quarta-feira, 28 de setembro de 2011

porque a poesia vale sempre a pena, aqui fica esta que tem direcção

A tua ausência
priva-me de olhar-te

estás tão distante do meu olhar
mas tão perto de mim

pressinto esse teu aroma
juvenil,
primaveril
neste Outono quase verão.

Por onde andam os teus olhares
Que não se cruzam com os meus.

O fogo da paixão dilacera-me
Rebenta o peito
Da pressão
Da paixão
Da tua ausência...

Onde pairam os teus olhos
Que não se cruzam com os meus.


e porque a música é...
http://www.youtube.com/watch?v=xzrC72Xv6pE&feature=related

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Lado esquerdo do peito




Quando eu me levantei acima das brumas da ilusão, vi uma Luz.
Sim, a Luz d'Ele, que me esperava com um sorriso nos lábios.
Então, Ele disse me: "Se bem-vindo à consciência real.
Que bom que voltaste ao caminho
Em muitas ocasiões, Eu tive que ser duro contigo
Porque a tua arrogância era grande e caprichosa.
E tua cabeça estava cheia de teorias e técnicas de como viver.
Mas, isso não é assim. Porque viver é muito mais do que se imagina.
E não há manual que ensine alguém a amar realmente.
E nem diploma que cure as feridas do coração.
Tu tens me dado muito trabalho, mas, finalmente, o teu ego capitulou.
E o resultado é essa Luz que tu agora vês claramente.
Agora tu sabes que conhecimento não é sabedoria!
E que o Amor real não é emoção doentia nem frieza afectiva.
E o teu coração está tão lindo, mais parece um sol.
Tu soubeste extrair lições das provas que eu te enviei.
Transformaste reclamações descabidas em lindas canções.
E aprendeste a valorizar as coisas simples da vida, como um sorriso.
Eu sei que não foi fácil para ti. Mas, nunca é - para ninguém.
Porque, muitas vezes, o orgulho bloqueia o discernimento e o Amor.
E o preço disso é muito alto: a cegueira do coração e o egoísmo no comando!
Por isso, muitas vezes, Eu sou obrigado a agir de forma dura e directa.
Então, as pistas do Ser se inflamam e o pressionam a mudar...
Sim, sou Eu que faço isso. Projecto as mudanças profundas e verdadeiras.
E, embora o ego seja renitente, Eu nunca desisto. Porque, tudo muda.
E, mesmo no meio à dor das tuas provas, tu sempre foste abraçado por Mim.
Eu esperei o teu despertar, como um Pai espera a volta do filho que se perdeu.
E, com Ele, sempre vem a Luz do despertar real, fazendo o coração virar sol.

A, eu retornei dos escombros do meu ego e voltei para casa.
Porque o meu verdadeiro lar é no Grande Coração.
E o que é maior que tudo. Tudo o que se sente, se vive e não se consegue explicar.
Tudo o que vai preenchendo os espaços vazios daquele que fica no lado esquerdo do peito...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Insectos (Parte II de IV)




parte II de IV

Sempre me fascinaram, pareciam jóias mágicas aladas, pequenos puzzles de refulgente rendilhado e organza, delicados seres que emergiam das águas escuras e pungentes dos pântanos… lembro-me de ser pequeno, de ser maior do que elas, mas de elas serem igualmente pequenas e, ao longe, tanto maiores quanto eu me sentia, por as ver a voas, cortar rectas entre tabuas e caniçais, pairar, como se o ar para elas fosse a janela do universo onde assomavam curiosas, ansiosas pelo espectáculo único que todos os dias acontece quando Apolo passa ligeiro pelos campos de Ceres.

Mas é aqui que está o truque, a ilusão, o engano. A beleza élfica, o enigma orgânico do metal vivo, do vitral pulsante, da jóia alada, como tudo o que é belo, orgânico e pulsante, tem uma génese, um momento da criação, o volteio suave das mãos do mago quando maravilha a audiência e a todos surpreende: ei-la! Contemplem a beleza maior, o deleite do criador, o segredo da fragilidade, da sensual feminilidade e de toda a virtude deste mundo. Um truque, nada mais. Uma ilusão, sem a qual não queremos viver. O engano que não queremos aceitar como por demais evidente. Assim é, sempre foi, eternamente será. A ascese impossível. O perdão hedónico. O limiar que nunca haveria de ser revelado. Falo pois, desse momento de êxtase e assombro, quando descoberta é a verdade, a origem das coisas, a metamorfose.

Se acreditar, morro, se duvidar, matam-me. Matem-me, não me abandonem nestes campos repletos de tais efémeras criaturas, porque delas eu descobri o segredo. Nada do que é belo pode nascer de nada belo. Nada há de belo na voraz, críptica, insidiosa larva de uma libélula, escondida entre folhas e sedimentos, golpeia a presa incauta e devora-a com enorme violência e satisfação. É assim que cresce, toma forma e ilude o ávido de desejo, inunda-o de desejos, fazendo-se desejar por tudo o que agora é no reflexo lagunar da alma do seu amante.

Se na beleza que contemplas não vires o signo de toda a fealdade deste mundo, serás levado pela corrente fria e serpentina deste rio que a lado nenhum nos leva. Se acreditas nas dádivas de sensualidade e afeição, acredita também no torpor mórbido que lhes deu origem. Se considerares, um só momento, que és o escolhido para desvendar o grande enigma da perpetuidade do ser amado, prepara a tua despedida, porque no amor, bem como em todas as coisas belas e objectos de desejo, a natureza do insecto conhece apenas uma regra: 

Ergue-te, devora e levanta voo...

domingo, 18 de setembro de 2011

Insectos (parte I de IV)

Insectos 

Parte I de IV



Sem que ninguém te veja, sem qualquer som ou movimento suspeito, ergues-te sorrateiro, matreiro, invisível, indivisível. Passas pelo foco do projector sem que a sombra te denuncie. Rastejas junto à parede, sentes no teu ventre a textura áspera da tinta envelhecida. No ar, paira um aroma a bafio e madeira apodrecida e junto à cama de ferro está um monte de roupa velha que outrora fora de uma criança, talvez um menino, 6, 7 anos, ele esteve ali, mas não estava mais. Passas pelos farrapos e esgueiras-te rapidamente para um canto escuro, enrolas-te numa bola de sebo e cotão e murmuras baixinho algo que só tu saberás o que é. Murmuras, cantas para ti e adormeces, embalado num pranto de estalidos e assobios. O dia não tarda a nascer e a luz, toda aquela luz, irá invadir a casa através de frestas nos taipais e buracos no telhado. 

Noutra noite, outra de centenas de outras noites, madrugadas inteiras de solidão que te ampara, aperto que te afaga, afogas-te na miserável sensação de incumprido destino, questionas-te, ponderas, perdes o fio à meada e circulas desorientado sob os tacos velhos e desencontrados do soalho. Procuras por ele, encontras-te a ti, perdes-te entre o bolor e as teias abandonadas e reencontras-te no reflexo distorcido de uma colher de prata, atirada ou esquecida, nota subtil de outras eras, quando eras outro além do que agora és, simplesmente um detalhe que alguém se esqueceu de corrigir aquando da revisão da grande história de Deus. Deus? Deus não tem vindo aqui muito, não senhor, não o tens visto ultimamente, talvez esteja fora em negócios ou se mudou para uma casa mais alegre ou, pelo menos, menos morta. 

Não te assustes pequeno ser, não tremas, é apenas a brisa gelada do inverno que te assola, para todo o sempre desolado, deslocado e preso a um fio, fino, curto e fantasmagórico, que prende o teu ser a esta casa, à tua casa, que te encontrou um dia e te devorou sôfrega e autista. Ninguém te ouve, não vale a pena o silêncio. Ninguém te sente, não tens porque te anunciar. Para quê? A vida é mesmo assim, uma sequência anémica de dias que são noites e noites que são madrugadas eternas, presas pelo mesmo fio, que prende o sol e não deixa que ele te ilumine, que prende a pele dura e seca ao teu corpo mole, que te prende o olhar ao pequeno monte de pequenas roupas da pequena criança, 6, 7 anos, que vivia numa casa, noutra casa, noutro mundo, noutra vida porventura vivida e agora, simplesmente, esquecida.

Um fio, fino, quase invisível, que te prende quando rastejas solitário entre a noite dos dias escuros, onde nem as frestas dos taipais denunciam sombras, nem assombros te iludem por entre o vogar calmo das horas que se esgueiram entre os buracos do telhado e morrem asfixiadas pelos esporos do bolor. Um fio que te serve de guia, para que não te percas no afã quotidiano da busca do que perdeste para sempre e insistes em procurar, procurar, procurar…

Procura por ti, encontra-me a mim, aqui deitado, nesta cama de ferro, a contemplar os dias que passam por entre as frestas dos taipais e me procuram, procuram e procuram, até desistirem, como um dia também tu desistirás de ti e de te procurar em mim... 

Não te assustes, pequeno insecto, se um dia caminhares até ao limiar desta casa e te deparares com o abismo. 

Não te assustes, minúsculo ser, ao contemplar a profundidade e negrume do abismo. 

Assusta-te sim, se sentires que o abismo te contempla…

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Tília



No fundo da tua chávena abre-se uma fissura.
Agora a água do chá já não se contenta com a meiguice da porcelana.
Gosta e espalha-se pela toalha embebida em humores de ontem
e do outro ontem, e do ontem antes do outro.
Queres passar uma cabeça de dedo sobre tudo?
Dizem que ajuda a desencrostar as células mortas
do tempo em que a janela rangia influenza sempre para o mesmo lado
e tu espirravas verbos numa proporcionalidade directa.
Agora a água já não se contenta e não te passa pela garganta
passa pela corda onde penduro a toalha
onde esta seca.
Fica rígida com as conversas peniscas da rua
fica enrugada pelas molas de pernas sem joelhos
que nem mesmo o calor da inflamação consegue esticar.
Pois bem, hoje antes do ensejo do chá recordei:
Tu não és dotado de pulsações.
Atiras os meus pensamentos contra o vidro da janela
e esperas que a luz do sol projecte os meus desassossegos no chão da sala.
Depois, como se fosse possível
dissipas tudo para debaixo do sorriso
e com os pés em cima dele dizes que me conheces bem.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Bom fim de semana

Que a tua voz atormentada de poeta esquecido chegue brevemente aos ouvidos moucos de quem mais nada quer saber...
Que alguém te encontre, para além de mim...
Que outro te reconheça...
Que as tuas palavras alucinadas, escritor velho, façam eco no espaço vazio que se ergue apenas entre nós, que encurtem a nossa distância esticada...
Que ninguém te oiça...
Que nenhum'outra te veja...
E que mais tarde, depois de mais um dos teus fins de semana de indolente promiscuidade, retornem a mim as palavras e sons do teu amor esfomeado!
Que os teus olhos surdos saibam ler o mapa, que os teus ouvidos embriagados vislumbrem o caminho...
Ficarei à espera, qual louca, desbravando um boulevard de sonhos de sábado à noite, qual santa, descansada numa chaise loungue dominical...
Que regresses a casa...
Numa qualquer segunda feira, cedinho de manhã!

sexta-feira, 2 de setembro de 2011





Postal de férias devolvido

Fui à caixa de correio e encontro, enrugado e amarelado, o meu postal, carimbado a vermelho com o texto "destinatário desconhecido".
O postal não tinha chegado a quem de direito, engoli em seco.

"E agora?"

Não conseguia pensar, parei, gelei, fechei...
Volto para dentro da minha casa preferida, directa ao meu quarto, quarto fechado por quatro paredes sem janelas, para nem ter a tentação de sair!

E naquele espaço onde era suposto ter vista previligiada sobre o jardim e a piscina, onde existem espreguiçadeiras e cocktails de várias cores, em copos grandes enfeitados por chapelinhos e palhinhas, estava agora uma prisão de alta segurança.

Tinha entrado de livre vontade mas... não me deixava sair!

"E agora?"

E quando parei no tempo e no espaço vazio, parte de mim experimentou sabores amargos, diferentes, e como numa adição, deixei-me ficar.

Estava fechada em mim, mas ao mesmo tempo estava enebriada pela escuridão, ou seria acomodada, não sei dizer.

Lembro-me do dia, da hora, de cada palavra e seu significado, da rapidez com que o escrevi e principalmente da raiva que transpirava...o meu postal de férias devolvido!

E acordo de um estado de dormência com a mesma pergunta com que adormeci.

"E agora?"

quinta-feira, 1 de setembro de 2011


Mãe,

Desculpa ter saído sem avisar mas tu conheces-me bem e sabes que não consigo conter-me. Tudo o que faço fere-te. Sou um filho maldito, um vírus que não pararia até ver-te morta.

Eu preciso das minhas obsessões. Preciso das nódoas de ferrugem, cinza e alcatrão. Preciso do crude à volta dos tornozelos e debaixo das unhas. O chumbo e o mercúrio acalmam-me. As turbinas, os reactores, os postes de alta tensão são como membros que deveriam ser parte da minha carne. Contorço-me à noite, deitado a imaginar refinarias, altos fornos e explosões de dinamite. Acordo em abstinência e preciso do cheiro dos solventes e da benzina. Todo o meu corpo pede que saia para a rua e o ofereça às águas azotadas e às radiações que o queimam. Rebento a porta e vou à procura da combustão lenta. Quero as mutações genéticas, quero o smog a sufocar-me, quero árvores a cair, quero extingir e extinguir-me. Quero arrancar-te bocados a céu aberto, inspirar e senti-los enegrecer-me os pulmões. Quero tornar-me tóxico. Quero sentir o espasmo da cisão dos átomos. Quero a corrosão, quero mares mortos.

Quero e faço. Sacio-me para que depois venha a calma, o sangue feito pó, a ampulheta onde cai um fio de limalhas. E fico à espera que recomece.

Por isso parti e vim para o mundo ao teu lado. A mais bela das mulheres. Ela sente o mesmo prazer em envenenar-me que eu sinto ao deixar que os seus ácidos fluam. Não trouxe o meu espírito comigo. Estava sempre atravessado no caminho e atrasava-me. Arranquei-o de um só golpe e substitui-o por uma peça mecânica lubrificada e cheia de válvulas. Está algures aí no chão.

Aqui estou bem. Fico sempre no lado escuro, com a recordação das palavras do Marinetti a arder como incenso enquanto, na minha memória, ouço os acordes dos martelos a bater e dos carris a fagulhar, ferro contra ferro.

Um dia volto. Vou cansar-me de mim e acordar numa das tuas florestas nórdicas, numa manhã de geada. Vou tirar a roupa e mergulhar num rio de águas revoltas e deixar que as lâminas de gelo e as pedras acabem de me limpar. E vou finalmente compreender. Compreender-te.

Nessa altura vou querer que me devolvas a minha alma orgânica e frágil. Sei que a guardarás, envolta em silêncio, no fundo de um dos teus oceanos, num local onde nada existe além de ti. E sei que vais cosê-la de volta no meu peito e velar por mim, ao meu lado, até que a tua doce seiva volte a correr-me nas veias.

O teu filho


Imagem : Rust and dirt, Roger McLassus