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A mostrar mensagens de Outubro, 2011

Vitima

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I. Olha para ti, nem tens força para pegar em mim, quanto mais para me fazer feliz. Ontem ouvi dizer que me ias contar um segredo, algo funesto e absurdo acerca dos teus planos, como se eu não conhecesse todos os teus planos, cada minuto, cada regra de bom senso, cada sussurro metálico entre suspiros voláteis e descontextualizados. Dizes que precisas de mim mas nada fazes para me agradar. Dizes que sentes falta de mim e não me usas ou permites que te possa usar. Olha para mim e diz-me como te posso fazer feliz. Ao menos olha para mim. Toca-me e satisfaz-te, satisfaz-me e deixa-me que te toque, nem que seja ao de leve, que penetre suave e te faça tremer. Sente-me no teu corpo e deixa o fluido quente ser a panaceia de todos os males, de todos os ódios, raivas, desprezos, dores e desamores. Sabes que nunca falho e deixo-te sempre feliz. Olha para mim e diz-me que te sentes feliz, enquanto me limpas e me voltas a guardar na gaveta.
II. A diferença deste dia em relação a outros dias é q…

Lição de Filosofia

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Queria, querida menina, um universo de coisas reluzentes e macias sempre que o vento te levanta a saia plissada de colégio católico e me fixo no grande-plano da tua boca rosada e pequenina a soprar em câmara lenta a palavra redonda, toda ela manha e melaço: poooooorco-co.

Por isso, sorrio e levo a mão ao chapéu, um cavalheiro que ambicionas senil e castrado, e sinceramente te digo que gosto de te ver soprá-la – de repente, sou outra vez homem, dono de todos os músculos e vascularizações do meu corpo a mirrar.

Sabes que te farão mal, esses rapazes de pele e peito lisos, os olhos oblíquos de cobiçar as mesmas suaves arquitecturas da tua carne a que levanto altares com os meus? Dúvidas, por acaso, que vão forçar desajeitadamente a entrada em ti, inábeis máquinas poluidoras, belos e cruéis semi-deuses acéfalos, só para te deixarem cada vez mais vazia e apática ao longo dos anos? Que, depois, vão querer fazer-te filhos que te retalharão por dentro e por fora, tudo em nome da corrida desenfr…

Bons fígados

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Não saias de perto de mim nada tem a ver com as saias até ao joelho que usei quando estes ainda faziam sentido.
Da mesma forma que cedo mais e mais a cada volta de sessenta passos nada tem a ver com os dias em que acordava cedo para parecer senhora de mim mesma.
Por outro lado, sinto as minhas vontades distorcidas tem tudo a ver com o cinto que me prende a uma cadeira e quando digo cerrar os olhos tem tudo a ver com o desejo delicioso que tenho em serrar as carótidas.

Quer parecer-me que quando os pulmões são alimentados com o nosso próprio vómito, não há muito a teimar, nem tempo para isso. No início são eles que vomitam secreções inflamadas, no fim é a força diminuída que permite consumar a sensação de afogamento. Com tantos dias a enviar secreções purulentas para o estômago, um dia a retribuição acontece e os pulmões são nutridos com a carne mastigada pelas máquinas domésticas. Mas não é com isso que perco o interesse pela gastronomia e ainda me lambuzo com mais refeições, não muitas.…

Imaginar pensamentos que não param de pensar

Imaginava a volta da minha cabeça um enxame de abelhas zumbindo, voando, fazendo um barulho constante, ensurdecedor.
Fazia de conta que tentava, com as mãos, espantar essas bailarinas do ar e sentia as mãos serem ferozmente picadas cada vez que abanava para longe esses voadores barulhentos. Por mais que tenta se elas venciam sempre!

Assim era aquele pensamento, tão real tão presente aparecia na minha cabeça e ia se encadeando em outros que já estavam presos noutros e não tinha como segura-los com as mãos e deita-los fora. Eles iam e vinham independentemente da vontade. era livre e penetrava em brechas minúsculas na minha cabeça,tão forte e dominador a ponto de tirar o sono... ele chegava sentia o seu cheiro amargo... ficava ali tomava conta de mim as vezes era cruel bruto mordia cá dentro ate fazer sangue como se o alimento dele fosse ver me gritar de dor e prazer ao mesmo tempo... eu, ficava ali a espera que fosse ser diferente algo mais doce menos amargo...não era bem aquilo que eu qu…
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A história de Júlia (parte 1)

Júlia sempre foi uma menina bem comportada, certinha, pacata, boa aluna, com uma forte educação a todos os níveis.

Já tinha 15 anos quando se deixou beijar pela primeira vez, cheia de expectativas mas as línguas não se entenderam, apesar de ter ficado excitada, achou que não tinha o mínimo jeito e não deixou ninguém aproximar-se dela.

Mas o impulso, o desejo, tomaram conta da cabeça dela, sentia vontade de fazer sexo, de sentir alguém dentro dela, sonhava com isso, noite após noite, mas sentia vergonha.
A luta interior durou algum tempo até se entregar aos prazeres da masturbação.
Passava os seus dedos delicados e suaves sobre o seu corpo inexplorado, os mamilos, os mamilos cresciam e pareciam botões de rosa prontos para desabrochar, o clítoris esse crescia com a intensidade do toque delicado de quem não sabe bem como o fazer, mas que precisa de sentir e sentia.. se sentia! Sentia tanto prazer que se soltavam gemidos tímidos!

Foi-lhe incutida a ideia de que a …

NeoPornographia

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Todos olhamos quando ela passa Excitante, provocante, diabolicamente devassa Apertamos as coxas para disfarçar a excitação Mordemos os lábios, suspiramos em vão Mas ela está longe de nós
Noutro dia olhamos pela janela Miramos a doce e demente dança dela Metemos ao bolso a mão, para disfarçar A atenção inusitada que lhe estamos a dar Enquanto serpenteia longe de nós
Por vezes ao passar numa qualquer estrada a vemos E logo abrandamos, espreitamos e dizemos Que é uma desgraça, vergonha, uma tristeza E engolimos em seco a admirar a beleza Dela que se enrola com um que não nós
À noite na segurança da nossa cama Dizemos a mentira a quem mente que nos ama Que ela é a única, aquela, a verdadeira tal Mas longe o pensamento voa fatal Para aquela que se abre se deita longe de nós
E quando dispara o corpo corrupto Num esgar ou lamento profundo e poluto Morremos um pouco no corpo do amante Sentimo-nos perto mas com a alma distante Enleada em quem está longe de nós
Mas o dia chega e nunca se atrasa Ela vê-nos, sorri e nos …

La décaDANSE

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geme baixo. ela que aprendeu a controlar a respiração ao nível do inaudível, mesmo quando a excitação se acelera e exige gritos.

dança noutro corpo que a ampara nas quedas vertiginosas de sucessivos desmaios. homem firme de pele tisnada pelo sol do ano inteiro. jovem. tão jovem, apesar da espera cansada nas tardes (em) que se querem_______________ noites. com madrugadas tardias, para que os momentos perdurem.

olha-a com ternura e desejo que intensifica orgasmos. olha-a e possui-a mesmo com a boca que insiste em calar com beijos.

toques exploratórios________ de dedos_____________ de línguas______________ de pele com que se prendem em abraços.

numa dança de desejos sempre mais e cada vez mais exigentes. tinge-se de azul o olhar e o rosto infantil é carmim de surpresa em surpresa.

_______________e é quando o rubor sobe e o calor rebenta com as barreiras de suor. e escorre o néctar por entre as pernas que se roçam inquietas nas másculas mãos de mestre. dirá então: amor é também quando os flu…
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o desafio foi lançado e assim sendo aqui fica com este acompanhamento


O dia tinha feito jus aos avisos da meteorologia. Um calor seco que fazia colar a roupa ao corpo. A manhã estava a chegar ao fim e eu precisava urgentemente de um chuveiro de água fria a cair-me no corpo. Os clientes exteriores estavam todos visitados, somente faltava uma reunião que iria ocorrer no escritório ao fim das tarde. Teria mais que tempo de passar por casa, tomar um banho e dar um beijo na minha mulher.

Meia hora e estava em casa. Entrei. Ela, surpresa pela minha chegada, nem teve tempo de falar porque a arrastei para o quarto. Comecei a despir-me e ela continuava atónita a olhar para mim. Já nu puxei-a para mim e desfiz o laço que apertava roupão finíssimo que ela envergava.
O corpo dela resplandecia de beleza. Fomos tomar banho. Louco, respondeu ela de sorriso entreaberto.
A água fria caiu sobre os nossos corpos. Espalhei o gel no corpo dela e ela no meu corpo.
Terminado o banho decidi almoçar em casa. Ti…
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Era uma vez duas pessoas que desejaram escrever em conjunto. Do desejo à concretização foi uma passada rápida e assim nasceu este


Texto a duas mãos
Ontem procurei-te desesperadamente. Apesar de saber da tua ausência, revelei-me impotente para a aceitar. Bem lá no fundo acalentava a esperança de te encontrar deambulando pelos caminhos sinuosos da vida. Desejava tanto depositar um beijo nos teus lábios, pegar na tua mão e caminhar ao teu lado. Queria sentir o perfume que emana de ti, esse perfume de bosque, essa mistura de fragrâncias que me deixa louco de uma loucura sadia. O meu colo pedia que te sentasses. Queria estar perto das palavras que brotam de ti. Senti-las. Poder mesmo tocar o seu som... Tocar o som das palavras... Mas nem só o som, queria beber cada palavra, cada sílaba... nada se poderia perder. Quis encher o teu regaço de flores. Não rosas porque aqui, ao contrário de outros tempos, não há milagres, mas tão só tu própria. Pensei em flores campestres... Queria desesperadamente cor…

Desafio X-rated: textos para adultos

Desta vez o desafio é para maiores de 18.
A proposta é tomar de assalto os espaços mais velados da consciência, desgrilhoar o proibido, visitar instintos e fantasias e deixar o sangue fluir. Queremos medo, tentação, morte, violência, loucura, sexo, vício, caos, distopia….
Até à meia-noite do dia 5 de Novembro, dêem o vosso pior sob a forma de um belo texto associado a uma bela música que o ilustre ou complete.
Acham que já são suficientemente crescidos?


Não se esqueçam de colocar a etiqueta "X-rated : textos para adultos"

Olhos de água

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dispo-me para ti ao som dessa musica com que me tocas. dispo-me de preconceitos, trejeitos, dogmas. dispo-me numa sinfonia de roçar de tecido. algodão. seda. cetim. o pescoço inclinado ao teu beijo. as mãos prenhes de abraços. dispo-me de mim. a alma desnuda em carne viva. tocas-me a medo, no receio de me quebrares. ou ao encanto com que me entrego. nua. despida com ternura__________ de olhos rasos de água. quando as tuas mãos cheias de mais vintes anos que as minhas, me acautelam a queda. me seguram as vestes com que me despes. com o olhar e os meus gestos. lentos. depois lestos. dispo-me de mim, nesse quarto onde me abro à noite que te fecha sobre mim. no beijo que guardo nos lábios que foram só teus. dispo-me. e nua, atravesso o teu corpo num voo rasante à tua alma de poeta maldito, com que me fazes poema

Outono

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Norberto Lobo - Chuva Ácida


Todos os dias ao acordar, a ferrugem dos passos faz-me pensar na humidade que o meu caminho se tornou
Antes de abrir as portas da cave procura a percepção nos livros
e, no fim, deposita a memória no húmus da sua decomposição,
Esquiva, diáfana fantasia entre páginas incontadas.

Hoje, a seiva cria coágulos em todas as ramificações dos pensamentos
A agulha dos segundos cose-me aos batimentos fora de horas do coração,
Corta o teu olhar para o encontrar côncavo
e sorve o álcool antes do mosto dos teus olhos de uva,
Se a luz dourada se derrama em ti como chuva morna.

As tuas mãos enfolhadas de plátano estalam secas na minha face, cada vez que te olho
Permites que a folha caduca seja tua cama, minha sede, abrigo de prazer,
Um bacanal de viver sem outro Deus que a dança, o riso
E embebidos na luz ocre do Sol que por hoje se despede, embriagamo-nos de beijos.
Escondes-te na noite assombrada por murmúrios, amanheces na geada
– Uma moura sem encanto que passeia nua pelo lameiro –
Pin…

Insectos (parte IV de IV)

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Parte IV


Uma, e outra, e outra vez. Uma, e outra, e outra vez. Dou a volta à casa e procuro. Procuro quem me veja, quem me sinta, quem de mim sinta falta. Procuro não desesperar, mas desespero, falo comigo próprio e embrenho-me entre sombras, internas e externas, acabo por adormecer, talvez assim me liberte deste sono sem fim. Uma e outra vez penso em ti, penso em tanto que pensei em ti, penso e dói-me só de pensar na dor de tanto pensar. E pensar para quê? Afinal o que é que eu quero, quando já tenho tudo quanto alguma vez poderia querer. Se havia tão pouco que me fazia completo, agora que nada tenho, só poderei ser o ser mais completo ao cimo da terra, articulado comigo mesmo, sentiente de nada para além do débil limite do que me é permitido sentir, quase divino em matéria e forma, absolutamente extraordinário, sem nada, absolutamente nada de normal.

Uma e outra vez recordo, a falta de ter onde me agarrar, a quem me prender, afinal, todo o sonho era vazio e a ilusão a única coisa que…

Insectos (parte III de IV)

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Parte III



Olá, como te chamas? Eu sou a Joana, mas toda a gente me trata por Joaninha.

Parece que ainda a oiço… voz suave, ondulante como o vento nos seus cabelos, alegre como as manhãs mornas de Primavera, e perante mim a formosa criatura, filha das estrelas, das estrelas que brilhavam nos seus olhos verdes e suaves, como a sua voz, a ondular por entre a floresta de pensamentos que hirtos, mal reagiam ao tom morno da primaveril manhã em que a ouvi. E ainda oiço… por vezes.

Algo devo ter dito, não que tenha qualquer memória de ter dito nada, só olhado, contemplado, maravilhado, completamente enamorado. Mas entre o que não disse, terei certamente dito o que ela queria ouvir, porque dias depois ainda me olhava com os enormes olhos verdes, entre sussurros e sorrisos me enrolava à sua volta, e as palavras fluíam quietas entre os nós pequenos que nos uniam como uma teia apertada, nós que éramos dois mas seriamos um, apenas um nó, pequenino, na gigantesca teia do universo que prende as vítimas…