sexta-feira, 27 de abril de 2012

All is One




sobe o tom do meu grito ávido
 
das tuas formas que me completam o olhar
 
nesta noite em que me perco de encontro ao teu peito
 
onde me fazes barco em naufrágio de cinza dos teus cigarros apagados
 
como se as paredes de papel com que forras o nosso romance 

fossem vagas de lume possuídas por sonetos balbuciantes

os verbos que soletras

nos meus seios que te enchem as mãos

vazias das sombras

sempre que me afagas os lábios pintados de sémen

com que te beijo

o corpo cantante

tocante

alto e másculo

tantas vezes errante
 
no meu

que é memória

em decalque de orgasmos simultâneos.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

AMOR VERDADEIRO

Um mês antes de te ter
E de repente já nada é suficiente, interessante ou chamativo. Tudo tão pouco, comparado contigo e o teu sorriso. Queria estar perto de ti. Abraçar-te, cheirar o teu corpo, olhar o teu olhar vítreo, beijar-te. E já nada interessa. Só tu. Será amor? Penso em nós quando acordo, acompanhas-me todo o dia, contenho-me para não te chamar. Não me custa. É doce e manso e calmo, sei que vou fazer a viagem para te ver, talvez amanhã, ou noutro dia qualquer em breve. Será que é isto a paixão a despontar novamente? Quero que sim. Que sintas o mesmo! Preciso de to dizer, mas não posso ainda. Nem nos conhecemos. Tenho de dosear a expectativa e a emoção, adiar o inevitável, ir dando aos poucos, sem pressas de transbordar. Mas ai! Esta barragem está cheia, não posso dar-te toda a água, não te posso afogar nem ao nosso amor menino, e ainda recém-nascido, verde e vermelho…podia telefonar-te, para ouvires a minha voz, mas não sei que te dizer. Que te queria abraçar e beijar? Só isto? Não. Há tanto que te tenho em mente…ainda é cedo. Será? O teu passado é um deserto sanguíneo que me assusta, cheio de areias movediças. E eu tenho tanto líquido. Penso que preciso de ti para me tornar mais sólida. Precisarás de mim para encharcar o teu seco sofrimento com alguma centelha de vida? Tanto para partilhar. Contigo? Sim. Queria.

Uma semana depois de te ter visto
Tenho saudades dos teus olhos de camaleão, de que ainda não sei a cor…será que um dia saberemos os dois o que é o amor? Os dois?! Juntos? Na minha pele imperfeita e nas tuas rugas de expressão seremos os mais belos um para o outro? Será tudo tão bom como no início, e muito melhor do que ao princípio? Naturalmente não vieste como sonhei; és tão diferente. Mas tão próximo de tudo o que poderias ter sido e sempre quis, e nunca conheci, e nunca vivi, e hoje és tu que me inundas o pensamento, e um dia vai ser tão difícil, impossível conter o que sinto, e receio que novamente o diga antes de tempo, que novamente o diga só por querer senti-lo. E que ainda não sejas tu…o meu barco, meu homem. E tu tens também de te conter, não te podes agarrar demais a mim, sou perigosa, posso apaixonar-me com tal intensidade que te inundo, e depois largar-te de repente quando a paixão se diluir e já nada em nós ser fluido... Não te quero magoar, nem te deixar rejeitado, só e desamparado novamente (não podes voltar a sentir isso!), fazer nada que te arraste para um turbilhão de voltares atrás e recaíres no que te faz mal. Não podes voltar a comer dessa carne. Sei que comias frequentemente as vísceras de outras mulheres e até de alguns homens. Mas olho para ti, tão sossegado e sei que não me vais devorar o coração. Somos filhos da mesma pátria, irmãos de guerra. E tu és assim tão sensível, e eu não te quero magoar. Ainda não sei nada do nosso amor. Nada que já não saibamos não ser possível saber ainda.

Uma noite depois de te ter trazido para casa
Assim que vi a tua foto naquele jornal velho em cima da mesa da pastelaria, sabia que serias meu. Os teus dentes de marfim, a tua pele escamosa, o teu ar silencioso e profundo ficam tão bem com a cor arroxeada do meu lençol. Agora fica imóvel e em paz ai deitadinho, eu volto já, vou só ali trabalhar um pouco (tenho de pagar as tuas prestações; não me saíste nada barato. Quem te possuíu anteriormente não te tratou lá muito bem, maldito caçador de troféus africanos, vieste cheio de pó e teias de aranha e com as unhas carcomidas, mas no preço que pediu por ti não foi nada manso!). Está uma noite boa, sem vento, os habituais esperam-me e pode ser que hoje o negócio corra bem. Como ontem não fui e fiquei contigo, hoje devo chegar mais tarde, mas sabes que lá pela manhã voltarei para o nosso cantinho e serei toda tua novamente. Não me posso esquecer de te trazer um creme para a pele, está tão seca, tenho de te cuidar bem amor. Ai como vai ser bom dormir abraçada a ti novamente, apaixonarmo-nos de verdade e sermos felizes para sempre! Temos a vida toda. Agora sei que nada nem ninguém poderá beliscar o que nós temos, que é tão especial.
Só pode ser amor verdadeiro.

- Pintou os lábios de vermelho berrante, ajeitou a saia justa moldada aos quadris ainda rijos e dourada como o sol do seu país longínquo, calçou as botas pretas de cano alto, viu-se ao espelho rapidamente, colocou a peruca loura apreciando o contraste com a sua pele de chocolate, sobre o corpo magro pôs o casaco verde comprado na loja do chinês, deu-lhe um beijo na testa e saiu do quarto apressada.
Na mala amarela, também comprada no chinês, como sempre desde que o lera pela primeira vez, levou na bolsinha interior ao lado do telemóvel topo de gama da candonga, o bendito anúncio, mais valioso que um bilhete de lotaria premiado, agora devidamente plastificado ao estilo BI antigo, que dizia:
Crocodilo embalsamado. Impecável estado para colocar em cima do móvel ou no
chão. Tel: ….


Uma hora depois de ter saído à rua
O réptil permaneceu quieto no seu esgar, sorrindo satisfeito, aconchegado
na cama de casal, tapado com a manta de lã cor-de-rosa, tricotada à mão pela
sua nova dona durante a solidão das tardes frias de Inverno antes de sair para
a vida.


(Depois de tanto sangue e de um longo abandono ao esquecimento, como é bom ser o escolhido de uma p*** com sentimentos).

MM’ 12 Abril de 2012


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Tenta contar até 3…



Parte I – A espuma negra

- Calma, respira fundo. Afinal de contas, o que é que te preocupa tanto?-

O meu homem esconde-se entre a espuma dos seus pensamentos, que o afogam até aos dias do desperdício. De tempo, de vida, de fome. Persegue a sua própria sombra com os olhos rasgados pelo medo de nada encontrar do outro lado. Toca na sua língua e corta-se nas palavras afiadas que esta guarda para certas ocasiões sociais, quando leva a bílis a passear ou se enrola nos bigodes veteranos da ventania de outono, rumo a sul. Até que se embala na arrepiante luz da manhã que antecede a longa noite de pesar…



Parte II – Nas minhas veias o teu sangue

…se disfarçares ninguém repara, acredita. Porque mesmo as pessoas que notam o óbvio deixam que o óbvio se omita por entre as frestas sombrias dos seus medos e inseguranças. Ah, se te julgas impotente para o fazer, que dirão os milhares, milhões até que o fizeram antes de ti? Navegam cegos entre miasmas e rezas a santos ausentes. Repara, observa bem, espreita pela fechadura das suas mentes, penetra nos nós pequeninos que lhes enrolam o dizer, fazer de morto, viver em vão, entre o vão das ondas e o ir, fugir, reluzir como uma estrela longínqua, tão fria que se envolve em léguas de nada.

- eu sei que não presto, sei que não presto, sei. Não presto agora que me consumo entre memórias que não quero voltar a viver. Não quero voltar a viver se tu não viveres, se tu não andares por entre as minhas memórias que explodem como minas sob os teus frágeis pés de seda. Eu queria ter o meu sangue dentro do teu coração, a latejar na veia proeminente da minha testa, que eu esfrego nervosamente enquanto penso em ti. Agora, nem sei se há um ‘ti’ para pensar, pobre de mim.-



Parte III - Sem ti, nada

Cancelei as minhas dívidas e é a minha voz que levanto. Primeiro, em tom baixo e fúnebre e com a chegada da última hora da madrugada, mais viva e loquaz. Quero despedir-me deste poente que me roubava a estrela da manhã, por entre dedos de vidro fosco por onde tu, por vezes em dias de chuva quente, ainda espreitarás. Pego no carvão e faço um último esquisso na parede da tua mente. Parece que me recorda de ti, das canções feitas de pétalas e do que dizias ser parecido com o meu olhar distraído e melancólico. Encerro este capítulo de forma épica e diagonal, sem que possam um dia unir os pontos da discórdia por tanto concordarem que tive o que merecia. Hoje, seca pele de réptil, abandono-te na maré pestilenta dos amores imperfeitos e peço-te, vai para longe e abandona-me de dentro de ti. E que quem te descubra abrace esta maldição como tua e a perpetue assíncrona e harmoniosa, como o renascer doentio do sol vermelho escondido atrás das saias da última madrugada.

- arrumo a alma num pequeno pacote, dela não sentirei falta, é funesta e faminta, arrasta para dentro de si o sopro do primeiro demónio que se fez inquilino no Eliseu e zombou de Deus. Há tantos anos que esperava por este momento, oh doce morte em vida, te abraço em serena plenitude. Antes vazio como a lua nova do que de ti prenhe e escravo. Agarro-me à lâmina quente que soltará as amarras deste vício sujo que é dar-te de comer. Solto uma última lágrima falsa e estendo-me no chão a escrevinhar no portátil. Diverte-me o piscar do cursor, faz-me lembrar as dores pulsantes de quando me ocupavas e violavas sem piedade. Crocodilo embalsamado. Impecável estado para colocar em cima do móvel ou no chão. Envio o email para o jornal e agarro-me ao telefone. Alguém ficará feliz com a oferta. Alguém me fará feliz por me amar sem nada me dizer. Alguém assentará num papel arrancado oportunamente de um pequeno bloco a morada. Alguém me virá buscar, cadáver. Nota mental: deixar a porta entreaberta antes de contar até 3…-

segunda-feira, 2 de abril de 2012

... de água salgada




Lá está ele a vestir o fato bom e a escovar o chapéu. Vai outra vez ao jornal colocar o anúncio, o mesmo de sempre. Como se alguém quisesse comprar um crocodilo empalhado de quatro metros para pousar em cima de um móvel. Acho até que já não se fabricam móveis com quatro metros. Nunca se livrará de mim.


Já tivemos algumas visitas, é certo. Um artista algo bizarro que queria fazer uma escultura com  bocados de animais embalsamados e outros em putrefacção, uma senhora com tesouras em vez de olhos que me transformou em carteiras e botas com uma só mirada e um doutor qualquer de um museu qualquer que tentou ensinar-nos todas as estatísticas que lhe enfiaram na cabeça sobre répteis. Acabaram todos corridos de forma deselegante, principalmente o último quando quis explicar-lhe os quilopascais de uma dentada de crocodilo.


Como se ele não soubesse. Como se os meus dentes, “cujo número varia entre os sessenta e quatro e os sessenta e oito”, não lhe tivessem arrancado metade da perna.


Foi noutro tempo, nos antípodas desta velha casa cheia de aranhas e conservada pelo cheiro do formol. Só existia o meu estuário aberto até que o puxão de uma armadilha e bolas de fogo vindas de lado nenhum rasgaram-me escamas, pele, carne e vida. Tal como acontece com vocês humanos, a hipoxia não perdoou e lá segui o túnel de luz no final do qual estava o tal membro que abocanhei num último pulsar de sangue. A perna de um rapazola imberbe e apavorado que acompanhava um pai determinado em fazer dele um macho a sério. Foi instinto, nem sequer gosto de carne humana. Recordo-me apenas de um ou outro turista estúpido ou fotógrafo intrépido.


Logo na hora o pai decidiu que eu deveria ser embalsamado. Se o miúdo não ia prestar para muita coisa, ao menos que tivesse uma boa história para contar e um troféu para exibir juntamente com o pedaço de coxa. E assim foi. É lógico que começou por ser um acidente de caça e acabou numa luta corpo a corpo nas profundezas salobras do rio mas quem conta um conto tem o direito universalmente consagrado de acrescentar um ponto…. ou uma recta, neste caso.


A nossa história real não tem sido feliz. De regresso ao país natal, a sua obsessão com aquela fracção de segundo e com os crocodilos foi aumentando à medida que a sua sanidade mental diminuía. Tornou-se, obviamente, taxidermista. Começou por estudar o réptil, decidiu coleccionar mandíbulas e passou anos agarrado às escrituras e ao Leviatã. Depois convenceu-se que ganhara um novo sentido, uma espécie de fúria devoradora, e deixou de cozinhar a carne. De seguida veio a fase em que se pintava de branco, subia para o meu dorso e julgava-se a comandar uma legião de demónios. Colava-se à janela e fazia todo um ritual de gestos com os quais impedia o mundo de avançar, mantendo as pessoas a correr no mesmo lugar. Convenceu-se de que não poderia ter mulher e filhos porque se o fizesse a criança teria garras e rasgaria a mãe para nascer. Passou por diversos momentos complicados que culminaram no emprego no hospital e no compartimento secreto cheio de pernas embalsamadas. E então, de um dia para o outro, deixou tudo de lado.


O tempo foi passando e o pobre rapaz desaguou num homem precocemente velho e meio louco. Ultimamente anda com mais pressa de vender-me. Tal como eu, ele tem visto por aí a dama da morte. Ela derrama a sua sombra na cadeira junto à porta, ele puxa um banco, vai buscar a espingarda do pai e ficam para ali os dois horas a fio a olhar-se nas covas dos olhos.


Agora ele acha que eu sou Osíris e que quando deixar o mundo serei eu a pesar-lhe o coração. Não sei se serei. Também não sei se ele fez muitas coisas erradas ou se carrega grandes culpas. Decidi que direi que é leve mesmo que não consiga levantá-lo do chão. É que se for pesado terei de o engolir e não posso fazer isso. Roubei-lhe parte do corpo e toda a sua mente, nunca poderia tirar-lhe também o coração. Dizem que a fome dos crocodilos só é suplantada pela da noite que devora o dia… mas até nós temos limites.


Na realidade, seria como comer o meu próprio coração. Com o tempo a água salgada das suas veias e o pó das minhas, abandonadas no outro lado do mundo, tornaram-se uma só lama.