sábado, 27 de agosto de 2011

Labirinto...



De volta
Ao labirinto
Onde me perco... Onde me perdi
Em encruzilhadas escuras... Cantos de um cubo
Mas afinal onde estou?
Num real surreal ou num surreal ideal?
Ideal... Afinal o que é isso?
Artimanha linguístico/filosófica
Ou uma forma de justificação para nós próprios?
O engano dos Homens... Coisa feia...
E ainda há quem fale da soberba
O que eu sei é que o que eu vejo não tem nada a ver com as coisas que sempre pensei saber
Apenas o que eu digo é coerente com o que sempre defendi dizer
Na minha caixa construi um labirinto entre 4 paredes
Uma prisão... Tantas vezes de conforto
Outras vezes de onde anseio fugir
As coisas encontram-se lá... Exactamente onde estão... E eu? Estarei lá? Para encontrar?
Olho novamente à volta e a dúvida persiste... Mas afinal de que lado do labirinto estou eu?

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Alquimia (autora: Fernanda Guadalupe)



Nota importante: Este texto é da autoria de Fernanda Guadalupe (Lazuli), sou apenas o veículo que o traz até nós/vós

Alquimia

A minha solidão
Não é um acaso
Para enfrentar as noites e os dias
É andar e caminhar por aí nas ruas e vielas
E de súbito sentir o frémito das melodias

É este querer sem saber se se quer
No frio e no calor
Onde há sempre um espanto
E uma ausência de dor

É um sorriso repentino, súbito
Dum vagabundo sem nome
É uma chama e um fogo
Que não consome

É esta mágoa do mundo indeciso
Minha também – seria eu diferente?
A boca faminta, consciente
Serei Um só, como toda a gente!

Oiço os sons das abelhas nas colmeias de Lisboa
E o verde amarelo das árvores na avenida
É um lugar comum, o verde – eu sei
Não é de bom tom, é palavra esbatida

Mas estes lugares – tão comuns que são!
Se em vez das abelhas e árvores, talvez
Optasse por pensar no Profundo?
(lembro-me das águas do mar) – errado
Profundo é outra coisa – vês?

Quão vago este Não Ser ou Ser
Sinto que não sinto
Outro lugar comum – aceito
Mas que fazer desta solidão
Que pressinto?

Trespasso? Alugo? Vendo?
A solidão é um bem móvel ou imóvel?
Se a der, terei que fazer escritura e pagar sisa?
Cuidado com as letras maiúsculas
Fica mal escrever Mal

Mas esta solidão é da minha exclusiva propriedade
E não tem reserva de usufruto
Quero-a de raíz - fica bem este sentido tão
Radical de posse, bem evidente e actual.
O que é meu é meu – olho-te indecisa

E se ela não existe? Reparo
Neste vaso de flores, tem um perfil coerente
Falta-lhe uma pitada de sentido demente
Balbucio, politicamente correcta
Tenho pernas e braços e olhos e ventre

Dou-lhe um iogurte magro, de preferência
(ao vaso, como é evidente)
Misturado com essência de “nonsense”
Levo-o a passear, dou-lhe aspirinas
E rego-o com água corrente

Depois canto uma canção
Não de embalar – ele sempre gostou doutros temas
(o vaso, como é evidente)
Canto-lhe uma canção dos Doors
E outros poemas

Mas na verdade te digo, Solidão
Com letra maiúscula (ad infinitum)
Falo para ti – ouve-me agora
Porque convives comigo, sem bandeira
Sem nada em troca? Porque não te vais embora?

Perdão. Fica comigo. Não te quis ofender.
Só estou a escrever. Sei
Que me queres a teu lado
Dá-me a tua mão, vamos passear
Mas não me arrastes para o teu passado

Fica comigo no verde das árvores, nos azuis
E nas colmeias da cidade
Fica comigo nos lugares comuns e nos sítios sem idade
Nos poemas
Que não sei fazer
E nos antes e depois
Dos dilemas por resolver
Fica comigo aqui onde estou
Exactamente aqui, neste lugar
Onde não sei rimar

Fica comigo e ouve
O resto da melodia

quinta-feira, 25 de agosto de 2011


Folhas, fomos de férias.
Estava a fazer-nos falta ir matematicar para outro lado (neste caso para outra frente) e assim foi.
Encontramo-nos todos nos cortinados da sala. Este ano optámos por uma viagem "vá para fora cá dentro" porque para nós os custos estão sempre elevados ao quadrado.
Não trouxemos as linhas das margens para não se sentirem muito sozinhas mas, mesmo assim, é provável que nestes dias tenham que exercer funções de desenho.
Pedimos desculpa por não termos avisado com mais antecedência... como sabem, o EsquadroTrain só passa pelas linhas dos azulejos do chão uma vez por ano e conseguir lugares de ângulos corRectos nem sempre é fácil.

Até para a semana.
Beijinhos de todos os quadradinhos para todas as vossas frentes e versos.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Postal de Férias - S. Miguel


S.Miguel

era o Espírito Santo
único na devoção das gentes
crentes, devotos de amores
de joelhos e olhos fixos na imagem
que nos faz pensar em tantas dores

não vi um homem na ilha
não vi uma mulher à beira da falésia

vi gente como eu, ilhéus, filhos da bruma
sós na sua insularidade
companheiros das nossas solidões
irmãos de destino vulcânico
nesta jangada de pedra
que navega pelo oceano perdida
descendente da Atlântida esquecida

sonhos de magia e encantos de mitos
sabemos todos que não estamos nunca sós
porque conhecemos a palavra saudade
e saboreamo-la no chá da na Gorreana
onde as operárias passam os seus compridos dias
a aromatizar os sabores dourados da nossa vontade

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Postal de férias II (Os argumentistas não andam de avião)





Olá.
Escrevo-te de um daqueles resorts onde nos espetam uma pulseira no braço para nos entupirem de caipirinhas anémicas à beira da piscina e bufets alarves atapetados de salmonelas, onde vamos por uma semana fazer excursões com velhinhos amorosos e pré-senis e parzinhos em lua de mel que se agarram como sanguessugas ao primeiro casal a rondar a mesma idade que conhecem, por já não se aguentarem um ao outro.

O Rodrigo apanhou uma gastroenterite no dia em que chegámos, por isso tenho vindo à praia sozinha, sento-me sozinha na esplanada, almoço sozinha e depois vou dar uma volta ao bairro dos candongueiros e, a seguir, ao dos pescadores, onde sou perseguida por uma horda de miúdos descalços e ranhosos, a pedirem para ser adoptados por uma estrangeira com dólares na carteira. Está a ser uma lua de mel e peras...

Esqueci-me de trazer uma boa leitura mas arrependi-me depressa de o ter comentado com a minha própria sanguessuga de resort, uma vendedora de seguros boazona que me emprestou o último do Nicholas Sparks. “Vai mudar a tua vida!”, ameaçou.

E enquanto sorvo o quarto wiskey-cola da manhã, com vista para um Mar das Caraíbas muito mais barrento e desbotado do que nos filmes, acredita, só me lembro de ti e tento perceber o que faço neste fim de mundo, porque raio me meti naquele vestido, naquele anel e naquele avião. Era muito mais simples preguiçar na tua cama de solteiro estreita demais, enquanto o dia avança lá fora e os gritos dos putos, à saída da escola, nos lembram que se calhar já era altura de nos levantarmos para comer qualquer coisa. Ou sentarmo-nos no banco do jardim em frente da tua casa, a contar as infracções de trânsito e a gozar com o pessoal que leva três anos para estacionar o carro e, mesmo assim, o deixa de esguelha. Ou a lagartar ao sol de Outono, a fazer a fotossíntese deitada no teu colo, em silêncio durante mais de uma hora e nem um pouco incomodada por isso.

Tens de admitir, éramos mestres na gloriosa arte de atirar à cara dos outros o luxo de não fazer nada.

E o Chico cantava no gira-discos: “Eu faço samba e amor até mais tarde e tenho muito sono de manhã...”

Nunca mais faço uma aposta contigo, muito menos de que consigo engatar o primeiro fatinho Boss que sair de um prédio de escritórios. Ganho sempre e depois arrependo-me. E eis onde a última me trouxe.

Desculpa não te ter acordado antes de sair, como prometi, mas... estás a ver aqueles cenas de filme em que a heroína fica à porta do quarto, com as malas na mão, a observar a beleza angélica do amante que dorme? Ele acorda uns minutos depois e começa uma corrida alucinada pelo trânsito até chegar, no último minuto, à porta de embarque de um aeroporto qualquer, onde ela reconsidera e o beija como se não houvesse amanhã. Nunca percebi esses filmes parvos. Os argumentistas não devem andar de avião ou saberiam que, sem cartão de embarque, não passas os gorilas da segurança, depois do check in. E que, na vida real, ninguém corre até ao aeroporto atrás da melhor coisa que lhe aconteceu. Se o fizessem, provavelmente ficavam presos na bicha da 2ª Circular.

(Apesar de tudo) sempre tua;
Ana

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Estou contigo...



Olá, minha querida!

Que bom,sobe que vinhas ter comigo.
Há um poder maior que te vai trazer até aqui.
O mesmo poder que te deu a vida e te fez descer a este lindo planeta azulado.
Estou a tua espera.
Tu possuis mais bagagem espiritual do que acreditas. Usa-a.
Envio te um postal da paisagem...cá do sitio...como podes ver é lindo.

E, no silêncio do Amor Que Ama Sem Nome, uma luz vai te guiar até aqui.
Então, eu quero te dizer que a tua dor é conhecida, assim como o teu coração.
E, dos escombros das tuas emoções e do teu choro, está a surgir algo melhor.
Almas livres, tranquilas e puras olham por nos secretamente.
Sim, "lá das esferas espirituais elevadas", alguém que ama em silêncio tocou o meu , o teu coração. não sei mais o que te contar... e nem tempo de coisa alguma.
Eu só sei sentir e escrever...
E sei que nenhum de nós caminha sozinho, mesmo naqueles momentos em que pensamos que o céu nos abandonou... Porque há almas livres, velando em silêncio, pelos nossos corações.
Tuas dores são conhecidas, e as minhas também - e as de todos os seres humanos.
E é nos momentos difíceis que precisamos nos lembrar disso.
Portanto, acalma o teu coração. Voa espiritualmente, nas asas da prece, e capta a Luz do Todo. E quando cá chegares e te abraçar, que não seja por dramas, mas, pela alegria de um reencontro. Pela grandeza do Amor. Pela Força do Espírito.
Ah, que bom, que bom que tu vens!
E, que este olhar secreto, sereno e amoroso, acalme o teu coração e te acompanhe.
Para que voltes a perceber o Amor mais lindo de todos, na Terra ou em qualquer outro lugar.
Para que as tuas lágrimas se transformem em muitas risadas, com gosto e paz.

P.S.:
Há uma luz que brilha mais do que milhões de sóis.
É a essência da alma.
Esta é a luz que mora no coração.
Essa é a luz que te trouxe aqui hoje.
Por favor, aceita-a.
E caminha com ela, para sempre...


ate já



Escrevo-te bem de saúde,

Este tórax é um dúplex, comparativamente ao estúdio que era o teu peito. Tem excelentes acessos coronários, pelo que não perspectivo, de momento, indícios de obstrução das artérias.

Ainda não me vieram bater à porta as senhoras Rejeição e Infecção. Confesso que não sei porque viriam, tenho pago a minha estadia com o batimento sempre no ritmo certo.

Os vizinhos do lado respiram sem tosse ou cheiro a tabaco. O sangue, apesar do ainda forte travo a Digoxina e da baixa hemoglobina, não tem o teu nível de colesterol e glicémia. Por enquanto tem sido agradável bombear um sangue assim.

Também não sofro das arritmias dos que sofrem por amor, as cócegas das borboletas no estômago (mas que se sentem sempre no coração), o batimento nervoso das sistemáticas falhas no trabalho, nem o último batimento acelerado antes do choque frontal, como sabes sempre detestei a menina adrenalina.

Espero que a autopsia tenha corrido sem percalços e que a etiqueta no pé não te esteja a provocar irritação na pele. Não te preocupes, pelo que sei, a morgue é estadia temporária

Foi muito bom bater ao teu lado, um beijo para o pulmão esquerdo e sinto muito pela morte cerebral.

Sempre teu,

Coração.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Postal de férias



José,

Sempre disse que precisava de férias e agora, que as tirei de vez, fico instalada num lugar com vista para casa. Só estou a uma légua de distância por isso podes vir visitar-me sempre que te acabar a lenha para a fogueira ou o passado te encher a órbita dos olhos de moscas e fantasmas, à noite, quando enrolares o teu último cigarro. Ou se o gado se tresmalhar nos montes, arrastando-te o tino com ele. Ou quando os lobos descerem da serra e te chegar um frio ao coração, só de os ouvir a rondar ao longe – não vale a pena fazeres-te de forte; sempre te senti gelar, de repente, do teu lado da cama.

Os vizinhos aqui são sossegados. Vêm ter comigo com vozes de sopro, para falar dos filhos que não os visitam e das guerras de partilhas que agora os envergonham, inconformados com os campos por amanhar e os palheiros ao abandono. Muitos não perceberam ainda por que estão aqui e o que lhes aconteceu. Alguns ainda voltam a casa todas as noites, ensinados pelos próprios pés como as ovelhas, mas não está lá ninguém para acender o lume ou pôr um copo de vinho na mesa e, se está, ninguém lhes consegue ouvir as queixas e gemidos.

Eu não. Sei bem como vim aqui parar e, se queres saber, estou bem melhor. Mais descansada. Não é que não gostasse de ti, homem, mas quando me apercebi dos grilhões nos pés já era tarde demais para te querer. Sempre estive mais presa à casa que o pobre cão que acorrentaste no quintal, mas que nos dias de festa ainda tinha licença para vadiar pelas ruas da aldeia. Os 12 filhos que te pari também não me ajudaram a soltar os nós.

Agora que aqui estou, tenho o dia só para mim. Descanso muito mas às vezes é um bocado aborrecido. Sabes bem que sempre tive bicho-carpinteiro. Agora, a esse juntaram-se outros que me fazem cócegas na laringe e nas falanges.

No Verão a terra é toda um pó quente e nem a sombra dos ciprestes me refresca os ossos. Ouço as cigarras à minha volta, no caldo da tarde, o seu coro temperado pelo cheiro da urze – às vezes lembram-me de quando me vinhas achar ao monte, às escondidas do meu pai, e ficávamos toda a tarde deitados na cama áspera do feno recém-cortado, a fazer renda na pele um do outro com as mãos sôfregas, enquanto as vacas fugiam para os lameiros dos vizinhos.

(Mas depois também me lembro do estalar da madeira nas minhas costas e do perfume do couro do teu cinto e passa-me a vontade de te lembrar.)

Mas, de vez em quando, para passar o tempo, deito os olhos uma légua em frente, na direcção do alpendre com a janela partida onde te vejo fumar ao final do dia, os olhos de repente vazios do brilho de raiva e algazarra que te ficava tão bem e a voz subitamente calada – estás espantado? Agora vejo tudo com muito mais clareza, curei-me, finalmente, das teias de aranha das cataratas. Também é estranho não te ouvir a berrar com ninguém, homem... nem pareces o mesmo. Mas agora já não resta por aí ninguém a quem berrar.

Deves te sentir sozinho.

Para ser sincera, esse é também parte do motivo deste postal. Prepara uma muda de roupa, pode ser aquele fato preto que levas à missa e a casamentos, porque vais precisar dela para vir ter comigo. Mas desta vez vais te calar e sou eu quem sai do seu lado do sono para se montar em cima de ti, a cicatrizar-te a pele de remorsos e a uivar-te como os lobos.

E se, até lá, precisares de dinheiro, guardei algum por baixo da pedra solta junto ao forno do pão... e não te esqueças de regar a horta ao fim da tarde – o cebolo já deve estar deitado, arranja quem to venha apanhar por que não vais ter tempo, acredita...

A tua esposa, que te aguarda ansiosamente;

Maria da Anunciação

Talhão do fundo,
Cemitério do Outeiro Bravo

O acaso das capicuas

Anna despiu-se de todas as roupas, abandonou todas vergonhas, largou todos os medos, olhou-se de frente e virou-se do avesso, mirou o seu exterior e expôs o seu interior... Tudo, à procura da essência... Mas do princípio para o fim, de dentro para fora, de trás para diante, ela lia-se sempre da mesma maneira. Não havia nenhuma diferença, nenhuma novidade, nenhum disfarce, não havia mais tentativas nem experências a fazer, não havia mais nada fosse correndo num sentido ou tentanto qualquer outro. Ela era a mesma, sempre. Ela era apenas ela. Não havia nada mais do que Anna. Anna, apenas Anna, de frente ou de costas, vestido ou nua, sozinha ou só na companhia de velhas tatuagens desbotadas pelos anos passados e das histórias esquecidas... Mas um dia, em vez de olhar para si Anna olhou em seu redor... E viu Otto. Nesse instante, em que Anna viu Otto e em que Otto viu Anna, os seus nomes, os seus corpos e as suas almas viram-se espelho um do outro. Anna e Otto reconheceram-se no mais fortuito dos acasos de duas capicuas solitárias.

*

Anna e Otto ainda encontraram-se pela primeira vez no sofá dele à hora da sesta. De costas um para o outro, numa cadeirinha mal construída, num 69 equivocado, lá dormiram uns minutos de sobressalto. Ao acordarem de sonhos indizíveis, sacodiram a poeira, disfarçaram a preguiça e a luxúria, e abandonaram rapidamente aquele espaço demasiado apertado para os seus corpos ainda desencontrados. Mas, sem ninguém se aperceber, enquanto os cérebros voltavam rapidamente à labuta, deixaram ficar no sofá as suas almas enroscadas.

*

Anna e Otto ainda andaram perdidos nas cidades da vida e nos espaços do mundo. Reencontram-se, finalmente, no tempo de uma sexta feira à tarde, chuvoso e frio, na esquina da rua dela. No instante do cumprimento ansiado tropeçaram num buraco do bairro desarrumado e, abraçados, afundaram-se no concreto.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Postal de Férias II



De profundis clamo ad te

Cheguei bem, não te preocupes. Aqui todos são extremamente cordiais e diligentes, de pronto trataram da minha bagagem e me conduziram aos aposentos, vividamente perfumados a amarelo e púrpura, com paredes ornadas de peste e almofadas tingidas a angústia escura com motivos florais de violações e sepulcros.

Sinto-me em casa, oiço o canto dos dependurados e o coro de enfermos que se dissolvem entre os seus próprios gritos de agonia e rugidos de terror, assomo à janela e contemplo toda a beleza desta paisagem, desde o prado onde apodrecem lentamente os cadáveres de nado-mortos por reclamar, as montanhas de ossadas e uniformes de soldados desconhecidos, florestas de membros decepados de prostitutas e os rios de pus onde nadam usurários e chantagistas, que se empurram delicadamente no desespero de se manterem a flutuar, ainda que tal ilusão de salvamento implique os ataques repetidos de corvos vorazes que se banqueteiam com as suas faces destorcidas.

De dia, um sol verde e negro irradia com violência e cresta toda a semente que ouse brotar entre o sal que cobre as feridas abertas que emergem das areias sulfurosas, enquanto bestas hediondas cobertas de escamas e cornos devoram os incautos que foram apanhados pelo amanhecer selvagem, pequenos animais com dentes serrilhados chafurdam com os focinhos entre as entranhas das vítimas que, sem pálpebras, são obrigadas a testemunhar a derradeira violação dos seus corpos abandonados pela sorte.
De noite, levanta-se frequentemente um sufocante nevoeiro carmim com sabor a sangue azedo, porventura dos escravos que são fustigados sem piedade pelos mestres negros que os pões a girar e puxar alavancas das pesadas máquinas que levam a água ácida e pungente até aos castelos flamejantes onde os duques e marqueses deste abismo se banqueteiam com as almas dos pedófilos e dos juízes que os deixaram por condenar, assim como das mães autistas que, perante o medo de ficarem sós e mal-amadas, preferiram defender os amantes molestadores que com perfídia e luxúria se serviam alarvemente dos corpos de seus filhos e filhas.

Agora vou desfazer as malas e dar uma voltinha, já tenho a trela estranguladora, adorno impreterível para qualquer vaidoso que se preze e eu não quero ser visto por aqui como mais um verme peçonhento. Leve o corpo coberto de peles de cabras invejosas e o cabelo preso por fios ténues dos atilhos que prendem preguiçosos aos seus rituais de autocomiseração.

Enfim, estúpida e fraca como és, vejo-te em breve, sem mim por perto para te adular em troco do conforto de teu quinhão de ouro, terás tempo de sobra para de acobardares pelo frasco de comprimidos adentro e fazer a viagem até aqui.

Se achas que a vida ai é um tormento vais adorar isto aqui,
exspectat inferi,
Y.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

pés presos aos pés da mesa (parcas palavras 2)

Ouviu uma frase que enche o estômago até ao vómito, duzentas palavras, lâminas disfarçadas, que rasgam a pele e bloqueiam a carótida.

Há dores agudas que sobrepõem as outras, as graves, pena termos que as prolongar até à exaustão. Arrancou os cabelos com uma pinça de alma, um a um, à janela, para os ver cair, para os deixar pousar, para que cada longo cabelo salgado-morto, ainda com o teu nome, volte a crescer insosso, incógnito, ignoto.

“Hoje durmo no chão, entre o frigorífico e o fogão (sem coragem para acender o gás). Quero voltar a andar direita, porque o colchão da cama curvou-me as costas com o teu cheiro.”

Apenas porque disseste (B de besta):

“Não quero contaminar mais os teus lençóis.”

in “talões multibanco e supermercado, 2006”

Quase uma carta....







Olá :-)


Por vezes as letras não formam as palavras que queremos ou melhor, que devemos, pois é clássico o eterno conflito entre o Querer e Dever.



Por vezes a atracção reside nas diferenças: desejo / romance; vontade / dúvida; breve gostar / paixão; aventura / descoberta; ou simplesmente nos complementos (in)directos deste jogo de sedução em que nos inventamos...Vá-se lá saber porquê...Talvez porque ando sem rumo, porque medito demasiado, porque tento esquecer um desgosto, porque me perco e encontro nesse olhar cheio de promessas que jamais cumprirás, porque o teu colo tem sabor a paz, porque estou ávida de ternura, porque...



...Mas tento não cair na armadilha da qual sei de cor, o sabor triste de despedidas adiadas...


Até porque não sei viver de outra maneira: apaixonadamente um dia de cada vez, intensamente como se fosse o último, sem sustos, nem medos, a uma velocidade alucinante...



Por isso e por tantas outras coisas que, de se saberem se banalizam se as escrever, tento fugir neste paradoxo de só vou porque estou apaixonada e não quero apaixonar-me, assim não vou...



Percebes agora porque parece o meu discurso incoerente? Porque digo uma coisa com a boca, dizendo outra com o olhar? Porque não pareço convincente?



Não tem nada a ver com moral, pecado, sentimento de culpa...É uma defesa, a melhor que consigo para que não nos magoemos...



Claro que ainda sinto a magia de momentos especiais...claro que me atrais, claro que me apeteces. Mas talvez seja tempo de fazer o tal exercício de disciplina que sempre desprezei, eu que há pouco tempo descobri / aprendi que devemos seguir o coração...




Não sei do que preciso...


Talvez de um tempo de solidão para que me encontre, talvez de um amigo que permaneça sem esperar nada em troca, talvez do teu olhar quente em dias cinzentos de nevoeiro...



...Se soubesses as saudades que sinto, sem teres partido, se soubesses a falta que me fazes, mesmo quando estás...



Um beijo e muito de mim.


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

pés presos aos pés da mesa (parcas palavras 1)

Quando o Bruno acordou Maria estava a sorrir genuinamente. Tinha numa mão dois copos e na outra um garrafa.

"- Para que é isso?"

"- Quero que passes um bom dia. Este dia é especial para ti, e quero-te feliz, mesmo que não seja na minha companhia."

"- mas..."

"- Aceita antes que o arrependimento..."

"- Obrigado."

O dia seria passado com o passado. Dói, numa dor fina, como um corte de uma folha de papel por entre os dedos, mas preferia sentir a dor do que contrariar uma vontade, mesmo que isso implicasse nunca mais o ver.

Já dias antes mediante.

"-Este livro é o preferido dela, nunca o li."

"-Gostavas de o ler"

"-Sim"

Ofereceu-o com uma dedicatória de quem o quer ao seu lado, mas que o corpo presente parece marcar ainda mais a sua ausência.

Nunca mais o viu, ou o Bruno entrou na fantasia do livro ou se afogou no vinho dentro de um dos copos.

in "guardanapo de papel numa esplanada, 2004"

Era verão nos nossos corações
E noite nas terras distantes.
Era a escuridão, como um presságio,
Que descia sobre as palavras
E, morbidamente, dissecava o silêncio.
Já não tenho forças
Para pousar a minha mão sobre a tua
E levar-te a passear naqueles fins de tarde
Nos jardins de fogo suspensos.
Já não tenho forças para partir
Para o país onde ardem tempestades,
Onde todas as crianças sonâmbulas
Vêm adormecer nos meus braços.
Era verão nos nossos corações.
A noite desce sobre mim.
Sou este corpo, quase sem existir,
Atravessado pelo vento.

Paulo Eduardo Campos, In “Na Serenidade dos Rios que Enlouquecem”.
Ed. Amores Perfeitos, 2005

terça-feira, 9 de agosto de 2011


Como se começa um postal destes, quando o que tenho para vos transmitir, não são boas noticias…
Adoraria não ter de partilhar o mesmo espaço com vocês, digo mais, seria um prazer tirar férias de vocês, melhor ainda, nunca mais vos ver, isso sim seria perfeito!
Odeio tudo o que vocês representam, turistas oportunistas é o que são.
Com que direito e autorização chegaram e decidiram passar férias no meu espaço preferido?!
E o pior é que ocuparam o espaço todo, não estará na altura de deixarem de ser egoístas e irem para vossas casas?
Este espaço nunca foi, não é, nem nunca será o vosso!

Vão embora!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Para além de estranhos, são porcos, mesquinhos e sem educação…são desprezíveis!
Deixam vestígios por onde passam, impossível não vos ver ou sentir, são repugnantes.
E o mais surreal é que têm o discernimento de ainda trazerem amigos, como se ainda existisse espaço.

Vão embora!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Este espaço não estava à venda, nem para arrendar, muito menos para ser ocupado dessa forma abrupta.
Silenciosamente entraram, instalaram-se, fizeram uma festa, convidaram um monte de amigos e vão ficando como se fossem donos e senhores do espaço.
Mas este espaço não é vosso, é meu!!!!!!

Vão embora!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

O que vos quero transmitir é que, a bem ou a mal, vocês terão de sair.
Usucapião?
Sim terei isso em conta, infelizmente não posso infringir a lei, bem sei, por isso, estas serão as minhas ultimas palavras:
- próteses e artroses, podem ficar, divirtam-se o corpo é vosso;
- doença rara, também vais ficar, mas vais ficar quieta, pois eu já te sei controlar;
- anemia não te esqueças, tens um mês para saíres;
- quanto a ti, coisa esquisita, sem nome, mas ruim, que ninguém sabe quem és, fica a saber que não descansarei enquanto não te matar! (Prisão?! Não, alego auto-defesa, nenhum júri me condenará nessa situação)
- todos os restantes, aluguem um autocarro e ponham-se a andar;

Que fique bem claro para todos, este é o meu ultimo postal, até nunca mais!

Vão embora!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

segunda-feira, 8 de agosto de 2011


Botão, fui de férias.
Estou a gostar muito de estar em camisa às riscas. Aluguei o terceiro botão a contar do colarinho e a vista daqui é de puro algodão.
Nas férias passadas tinha ficado no punho do lado esquerdo e aquilo foi de bainha descosida à nódoa tal eram as náuseas devido aos balanços. Assim, pelo menos, este ano não corro o risco de vomitar um desabotoamento.
Espero regressar antes dos dias frios começarem aí em camisa de flanela. Até lá, mexe-me esses dois buraquinhos e vê se tiras o borboto do quintal do caseado.
Mas fica aqui prometido, vou levar-te como prenda uma linha nova para deixares de ameaçar esse suicídio frouxo. Palavra de Casa.

Muitos abotoos e até breve.
umbigo de "Há dois egos atrás"

Buuuuuuuuuu,

Antes de qualquer conversa devo dizer-te que te prefiro de cabelo e unhas arranjadas. Gosto quando gostas de ti, quando lavas a cara com água fria e as mãos com cheiro alfazema. Gosto das sardas na cara, do sinal no braço e dos dentes ligeiramente abertos na frente. Quero que sejas tu, queres-me?

Ainda não o conheces, vai cair-te aos pés pelo odor corporal e sorriso escondido. Nove meses antes de mim faz amor no terraço porque lá o tecto muda todos os dias e a luz é suficiente para que ele te veja os olhos e a silhueta do pescoço. Não o vais amar, nem vais ser feliz ao seu lado. Amas-me? Eu amo-te em cada riso gengival.

Peço-te desculpa pelos enjoos matinais, a pressão sobre a bexiga, o parto difícil e o facto de teimar em não dar a volta completa. Quero nascer por onde foste fecundada, mas herdei a elasticidade do pai e a preguiça do tio.

Ah! De noite quero ovos estrelados, salsicha, feijão e batido de banana.

Devo no entanto dizer-te que a foto de barriga em fim de gestação que me enviaste do Japão em casa de Gueixa, tem nas costas 04/04/2014. Não gosto de dias certos. Subtrai um ano, soma três meses e multiplica 6 dias.

Quero ficar com o teu nariz, o dedo mindinho e os olhos negros (no dia 24/07/2013 deita-os ao meu lado, por favor).

Vou ser Gertrudes (não gosto de Zeferino) e não serei nem santa nem princesa, não serei feliz todos os dias e triste todas as noites, não serei especial nem diferente excepto aos olhos que deitas a meu lado.

Gugu dada bilu bilu brrrrrrrr,

Feto por fecundar


PS: Dás-me um beijo na nuca?

O tempo passou por nós, não vês?

Crescemos, tornámo-nos tristes.

No fundo, crescemos.

Perdemos as brincadeiras,

Os sentimentos sem sentido.

Perdemos a inocência,

A leveza das palavras

Que teimámos tantas vezes

Em esconder.

Não existem culpados,

Mas sentimos no nosso corpo

O ardor dos cactos,

Quando as lágrimas,

Queimando o rosto,

Caem desamparadas no chão.

Não há súplica que ecoe

Nos tempos de vidro,

Nas noites de metal,

Que nos ferem o peito.

Venho para dizer-te,

Que já não tenho endereço,

Que já não tenho idade,

Que este já não é o corpo

Onde tantas vezes te escondias.


Paulo Eduardo Campos, in "Na serenidade dos rios que enlouquecem", Amores Perfeitos, 2005

Dentro de ti...



Mais do que o teu nome,
Tu és o que pensas.

Mais do que o teu corpo,
Tu és o que sentes.

Mais do que a cor da tua pele,
Tu és da cor da Luz.

Mais do que homem ou mulher,
Tu és consciência.

Mais do que aquilo que sabes,
Tu és bem mais do que supões.

Mais do que os teus sonhos te dizem,
Tu és uma centelha do Universo.

Mais do que um acidente da natureza,
Tu és filho de um Grande Amor.

Mais do que os teus ouvidos ouvem,
Tu podes ouvir a voz do teu coração.

Mais do que os teus olhos vêem,
Tu podes ver além, em Espírito e Verdade.

Mais do que a distância que nos separa,
É aqui que os nossos corações se encontram.

Mais do que sabemos,
Somos eternos aprendizes do Todo.

Mais do que nossas palavras,
O Amor!

Mais do que tudo,
O Todo acima de nós!

Mais do que apenas palavras,
Paz e Amor!

Mais do que imaginamos,
Ferias dentro de ti...

domingo, 7 de agosto de 2011


Não dava para adiar mais. Este ano tive de passar as férias dentro da minha mente a fazer limpezas.

Os sonhos estavam dispersos pelas mesas, amontoados em pilhas, com páginas dobradas, cheios de anotações e capítulos rasgados. Sacudi-os, alisei-os e arrumei-os na estante com uma precisão de bibliotecária.

As paixões estavam abertas e expostas, a espalhar cheiros doces pelo ar. Decidi enrolá-las em película transparente e colocá-las no frigorífico. Sei que se alteram quando refrigeradas mas cá fora tornam-se demasiado maduras e intensas, antes de se cobrirem de bolores e leveduras.

As ideias lógicas não deram trabalho. Estavam onde as deixei, arrumadas em gavetas com raminhos de alfazema e pouco uso. Enxaguei-as com limão para tirar algumas nódoas difíceis e arejei-as um pouco.

A maior parte dos dias passei-os à volta da imaginação e da intuição. Derretem-se, pingam por todo o lado e ficam incrustadas. Nunca consigo retirá-las na totalidade e acabo sempre com grandes bocados a entupir-me o pensamento. Às vezes acho que devia aprender a passá-las por goma, prensá-las a ferro quente e guardá-las no contador. Mas desisto logo da ideia.

Depois de limpar tudo olhei mais uma vez para a porta ao fundo da minha consciência. Aquela que dá para uma divisão onde nunca acendo a luz e para onde atiro, de qualquer maneira, os medos, os impulsos, os desejos mais disformes, as obsessões, as paranóias, as alucinações.... E mais uma vez deixei-a fechada, temendo sempre o dia em a fechadura ceda à pressão do outro lado.

E pronto, ficou tudo mais ou menos limpo. Agora vou aproveitar e dar uma mangueirada à zona do coração. Anda a bombear demasiado sangue e a salpicar tudo à volta.


Imagem: Ballon Lamp, de Kouichi Okamoto

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Postal de Férias


Querido Amor,


Estamos os dois a precisar deste tempo, de dar espaço e movimento ao doce tormento que nos prende em plácida ditadura pintada de harmoniosa candura


E não foras tu o reverso do meu ser, a condicionante maior da energia que me faz mover por entre os sonhos e desejos do quotidiano, dar-te-ia a ti, querido Amor, toda uma dimensão nova de querer, de te querer dar e tanto receber


De outros véus por onde não me vês, entre sombras de luz em que te escondes, perversa inocência perdida entre desejos profundos e enlaces ternos, mornos e consentidos


Entre pensamentos que vogam em ondas de suspiro e espuma de romance, dentro de ti para sempre na quietude do instante que mergulha na angústia da delícia que haveria de vir e nunca chega, mesmo quando matinal se desenrola em teu espírito delicado


O clamor da violência não é para ti, querido Amor, a dormência dos sentidos, os corpos nus e desconhecidos, a agudez desta dor que nos faz gemer, o rasgar da pele que desvenda novos terminais nervosos, o profanar de teu corpo de suaves contornos, o viver em delito e deleite, não são coisas do Amor, oh não, são minhas e delas serei dono e senhor


Por isso, meu querido Amor, de ti fugi entre horas vagas e dias a coberto, entre o fulgir das areias deste desejo deserto e no rugir das ondas que se abatem sobre as rochas da nossa paixão


Sempre teu, ausente por momentos mas contigo emersa em negro coração,
Até breve e que breve seja a viagem entre dias que nos apartam,

Luxúria