segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Fonte


 Corre a água pela Fonte,
Barulhando perto ao longe,
Triste e pálido mato meio sem Graça.

Sequiosa, a boca, comanda-se emudecida
Pelo calor da fachada
Que esconde o estro ingénito
Que acende e apaga a luz do meu ser.

Temos todas as razões para viver,
Mas falta-nos sempre uma razão para reparar o mundo.
Porque o mundo é ingente e pequeno,
Vê-se sempre perto de longe.

Brotam-se ideias e pensamentos,
Mas é certo que nunca se exuma como deve ser.
(Estará o solo insalubre?)

A água, pura, esvai-se
Pelo desejo ávido
Que mescla cada pedaço de mim.

Já nem me acho,
Deslustradas, as fotos
Que me pediram.
(Pena, os traços do rosto que se espelham na água)

O gesto inócuo nunca me há-de dar a conhecer o incognoscível.

Fosse, talvez, o mundo feito de insipidez
E fossem os dias resumidos a flores, sol e Primavera.
Fosse eu a tua sede e água da Fonte a tua boca,
Porque assim, num gesto vão, estaríamos conchavados.

O (nosso) mundo não é a fachada que pintamos.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Através de ti (Parte III de III)

Parte III – Leite com mel e hortelã

 



- Olá, posso oferecer-lhe uma pastilha? São de lima-limão, as minhas favoritas.

Num ligeiro sobressalto, Elianor vira-se para a sua esquerda e dá de caras com o jovem simpático que partilha consigo a paragem de autocarro juntamente com duas mulheres de meia-idade que tagarelavam incessantemente. Ele sorri e aponta-lhe a caixa de pastilhas enquanto acena gentilmente com a cabeça. Elianor tenta sorrir de volta mas não consegue. Não faz mal, os seus olhos sorriram por ela.

- Vá, não se assuste, é só uma pastilha para ajudar a passar o tempo de espera. Já agora, posso sentar-me ao seu lado?

- Sim, claro, é um espaço público… -

Chega-se para a ponta e olha para as senhoras que matraqueiam alegremente como se estivessem completamente sós. Seria de esperar que, dado o sobrepeso e as varizes, fossem elas as detentoras do direito ao assento, mas não, pareciam duas adolescentes histéricas à porta de um concerto, até soltavam risos e um ou outro gritinho.

- Sabe, vejo-a muitas vezes por aqui, mas ainda não tinha conseguido meter conversa consigo… parece-me tão reservada, distante. Aposto que nunca deu por mim!

E não, Elianor nunca tinha dado por ele. Estranho, um jovem muito bem parecido, vinte e poucos, alto, atlético, face limpa e perfumada, olhar penetrante e galanteador. Nunca o tinha visto mas ele dizia que a conhecia. Elianor vacilava entre o receio e alguma irritação, afinal de contas, sentia-se observada para além dos seus desejos. Bem, se calhar não estava a considerar todos os tipos de desejos.

- Olhe, fique sabendo que não sou de grandes conversas e não tenho a certeza de onde quer chegar por isso fiquemos pelo bom-dia-como-vai cordial e guarde as suas pastilhas.

-oh, lamento se a incomodei, não era minha intenção. As minhas sinceras desculpas e não me leve a mal, não me pode censurar por tentar meter conversa com uma jovem linda e encantadora.

- vá, deixe-se de coisas, também não é nenhum drama… afinal de contas você parece-me simpático, mas eu não gosto de lima-limão, percebe, não é o meu estilo.

- ah, entendo. Posso tentar novamente amanhã? O que prefere, caramelo? Mentol? Vê, afinal também sabe sorrir…!

E sorria, abanava a cabeça como quem tenta negar as evidências esmagadoras e inconvenientes.

O autocarro chegou e lá foram os dois. Possivelmente partilharam um banco, pastilhas e algo mais. É assim que nascem as coisas boas da vida, de forma espontânea e discreta, até se tornarem exuberantes e…

- Oh, Oh menina, não é assim que me lembro dessa história!!




Elianor, sentada à mesa, bebe o seu leite com mel e hortelã, mergulha um biscoito seco.

- Mas era assim que deveria ter sido… era assim que deveria ter sido…

- Chamas-me monstro Elianor, perverso e bruto. Sim, a mim não mentes, como poderias tu fazê-lo? Somos um, nasci contigo e de ti me alimento. E tu de mim, não é meu anjo? Então não nos queres lembrar como foi? Tu até tens jeito para contar histórias, estavas a ir tão bem. Vá, tenta lá outra vez. Estava um idiota a fazer-se a ti na paragem de autocarro, deste-lhe para trás e ele ficou todo contente, andaste nisto quê… seis, sete dias? Não contando com o fim de semana, é claro!

Elianor levanta-se, dirige-se até à janela virada para este e contempla a noite que reina sobre as almas até ao resgate da luz solar. Suspira e massaja o pescoço com a mão esquerda enquanto sobe a caneca até aos lábios para mais dois goles.

- E depois, como foi? Começaram a combinar encontros, primeiro, um café de misericórdia, certo? É Assim que funciona o jogo da sedução, um café, um jantar, um cinema e um dia, um convite. Não queres entrar para tomar um leite com mel e hortelã?

Elianor, vira-se, pousa a caneca na mesa e dirige-se ao espelho da casa de banho. Olha-se longamente e decide lavar o rosto. Vai até ao quarto e pega no seu pequeno frasco de perfume. Põe gentilmente uma gota atrás de cada orelha, como fazem as senhoras de bem.

- Ah,  esse teu perfume deixa-me louco. Já só restam algumas gotas, incrível como o tempo passa… parece que foi ontem que começámos este nosso ritual. O que eu sofri para te ensinar rapariga, o que tu choraste, gritaste, até tentaste fugir… de mim? Não minha querida, eu não me posso separar de ti, nem que muito quisesse, pois tu nunca me deixarás. Tu e eu, certo? Tu e eu…



O rapaz estava deitado na sua cama, adormecido, cansado de fazer amor com aquela bela, frágil e suave criatura.

Elianor fecha os olhos, inclina a cabeça para trás e estremece profundamente.

- Obrigado, minha querida, eu agora tomo conta do recado. Tu já estás satisfeita, agora é a minha vez. Através de ti me sacio, vivo e respiro. Obrigado, minha querida, por me teres trazido mais um presente.



Na manhã seguinte, Elianor apanha o autocarro. Hoje segue só.