quarta-feira, 29 de junho de 2011

Cinzas




Na fatia de tempo que sucede o último suspiro e a queda na noite,
As irmãs siamesas
Impulsionaram-se em música.
Com a ponta dos dedos, extensão do coração, e as cordas da viola, extensão das da voz
Porque não suportavam a maresia.


Na véspera do solstício,
O vinil
Tocava chorinho chorando
E abrindo os olhos do mundo com a sua nudez
Porque a voz assim o ordenava.

Na quarta-feira de cinzas,
O velho preto com uma pala no olho direito e guitarra nas mãos
Sibilou como um réptil ao ouvido da presa
Como quem cauteriza a sua própria ferida
Porque tinha necessidade de vestir-se em sonâncias.

No momento em que a lua atordoa os telhados,
A amante morta
Inventou um país sem rios
Com os seus dedos de aranha
Porque não podia ceder à perda de memória.
Porque o amor que encontrou ao virar da esquina perdura na memória, na voz, nos gestos.
Marcado na alma e preso na palma da mão.

Todos os dias,
O homem que desenha mapas

Come pétalas de rosas
No ponto continuo costurado entre ele e a agulha
Porque anseia estar só e desligar o caos que a todos nos une.


E eu
Escrevo uma poema
Sentado no chão encostado ao segundo poste, depois das escadas da velha casa com faixa azul, onde te pedi um fio de cabelo.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Solta(S)










trémula a folha



cai



em sangue o Outono



.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.




visto-me de ti



em nuances de fogo



o olhar mareado de lágrimas estivais




.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-




dormes no meu corpo



o son(H)o



virgem guerreiro sem tempo




.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.




busco num poema



a força



do carvalho refeito cor(es)




.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.




sei o som



da morte



da vida em musica celebrada





VIVO

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Asa(s)






Exangue a tortura do plano inclinado

trocam-se palavras

letras empoleiradas nos beirais do poema


d


e


s


a


l


i


n


h


a


d


o



o tempo em que as romãs são diospiros

maçãs do rosto em fogo

a

alma

leve suave transparente

cálida

a noite

em que te vestes de mim.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O tempo do tempo




Era noite, talvez madrugada, acordou com um barulho, tic tac, tic tac.

Mas ela não tinha relógios no quarto…de onde vem o barulho?

Olhou em redor não viu nada, nem uma réstia de luz naquele quarto, pois ela não consegue dormir sem ser na completa escuridão.
Não gosta da luz, da projecção de sombras na parede, fazem-lhe confusão, perde a noção entre real e o que é fruto da sua imaginação.

Acendeu a luz e procurou o relógio, mas não existia nenhum relógio…foi descalça até à sala, para sentir o frio do chão e ter a certeza que não estava a sonhar, abriu a janela olhou para a lua, acendeu um cigarro e o som tinha desaparecido.

Voltou para a cama e já de olhos fechados, o som, aquele som, tic, tac, tic, tac!!!!
Relógio, conjunto de peças soltas que juntas, medem intervalos de tempo.
Mas ela tinha deixado de usar relógios, pois não queria saber do tempo, odiava o tempo!

O tempo passou a ser demasiado longo para ela.
Passavam segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos, e ela não queria ter essa noção. Um engano para si mesma, pois sabia o tempo exacto!

Antes reclamava com o tempo pois não tinha tempo para nada, depois passou a reclamar com o tempo porque este demorava demasiado tempo a passar.
Mas perguntava-se se o tempo correria depressa demais ou seria ela que corria, o tempo corre?
Quando o tempo demorava a passar pensava, é ele que é lento ou serei eu?

Mas os segundos, os minutos, as horas, os dias,as semanas, os meses, os anos continuam a passar porque o tempo não pára!

O tempo não pára, ou somos nós que não paramos?
O tempo corre ou somos nós que corremos, o tempo demora ou somos nós que demoramos.

Mas ela só queria dormir…mas o som continuava, estaria a sonhar ou seria a sua cabeça a pensar, a pensar sobre algo que ela não se atrevia a pensar durante o dia, o tempo, o tempo que já passou e o que falta passar.

O tempo…preciso de tempo, pensou!

E adormeceu com aquele tic tac ensurdecedor na cabeça. E com o tempo sonhou ou terá sido um pesadelo?

Acordou, estava tudo escuro, sentiu que não tinha descansado, levantou-se a abriu a janela, o sol brilhava, esta um dia bonito, pensou.
E enquanto se maravilhava com a luz e o calor do sol, lembrou-se, lembrou-se do tempo.

Que horas são?

E os segundos, os minutos, as horas, os dias, as semanas, os meses e os anos continuam a passar!

terça-feira, 21 de junho de 2011

poesia

 


agora é fruir o som dos Sean Riley and the Slowriders e ler

O olhar

Canto I

No princípio está o olhar.
Ocasional e inconsequente olhar de ver,
como se vê o dia, a noite, o automóvel e o pássaro, o cão da rua;
como se vê o próprio umbigo.
Sem emoção.

Mas quando se olha, corre-se o risco
de ver,
entre tanta coisa e tanta gente, alguém que estala,
- às vezes rebenta –
alguém que salta à nossa frente e se ilumina, ali aos nossos olhos,
como um fogo de artifício, ponto de luz, inevitável foco
para o não mais distraído olhar que nesse alguém se deixa,
se planta
e se vislumbra,
como o olhar de uma criança que encontra o brinquedo perdido.
Então não mais se olha.
Apenas se vê.
E quanto mais se vê, mais se olha
porque olhar é o primeiro gesto de dizer que a vi.
E que o meu olhar lhe diga que a percebo
          - entre tanta coisa e tanta gente –
e a percebendo gosto e gostando a quero.
O olhar aí é a descoberta. O sinal de aviso.
E quando ela se descobre olhada, também vê.
E se quando vir percebe, e percebendo gosta,
olha também.

Canto II

É ela, já se viu!
E, se olhou... meio caminho andado,
          - porque andar é preciso -.
Segui-la na multidão,
atropelar os passantes, atravessar com o sinal fechado,
negar a esmola a quem pede, fingir que não se vê o amigo,
esquecer mesmo a hora marcada.
É ela sem dúvida.
Que longos caminhos teremos feito estupidamente.
Quanto tempo perdido para chegar até aqui,
a esta esquina tão comum, num dia como qualquer outro, neste prosaico começo de tarde?
É ela!
O seu jeito de andar não chega a ser sensual.
Ela desliza e sabe que desliza, com um andar que não usa todos os dias.
Mas sabe que eu vou ali,
Tímido e ardoroso à espera de a encontrar.
Naquele momento ela não vai a lugar algum. Esqueceu-se onde ia.
Está simplesmente na minha mira e anda.
Não anda, dança.
Dança um balet furtivo.
Os seus passos soltos pela rua e pela tarde.
O seu olhar não vê nada. Distrai-se com tudo.
Refreia o passo. Aguarda-me.

Canto III

Um olhar, uma caminhada.
Já me sinto apaixonado como se ninguém tivesse visto antes
e nada tivesse andado.
- Eu sou o João!
- Eu sou a Maria!
Quem já terá visto um sorriso tão bonito?
Quem terá ouvido coisa assim: eu sou Maria?
Apenas um olhar, um nome e um sorriso,
um jeito de andar,
um sorriso e um nome de mulher,
uma mulher, um olhar e um sorriso.
Um jeito de andar.
Apenas só isso?
Maria falava com um timbre de violoncelo, mas não era tudo, não era apenas música.
Enquanto ela falava,
sorria
          - então não era sorriso, ela falava -.
Ela sorrindo dizia docemente: eu sou Maria.
- Eu sou Maria.


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Queda




Visto-me de chuva
tropical
quente o momento em que entras em mim
de___________vaga_r
onda sobressalto
salto alto____________________nave___g.a.r
profundo
o
olhar
translúcido
tríptico vitral.

Cais
de embarque
em mim
alma_________ sentidamente etérea
âncora férrea
casco
proa mastro banal
bandeira
virtual
mãos de riso
coração________preciso
bússola
batel.

Ensaio a________fuga
lume de cabelos ácidos
água mercurial
sa(n)grado o mergulho com que ascendo aos céus_________
____véus
de renda em nafta________

__________________o.f.e.r.e.c.e.s-me a tua boca de príncipe
________sorri(S)o orgulho magma
filme
nu
corpo
em
chaga.

sábado, 18 de junho de 2011

Amanhecer





Ensaio passos


nas memórias que me emprestaste.



Escrevo ao sabor do vento


os cabelos em desalinho


as letras


em palavras,


sem tradução.



Persigo o nascer do sol no lago de um Deserto amado.


Aspiro o perfume das madugadas que transportas no respirar.



Regressas.



Masnão é minha a cor do teu olhar.



E chega a hora do sol partir


e dar lugar


ao luar.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Impacto...

No ar… 1 volta… 2 voltas
Impacto… 1 vez… 2 vezes… 3 vezes
Fumo, confusão, desnorte
Esperava a dor… A dor nunca chegou
Esperava o sangue… O sangue nunca jorrou
A consciência nunca se perdeu
Apenas me perguntei – afinal o que sou eu?
Um fantoche no meu próprio mundo
Marioneta da minha imaginação
Pensamentos negros e profundos
Para os quais não procuro explicação
Relembro o ruído
Mais ensurdecedor do que o silêncio absoluto
E o metal contorcido
Mais dobrado do que um coração partido

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Germes



Esfregou pela quinta vez o prato onde a cunhada comera o magro almoço que lhe apresentou nesse domingo, até ver nele o seu reflexo, as mãos vermelhas gretadas de higiene e raiva. Esfregou e nunca lhe parecia suficiente para remover todos os germes lá depositados pela brasileira feliz que o irmão escolhera para lhe infectar a vida de tropicalidades e sabe-se lá que espécies desconhecidas e fatais de micróbios comedores de carne.

- Você é muito fechada, Luísa. Se abre mais para a vida...

Abrir... Nunca gostou do verbo. Sobrevalorizado. A cunhada era uma deslumbrada com tudo, como se a vida fosse uma eterna festa de pátio com violeiros improvisados e churrasquinho a grelhar indefinidamente pela tarde fora. Mas Luísa sempre desprezou a futilidade imbecil da felicidade alheia, o deboche insultuoso do riso.

A luz de Inverno entrava pelas janelas da sala, tomando terreno timidamente pela casa fora, em câmara lenta, coada pelas cortinas de renda que mãe fizera há 30 anos, no tempo em que eram todos vivos e falantes; um pó de ouro que ela não permitiria a flutuar e a cair como neve sobre as figuras submergidas de uma redoma de vidro. O silêncio como uma presença física. Uma casa hoje convenientemente à sua imagem fria e asséptica.

Nas prateleiras, os álbuns de fotografias que todos os domingos, sentada no mesmo cadeirão, a mãe lhe pedia para rever, onde todos os elementos da família permaneciam a salvo, congelados no tempo, as crianças sempre crianças, ainda que agora se aproximassem dos 30 a passos velozes. Era assim que elas gostavam de se lembrar deles, memórias preservadas em âmbar, petrificadas cada qual no lugar a que pertenciam, como os bibelôs, as recordações de Viana, a Última Ceia desbotada por cima da mesa da sala, a colecção de selos do papá e o exemplar da “Cidade de Deus” de St.º Agostinho sobre a mesinha de cabeceira, do lado onde agora dormia o seu fantasma.

Esfregou pela sexta vez o prato mas a sombra da cunhada teimava em colar-se a ele e encardi-lo de vulgaridade, por isso esfregou mais forte. Tudo o que lhe passava pelas mãos perdia a cor de tanta lavagem; copos, pratos, porcelanas finas onde os desenhos iam sumindo e empalidecendo, roupas que não confiava à máquina por ser preciso arrancar delas o cheiro do mundo lá fora, do monóxido de carbono, do cio primaveril dos animais, dos adolescentes e das amendoeiras em flor, do riso obsceno das mulheres – que razão teriam para ele? –, o cheiro coalhado a suor e cerveja dos homens nos autocarros e no metro. Láforáporcariatodemtudatodáhora!

Os amuletos necessários para enfrentar o grande desconhecido viajavam consigo para todo o lado, bem guardados dentro da mala: um escapulário que o pai lhe dera antes de morrer, para a protegersenhordetodomal, e uma embalagem de álcool - conseguia ler o escárnio nos lábios e nos olhos dos outros sempre que a usava, depois de mexer em cada pasta de processo. Na quinta-feira, uma das colegas aproximou-se da sua secretária só para dizer: “Luísa... estás abaixo da tua média. Ontem, das nove ao meio dia já tinhas desinfectado as mãos 27 vezes, hoje ainda só vais em 15.”

Vá... riam-se... eu sei quem rirá por último, costumava pensar e nessas alturas vinham-lhe à cabeça imagens ilustradas de um apocalipse de BD, onde o Sétimo Selo se quebrava nas mãos de um cavaleiro embuçado num cavalo verde pálido, matéria em decomposição, vírus, pestepratodoseles! Só os imaculados serão salvos.

Esfregou o prato pela sétima e última vez e recordou-se dos resultados do hemograma em cima da mesa da cozinha, vigiados zelosamente pelo olhar de Salvé Rainha da Nossa Senhora de Fátima do calendário. Também ela parecia sorrir-lhe num esgarzinho condescendente e irritante, quem sabe se do alto de uma azinheira ou de uma nuvem dourada, como quem diz “Estás mesmo abaixo da tua média...” E de facto lá estão os linfócitos B (B de burros, B de bafientos, B de baixos), fracos e amarelos, a mirrarem na contagem, incapazes de guardar memória de ataques anteriores para produzirem anticorpos que a defendam da contaminação e do pecado do Mundo, anémicos Cordeiros de Deus sem espada nem escudo.

Enxaguou abundantemente a loiça, o olhar atravessando a janela da cozinha até à alameda de tílias e sonhou que a percorria dentro de uma bolha, pairando como a Nossa Senhora de Fátima, só que mais esterilizada e protegida contra o Armagedão microscópico que já começara lá fora, invisível a olho nu.

Pedaço de Céu...





Um pedaço de céu que nunca chega
Um pedaço de céu só meu… só nosso… ou talvez de ninguém
Palavras sem dono perdidas no vento
Pensamentos soltos largados ao mar
Escrever e apagar
Lembrar e esquecer
Continuar a procurar
Pedaços de céu
Aqui mesmo onde estamos
Mundo real onde a lei é sonhar
Onde o sonho se canta
E a vida se dança
Chamas que nos aquecem e nunca queimam
Lágrimas que nos molham e nunca correm
Pelas nossas faces impolutas
… Impávidos assistimos a tudo o que passa
E sem mais nem menos deixamos que nos levem…
O nosso… Pedaço de Céu


terça-feira, 14 de junho de 2011

Desafio: Música

Depois de uma longa paragem nos desafios o Alone in The Dark - TXT tem um para te propor.


Ouve esta música e escreve para ela, sobre ela. O que o ambiente criado pelo som te proporcionar, inspirar.

[Os textos deverão ser publicados no dia 4 de Julho]

Boa escrita

AitD - TXT

Nota: Não existe qualquer limitação (no género ou dimensão do texto). Este desafio está aberto a todo o "universo" Alone In The Dark.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Perdidos e achados…

Sendo esta a minha primeira contribuição no Espaço AitD - A Experiência Escrita, quero agradecer pelo convite que me foi feito para partilhar os meus devaneios e loucuras convosco. Já há algum tempo que desenvolvo o meu blog - The Things I Love To Hate ( thethingsilovetohate.wordpress.com ) com parca regularidade mas sempre com a mesma intensidade. É assim que, com enorme prazer, me junto a este espaço onde se encontram outros bloguistas e se reúnem diferentes formas de escrita. Obrigado.




Perdidos e achados percorremos as ruas
As ruas de asfalto negro e gasto
Gasto e negro como os pensamentos
Que nos percorrem e arrepiam
Aquele frio na espinha teima em não desaparecer
Porquê? Pensamos…
Não paramos… mas por alguma razão também não estamos a andar
É um sonho? Um pesadelo?
Não… afinal estamos de olhos abertos e conscientes do que nos rodeia
Simplesmente estáticos… Um cérebro estático que teima em não parar de girar
Que complicados somos… Que opções tomamos…
Na generalidade não fazemos ideia porquê
Não que o instinto se sobreponha… Já o perdemos há muito
Simplesmente porque escolhemos os caminhos faceis
Escolhemos fugir, esconder-nos, manter as mascaras
Preferimos não viver, não sorrir, não amar…
Para isso mais valia morrer… Mas não
Continuamos com discursos vazios sobre o valor de algo
Algo que não nos damos ao trabalho de tentar compreender
Dia após dia… Num ciclo vicioso… Perdidos
Numa busca incessante por algo que muitas vezes não queremos
Muitas vezes não precisamos… O comodismo instala-se… O conformismo
Mais uma vez continuamos… É mais fácil… E gostamos do fácil…
Preferimos lamentar o fácil do que lutar pelo difícil
E aquilo que continuamente consideramos vitórias são tantas vezes as maiores derrotas das nossas vidas
Pior que uma má decisão é não tomar uma decisão… Ai reside verdadeira cobardia
Achados num mundo sem razão… NU!

poesia

Passeio


Deslizo
pelo teu corpo
sentado em gotas de espuma.

Procuro
em cada poro
a imensidão do teu
e do meu ser.

e a minha sugestão para acompanhar o passeio é
 Steven Wilson - Well You're Wrong

domingo, 12 de junho de 2011

O Mago



No mais profundo da meditação, ele surgiu à minha frente.
Sorriu e saudou-me simpaticamente. Os seus olhos faiscavam.
Era a primeira vez que eu o via nesta vida.
Depois de tanto estudar o seu trabalho, agora ele estava ali, a minha frente.
Houve vezes em que pensei que ele estivesse reencarnado actualmente.
Mas ali estava ele bem à minha frente,alguém que tanto admiro, pela sua firmeza de carácter e pela sua bondade.
O mago da primeira hora.
Perguntei-lhe algumas coisas sobre a magia da vida
Ele respondeu-me mentalmente o seguinte:

"A sabedoria verte a Luz. O trabalho é a grandeza.
O Amor é o elã que une essas duas maravilhas.
O sábio conhece e aceita isso.
E torna-se veículo dos mananciais curativos ocultos e projecta os seus benefícios secretamente para o bem de todos os homens, animais, plantas. Obra no mundo com modéstia e simpatia.
É vida de fé inabalável.
Jamais reclama, pois sabe que o espírito abraça o seu coração.
As luzes do mundo não o atraem, pois ele sabe que elas são transitórias.
O sábio não é forte porque domina fenómenos de magia ostensivos.
Ele é forte porque ama! Sente-se bem orando e curando secretamente.
Sabe que as suas energias emanadas são direccionadas pelos anjos da cura para quem realmente precisa delas.
Quando caluniado pela ignorância de alguém, ele apenas silencia e ora.
Ele sabe da transitoriedade das coisas dos homens e de como suas emoções são comandadas por tolas superstições e pelos condicionamentos.
Ele possui a sabedoria do ancião que aprendeu muito na vida, mas sorri igual a uma criança.
Nos olhos desse sábio eu vi o brilho do amor maior.
Com ele aprendi que a grande magia é ser veículo do Amor incondicional.
Certa vez, enquanto conversávamos sobre cura e elevação da consciência, ele me disse:

Jamais procures o poder da magia pela força. Os portões espirituais não se abrem sobe as pancadas da arrogância. Porém, eles se abrem facilmente sob as suaves vibrações do buscador amoroso que quer servir ao Grande Plano de Regeneração da humanidade.
Carrega no teu coração o objectivo de servir à humanidade.
E algum dia, quando a confusão se instalar no teu caminho, recolhe te e ora em silêncio na tua vontade!
Nós somos apenas os veículos do amor no mundo.
Ele é o Grande Accionador da consciência.
Permanece ligado a Ele...

LUZ, TRABALHO E AMOR!
Este foi o mantra que Ele me deu.
Agora estou passando para ti...
(Ilumina, trabalha e ama.)

terça-feira, 7 de junho de 2011

Viajar

            Infelizmente não me posso considerar um grande viajante no que concerne a viagens de turista sazonal.
            Aquelas viagens de cartão de crédito na carteira, máquina de filmar na mão, percorrendo quilómetros atrás de quilómetros, com estadia em casa de amigos, hotéis ou simplesmente em casa alugada.
            Essas viagens que misturam o afã diário com uma “pseudo-liberdade” embebida em filas de tráfego, areia na toalha, matas apinhadas de gente e de lixo, restaurantes a abarrotar e filinhas para visitar este ou aquele monumento.
            Aliás, não creio que isto seja viajar no sentido literal do termo. Isto é tão-só trocar de espaço físico ou muito simplesmente de horários.
            Não pretendo com isto dizer que não seja importante conhecer feições diferentes daquelas com que tropeçamos todos os dias no prédio, no emprego, no café, no restaurante ou, muito simplesmente na rua que palmilhamos. Para além desta vertente, este viajar permite constatar uma realidade que tantas vezes nos recusamos a aceitar.
            Mas sem querer ser ou simplesmente parecer comodista prefiro deixar-me embalar pelos verdadeiros viajantes. Por aqueles que imaginam viagens pelos caminhos do mundo ou somente pelos atalhos das nossas memórias. Aqueles que, ao partir, desconhecem onde vão chegar. E são tantos.
            Imaginem o que é viajar com as “Sequências” de Jorge Sena (“Roma, Veneza, Florença, Nápoles, spaguetti…”). E com Garrett pelas lezírias ribatejanas; tomar banho na “Praia dos Cães” com Cardoso Pires; subir à “Montanha” com Torga, conhecer Coimbra pela “pena” de Assis Pacheco nos “Trabalhos e paixões de Benito Prada” ou mesmo “vindimar” com Steinbeck. E porque não dar umas braçadas no “Mar” de Hemingway e tantos outros.
            Neste viajar assiste-se a um alargamento dos horizontes. Faz-nos conhecer melhor a nós próprios, ao nosso “eu”, bem como ao “eu” dos outros.
            Podemos, pois, transpor para este viajar interior o pensamento de Shakespeare quando diz que somos feitos da mesma matéria dos sonhos, expressando assim uma verdade ancestral de todos os povos: a consciência avassaladora da nossa fragilidade. Como as figuras de um sonho, somos inconsubstanciais, etéreos, esvanecemos no tempo como se de uma fotografia antiga se tratasse.
            A eternidade da consciência, por outro lado, é o objectivo daqueles que procuram na arte de sonhar a melhor forma para o conhecimento de si mesmo e do próprio Universo.

domingo, 5 de junho de 2011

Arquétipo





No princípio Deus criou os céus e as trevas e as águas e o fogo e as plantas e os bichos. E viu Deus que era bom. E foi a manhã de um dia eterno. E disse Deus: façamos o homem e que domine sobre tudo o que se mova sobre o universo. E lavou o mundo, expurgando-o para receber o ser sublime.

E porque Deus, sendo fêmea, só sabe gerar dentro de si, olhou o seu corpo gasto pelas gestações. E porque Deus, sendo imperfeito, não conhece a substância do divino, olhou as deformidades da matéria. E porque Deus, sendo finito, recebe a morte na taça da criação, olhou os elementos e rasgou uma vez mais o seu manto.

E disse: bebamos as águas, que são fluido da vida, para que o eleito seja transparente e tenha o ímpeto das correntes. E, depois de beber, foi Deus às florestas e cheirou a terra.

Mas o primeiro homem era informe e sujo. E ao tocar-lhe Deus sentiu os vértices do caos. E viu Deus que era mau. Tirou-lhe a vida e guardou-a entre os ramos dos seus cabelos. Beijou-o, deitou-o no regaço, enterrou-o e carpiu.

E disse: beijemos as trevas, de que se alimenta a luz, para que o eleito domine o ritmo das forças. E depois do beijo, foi Deus ao mar e provou o sal.

Mas o segundo homem era triste e inerte. E ao tocar-lhe Deus sentiu as pedras do sacrifício. E viu Deus que era mau. Tirou-lhe a vida e guardou-a dentro das lágrimas dos seus olhos. Acaricou-o, queimou-o, teceu um véu com as cinzas e chorou.

E disse: escutemos o fogo, que tem em si o fim e o princípio, para que o eleito conheça o silêncio e a purificação. E, depois de escutar, foi Deus às cavernas negras e contemplou os fios de luz.

Mas o terceiro homem era irado e vingativo. E ao tocar-lhe Deus sentiu um êxtase de lâminas. E viu Deus que era mau. Tirou-lhe a vida e esfregou-a nos lanhos da sua pele. Lambeu-o, afogou-o, banhou-se e sangrou.

E disse: comamos os bichos e as ervas, que são estéreis uns sem os outros, para para que o eleito saiba procurar além de si. E, depois de comer, foi Deus aos desertos ardentes e caminhou.

Mas o quarto homem era lúbrico e rude. E ao tocar-lhe Deus sentiu o acre da escuridão. E viu Deus que era mau. Tirou-lhe a vida e guardou-a no pó dos seus ossos. Chegou-o junto ao seu seio e alimentou-o com o branco leite negro veneno, esperou que secasse, varreu o mundo com ventos e gritou de dor.

Mas a agonia cedeu à lucidez. E disse: toquemos o céu que é o inverso da terra criada.

E subiu Deus às montanhas mas já não conseguiu levantar o braço exangue. Sem nada nas mãos, moldou o eleito com o vazio e com a sua própria alma. E uma criatura de barro surgiu-lhe no ventre, quase indistinta da sua carne.

Empurrado pelas vozes dos irmãos mortos guardados no corpo da mãe, o quinto homem rasgou-a antes de tempo. E para escapar à cegueira que já o agarrava e esmagava, deixou-se cair. E cresceram-lhe asas negras. E foi a tarde de um dia eterno.

E Deus desceu da montanha. E perseguiu o filho maldito. E viu que encontrara a música do tempo. E que procurara a poesia do horizonte. E que inventara palavras para todas as obras. E que escondera as imperfeições da criação com as penas das suas asas.

E ao tocar-lhe Deus sentiu o fel da loucura e do amor. E viu que era mau. Mas retirou a sua própria vida e guardou-a no coração do caído.

E na derradeira hora, Deus buscou a sua alma mais uma vez e criou outro ser, a mulher. E fê-la à sua imagem. Cada traço, cada veia, cada entrega, cada dor. E disse: uni-vos, frutificai-vos e multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a. E descansou nos braços dos seus filhos. E foi a noite de um dia eterno.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Pensamento fugaz

Existe um momento em que a mente do espectador e a do artista se tocam.



Nesse momento, desvela-se a suposta separação (afinal ilusória)
e, numa continuidade de consciência(s), embalados na íntima magia
dos sons, das cores, das formas, das ideias ou das palavras,
partilham sentimentos, imagens, ideais e sonhos.
Ambos choram e riem, recebem e dão.
O coração acompanha o ritmo da vida, esfuziante.
E dá-se a Comunicação, que não tem espaço nem tempo.
Como se fossem Um, unidos pela Obra, agora comum!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Para a criança mais linda do mundo…



Para não fugir ao inicio de qualquer historia de encantar, era uma vez uma menina, que um dia recebeu uma noticia que a deixou muito feliz, ia ter uma mano!

Mas o mano nuca mais nascia, o tempo demorava a passar, como seria o mano, como se chama o mano…a ansiedade crescia de dia para dia.
Dizem os pais, pois com 3 anos ela não se lembra, que foi ela quem escolheu o nome.
E, num belo dia de Agosto, o Pedro Miguel nasceu, o menino dos papás e a alegria da mana.

Mas um dia (e deste dia, ela tem vagas recordações) depois de irem com o Pedro a uma consulta, os pais desataram a chorar, e a tristeza invadiu aquela casa. E ela não percebeu, demorou algum tempo até que a tristeza desse lugar à alegria de outros tempos… mas a alegria voltou a inundar aquela casa.
Ela continuava sem perceber o que se passava, mas tinha um mano que adorava, uns pais que adorava, logo estava feliz e não queria saber de mais nada, coisa de adultos pensou!

O tempo foi passando, e os manos vão crescendo sempre juntos. E ela continuava a não perceber porque é que olhavam para o mano de maneira diferente, porque falavam baixinho quando ela passeava com ele, porque é que algumas pessoas viravam a cara. Ela não percebia mesmo, mas isso deixava-a irritada, completamente irritada.

Um dia na escola, os meninos gozaram com ela, dizendo que o mano era deficiente, mongolóide, riram, fizeram gestos, imitaram vozes estranhas e mais uma vez não percebeu…mas ficou tão chateada que partiu para a violência, violência de quem protege aquele que ama, mesmo sem perceber o que se esta a passar.
Aquilo não lhe saiu da cabeça o dia todo, e quando chegou a casa, não resistiu e perguntou à mãe “Mãe o mano é mongolóide?” (sem fazer a mais pequena ideia do que isso era) e a mãe desata a chorar, o rosto lavado em lágrimas (aquela imagem ficou-lhe gravada na memória) apenas soluçava, as palavras não saiam.
Sem respostas exigiu à mãe uma explicação.
A mãe suspirou, respirou fundo e explicou à menina que o mano era um menino diferente dos outros pois sofria de uma doença chamada trissomia 21.
A menina, na sua inocência, disse “se o Pedro está doente vamos ao médico e ele fica bom”a mãe, já em desespero, explica que não era assim tão simples, a doença não tinha cura.

Mais uma vez ela não percebeu, nem tentou perceber, não sentiu nada…era o mano dela e ela gostava dele, e reclamou com a mãe dizendo “o Pedro não tem doença nenhuma!”.

Os anos foram passando, e os manos crescendo juntos, inseparáveis.

E o tempo fez com que essa menina percebesse o que era a trissomia 21.

Passou a proteger e a defender ainda mais o mano, pois o mano já não era só mano era como um filho. Um dia num restaurante um casal olhava com repulsa para o Pedro, e ela levantou-se, dirigiu-se ao casal e fez uma cena. Ela não admitia, nem admite, que tratassem e olhassem para o mano de forma diferente, era o mano dela!

Os manos continuam a crescer juntos, até ao dia em que a mana vai para a faculdade.

Durante 15 anos o Pedro nunca tinha estado longe da mana, e ficou magoado com ela. A Covilhã ficava tão longe. Sofreram horrores de saudades, saudades essas matadas por telefone, e assim continuaram, juntos, sempre juntos!
E eis que a mana acaba o curso e começa a trabalhar, mas não havia fim de semana que não o fosse visitar. Continuavam inseparáveis!

Mas o dia fatídico estava para chegar e a irmã nunca pensou que fosse ela que o fosse despoletar.

O Pedro nunca se apercebeu que era diferente, nunca (algo pelo qual os pais, a mana e os amigos sempre lutaram).

A mana compra o seu primeiro carro e quando chega a casa, o Pedro olha para ela, olha para o carro, a cara modificou-se e ela percebeu que nesse segundo o mundinho dele se tinha desmoronado.
Nunca ninguém o viu chorar (a não ser em pequenino) mas os olhos brilhavam cheios de água e com uma voz de tristeza avassaladora pergunta “ Porque é que tu tens um carro e eu não?”.
Ela morreu naquele instante e não faz a mais pequena ideia de quanto tempo levou a reagir, se minutos, segundos ou fracções de segundos. Virou a cara e as lágrimas corriam pela face, pelo coração, pela alma… ela tinha destruído o mundo encantado do Pedro. Ela estava a fazer o mano sofrer, ela, logo ela… não o mano não podia estar a sofrer!

Mas o amor tem coisas engraçadas, e eis que ela teve uma ideia (ele adora formula 1, lembrou-se ela), em milésimos de segundos, limpou as lágrimas e disse-lhe “Pedro este carro é teu, eu apenas sou o piloto e tu o co-piloto, pode ser?”. Abre-se um sorriso, a tristeza já não mora naquela cara, agarra-se à mana e diz-lhe “vamos dar uma volta no meu carro novo?”.

E naquelas palavras ela percebeu que o Pedro tinha voltado ao seu mundo encantado!

E mais anos passaram e o Pedro sempre uma criança feliz, até ao dia em que novamente è a mana (que tanta luta pela sua protecção) que faz novamente o seu mundo encantado desmoronar-se.

A primeira vez que o Pedro viu a mana numa cadeira de rodas, os olhos dele brilharam, mas de um sentimento estranho, raiva talvez. E começaram as perguntas “porque estas sentada nessa cadeira, sai dai, anda brincar comigo, não gosto de ti sentada ai, levanta-te” mas a mana não se podia levantar. Ele estava tão chateado, que ninguém soube lidar com aquele sentimento. No meio do silêncio ele grita para a irmã “ficas feia nessa cadeira, não gosto de ti”.
Nesse momento fez-se luz para a irmã, ela tinha de lutar, tinha obrigação de lutar, por ela e pelo irmão e prometeu-lhe que em breve sairia da cadeira de rodas, ao que ele sorriu e lhe deu um beijo (ela nunca irá esquecer o sabor desse beijo).

A cadeira de rodas desapareceu dando lugar a umas muletas azuis, o que novamente provocou uma reacção no Pedro. “Não gosto dessas muletas, são azuis e eu sou do Benfica. Ficas feia de muletas e assim não podes dançar comigo.” E mais uma vez a irmã promete que vai deixar de andar de muletas.

O dia em que ele viu a irmã a andar sem as muletas, agarrou-se a ela, encheu-a de beijos e disse “eu gosto muito da minha mana”. (ela ainda ouve essas palavras, quando fecha os olhos..)

E foi nesse dia, que a mana percebeu, não era ela que protegia o Pedro, era o Pedro que a protegia e lhe dava força, força que mais ninguém conseguia dar, não daquela forma.

Os manos continuam inseparáveis e neste momento o Pedro é um menino/homem de 31 anos, feliz, feliz no seu mundo de encantar, feliz no seu mundo perfeito.

E a mana olha para ele e pensa “Pedro tu é que tens razão…”