Mensagens

A mostrar mensagens de Novembro, 2010

... Corda

A boneca de loiça tem ar de criança crescida e criada, naquelas casas de cristal barro. As mãos estão sempre na mesma posição, uma a segurar na bainha do vestido, outra a guardar na mão fechada uma maçã maioritariamente marcada a vermelho. Não é doce, mas não tem de ser amarga. É daquele sabor que só as bonecas sabem comentar entre elas. Tem os olhos bonitos, pupila loiça, a combinar com boca quase bonita, lábio vidro vincado e vivido sempre na mesma posição. Não é sorriso, mas não tem de ser triste. É daquela inércia que só as crianças sabem ver em movimento. A respiração, sem corrente de ar, faz-se aquando da oxigenação do barro, nariz redondo, bem feito sem narinas. A boneca, unhas cor de crescida, é oca por dentro. Só ela sabe o que custa ter pensamentos que soam a sopro para o interior de uma garrafa. Se ao menos todas tivesse um barco lá dentro. Velas e tábuas com ar de cacos, terra de térmitas, água de rochas e fogo de algodão. A criança crescida, sabe que não se pode mexer, me…

O Anjo Destruidor (em III actos)

Parte II



13 de Junho
Querido Diário. Hoje é o dia mais feliz da minha vida, pois hoje sei que estou viva e que a vida em mim vibra ainda mais intensamente, pois vida trago dentro de mim. Abençoado seja Deus e os seus anjos, pois agora sei que um deles cresce dentro de mim.

8 de Julho
Querido Diário. Estou exausta mas feliz. Ainda não me habituei às náuseas, vómitos e tonturas repentinas. Mas sei que tudo é prova de amor, prova de que fui a escolhida…

22 de Agosto
Querido Diário. Abençoado seja o Senhor por me dar este menino. Foi o que me disse o doutor, é um menino, um menino! Sou a mulher mais feliz do mundo!

28 de Setembro
Querido Diário. Mal tenho forças para escrever, hoje pensei que fosse morrer. Acordei com sangue entre as pernas e em pânico fui de imediato ao hospital. Pensei que fosse perder o bebé, pensei que tudo estava acabado. Diz-me o doutor que não, que o bebé está bem mas que tenho que estar em repouso absoluto para que ele se volte a unir a mim com toda a sua força. M…

O Anjo Destruidor (em III actos)

Parte I (de III)



Mamã, sabes onde está o teu menino? Está lá em cima, no sótão, sozinho a brincar com os brinquedos e sombras esquecidas, emaranhado nas teias e segredos, coberto de pó e de medo, tanto medo que lhe dá vontade de rir.

O teu menino sorri, entre os reflexos gastos do espelho de estanho onde antes te olhavas, enquanto te penteavas e aguardavas pelo príncipe encantado.

O teu menino é puro, pois é com pura maldade que encosta a cara fina de porcelana das tuas bonecas à chama que se contorce, agarrada ao pavio, assustada com o sorriso puro do teu menino.

Mamã, porque não lhe levas um copo de leite, uma bolachinha, alguma coisa, o pobre do menino deve estar com fome. Pois os olhos dele estão famintos, percorrem alfarrábios e buscam conhecimento mortal. Folha a folha, os volumes antigos são lambidos sofregamente pela mente eléctrica e voraz do teu menino. Ele sabe que o segredo está ali, escondido entre estrofes e ensaios, entre heróis e vilões que disputam a alma dos puros…

Mea culpa

Não lhe apetece escrever.
Não que tenha as ideias cansadas mas o corpo acha que a ponta dos dedos já não tem de comandar letras. O corpo vê que as palavras contraem sempre a mesma cor do fundo onde capitulam. A presença constante tornou-as áridas.
Agora, em vez de escrever, fica à janela a apreciar a paisagem através de um copo de água. Tudo fica mais bonito através de um copo de água, é como se o mundo inteiro se assumisse em mililitros.
O braço ainda se inspira para segurar no copo, os dedos ainda obedecem, o vidro é aderente, mas o que fazer quando a água ficar turva? A luz reflectida vai perder-se e misturar-se com a cor pálida da mão. Coloca o copo no parapeito da janela e vai buscar os pincéis com restos de guache para obrigá-los a largar tudo o que têm. Se é para ter um desgosto mais tarde, que seja agora, se é para ficar turva que seja pelo resto de várias tentativas de arte inacabada, se é para perder o mundo que seja pelo egoísmo de mais tarde dizer “a culpa foi minha”. Sim, nã…

Cristal (Eternidade em III actos)

Acto III: A Lenda



Inspirada na antiga história que seu tio lhe contara, decidiu que era hora de visitar aquele homem tenebroso, aquela criatura que tanto transtorno lhe causava. Era hora de ir bater à porta de Mestre Fausto. Ia confrontá-lo, e perguntar-lhe que segredos guardavam aqueles cacos de vidro glorificado, aquela bonecada resplandecente, aqueles incómodos seres de cristal. Tudo na esperança de encontrar entre a parafernália de bibelôs desalmados uma última morada para o seu sopro imortal. O horror alimentado pelo catolicismo vigente de que um Inferno em chamas a poderia engolir para toda a eternidade fê-la tomar atitudes drásticas, tudo em nome da salvação da última das Khroner.

Mal Angela se aproximou da loja de Mestre Fausto ouviu a pesada porta de carvalho ranger e entreabrir-se. Ela sabia que era esperada, ainda que em mais de quarenta anos nunca tivesse posto os pés lá dentro mais do que duas ou três vezes.

- Aproxime-se Sr.ª Khroner, estava à sua espera – disse Fausto, …

Cristal (Eternidade em III actos)

Acto II: A Duquesa



Ela representava os restos mortais de uma linha aristocrática extinta e esquecida. O sangue que lhe corria nas artérias empedernidas pela velhice avançada era o último vestígio dos Khroner, a família maldita que regera aquele pequeno condado durante mais de quinhentos anos. No entanto, Angela era uma mulher altiva, muito segura de si e que nunca hesitava em fazer-se valer dos seus privilégios de derradeira Duquesa de Khroner. Era a primeira a ser atendida nas lojas da aldeia ou da vila, era-lhe reservado o que de mais refinado havia para degustar e o que de melhor recorte havia para vestir ao seu corpo encurvado e senescente. Ela era gentil para quem se dirigisse a ela como Sr.ª Duquesa, admitindo mesmo que por uma vez ou outra se dirigissem a si como Sua Senhoria ou Sr.ª Khroner. Em relação a este último epíteto, o melhor era não abusar, pois mesmo Angela não gostava de ouvir o apelido infame demasiadas vezes, por muito estatuto que este tivesse.


Naquela manhã fri…
Olhar para trás e vislumbrar a imagem distorcida do presente,
miragem de um corpo desidratado,
e a ilusão que o trás pela trela.

Desvanecem-se as letras e ilustrações de um livro que leu mas que nunca decorou.
As paginas tingem-se lentamente de negro, ásperas e sem vida,
antes dos portões baterem com estrondo reverberante, e o deixarem no escuro.

Cristal (Eternidade em III actos)

PS: recuperada de outros tempos..



Acto I: As Criaturas

Os primeiros dias de Novembro fustigavam a aldeia com chuvas fortes e ventos castigadores. Era o anúncio do Inverno, que deixava bem claras as suas intenções de ser longo e tenebroso. Era tempo das pessoas se recolherem nas suas casas, nos seus abrigos, longe das tormentas da estação. E longe dos olhares dele

Era uma criatura peculiar. Alguns diriam pacato e recatado, outros chamavam-lhe “avozinho dos bonecos”. E também havia aqueles que o olhavam com desconfiança... e medo, muito medo.

A loja era de facto extraordinária, uma delícia para os olhares curiosos, um passeio entre o maravilhoso e o macabro. Centenas de pequenos bonecos de cristal, todos diferentes uns dos outros. Muitos, a maioria, eram para venda. Dizia-se que uns vinham da Bohemia, outros eram recordações do Brasil colonial, enquanto que muitos eram italianos ou mesmo chineses. Vinham de todo o mundo, e desfilavam nas prateleiras de teixo antigo da loja do Mestre Fau…

Requiem

Regressa a casa . A fadiga é insuportável. Redes sem elasticidade nas pernas cansadas. Senta-se ao piano e solta a voz. Num grito de desespero.

É o piano desafinado, numa melodia incontrolável.

Sabor a morango, do qual só aprecia o aroma. Cerejas no vermelho dos lábios a disfarçarem o amargo dos medicamentos. As nêsperas são mais doces quando descascadas por mãos alheias.Inverte-se o olhar numa caminhada singela. Hábito de dor. Levanta-se, abre a janela e debruça-se no parapeito numa espera de Verão. Mesmo sabendo que a Primavera não aconteceu.O calor sufoca as nuvens dos olhares embaciados.

Mergulha no sonho e com o coração a palpitar atravessa indiferente a tarde desarrumada no peito.
Numa espera de quem não sabe aguardar.


Publicada por O outro lado do espelho em 29 de Maio de 2009

Redenção (Acto III de III)

São 02h36. Dia 16 de Junho. Hoje.


Fui eu que escrevi o parágrafo anterior, bem como todos os outros que o antecederam.

Durante as últimas duas horas e meia olhei em vão para o monitor, à espera que algo acontecesse. Que alguém ou algo se manifestasse. Nada. Nem um som, uma variação de luminosidade, um pixel fora do sítio. Nada. Tal como seria de esperar...

Lamento minha querida, mas não há nada que eu possa fazer para parar o teu destino. Estás fora das minhas mãos, escapaste-te por entre os meus dedos. E por mais que eu tente, por mais que volte atrás na minha mente, não posso mudar o que aconteceu. Nem sei se alguma vez o pude fazer…


Lá fora o tempo arrefeceu bruscamente, a lua brilha no firmamento, mas aqui estou, entre trevas. A lua brilha, refulgente e prateada, infinita, desafia as nuvens que pairam entre mim e o firmamento sem fim. Mas é assim que eu te quero recordar. Um raio de luar que passou pela minha vida, um clarão de esperança que me cegou de medo, de cobardia, de e…

Redenção (Acto II de III)

Eu lembro-me perfeitamente desse dia...

Aquilo que eu não me lembro é dos dias anteriores. Mas se os tentasse reconstruir, pegando nos destroços e peças soltas que me invadem a mente seriam algo assim:



9h15.
- Oi. Hoje atrasaste-te, não apareceste ao primeiro tempo. Nem parece teu, adoras Filosofia!
(Olho para trás e a única coisa que me lembro dela naquele momento é da sua expressão inquisitória. Como se eu tivesse que lhe contar tudo, explicar por que carga de água me ‘baldara’ a Filosofia.. Achei a atitude insuportável, ter que me explicar, ter que me justificar, ter que dar satisfações a mais alguém… afinal quem é que ela pensava que era, minha dona? Minha mãezinha? Que raio, era só uma namorada, porque é que para as mulheres tem que ser tudo tão claro? Branco ou negro, dizem elas. Detesto isso. Detesto que me controlem. Odeio que… bem, acho que é melhor parar)


12h43.
– Falta muito para esta seca acabar?
- Calma, mais dois minutinhos e estamos livres. Ficas sempre irritado qua…

Redenção (Acto I de III)

(NdA: texto anteriormente publicando nas notas pessoais da página de facebook do autor)




Com um gesto lento e tão longo como tinha sido o seu dia, eleva a sua mão direita em direcção ao rosto cansado. Ela é tão bela como sempre fora, pele suave e delicada, morena e cremosa como o leite com um ligeiro toque de café. Olhos grandes, amendoados, castanhos cor de mel, pestanas encurtadas pelos pesados óculos que tem que usar no seu dia-a-dia. A mão agora desliza para trás, dedos abertos para desembaraçar o cabelo escuro e levemente encaracolado. Daqui não o sinto, mas aposto que os seus cabelos têm aroma a frutos silvestres com um travo doce a baunilha. Conheço esse aroma de cor. Era o que eu sentia quando era a minha mão que desenleava o seu cabelo sombrio e sedoso.


Com um gesto lento e tão longo como tinha sido o seu dia, baixa a sua mão direita em direcção ao toucador e abre uma pequena gaveta ornada com um puxador de marfim. Retira os pesados óculos e pousa-os sobre o toucador. Olha-se…

Intensamente

Detesta camisas. Mas estas que usa sobre os tops semitransparentes dão-lhe uma elegância invulgar, a elegância interior que transparece quando fixa o firmamento, mesmo em dias de Sol escaldante.

O banco de jardim está só para ela, como o Verão está para um dia de praia. Senta-se à sombra do salgueiro, onde tantas vezes sonhou, confidenciou, namorou...

Passam vinte e cinco anos e reconhece os aromas, as cores, as sombras mais intensas pela densidade das folhas.

Descalça um pé, depois o outro, sente-se menina endiabrada, abraça as pernas recolhidas para cima do banco e pousa a cara nos joelhos. Atitude infantil, quase provocadora numa idade para ter juízo. Os colegas metem-se com ela. Acham-na demasiado calada, a ela que alcunhavam de tagarela. Por outro lado, sempre teve destes momentos: pensativa ou inspirada, costumavam perguntar.

Nota-se o silêncio quebrado pelo chilreio dos pássaros. Esvoaçam borboletas. 40 graus. Centígrados.
Solta-se um perfume quente do corpo quieto.

Embala-se nas mem…