domingo, 24 de julho de 2011



Mão direita, estou de férias.

Aqui a possuída pelo diabo está de palma virada para o céu a cristalizar água salgada entre as pregas das linhas.
Escrevo-te porque na verdade preocupo-me contigo. Não te deixei nada no estômago para o jantar, nem os dentes lavados, muito menos a camisa abotoada. Tens ainda uma caneta em cima da mesa quadrada à esquerda para amestrares. Trouxe o relógio comigo pois duvidei que conseguisses dar corda antes das horas acontecerem e não quero-te desnorteada nos dias. Mas se reparares no canto superior esquerdo da estante tens uma ampulheta (fácil, não?).
Agora vou para o sol voltar-me de dorso. Só para te avisar que as unhas ficaram assustadoramente pintadas e tive de pedir a um pé esquerdo havaiano para as retocar.

Beijinhos soprados na mão… não os deixes cair quando chegarem aí. (Se caírem não fiques triste, afinal não tens culpa de estares do lado direito do corpo e estes beijos serem terrivelmente canhotos).

sábado, 23 de julho de 2011

sem titulo




Passaram 2 anos, 6 meses e 28 dias que um dia não me consegui levantar da cadeira. Estranho pensei, nada de especial, horas a mais à frente do pc, estava na hora de ir para casa. A dor não passou e consegui uma consulta de emergência para o dia seguinte, uma normal consulta de ortopedia. Não era novidade que tinha artrose na coluna, devia ser uma crisesita…E vamos lá tirar um rx, para ver o que se passa.
No dia de ir mostrar o rx, a dor ainda não tinha desaparecido, era incomodativa.
Na hora o médico olhou para mim, e com aquela frieza como quem pede um pastel de nata e meia de leite, “a menina tem coxartrose bilateral. O que é isso? As 2 cabeças de fémur já não têm cartilagem a proteger os ossos…O quê???? Sim tem de colocar próteses, 2 próteses!"

Lágrimas corriam, lágrimas correm!

Parece que foi hoje que ouvi ele dizer isso. Sabia o que era, a minha mãe também tinha…mas eu tinha 33 anos, 33!!!!!!!!
“E o que tenho de fazer? Nada, espera até um dia deixar de andar. Deixar de andar?!! Pode levar meses ou anos, boa tarde menina e as suas melhoras."

Lágrimas corriam, lágrimas correm!

Apenas foram precisos 5 meses, para deixar de trabalhar e começar a andar de muletas, e sempre as dores, mesmo com vinte e muitos comprimidos diários… Apesar dos exames não o indicarem, o médico e eu tivemos de tomar uma decisão “Sandra temos de decidir, avançamos para a cirurgia? Sim!”

E assim começa a viagem pelos milhentos exames, picas, auto-transfusões de sangue e mais picas…eram sempre as agulhas e eu tenho pânico de agulhas, mas as veias fugiam, torturavam-me, os meus braços são a prova disso, notam-se as cicatrizes das inúmeras picas que levei.
As auto-transfusões não correram bem e o pânico das agulhas aumentou…entrei em hipotermia…
As cirurgias essas atrasaram sempre mais de 1 hora, pois ninguém me conseguia colocar um cateter…

Lágrimas corriam, lágrimas correm!

Na primeira cirurgia "enganaram-se" na quantidade de anestesia ( epidural + anestesia) e acordei quando acabaram de serrar o osso e eu ouvi, ouvi tudo e gritei não quero ouvir!!!! Ainda hoje não quero ouvir, o som da serra e o do osso a cair no chão… quando voltei a acordar, o som ainda estava na minha cabeça.
Tamanho era o desespero que na segunda cirurgia, decidiram ter 2 anestesistas de volta de mim, 1h e meia depois de entrar no bloco, e sem cateter, o médico decidiu iniciar a cirurgia comigo acordada, encostada, encurralada é a palavra certa, entre metal como um animal para abate, e a serra passou por mim, sim eu vi o cirurgião começar-me a serrar, gritei, espernearia se pudesse ( a epidural não deixava) e o grito deve ter sido ouvido por todo o hospital, mas ele continuou… o cheiro, o barulho, tenho de lidar com eles para o resto da minha vida.
Como não parei de gritar (não era de dor, era pela situação, sempre pedi, não queria ver…) decidiram colocar-me a máscara, e adormeci… lembro-me de sonhar com a serra, quando acordei, ainda havia sangue… A anestesista foi a única pessoa com coragem de me pedir desculpa pela situação.

Lágrimas corriam, lágrimas correm!

Depois vem a parte da recuperação… meses bons, meses maus… nada batia certo! Quiseram meter na minha cabeça que eu era a culpada de não estar a recuperar, eu não deixava diziam eles. “Pode ser o seu cérebro, o seu pessimismo…você está a fazer mal a si mesma.”
“Quem eram aquelas pessoas??? Eu??? Como???? Ok estarei mesmo doida, pois não concordava."
Mas o curioso é que era a única que não acreditava, médicos, família, amigos, ninguém acreditou em mim, ninguém!
Imaginam o quanto doi, o quanto magoa, o quanto mata, ao ponto de eu acreditar em parte, que estaria com uma depressão?!
Mas dentro de mim uma voz ensurdecedora gritava “não, não estas doida, não estas doida!!!!!”.

Lágrimas corriam, lágrimas correm!

Amigo, do amigo, do amigo, conseguiu o contacto de uma médica que pertence ao Inst. Reumatologia, e lá fui eu para Lx (sim Lx, durante demasiado tempo significou consultas, tristezas, lágrimas…)convencida que o diagnóstico seria o mesmo, chorei o caminho todo, entrei a chorar ( o que não abonava nada a meu favor) e vejo uma senhora de cara afável e voz serena, que depois de me ouvir (foi uma consulta de quase 3 horas) abraçou-me (sim a médica abraçou-me),foi inesperado, mas soube tão bem!

(custa escrever sobre isto, mas comecei vou terminar, nunca fui mulher de deixar coisas a meio…descobri que ao escrever lavo a alma e a cara…siga!)

Pensei, abraça-me porque tem a mesma opinião… agarrou na minha cara, olhou-me nos olhos e disse “Sandra, vamos descobrir o que tem e não não é doida, está muito lúcida, lúcida o suficiente para ter lutado contra diagnósticos médicos e família. Nunca vi tanta força junta!”(e assim como correm agora lágrimas, lá também correram, alguém acreditava em mim!)

E começa uma nova fase, mais exames, mais picas, e sempre resultados de pessoa completamente saudável…um dia, perguntei-lhe “Dra. Já não acredita em mim, pois não?! Vai desistir de mim…” Ela demorou a responder, os segundos pareciam horas “calma, havemos de conseguir”.
E sim, ao fim de muitos meses, a descoberta, eu tenho uma doença rara, genética, soube que em Portugal é mesmo raríssima.
Feliz por um lado (sempre estive lúcida, finalmente sabia) mas por outro, doença rara?!

Nova fase, e o corpo decide não aceitar a medicação, ou seja, não tinha apenas insuficiência de vitamina D como também intolerância à vitamina. Muda-se de estratégia clínica e eis que a doença rara começa a ficar controlada mas, tinha de haver um mas… há 2 meses surge outro problema, mais uma doença surge na equação, doença que ainda não se sabe o que é, apenas me deixa inchada como um balão, e voltei aos exames e às picas… parece que a minha vida se resume a isto!

E perguntam vocês porque estou a escrever sobre isto…preciso de escrever, preciso de dizer, preciso de gritar, faz parte do meu processo de aceitação de mim mesma.

E pela primeira vez li o que escrevi, (acabei de ler) e percebi que por vezes nem eu tenho noção do que já passei, e fico com a certeza que a vida em algum ponto, algures no tempo, terá coisas boas para me dar (para alem do que já tenho!).

Não procuro palavras de conforto, nem pena, apenas sorrisos e abraços!

Eu sei que vou conseguir perceber tudo isto, um dia… porque ainda caio, ainda choro, ainda não aceitei por completo, mas um dia vou conseguir!

Lágrimas corriam, lágrimas correm!

(um obrigado especial a todos os que me acompanharam e acompanham neste processo complicado, e acima de tudo e de todos, ao meu mano Pedro, que amo acima de qualquer coisa)

Desafio "Postal das Férias"

Estamos em período de férias, de evasão, de outras paragens e de muita inspiração. Por isso queremos desafiá-los a enviar-nos postais das "vossas" férias.

Tirem uma fotografia e acompanhem-na com um texto de cerca de 100 palavras.

Este texto não terá de obedecer à habitual estrutura de "postal" e não terá de vir do tempo presente ou de um lugar real. Passado, presente, futuro, outra dimensão, realidade alternativa, centro da Terra, galáxia a um zilhão de anos luz, terra do nunca....... a vossa imaginação é o limite.

Envie-nos todos os postais que quiserem e quando quiserem até ao dia 31 de Agosto.

Boas férias.... e escrevam


Não se esqueçam de colocar a etiqueta "Desafio Postais das Férias"

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Insensatez (How insensative)



Regresso tantas vezes
quanto as que
parto
corações
aos pedaços
que distribuo
com o olhar
pelas bocas
famintas
ao luar
no deserto
sobre mim
o teu corpo inerte
após a explosão
n
u
c
l
e
a
r

fusão

a t ó m i c a

sem igual
o teu sorriso
de
(a)mar
na distância
que vai daqui-aí.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Confidências em epiderme de cordeiro



Não imagino o que fazer nas noites em que as mouras encantadas cospem raios, serpenteiam por grutas ou diluem-se em água.
Igualmente não imagino o que fazer nas manhãs em que as fadas tocam nas cabeças dos bebés com varinhas e desejam que sejam bonitos e inteligentes para depois crescerem e passarem cem anos a dormir na torre mais alta do castelo.
Na verdade, nunca soube o que fazer nas tardes em que o João troca vacas por feijões e depois fica com um pé a bater nas nuvens.
O que tenho de certo é que hoje (tal como ontem) entre o final da manhã e início da tarde fui outra vez obrigado a andar com uma sutura de alto a baixo na barriga para depois, por causa do pêlo, os pontos infectarem sempre. A menina de vermelho irrita-me de cada vez que me confunde com a senhora das rugas. É muito triste quando um animal não consegue reconhecer outro da mesma espécie, ainda mais quando se diz racional. E desde quando é que o "é para te comer melhor" implica que o acto seja consumado? Como podem as pessoas pensar que me dá gozo ter uma centenária dentro da barriga para depois vestir as roupas dela?

Depois no final da tarde, início da noite sou discriminado por ter as patas pretas. Uma vez que o pó de arroz é caro e a maquilhagem só é testada em ratos e humanos, tive de ir ao moinho enfarinhar as patas para poder ir bater à porta da mãe cabra. Gosto de me sentir útil pelo que vou sempre oferecer os meus serviços de cuidador por achar que ter sete cabritinhos deixa qualquer um a balir de desespero. Mas depois de um trabalho enorme em tentar convencer os pequeninos a abrirem-me a porta tenho de os engolir afim de os proteger de alguma desgraça. É que ficam todos histéricos a correr de um lado para o outro e claro, ao serem daquela espécie saltam para cima de tudo e podem magoar-se. O que ganho com isso? Um supremíssimo cansaço daqueles à Pessoa e uma sede de morte depois de ter uma mão cheia de pedras dentro da barriga. E a tesoura nunca é esterilizada. E dos pontos já nem vale a pena falar. O que custava à mãe acordar-me e pedir para regurgitar? A cabra é mesmo uma cabra e o descendente que tem a manha de se esconder dentro do relógio para depois ir fazer queixinhas não nega que sai à cepa.

Finalmente, no final da noite início da manhã, ando a soprar em casas de palha e madeira. Muito sinceramente não sei porque sou criticado. Que mal poderá advir de querer juntar os três porquinhos na mesma casa? Os porcos não são felizes sozinhos. É sempre melhor ter alguém para partilhar a pocilga de vida que temos.
Ah, e já nem vou falar do miúdo que anda a gritar aos sete ventos que "o lobo vem aí". Primeiro, porque já não me sobra tempo nas vinte e quatro horas dos meus dias e, em segundo porque nunca percebi a dimensão do espaço "aí". E se o "vir aí" é digno de banhos de água benta... bem... a morte também vem sempre aí e ninguém anda a gritar por isso.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Desgaste...

Desgaste na pele que me fere
Seca… profunda
Nas vozes que ouço
Rispidas… tristes
Nos sorrisos que vejo
Falsos…
Desgaste por tudo e desgaste por nada
Pelas voltas que a vida dá
E pela vida que as voltas dão
Por esperar e desesperar
Acreditando que um dia vou alcançar
Desgaste por mim… Desgaste pelos outros
Que não pagam o que devem
Ao coveiro cobrador
Cada dia que o sol nasce
Nasce menos democrático
Já nada é para todos.. já nada é de todos
Aliás – alguma coisa é de alguns?
É gritante o desespero que se vê
Que se canta, ouve e propaga
Como a peste… negra… de carvão
Folheio mais uma página do bloco
E por meio à letra que já mal se percebe, apenas uma palavra…
Desgaste

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Duvida...

O meu sol nasce quando o dos outros se põe
Os ponteiros do meu relógio giram na direcção contrária
Penso aquilo que digo
Mas, infelizmente, nem sempre digo aquilo que penso
Sinto-me diferente num mundo igual
E cada vez mais sinto-me um “carneiro” a mais
Armado em drama social
As minhas horas não passam… param
Mas no entanto o meu tempo voa
Os meus lençóis picam e o colchão faz doer as costas
Mas adoro passar o dia na cama
O espelho vale por três – mostra o que sou, o que fui e o que queria ser
Talvez por isso não consiga desviar o meu olhar
Sei aquilo que quero
Mas não devo querer aquilo que sei que mais falta me faz
Afinal se não faço o suficiente para lá chegar
De que me posso queixar?
Deitar culpas à vida é fácil
Difícil é por a vida na culpa
Assumir, viver e lidar
Com dias amorfos e noites perdidas
Sentimentos confusos e mãos trémulas
Fraco para agir… forte para errar
E burro por continuar a teimar
Assim sou, assim me encontro
À espera de um caminho que devia procurar
“Quinianamente” subsisto de joelhos
Apenas porque não me apetece morrer de pé
E ao escrever estas linhas e chegar ao final da página apenas indago…
E agora? O que vem a seguir?

terça-feira, 5 de julho de 2011

Lavração de testamento


Eu, Maria, encostada aos portões desta cidade, nomeio para meus testamenteiros aos senhores, que este virem, ouvirem ou dele notícia tiverem. Saibam que estando em perfeito juízo e sem qualquer induzimento, atesto por fé, sem testemunhas que o comprovem, ser esta a minha última vontade, a derradeira, no momento em que abdico do que fui.

Deixo cada coisa que juntei neste mundo a quem ma deu.

À minha mãe deixo a pedra do adro da igreja, a vergonha de que me vestiu, o corte de metal rombo que nos separou , o primeiro grito, o beijo que me negou.

Aos que me criaram deixo as braçadas de lenha, as costas partidas, os ilíacos e as costelas a rasgar a pele, os prantos, os trapos, as vergastadas, os beijos que me negaram.

Ao meu pai nada deixo porque nada me ofereceu.

Ao homem que me comprou deixo a cabra por moeda da transacção, a saliva obscena na minha boca, os cabelos arrancados, a cama sórdida, os beijos com que sugava todo o meu corpo apesar de eu negá-lo.

Ao homem a quem me dei deixo o feitiço, os nervos excitados, o estigma, a culpa, o adeus fácil, o amargor, os beijos de quem ama por dois que não lhe neguei.

Ao meu filho deixo o amor por entregar, o seio a secar, a procura vã de calor na pele, os beijos que não negaria ao anjo que não soube enterrar.

A todos vós deixo a falsa caridade, o olvido e o asco.

E por não saber ler nem escrever e não ter tinta nem papel, rogo-vos que aceitem como letra esta impressão lívida da minha alma.

Rogo-vos, igualmente, que me olhem enquanto seguro esta adaga e golpeio as parcas que me fizeram bastarda da vida, enquanto inspiro e bebo-lhes o sangue, enquanto me ergo contra o destino, enquanto renasço e me levanto do chão. Outra mulher. Não mais Maria.




Afogada em mim...

Sinto-me a asfixiar, como se me estivesse a afogar em mim mesma.

Perguntas, tantas e sem respostas!

Porquê eu?
Mata!

O que tenho?
Corroí!

O que falta saber?
Desanima!

O não ver melhoras...
Dói!

Manter a serenidade...
Complicado!

Lutar...
Uma obrigação!

Os meus dias são diferentes, acordo com sorrisos ou acordo com lágrimas.
Estranho!

Ontem acordei com falta de ar, sem duvida, mais uma vez o psicológico a pregar-me partidas.
Sim falta-me o ar!

E olho para dentro de mim e sinto-me a afogar, pensamentos tristes de incertezas, disfarçados por sorrisos fingidos.
Socorro, não consigo respirar!

E se me deixar afogar, o barulho vira silêncio, as lágrimas sorrisos, os sonhos realidade?
Não quero morrer!

E volto para os meus pensamentos...

Castor e Polux (resposta ao Desafio 'Música')



Quando a montanha te chamar,
E a chuva sussurrar o nome que antes fora teu,
Saberás que estou contigo

Se a terra debaixo de teus pés gretar de sede,
E o fogo pastar na escura floresta que te ensombra,
Saberás que estou contigo

Quando a palavra que nasce entre lábios de escárnio,
E a luz colapsar ao tocar nos teus olhos vazios de compaixão,
Saberei que estás comigo e contigo de novo ficarei

Pois eu sou a essência desse nada que és tu
E tu, nada és senão o sopro da minha existência
Irmão, dupla face de meu destino inquieto

Mas eles… oh,
Eles, nada sabem sobre a existência desta sombra que nos une
Nem da morte que colapsa sob a luz do nosso olhar

Escondem-se nas gretas de chão, no arvoredo da noite
Sussurram, mas a chuva não os cobre,
Nem a montanha os acolhe

Eles… sonham
Sonham
Embalados pelo canto da mãe
Enleados no uivo ancestral que nos une ao sagrado
E sonham com a loba morta sob o pesado cajado do Pastor

Mas sabes que mais?
Hoje sonham comigo
E contigo
E de madrugada
Tudo será diferente…

segunda-feira, 4 de julho de 2011

dream boat

Mergulho no tempo
De uma infância gélida
Parto à procura de
Memórias
Recordações.

Lá longe cintilam luzes de uma vida
Diferente.

Submerso resta-me
Uma escada de trono
De uma princesa fingida
Sem véu nem grinalda
A porta leva-me
Ao lado de lá da vida.

Dream boat


Nocturno pastoso de águas poluídas

náufragos perdidos em resgates que tardam

rasgam-se algas, tubarões a alguns sonares de golfinhos

moribundos

em

a

s

c

e

n

ç

ã

o

aos céus de oxigénio artificial

O ruído é um tumor cerebral que afugenta

(n)a agonia da guerra

que o homem inventa

para se sentir senhor de si

e

de todos os outros que ensurdecem com a cegueira sem ensaio.


Tesouro

Simplesmente deslizei pelo mar...
E comecei a escrever.
Embalada pela música das esferas,
Soltei-me nas ondas espirituais.

Então, vi os espíritos dançando na Luz.
E eles vieram ter comigo.
Sim, eles estavam mais vivos do que nunca!
E disseram me que saudade não tem idade.

Mergulhei com eles, algures...
A abóbada sideral pontilhava de vida.
Eles riam tanto - tão vivos.
A alegria deles era um tesouro.

E eles disseram:
"Escreve o que o teu coração pedir.
E que os escritos sejam um tesouro.
Deslizei de volta pelo mar.
Aqui estou eu, sem palavras.
Porque há algo mais... Uma Luz. Um Amor.
E isso é um tesouro.

Sim, um Grande Amor me arrebatou.
Fui, algures... Além da linha do horizonte.
Era no mar do meu coração, onde está o tesouro.
Então, escrevi... Enquanto os espíritos dançavam.
Porque o infinito está repleto de vida e riso...

Ah, os contos antigos estavam certos:
Há um tesouro no fim do mar.
Há algo mais, sim... Uma Luz. Um Amor.
Enquanto eu fico aqui embaixo, bem quietinha,
Os espíritos continuam dançando lá em cima.

Lá, onde a traça não rói o valor,
E os ventos do carma não sopram mais.
No mar do coração... Lar da Luz.

Fechado...

Fechado... preso
Envolto na escuridão
Frio... Gélido
Não sinto a palma da minha mão
Olho em volta
Vagos e vazios são os rostos
Chaminés que cospem fumo
Para um céu negro pelo coração dos Homens
Asfixiante sensação de nada
Lento, quente... chega o manto
Negro que cobre tudo
É o adeus... fechem a tampa
Finalmente vou saber...
Haverá vida para além da morte?

sexta-feira, 1 de julho de 2011

(De) Passagem





Acordo a vida que há num respirar intenso


notas de melodias inventadas em cada olhar que me aquece


escrevo(-me) em palavras repetidas



sempre novas



leituras proibidas



d.i.v.i.d.i.d.a.s



sei de cor o caminho que me perde de mim



apr(e)endo



p a s s o a p a s s o



momentos



em



que o voar



é o regresso.



A dor é apenas (um) sinal de que o vómito espreita.



Saio de mim



e



ressuscito



(em) musica.



Como se o meu corpo fosse apenas alma.