapores de gasolina, saturada, prenhe de medo e ansiedade. Bastava uma faísca e tudo explodiria. E não foi preciso muito.

Poucos dias depois das aulas terem acabado, no dia em que ela completava dezasseis primaveras o dique rebentou. Não foi preciso muito, dirão. Ela virou-se para mim e perguntou-me se a amava. Ri-me. Ri-me com ar de gozo e espanto, tal era o horror causado por tal pergunta. Disse-lhe que não. Que não amava ninguém, que nunca amaria ninguém, que estava apaixonado por algo, mas que não era por ela. Estava apaixonado pela ideia romântica de mim mesmo, de ser uma alma solitária, que deveria estar só.



E fiquei só.

Nessa noite ela foi para casa, para junto dos seus pais, como sempre fazia, todos os dias. Jantaram, cantaram-lhe os parabéns e comeram bolo. O pai deitou-se de seguida. Como sempre. A mãe ficou a ver novelas até tardíssimo. Como sempre. Ela fez algo diferente.

Foi cedo para o seu quarto, não sem poucas horas antes ter ido buscar algo ao móvel dos medicamentos e guardado esse algo na gaveta do seu toucador. Fê-lo assim que chegou a casa, não fosse mais tarde faltar-lhe a coragem. Curiosidades do destino. Nessa noite a mãe adormeceu sem comprimidos, estava tão sonolenta que nem se lembrou da mama sintética. Quando a mãe a procurou, já de manhã, ela não respondeu.


Foi encontrada deitada na sua própria cama. Azul, quase violeta. Como a fita para o cabelo que ela usava quando criança.


Eu matei-a...

Redenção (Acto I de III)

(NdA: texto anteriormente publicando nas notas pessoais da página de facebook do autor)




Com um gesto lento e tão longo como tinha sido o seu dia, eleva a sua mão direita em direcção ao rosto cansado. Ela é tão bela como sempre fora, pele suave e delicada, morena e cremosa como o leite com um ligeiro toque de café. Olhos grandes, amendoados, castanhos cor de mel, pestanas encurtadas pelos pesados óculos que tem que usar no seu dia-a-dia. A mão agora desliza para trás, dedos abertos para desembaraçar o cabelo escuro e levemente encaracolado. Daqui não o sinto, mas aposto que os seus cabelos têm aroma a frutos silvestres com um travo doce a baunilha. Conheço esse aroma de cor. Era o que eu sentia quando era a minha mão que desenleava o seu cabelo sombrio e sedoso.


Com um gesto lento e tão longo como tinha sido o seu dia, baixa a sua mão direita em direcção ao toucador e abre uma pequena gaveta ornada com um puxador de marfim. Retira os pesados óculos e pousa-os sobre o toucador. Olha-se ao espelho e demora, demora um tempo infinito a se reencontrar. Mas o espelho está vazio. Ela está a olhar para si própria, mas sente-se nada, vazia, a flutuar em perpétua desolação. A mão procura algo, primeiro devagar, busca com firmeza e estanca de súbito. Encontrou o que procurava.

São 22h21.Estamos a 16 de Junho, dia do seu décimo sexto aniversário, e ela está só, no seu quarto, que a acolhe desde que saiu do berço que ainda hoje está guardado no quarto dos pais. Ela está sozinha. Não deveria estar. Ninguém deveria ficar abandonado a si mesmo, especialmente neste dia. Hoje a palavra é fria. Cortante. As palavras foram cruéis, insensatas, duras, más. Maldade, pura maldade. Porque tanta crueldade? Afinal o que é isso do ‘amor’? Não era suposto ser respeito, carinho, afecto, ternura, compreensão… ? Porque é que ela foi magoada de forma tão violenta. Nem uma nódoa negra ou escoriação no seu corpo de pele morena e macia. Mas a sua alma sangrava, deitada no chão, chorava, deitada na lama que cobria o chão, soluçava, com a cara enlameada.


São 22h46. Ela está só no seu quarto. Não deveria ser assim, não hoje, não neste dia. Ela sente-se morta por dentro. Mas ainda respirava, pois quando encostou a cara redonda, nariz pequeno e faces pálidas, quando encostou a boca ao espelho este embaciou com o seu suspiro. A mão esquerda também se juntou ao encontro e veio aninhar-se junto dos cabelos pendentes, encostados ao espelho que agora tinha uma mancha que se distendia e encolhia com o ritmo profundo dos seus suspiros. Porque ela suspira, ela sabe. Sempre suspirou por ele. Suspirava que ele notasse que ela o olhava. Que fingisse que não o via quando ele passava e lhe lançava um sorriso de menino travesso. Que ele soubesse que quando ela elogiava aquele jogador de futebol que era alto e loiro e de olho azul, estava a pensar nele, um miúdo meio freak, com roupas de bandas estranhas que mais ninguém conhecia, moreno como ela, cabelo negro e meio despenteado, sorriso torto e de olhos castanhos profundos. Como a admiração que ela tinha por ele, profunda como o mar. Onde ela se afogava cada vez que ele lhe tocava.


São 23h19. Ela está só no seu quarto. Não deveria ser assim, não hoje, não no dia em que ele foi cruel ao ponto de lhe dizer que não a amava, que não amava ninguém, que nunca amaria ninguém, que estava apaixonado por algo, mas que não era por ela. Estava apaixonado pela ideia romântica de si mesmo, que era uma alma só, que deveria estar só. Mas era mentira, ela não acreditou nele. Ela amava-o com toda a força com que os seus braços o conseguiam abraçar, ela amava-o. Com todo o carinho com que o ouvia falar de bandas estranhas que mais ninguém conhecia. Os dois, morenos e apaixonados, abraçados em beijos infantis, em beijos doces e suaves, como a pele dela. Ela amava-o quando lhe perguntava se ele gostava da sua roupa nova e ele dizia que ela ficava quase tão gira como a sua actriz favorita. Quase. Nada mau, supunha. Mas chegaria. O quase? Quase que gostava dela? Quase que a amava? Quase que lhe oferecia o seu coração. Mas nunca o fez. E hoje deitou fora o dela e fê-la sangrar. Não por fora, não havia uma única nódoa negra ou escoriação. Mas a alma dela sangrava. Abundantemente. E o sangue escorria, por entre a lama.


São 23h41. A mão procura algo. E encontra. Ontem a gaveta estava vazia, tinha apenas uma fita de cabelo antiga, que ela usava quando tinha sete, oito anos. Era azul, quase violeta. Aconchegava-lhe os cabelos, pois quando ela era menina os caracóis eram maiores, mais rebeldes, mais soltos, mais vivos e brilhantes. Hoje são frágeis, pequenos, débeis, submissos, enfraquecidos e mortiços. Tal como o seu olhar. A fita já não estava na gaveta. Ela deitou-a fora, junto com os sonhos que tinha construído. Com sete, oito aninhos, o mundo era um enorme parque de diversões aberto e divertido. O parque fechou, o carrossel já não gira e gira, já não cheira a algodão doce e em vez das músicas alegres do realejo só lhe soam os sons agrestes e violentos que algumas das bandas mais estranhas que ele lhe dera a conhecer. A fita está no lixo mas a gaveta não está vazia. Tem lá dentro um frasco. A sua mãe dará por falta dele, mas mais tarde, quando terminarem as novelas e ela for para a cama. Afinal, comprimidos para dormir não são boa companhia para a sua mãe ver novelas. Nem para ela. Muito menos hoje, dia do seu décimo sexto aniversário. Dia em que se sentia morta por dentro. Abandonada à sua sorte. Profundamente triste. A vogar em perpétua desolação.

São 23h58. Faltam dois minutos para terminar o dia do seu décimo sexto aniversário. Ela olha no espelho e diz:


‘Por favor, pára! Não escrevas mais, pára antes que seja demasiado tarde outra vez!’



São 23:59h. Dia 16 de Junho, dezoito anos depois. O tempo parou. Vejo o cursor a piscar mas não percebo o que se passou.

Não fui eu que escrevi o parágrafo anterior…

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Intensamente

Detesta camisas. Mas estas que usa sobre os tops semitransparentes dão-lhe uma elegância invulgar, a elegância interior que transparece quando fixa o firmamento, mesmo em dias de Sol escaldante.

O banco de jardim está só para ela, como o Verão está para um dia de praia. Senta-se à sombra do salgueiro, onde tantas vezes sonhou, confidenciou, namorou...

Passam vinte e cinco anos e reconhece os aromas, as cores, as sombras mais intensas pela densidade das folhas.

Descalça um pé, depois o outro, sente-se menina endiabrada, abraça as pernas recolhidas para cima do banco e pousa a cara nos joelhos. Atitude infantil, quase provocadora numa idade para ter juízo. Os colegas metem-se com ela. Acham-na demasiado calada, a ela que alcunhavam de tagarela. Por outro lado, sempre teve destes momentos: pensativa ou inspirada, costumavam perguntar.

Nota-se o silêncio quebrado pelo chilreio dos pássaros. Esvoaçam borboletas. 40 graus. Centígrados.
Solta-se um perfume quente do corpo quieto.

Embala-se nas memórias e sonha com os desejos que pretende realizar. Deixou o caderno em casa. Está ali para estudar a sério. Nada de melancolias. Nem de libertação em palavras.

Transpira ternura, apesar duma aragem que se levantou. Fresca e repentina. A ternura.

A aragem passa, breve e com o sorriso que a caracteriza, resolve viver.

Intensamente.
Com as mãos dentro do peito, num arremesso de vida.

(Mesmo que por vezes a dor se instale e a deixe extenuada).


em 30 de Maio de 2009