domingo, 30 de outubro de 2011

Vitima



I.
Olha para ti, nem tens força para pegar em mim, quanto mais para me fazer feliz. Ontem ouvi dizer que me ias contar um segredo, algo funesto e absurdo acerca dos teus planos, como se eu não conhecesse todos os teus planos, cada minuto, cada regra de bom senso, cada sussurro metálico entre suspiros voláteis e descontextualizados. Dizes que precisas de mim mas nada fazes para me agradar. Dizes que sentes falta de mim e não me usas ou permites que te possa usar. Olha para mim e diz-me como te posso fazer feliz. Ao menos olha para mim. Toca-me e satisfaz-te, satisfaz-me e deixa-me que te toque, nem que seja ao de leve, que penetre suave e te faça tremer. Sente-me no teu corpo e deixa o fluido quente ser a panaceia de todos os males, de todos os ódios, raivas, desprezos, dores e desamores. Sabes que nunca falho e deixo-te sempre feliz. Olha para mim e diz-me que te sentes feliz, enquanto me limpas e me voltas a guardar na gaveta.

II.
A diferença deste dia em relação a outros dias é que este dia é exactamente igual a tantos outros dias, exceptuando no pequeno e quase imperceptível detalhe que o torna um dia diferente de todos os outros dias. Achas que sou confusa? Então segue o meu raciocínio, por favor, senta-te ao meu lado e permite-me que te mostre. Esta sou eu, vês, como somos parecidas? Nascemos no mesmo dia, vestimos as mesmas roupas no primeiro dia de escola, comungámos sob o tecto da mesma igreja, vigiámos os movimentos estranhos ao fundo da rua com os mesmos olhos, sentámo-nos na mesma mesa a desenhar maçãs e oferecemos o nosso desdém ao mesmo pretendente. Temos dias iguais, nomes iguais, corpos iguais. Mas há uma coisa que é diferente. Eu quero e tu tens, tu alcanças e eu desejo, eu preciso e tu desprezas, tu procuras a morte e eu sonho em viver. Hoje é um dia como todos os outros, só que ligeiramente diferente. É o dia em que me estilhaçaste, só para que fosses inteira. Mas nunca mais serás inteira, quando algo se rasga, quando sentes o sangue a escorrer, a vida muda para sempre.

III.
Se estiveres menos atento, é apenas uma rapariga. Parece bonita, sem ser deslumbrante, atraente mas não do tipo vistosa, sensual, não sexy. Ou talvez sexy, mas não dessa forma. Mas, se reparares bem, não verás apenas o que a superfície reflecte. Bem lá no fundo, é tão ordinária quanto a fantasias, tão vulgar como a desejas e tão puta como as outras putas vulgares e ordinárias com que fantasias quando realizas os teus desejos. Calma, estás a derrapar na tua própria insensatez. Sê razoável meu caro, com tantas raparigas no mundo, porque hás-de querer aquela? Ah, meu caro, pelo desafio, pelo desafio…

IV.
Pelos princípios imutáveis da Natureza, o fogo é o elemento destruidor e que abre as fronteiras da renovação.  O que há de mais sagrado neste solo é a luz que em nós se reflecte e refracta em infinitas parcelas de comprimento de onda, lançando a cor em direcção às trevas. Quem nega o seu corpo à luz, nega-nos a todos da cor destes dias infinitos de curta duração. E quem quer mudar a Natureza das coisas, brinca com o fogo. E quem brinca com o fogo…

V.
Senta-se ao seu lado e mete conversa. Ela ignora e finge repugnância. Ele sorri e tenta que ela lhe sorria de volta. Ela olha enquanto ele se vai embora, suspira baixinho com os olhos fixos no chão e esfrega delicadamente o braço esquerdo com a mão direita. O dia termina sem que nada aconteça. Uma e outra vez, até que ela sorria de volta, ele mete conversa e dança à volta dela com palavras macias e encantadoras. Elas riem-se dele quando vêem que ela não lhe sorri de volta. Os camaradas empurram-no e desafiam, consegues ou não consegues? Ela responde-lhe, pergunta-lhe o porquê do interesse e se ele não tem nada melhor para fazer. Ele diz, penetrando a sua libido profundamente no peito dela. Nada há melhor do que ter-te perto de mim. Convicto de si mesmo, sorri e clama vitória. Mas ela não sorri de volta. Mas convida-o a segui-la.

VI.
Sísifo pega-te na mão e chama-te companheiro
para que em magna corte de espantalhos a ele te juntes
e no glamour gélido do inferno dos deuses te afundes
para que em apneia descubras então
que o mergulho sem rumo não tem salvação
confia pois no doce e soberbo canto da sereia
e embala a vontade ao som da melopeia
porque não mais irás acordar
para sempre perdido em eterno e distante mar




VII.
Hoje vou ser feliz, porque sei que estás comigo e comigo atingirás o clímax. Hoje sei que quando estiveres em pleno acto, bem agarrada a mim, a gemer e a prender a respiração, a morder os lábios e revirar os olhos, vamos ser um do outro. E para isso precisamos dele, a palha que ateia o fogo ao altar onde juramos amor eterno e abandono a tudo o que for profano, pela sensual fusão a que estamos destinados. Convida-o, para onde não nos vejam, até onde nos possamos esquecer do mundo dos outros, onde eu e tu somos donos da eternidade… e ai nos realizaremos, no ardor da paixão e na confusão dos fluidos quentes.


VIII.
Ela leva-o, como uma noiva leva o seu esposo para o leito de núpcias. Ele sorri e anui. Escondem-se nas traseiras de um velho pavilhão de oficinas, atrás das árvores e ao pé de um monte de garrafas vazias e resíduos de amores fortuitos espalhados pelo chão de alcatrão grosseiro gretado pelo desgaste do tempo. Ela encosta-se à parede, vira a cara e fecha os olhos. Ele lança a mão sobre a sua cintura e aproxima-se para a beijar. Ela permite que ele se aproxime, cerra os olhos com força e tenta não se mexer. Ele passa-lhe a mão pelo rosto e, num arrepio incontrolável, ela abre a boca para respirar e vira-se para ele. Ele beija-a, como quem saboreia o néctar de uma pequena e frágil flor. Ela responde com uma mão sobre a sua coxa, a deslizar para cima, mais acima. Ele entusiasma-se e sorri e dá outro beijo, mais fundo, mais húmido e mais excitado. Ela sobe mais a mão e enfia-a por entre a t-shirt dele e coloca-a sob o seu coração, que dispara e quase salta do peito. O corpo dela fica mais quente, geme baixinho e lambe-lhe o pescoço com sofreguidão e morde-o com força. Ele assusta-se e retrai-se. Olha para ela, algo incomodado e pergunta. Queres à bruta? Ela vira a cara e finca-lhe as unhas no peito. Ele agarra-lhe o pescoço e encosta-lhe a cabeça à parede e empurra as ancas violentamente contra as dela e enfia a outra mão por baixo da saia e aperta a coxa com força. Ela geme ainda mais e esbofeteia-o e cospe-lhe na boca enquanto o olha fixamente nos olhos. Ele sorri e aperta-lhe mais o pescoço e sobe a mão até chegar às suas cuecas e puxa-as bruscamente para baixo. Ela esbofeteia-o novamente e enfia-lhe a língua na boca e começa à procura de algo na sua bolsa. Encontra-o. Ele arde e arrasta a mão pela sua coxa acima e sente-a a ferver, sente a sua mão a ficar impregnada de fluidos quentes e melosos. Ele sorri enquanto lhe pega num ombro e a vira, de costas para si, empurra a sua erecção contra as suas nádegas levantadas pelo gesto instintivo de excitação, à medida que a mão dele se aventura mais profundamente. Ela vira o braço para trás e segura-lhe o pescoço enquanto ele lhe mordisca o ombro e, sôfrega, procura o seu outro eu, o seu objecto de desejo. Mas quando ele abre os olhos e vê a manga descaída que revela o seu braço, assusta-se e larga-a de repente. Pele rasgada. Cortes. Muitos cortes, finos, grossos, uns curtos outros longos, alguns ainda vermelhos e outros já cicatrizes. Larga-a e dá dois passos atrás. Ela olha-o com desprezo e a arfar levanta o braço e mostra-lhe o seu inestimável companheiro, o seu único dono e senhor dos seus êxtases e orgasmos. Ele gela.

IX.
Olha para ti, como és forte a pegar em mim e a fazer-me feliz. Ontem ouvi o teu segredo, o teu plano para me agradar, para saciar a minha lâmina metálica com que te rasgas, com que te cortas para te libertar, enquanto apertas o punho rijo de borracha e gemes de prazer. Eu bebo do teu sangue e vivo pelo nosso prazer. Toco-te e satisfaço-te, penetro-te suavemente e deixo o sangue fluir, a panaceia de todos os males, de todos os ódios, raivas, desprezos, dores e desamores. Sei que nunca falhas e deixas-me sempre feliz. Olha para mim e diz que te sentes feliz por ver o sangue de quem se interpôs entre nós, de quem pensou que te podia fazer dele, quando tu és minha e só minha. Sei que te sentes feliz enquanto me limpas e me voltas a guardar na tua bolsa. É bom ver-te sorrir.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Lição de Filosofia



Queria, querida menina, um universo de coisas reluzentes e macias sempre que o vento te levanta a saia plissada de colégio católico e me fixo no grande-plano da tua boca rosada e pequenina a soprar em câmara lenta a palavra redonda, toda ela manha e melaço: poooooorco-co.

Por isso, sorrio e levo a mão ao chapéu, um cavalheiro que ambicionas senil e castrado, e sinceramente te digo que gosto de te ver soprá-la – de repente, sou outra vez homem, dono de todos os músculos e vascularizações do meu corpo a mirrar.

Sabes que te farão mal, esses rapazes de pele e peito lisos, os olhos oblíquos de cobiçar as mesmas suaves arquitecturas da tua carne a que levanto altares com os meus? Dúvidas, por acaso, que vão forçar desajeitadamente a entrada em ti, inábeis máquinas poluidoras, belos e cruéis semi-deuses acéfalos, só para te deixarem cada vez mais vazia e apática ao longo dos anos? Que, depois, vão querer fazer-te filhos que te retalharão por dentro e por fora, tudo em nome da corrida desenfreada para propagarem os seus genes proletários de unhas sujas?

Claro que não... Até desejas que o façam. E com toda a justiça, reconheço. Os imparáveis mandamentos da Biologia não perdoam. Eu já fui um deles, de resto, e não foi assim tão interessante quanto se possa pensar à partida.

Hoje, todos esperam que me baste a resignação zen de dar pão aos patos, milho aos pombos e vazas à sueca com os outros reformados do Jardim da Estrela. E que me ocupem as consultas no médico da Caixa, horas intermináveis sentado nesses matadouros municipais, com outros da minha geração a quem a demência começa lentamente a escavar canais no cérebro como uma maçã bichada, a discutir as novelas e os programas da tarde e os filhos que graças a Deus estão muito bem na vida mas que nunca aparecem para os visitar, preocupado com a próstata e a tensão, à espera de uma morte piedosa durante o sono? Sim, resvalo lentamente para o AVC mas só a partir das seis das tarde, sentado no banco em frente do liceu, e apenas à passagem do sonho de morfina nas tuas coxas e do teu peito arrogante e rijo.

(Se pudesse, contava-te como ele é a minha zona de conforto anestesiada, que é a ele que imagino, branco e macio, com a sua coroa tenra e rosada ao centro, sempre que estou no gabinete médico para mais uma colonoscopia).

Dantes sonhava que também eu era uma jovem e inábil máquina de retalhar carne, para te tomar como queres. Mas, sinceramente, agora retiro mais prazer da fantasia sádica de te profanar como sou, todo sulcos e bocados pendentes, rugas e asperezas e o princípio de um perfume fétido de quase-morte. Pedir-te-ia então, minha querida, que o tomasses como uma lição de filosofia sobre como tudo é breve e caduco, uma putrefacção adiada, até a matéria desses teus 15 anos pagãos e que, por isso, deves aceitar como uma bênção cada mutilação do teu corpo e espírito, porque só quer dizer que estás viva. E talvez pudesse falar-te de como o teu sexo é o único antídoto para esta sensação de projecto de cadáver que trago dentro mas...

... mas, que lá por ser velho, não tenho qualquer obrigação moral de me sentir assexuado como uma amiba sempre que, às seis da tarde, os meus olhos embalam na cadência do balanço do teu cú perfeito.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Bons fígados



Não saias de perto de mim nada tem a ver com as saias até ao joelho que usei quando estes ainda faziam sentido.
Da mesma forma que cedo mais e mais a cada volta de sessenta passos nada tem a ver com os dias em que acordava cedo para parecer senhora de mim mesma.
Por outro lado, sinto as minhas vontades distorcidas tem tudo a ver com o cinto que me prende a uma cadeira e quando digo cerrar os olhos tem tudo a ver com o desejo delicioso que tenho em serrar as carótidas.

Quer parecer-me que quando os pulmões são alimentados com o nosso próprio vómito, não há muito a teimar, nem tempo para isso. No início são eles que vomitam secreções inflamadas, no fim é a força diminuída que permite consumar a sensação de afogamento. Com tantos dias a enviar secreções purulentas para o estômago, um dia a retribuição acontece e os pulmões são nutridos com a carne mastigada pelas máquinas domésticas. Mas não é com isso que perco o interesse pela gastronomia e ainda me lambuzo com mais refeições, não muitas. As suficientes para conseguir forças e gemer ecolálias. Gemer mas há quem diga gritar, depende da sensibilidade da compreensão e se fico posicionada para o lado do buraco que tenho na anca. Um buraco directamente proporcional ao que a minha menina me abriu quando a pari. Era um suspiro aquela menina, tenrinha num tempo de fome. Não chorou e eu também não, saiu à cêpa.

Mas imagino o melhor de tudo e é o agora, com a hemorragia a desfazer-se de mim. Eles enfiam-me toalhas na boca e no nariz, porque ninguém gosta de ver sangue e isso suja, aflige, enjoa. Por outro lado nunca fui dotada de respiração cutânea. Infelizmente não os culpo pelos seus pudores e fracos conhecimentos no sistema respiratório humano. Nem no circulatório. Nem na relação de ajuda.
Espero, pelas paragens…
Na verdade a aflição dá-nos aquela sensação de suor fixado na pele, de urina quente nas pernas, de pregas coladas, de roupa que queima e de exsudado que transborda dos buracos no corpo. Tudo junto dá aquilo a que chamo abstinência gananciosa do morto. Claro que até chegar a morta o tempo dá-me os segundos retalhados em migalhas. A sensação repentina e estranha de querer sobreviver não faz sentido real nos pensamentos da minha condição. Será que a minha menina também teve esta vontade?
É de noite, no pico da noite que deixam as toalhas ensanguentadas de molho no tanque do quintal para amolecerem e serem esfregadas de manhã. Depois desamarram o cinto, tiram-me mole da cadeira e deitam-me no chão para me lavar. Soube bem aquele banho, como quem lava um porco, jorram mangueiradas contra o meu corpo e com isso arrastam toda a sujidade que desliza para os esgotos comuns da população. Sou enrolada na colcha da minha cama, a que sempre usei, desde o meu primeiro dia de casada e finalmente espero na despensa, pendurada na trave de madeira para as linguiças.
Espero pela autópsia suavemente demorada dos talheres porque o tempo continua a ser de fome e o único buraco onde posso ser enterrada é o do estômago do meu marido. Compreendo. Aqui em casa nunca fomos estranhos com a carne uma vez que a terra jamais foi fértil para as verduras.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Imaginar pensamentos que não param de pensar




Imaginava a volta da minha cabeça um enxame de abelhas zumbindo, voando, fazendo um barulho constante, ensurdecedor.
Fazia de conta que tentava, com as mãos, espantar essas bailarinas do ar e sentia as mãos serem ferozmente picadas cada vez que abanava para longe esses voadores barulhentos. Por mais que tenta se elas venciam sempre!

Assim era aquele pensamento, tão real tão presente aparecia na minha cabeça e ia se encadeando em outros que já estavam presos noutros e não tinha como segura-los com as mãos e deita-los fora. Eles iam e vinham independentemente da vontade. era livre e penetrava em brechas minúsculas na minha cabeça,tão forte e dominador a ponto de tirar o sono... ele chegava sentia o seu cheiro amargo... ficava ali tomava conta de mim as vezes era cruel bruto mordia cá dentro ate fazer sangue como se o alimento dele fosse ver me gritar de dor e prazer ao mesmo tempo... eu, ficava ali a espera que fosse ser diferente algo mais doce menos amargo...não era bem aquilo que eu queria, mas não tinha mais nada e ele aquele pensamento ate que era giro e cuidava tomava conta de mim.
Se eu soubesse o que vinha a seguir... Saberia o que há dentro do coração,o Infinito, a única resposta para todas as questões deste pensamento.
Uma vez veio com um vestido rosa pálido era lindo...ficava me bem abotoava a frente...era fácil de despir...mas era ao gosto dele ate o vestido era a sua maneira não a minha...
Outro dia veio despido de odor sabor tão insípido como ele só sabia ser, mas não deixava de ser um belo pensamento que enchia o meu corpo de tremor só de pensar o que vinha a seguir...era tão intenso nesses dias tomava conta de cada recanto abria escancarava ate os recantos mais escondidos do meu corpo...eu só conseguia esconder aquele recanto o do coração esse que por mais que ele tentasse não conseguia abrir estava guardado para o príncipe dos pensamentos...
Agora não há tempo para pensar ou sentir,ele veio com a dinâmica das abelhas que tudo vêem,miram, planeiam o voo na eterna busca até o reencontro para novos voos
Bailarinas verdadeiras que planam em ouro sem véus,carregando em si o ouro de todas as eras o mel de todos os seres...

Depois um dia zanguei me e disse: não quero mais... tu não vais voltar a ter me não te vou imaginar vou cortar te em pedaços pensamento, como fiz com o vestido rosa pálido...

Neste momento imagino tesourinhas douradas voando ao meu redor cortando definitivamente qualquer parte do pensamento que ainda possa persistir...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011



A história de Júlia (parte 1)

Júlia sempre foi uma menina bem comportada, certinha, pacata, boa aluna, com uma forte educação a todos os níveis.

Já tinha 15 anos quando se deixou beijar pela primeira vez, cheia de expectativas mas as línguas não se entenderam, apesar de ter ficado excitada, achou que não tinha o mínimo jeito e não deixou ninguém aproximar-se dela.

Mas o impulso, o desejo, tomaram conta da cabeça dela, sentia vontade de fazer sexo, de sentir alguém dentro dela, sonhava com isso, noite após noite, mas sentia vergonha.
A luta interior durou algum tempo até se entregar aos prazeres da masturbação.
Passava os seus dedos delicados e suaves sobre o seu corpo inexplorado, os mamilos, os mamilos cresciam e pareciam botões de rosa prontos para desabrochar, o clítoris esse crescia com a intensidade do toque delicado de quem não sabe bem como o fazer, mas que precisa de sentir e sentia.. se sentia! Sentia tanto prazer que se soltavam gemidos tímidos!

Foi-lhe incutida a ideia de que a primeira vez tinha de ser especial, que era algo que marcava uma mulher para sempre, e esperou…

Um dia acordou apaixonada.

Tinha 19 anos, quase 20, quando deixou um homem vê-la nua, tocar-lhe, beijar-lhe os seios, e ela queria sentir tudo, absorver tudo…mas não sentiu nada…sentiu frio, sentiu desconforto, sentiu o corpo suado dele, sentiu ele vir-se dentro dela, mas não sentiu nada e pensou, para a próxima será melhor.
Ele olha para ela e diz, com um sorriso estúpido e de malvadez,“consegui, consegui, ganhei a aposta!” e saiu…

Sim ela tinha feito “amor” pela primeira vez com alguém que tinha feito uma aposta em como a conseguia levar para a cama.

Odiou-se, odiou aquele homem, odiou o mundo…

Mas a menina mulher continuava sem saber o que era ter prazer em ser possuída, devorada, amada, penetrada, sugada, beijada, mordida, gritar de prazer e ainda pedir mais. E assim começa a história de Júlia.

Júlia iniciou uma caça ao homem e virou uma predadora, eram escolhidos a dedo, tinham de lhe despertar desejo físico, já que psicologicamente ninguém lhe dizia nada (nesse campo ela era impenetrável).

E começou a levar homens para a sua cama.

Era desajeitada, mas tinha vontade de aprender e foi pedindo para a ensinarem, para lhe dizerem o que lhes dava mais prazer.

Mas,a busca pelo orgasmo continuava, aquele orgasmo que vem da alma e nos deixa sem respiração.

Uma noite de “caça” Júlia conhece Pedro, que lhe despertou um desejo enorme, era um homem bonito, musculado, com uns olhos verdes de perdição.
E nessa mesma noite Pedro “caiu” na cantiga da Júlia e foi com ela para casa.
O que ela não esperava era que Pedro fosse um homem diferente de todos os que tinham passado pela sua cama.
Pela primeira vez alguém a fez estremecer sem lhe tocar, a forma como lhe desabotoou a camisa, botão a botão, ao mesmo tempo que lhe sussurrava palavras doces ao ouvido, a maneira como a comia com os olhos, e ela, ela escorria de prazer, completamente molhada, apenas pensava em ser possuída, mas ele não era assim.
Ela tinha de esperar.
As línguas dançavam, as mãos corriam, os copos vibravam, o calor aumentou, a música subiu o tom. Ele não sossegou enquanto não lhe devorou os mamilos com a sua língua, quente, doce, suave, molhada, enquanto não a beijou dos pés à cabeça, enquanto não a mordeu, mordidelas, suaves e mazinhas, unhas que arranhavam sem magoar, que aumentavam a excitação, palavras ditas ao ouvido “que faziam corar” e a língua em movimentos circulares no seu clítoris, como tudo aquilo era bom!!!!!
E Júlia veio-se uma, duas, três vezes…e não percebia o que estava acontecer com ela e ele diz-lhe, com um sorriso malandro, “orgasmos múltiplos, que bom…”.
E ainda com ela a vir-se, ele entra dentro dela, ela sente-o, percebe que ele esta louco de desejo e fica deliciada e aperta-o dentro dela, suga-o e ouve os seus gemidos. E quando percebe que ele estava quase a vir-se, decide tomar as rédeas, queria dar-lhe mais ainda! Senta-se em cima dele, esquece tudo e deixa o seu corpo fluir, balançar, parar, voltar, depressa, devagar, brincava com os mamilos na boca dele, agarrava as mãos dele, apertava-o ainda mais…não queria que aquela sensação terminasse nunca.

E pela primeira vez soltou o “animal” que existia dentro dela, sai de cima dele, pede para ele se sentar na ponta da cama e a sua boca foi de encontro ao corpo dele.
O prazer era animalesco e doce, a cumplicidade daqueles dois corpos era inexplicável, e quando sentiu que ele estava novamente perto do orgasmo ele pede-lhe para ela parar.
Invertem-se os papéis e ela tem um novo orgasmo e pede-lhe para ele entrar nela, queria senti-lo e num acto de loucura comeram-se como animais em busca de um prazer mútuo! Ela gemia, ele gemia, ela gritou, gritou e voltou a gritar até que ele também gritou!
Já era dia e adormeceram nos braços um do outro… acordou-a uma horas depois com um beijo e sussurrou-lhe ao ouvido “Júlia és uma mulher fantástica na cama, estou esgotado e esfomeado, fazes-me companhia?”.
Foram tomar café e despediram-se com um beijo na cara e um sorriso.
Semanas depois ela descobre que Pedro era modelo, quando o viu numa revista e sorriu, sorriu porque o Pedro será sempre a sua primeira vez!

Júlia continuou a levar homens para a sua cama e tornou-se uma “expert” na arte da sedução e do sexo.
Ela encantava-os com o seu sorriso, o seu olhar, a sua voz e depois… na cama!

Mas pelo caminho Júlia magoou muitas pessoas, ela não se apaixonava por ninguém, não conseguia, entregava o corpo mas não o coração…

(a história de Júlia não termina aqui…)

sábado, 22 de outubro de 2011

NeoPornographia





Todos olhamos quando ela passa
Excitante, provocante, diabolicamente devassa
Apertamos as coxas para disfarçar a excitação
Mordemos os lábios, suspiramos em vão
Mas ela está longe de nós

Noutro dia olhamos pela janela
Miramos a doce e demente dança dela
Metemos ao bolso a mão, para disfarçar
A atenção inusitada que lhe estamos a dar
Enquanto serpenteia longe de nós

Por vezes ao passar numa qualquer estrada a vemos
E logo abrandamos, espreitamos e dizemos
Que é uma desgraça, vergonha, uma tristeza
E engolimos em seco a admirar a beleza
Dela que se enrola com um que não nós

À noite na segurança da nossa cama
Dizemos a mentira a quem mente que nos ama
Que ela é a única, aquela, a verdadeira tal
Mas longe o pensamento voa fatal
Para aquela que se abre se deita longe de nós

E quando dispara o corpo corrupto
Num esgar ou lamento profundo e poluto
Morremos um pouco no corpo do amante
Sentimo-nos perto mas com a alma distante
Enleada em quem está longe de nós

Mas o dia chega e nunca se atrasa
Ela vê-nos, sorri e nos deixa em brasa
Um acenar dela e ditada é a sorte
Embalados nos vamos nos braços da morte
Quando finalmente o escolhido é um de nós

La décaDANSE


geme baixo. ela que aprendeu a controlar a respiração ao nível do inaudível, mesmo quando a excitação se acelera e exige gritos.



dança noutro corpo que a ampara nas quedas vertiginosas de sucessivos desmaios. homem firme de pele tisnada pelo sol do ano inteiro. jovem. tão jovem, apesar da espera cansada nas tardes (em) que se querem_______________ noites. com madrugadas tardias, para que os momentos perdurem.



olha-a com ternura e desejo que intensifica orgasmos. olha-a e possui-a mesmo com a boca que insiste em calar com beijos.



toques exploratórios________ de dedos_____________ de línguas______________ de pele com que se prendem em abraços.



numa dança de desejos sempre mais e cada vez mais exigentes. tinge-se de azul o olhar e o rosto infantil é carmim de surpresa em surpresa.



_______________e é quando o rubor sobe e o calor rebenta com as barreiras de suor. e escorre o néctar por entre as pernas que se roçam inquietas nas másculas mãos de mestre. dirá então: amor é também quando os fluídos se t(ro)cam em violentos embates de corpos licorosos. asas que o vento rasa em voos de beijos profundos. uns. leves outros, que a levam até ao limite dos dois. sem limites, sem pudor, tabus que alguns inventam para esconder vícios. que se devem manter tão privados, quanto publicas as virtudes.

fecham-se em círculos viciosos de prazeres. fecham-se de olhos vendados, ao tacto que os reclama no segredo dos sentidos. ensaiam um sorriso e a noite não tem fim. é assim (est)a musica dos amantes.


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

o desafio foi lançado e assim sendo aqui fica com este acompanhamento



O dia tinha feito jus aos avisos da meteorologia. Um calor seco que fazia colar a roupa ao corpo. A manhã estava a chegar ao fim e eu precisava urgentemente de um chuveiro de água fria a cair-me no corpo.
Os clientes exteriores estavam todos visitados, somente faltava uma reunião que iria ocorrer no escritório ao fim das tarde. Teria mais que tempo de passar por casa, tomar um banho e dar um beijo na minha mulher.

Meia hora e estava em casa. Entrei. Ela, surpresa pela minha chegada, nem teve tempo de falar porque a arrastei para o quarto. Comecei a despir-me e ela continuava atónita a olhar para mim. Já nu puxei-a para mim e desfiz o laço que apertava roupão finíssimo que ela envergava.
O corpo dela resplandecia de beleza. Fomos tomar banho. Louco, respondeu ela de sorriso entreaberto.
A água fria caiu sobre os nossos corpos. Espalhei o gel no corpo dela e ela no meu corpo.
Terminado o banho decidi almoçar em casa. Tinha muito tempo. Vesti uns calções e ela somente uma camisolita e descemos para a cozinha.
Estávamos indecisos sobre o que comer. O calor era tanto que apetecia somente coisas frescas. Fruta. Sim fruta era uma excelente ideia. Uvas para mim, dióspiros para ela.
E aí começou a tarefa. Ela deleitava-se com o dióspiro, deixando que o suco lhe escorresse pelo rosto, tornando-se uma imagem curiosa. Entretanto eu parei com as uvas e avancei para ela de língua de fora e lambi-lhe o rosto uma, duas, três vezes. Fiquei com água na boca.
Agarrei-a, arranquei-lhe a camisolita, peguei nela ao colo e deitei-a na mesa da cozinha. Agarrei no cacho de uvas e fui arrancando uma por uma e espalhei pelo corpo, melhor dizendo, pelo escultural corpo da minha mulher, como se de um ritual japonês se tratasse.
Depois de já não existirem mais bagos, era altura de começar a refeição. Uma a uma fui-as deglutindo, e o início foi pelas que estavam junto e no rosto. Desci aos seios e numa breve fuga mordisquei  um e outro mamilo. Os gemidos acentuaram-se.  E a cada gemido um bago de uva e uma mordedela...
Desci até ao umbigo e aí com a língua consegui, num malabarismo, recolher o bago e rodopiar dentro daquele buraquinho tão perfeitamente talhado.
Agora era o final, aquele final de êxtase. Com dois dedos segurei o esgalho que tinha depositado entre os teus lábios vaginais e com outro procurei o teu clitóris. Toquei-lhe, vibraste, e eu com a boca roubei um bago. Novo toque, novo assalto aos bagos. Delicadamente ia rodando o esgalho de uva. Queria bagos que trouxessem o suco que de dentro de ti saía em catadupas de tesão, paixão, amor...
Um após outro recolhi todos esses bagos impregnados  do teu sabor, impregnados de ti...
Num repente levantaste-te e como que num passo de mágica arrancaste os meus calções e obrigaste-me a deitar no chão. Deitaste mão aos dióspiros e foste cortando em gomos e espalhando pelo meu corpo em pontos chaves que escolheste, como se quisesses assinalar um qualquer roteiro  num mapa. Um a um foste abocanhando, mordendo, tilintando num bailado rítmico da língua, dos lábios e dos dentes. O último teve por companhia uma glande que não se conteve e irrompeu em golfadas de um louco desejo.
Mas eu senti que não tinhas dado tudo. Que dentro de ti fervilhava  um sémen desejoso de se oferecer a mim num imolar de paixão e desejo.
Sentei-te na mesa e olhei-te como se fosse a primeira vez.
Abri o frigorífico e retirei dois cubos de gelo que coloquei na boca e aguentei o máximo que consegui. Com a boca gelada abocanhei o seio alvo de menina. Primeiro um, depois outro e o frio da minha boca fez enrijecer os seus mamilos que cresceram desmesuradamente na minha boca. Senti que esta minha loucura te agitou da cabeça aos pés e que algo estava para acontecer.
Coloquei de novo mais uns cubos de gelo na boca, agora mais, precisava ficar frio em menor tempo, tinha medo que não aguentasses.
Quando senti que estava o suficientemente frio a joelhei-me e abocanhei o teu clitóris, sugando-o, atacando-o com a minha língua gélida.
Após a segunda ou terceira investida, senti que estremeceste... retraíste-te, segurando a minha cabeça como que a prender-me, e nesse mesmo momento foste minha em golfadas de paixão.
Olhámo-nos e depois de um beijo longo e apaixonado eu fui-me vestir. O escritório esperava por mim.
Quando, já pronto, me preparava para sair segredei-te ao ouvido: quando sair logo vou aos morangos e ao chantily para continuarmos a refeição...





quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Era uma vez duas pessoas que desejaram escrever em conjunto. Do desejo à concretização foi uma passada rápida e assim nasceu este


Texto a duas mãos

Ontem procurei-te desesperadamente. Apesar de saber da tua ausência, revelei-me impotente para a aceitar.
Bem lá no fundo acalentava a esperança de te encontrar deambulando pelos caminhos sinuosos da vida.
Desejava tanto depositar um beijo nos teus lábios, pegar na tua mão e caminhar ao teu lado. Queria sentir o perfume que emana de ti, esse perfume de bosque, essa mistura de fragrâncias que me deixa louco de uma loucura sadia.
O meu colo pedia que te sentasses. Queria estar perto das palavras que brotam de ti. Senti-las. Poder mesmo tocar o seu som...
Tocar o som das palavras...
Mas nem só o som, queria beber cada palavra, cada sílaba... nada se poderia perder.
Quis encher o teu regaço de flores. Não rosas porque aqui, ao contrário de outros tempos, não há milagres, mas tão só tu própria.
Pensei em flores campestres...
Queria desesperadamente correr, saltar, rebolar, gritar nesses campos de papoilas e malmequeres bravios, queria gritar a todos que eras tu, eu...

A melodia com que me envolves tem a capacidade de me fazer esquecer de mim. Eu que me recordo em ramos de flores silvestres com que me decoravas os cabelos, quando ainda não éramos nós e não éramos mais do que uma simples probabilidade metafísica.
Atravesso o rio da aldeia, pés descalços, saia apanhada nas coxas brancas do sol que já não sei. Cabelo solto como o vento que me leva até às memórias de dias luminosos de aromas por inventar.
O rio passa numa quietude de tardes mornas. Acompanho o seu curso, o pensamento em ti, as mãos cheias da água que explode em pequenos recantos, as silvas que os pés suportam sem dor. Os pés e as pernas, ágeis ainda. Sorrio ao som do silêncio que se faz, quando te sonho.
Então, num repente que me caracteriza, inicio uma corrida sem destino que me levará ao teu abraço.
Que só saberei quando chegar.






quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Desafio X-rated: textos para adultos

Desta vez o desafio é para maiores de 18.

A proposta é tomar de assalto os espaços mais velados da consciência, desgrilhoar o proibido, visitar instintos e fantasias e deixar o sangue fluir. Queremos medo, tentação, morte, violência, loucura, sexo, vício, caos, distopia….

Até à meia-noite do dia 5 de Novembro, dêem o vosso pior sob a forma de um belo texto associado a uma bela música que o ilustre ou complete.

Acham que já são suficientemente crescidos?



Não se esqueçam de colocar a etiqueta "X-rated : textos para adultos"

Olhos de água



dispo-me para ti ao som dessa musica com que me tocas. dispo-me de preconceitos, trejeitos, dogmas. dispo-me numa sinfonia de roçar de tecido. algodão. seda. cetim. o pescoço inclinado ao teu beijo. as mãos prenhes de abraços. dispo-me de mim. a alma desnuda em carne viva. tocas-me a medo, no receio de me quebrares. ou ao encanto com que me entrego. nua. despida com ternura__________ de olhos rasos de água. quando as tuas mãos cheias de mais vintes anos que as minhas, me acautelam a queda. me seguram as vestes com que me despes. com o olhar e os meus gestos. lentos. depois lestos. dispo-me de mim, nesse quarto onde me abro à noite que te fecha sobre mim. no beijo que guardo nos lábios que foram só teus. dispo-me. e nua, atravesso o teu corpo num voo rasante à tua alma de poeta maldito, com que me fazes poema



terça-feira, 18 de outubro de 2011

Outono


Norberto Lobo - Chuva Ácida


Todos os dias ao acordar, a ferrugem dos passos faz-me pensar na humidade que o meu caminho se tornou
Antes de abrir as portas da cave procura a percepção nos livros
e, no fim, deposita a memória no húmus da sua decomposição,
Esquiva, diáfana fantasia entre páginas incontadas.

Hoje, a seiva cria coágulos em todas as ramificações dos pensamentos
A agulha dos segundos cose-me aos batimentos fora de horas do coração,
Corta o teu olhar para o encontrar côncavo
e sorve o álcool antes do mosto dos teus olhos de uva,
Se a luz dourada se derrama em ti como chuva morna.

As tuas mãos enfolhadas de plátano estalam secas na minha face, cada vez que te olho
Permites que a folha caduca seja tua cama, minha sede, abrigo de prazer,
Um bacanal de viver sem outro Deus que a dança, o riso
E embebidos na luz ocre do Sol que por hoje se despede, embriagamo-nos de beijos.
Escondes-te na noite assombrada por murmúrios, amanheces na geada
– Uma moura sem encanto que passeia nua pelo lameiro –
Pintas-te com chocolate e devoras cada palavra que desenhas em teu corpo
– Um esporo de sal e água soprado por uma mulher seca.

A menina cor de sonata comunica pelo silêncio das palavras presas nas linhas das pausas
Sempre preferiu a translucidez chuvosa do vidro
a necrose do teu beijo, os narcisos em Novembro
a carícia saturnina na adaga antes do golpe
que denuncia por dentro uma dor desnuda
Um silêncio que não consegue saciar a flor da carne
Uma alquimia de ouro em matéria morta, de brilho em baço
Mil endechas escritas pela tinta que jorra das carótidas.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Insectos (parte IV de IV)


Parte IV



Uma, e outra, e outra vez. Uma, e outra, e outra vez. Dou a volta à casa e procuro. Procuro quem me veja, quem me sinta, quem de mim sinta falta. Procuro não desesperar, mas desespero, falo comigo próprio e embrenho-me entre sombras, internas e externas, acabo por adormecer, talvez assim me liberte deste sono sem fim. Uma e outra vez penso em ti, penso em tanto que pensei em ti, penso e dói-me só de pensar na dor de tanto pensar. E pensar para quê? Afinal o que é que eu quero, quando já tenho tudo quanto alguma vez poderia querer. Se havia tão pouco que me fazia completo, agora que nada tenho, só poderei ser o ser mais completo ao cimo da terra, articulado comigo mesmo, sentiente de nada para além do débil limite do que me é permitido sentir, quase divino em matéria e forma, absolutamente extraordinário, sem nada, absolutamente nada de normal.

Uma e outra vez recordo, a falta de ter onde me agarrar, a quem me prender, afinal, todo o sonho era vazio e a ilusão a única coisa que era e é real. O que pode então a realidade fazer por um homem? É pela realidade que seguimos quando algo de surreal acontece? Quando nada do que acreditamos ser possível se realiza perante os nossos olhos e nos contempla para além do vazio que neles transportamos? Será esta realidade a vida? E se a vida for apenas o breve acontecimento que sucede entre a morte e o nascer, o renascer, a metamorfose? Será que a vida é mais real quando a vida em morte se transforma? Podemos então, em êxtase, antecipar o acontecimento da emergência de um novo ser? Será a vida um retrato fiel do mito da Fénix, onde nós, envoltos em chamas, bradamos aos céus que nos salvem, gritamos em desespero por um fim do tormento quando, em boa verdade, estamos a ser levados em mão à nova morada do nosso espírito, onde então a vida acontece? E se então, o portador da morte for o Anjo da Vida que nos guia durante a transformação brutal da carne em matéria divina, o sopro silencioso da corpora alata nas nossas veias e nos guia até ao abismo, para que finalmente possamos dar o salto de fé, rumo ao centro do universo, onde tudo finalmente irá fazer sentido?

Uma e outra vez, assumo o sentido de missão, de caçador de fantasmas, de juiz de mim mesmo e de desprezo pelo que sou e serei sempre, para todo o sempre, incapaz de admitir. Admitir que a vida continua e que o sol não gira sobre mim. Admitir que nada tem que fazer sentido para acontecer, terá somente que acontecer. Admitir que o que não sei é infinitamente mais do que o que sei, ou penso saber. Admitir que amar não é possuir, que desejar não pode ser querer e que querer não justifica, nunca, as nossas acções para alcançar. Eu só queria alcançar alguma paz, um pouco de sossego, uma boa noite de sono, sem pesadelos, sem ilusões de um outro futuro, um pedaço, só um pequeno pedaço, de bondade, abertura ao mundo, de normalidade.  

Para trás, para a frente, nesta casa deserta, onde nem eu me encontro, por entre os estalidos da madeira e o pó que tudo envolve, descobri a escuridão e assassinei os meus medos de ser feliz, ao assumir, em definitivo, não ser feliz, nem tampouco infeliz, simplesmente, não ser eu mas ser nada. Para isso tive que fazer escolhas. Para que eu nada fosse tive que algo fazer. Para me anular a mim, tive que aniquilar a representação maior no eu que tardava em desaparecer, desvanecer através dos vidros sujos das janelas desta casa e da minha alma. Tive que me matar. E qual a melhor maneira de me matar? Matar-te.

Então esperei. No dia em que te reencontrei esperei para ver onde te dirigias, no teu voo rápido e majestoso de ser superior, na tua bonomia para com o mundo de larvas incompletas e cobardes que vivem dos restos de seres como tu. Vi que lesta partias e, tão imaterial, que deixavas cair o pequeno papel que tinhas na mão. Apanhei-o e li. Li, era uma morada, uma casa pequena, perfeita para alguém de passagem, só terias mesmo que confirmar com o seu dono que estava disponível. Vi e esperei, um dia, dois dias, muitos dias. Até saber de cor. É a fraqueza das libélulas, os hábitos, gostam de manter rotinas e de voltar ao junco alto onde podem ser vistas e admiradas, de marcar território e afirmar a sua superioridade. É sempre a superioridade, essa falta rude e torpe de modéstia que derruba os heróis e os seres belos e inalcançáveis. Esperei, e consegui.

Já não me surpreendi quando não me reconheceste ao ver-me à porta de teu quarto. Já não me doeu que não gritasses pelo meu nome quando imploraste clemência. Já não me assustou olhar para os teus profundos e apavorados olhos verdes e nem rasto de mim vislumbrar. Já não me custou ver-te partir, para sempre, envolta em mim, com as tuas mãos a segurarem os meus braços, mesmo que só fosse para afastar as minhas mãos do teu pescoço e a suspirar, por uma última vez, até contemplares o céu que se haveria de abrir sobre nós só para ser o palco do teu último voo, transmutada, rumo a casa, a tua casa.

De volta a minha casa, sento-me na cama de ferro e deito-me, deixo-me adormecer porque sei que não vou sonhar. Nada há para sonhar, acabou. Sou livre de nada ser e de nada sentir. Não temo mais o dia seguinte. Não sinto qualquer fascínio pelo cair de uma nova noite, pois não haverá qualquer noite nova depois desta, serão apenas repetições da mesma, vez após vez, após vez...

E quando penso em ti, já nada penso. Nada há para pensar quando estamos sós, livres de qualquer sentimento, em frente só há dragões. Nada para além do grande vazio, do derradeiro passo em frente, nada existe para além do vácuo que me preenche há medida que avanço no meu mergulho, de olhos bem abertos, abismo adentro…

domingo, 2 de outubro de 2011

Insectos (parte III de IV)


Parte III


 

Olá, como te chamas? Eu sou a Joana, mas toda a gente me trata por Joaninha.

Parece que ainda a oiço… voz suave, ondulante como o vento nos seus cabelos, alegre como as manhãs mornas de Primavera, e perante mim a formosa criatura, filha das estrelas, das estrelas que brilhavam nos seus olhos verdes e suaves, como a sua voz, a ondular por entre a floresta de pensamentos que hirtos, mal reagiam ao tom morno da primaveril manhã em que a ouvi. E ainda oiço… por vezes.

Algo devo ter dito, não que tenha qualquer memória de ter dito nada, só olhado, contemplado, maravilhado, completamente enamorado. Mas entre o que não disse, terei certamente dito o que ela queria ouvir, porque dias depois ainda me olhava com os enormes olhos verdes, entre sussurros e sorrisos me enrolava à sua volta, e as palavras fluíam quietas entre os nós pequenos que nos uniam como uma teia apertada, nós que éramos dois mas seriamos um, apenas um nó, pequenino, na gigantesca teia do universo que prende as vítimas em busca de mel, um pouco de água e tanto amor.

Os dias passavam ligeiros e os meninos de 6, 7 anos, brincavam sem nada saber sobre nada do que ao mundo se referia, apenas coisas de crianças, coisas de meninice e amor verdadeiro, daquele que só a inocência faz matéria e a ignorância lei. Sem lei, nem memória de tal coisa e de regras, nem um traço, por entre os muitos que traçámos no pó das janelas das velhas casas do caminho, do nosso caminho, entre ervas e pedrinhas, os nossos passos foram marcados na lama das poças da chuva de ontem, porque ontem, tal como hoje ou amanha, nada haveria para dizer. E contudo, como eu gostava de te poder dizer algo agora…

Um dia acordei, não de um sonho mas de toda uma vida sonhada. Um dia procurei, mas não havia nada. Um dia chamei e não te encontrei.
Meninos, a Joaninha mudou de escola, foi acompanhar os pais para o seu novo trabalho, foi de repente, mas é a vida, os meninos tem que ir para onde os pais vão, ou os mandam, é assim que tem que ser. Agora abram a página 24 do livro de Meio Físico e completem o exercício 3…

Não percebo. Tanto tempo passado e continuo sem perceber. Não percebo porque nada me disse, não percebo porque não me contou na tarde antes de partir que ia partir, na estrada que nos separaria para sempre, partir o meu coração ainda verde, de idade e de esperança. Nesse dia, depois da escola, cheguei a casa, despi a minha roupa, coloquei-a num pequeno monte ao pé da cama de ferro e deite-me, de olhos bem abertos. Olhei para o tecto e lá estava, a aranha, na sua teia, feita de pequenos nós, quieta, bela e ausente, a ondular na suave brisa de Maio, quase indiferente à minha presença. Até que, quase por divina providência, um pequeno mosquito pousa incauto e lança pelo fio da teia uma minúscula mas sensível vibração. Num segundo, estava preso num casulo de seda, envenenado, a sucumbir à doce narcolepsia, enquanto os olhos da aranha brilhavam como estrelas, verdes e doentias, escondidas no mais escuro e perverso canto da minha casa. Tal como o agoirado mosquito, também eu me deixei morrer, devagar, silencioso, abandonando o meu corpo ao veneno do engano…

Os anos passam e não há nada pior que nos tornarmos pessoas normais. Afinal o que há de bom em sermos normais? Não seria tanto melhor sermos excepcionais, inigualáveis, ímpares num universo de seres únicos e irrepetíveis? Não é isso a vida eterna? Que tem de eterno sermos uma sombra de outros, outro entre tantos, tão simples e normais. Mas há uma coisa boa em ser normal, se nada nos distingue, também nada nos identifica, diferencia, não há um dedo mágico a apontar ‘ali vai ele’, uma de tantas formigas num carreiro negro, infinito e infindável, para trás e para a frente, para frente e para trás, para trás, onde me deixei ficar, mais para trás ainda, quando eu olhava naqueles olhos verdes e sonhava, nos dias em que cigarra cantava para a joaninha e fazíamos felizes o caminho incerto da Primavera. Para a frente. No carreiro negro, indiferente, normal.

Até que um dia houve um eclipse, e um sol enorme e brilhante se interpôs entre mim e a noite negra que era o meu dia e a vi. Não acreditava no que via, porque não era possível acreditar que via, muito menos que a via. Lá estava ela, a passar os dedos pela vitrine onde estavam afixados os papéis que diziam o que seria o futuro dos jovens normais que seguem a sua vida, normal. Mais de 10 anos depois, senti um pulsar forte no meu peito, o frio do ventilar na minha garganta, a dor lacerante de finalmente ver luz no meio de tantas trevas. Não consegui dizer nada, ou nada me lembra de ter dito, mas é possível que algo tenha sido dito, porque ela virou-se e disse ‘por favor, pode dizer-me as horas?’. As horas? A que horas se referia ela? Às horas que esperei por ela na estrada da escola? Às horas que dediquei a pensar porque não teria eu simplesmente morrido naquela tarde? Talvez quisesse perguntar.me quantas horas aguenta um ser humano normal, num dia normal, sem perder a sua normalidade e explodir de dor e desejo e paixão e saudade e ainda mais dor, muito mais dor do que qualquer ser normal possa aguentar sem que o coração se desfaça em mil pedaços, espalhados por mil poemas fechados em mil gavetas, por entre mil vezes que se suspira e nada se sente porque gastamos o ultimo suspiro há mil dias atrás… Disse-lhe então as horas, 11:17, mais precisamente. Ela olhou para um pequeno papel que tinha na mão direita e exclamou assustada que estava atrasada. Não resisti e peguei-lhe no braço e olhei para os olhos verdes e infinitos e enormes. Procurei-a mas ela não estava lá. Ela olhou de volta, assustada e ansiosa e procurou, mas não me encontro. Eu ainda estava debaixo de água, entre folhas e sedimentos, perdido na corrente fria do rio, enquanto ela havia mudado, transformado o seu ser, feito a metamorfose e ganho asas, feitas de organza e vitral, pairava sobre mim, olhava para baixo e não reconhecia a larva. Ela era a joia da criação enquanto eu nem sequer me erguera daquela cama onde fique para sempre preso e envenenado. Libertei o seu braço, pedi desculpa, ou pelo menos devo ter feito uma cara de desculpa, porque ela olhou para mim, distante e fria, devorou a minha alma, ou o farrapo que restava dela e voou…