quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Jantar



Isto sabe-me tão bem como sal nas aftas.

Andava o cloreto de sódio preso na toalha da mesa.

E depois soube que tinhas trauteado músicas com a cabeça dos dedos nessa toalha. E pronto, isso bastou para cair de lábios nesse lugar. Era só um beijo, o mais próximo de ti que se conseguia. Mas ardia muito. De lacrimejar.

Varri com a mão as migalhas do pão mais aquelas que se colaram à toalha e que por isso deixaram nódoas. Segui com o dedo a marca redonda do copo tinto. Sei que brincaste nervosamente com a ponta do guardanapo e por isso fiz dele bolo alimentar só para saber o paladar da tua inquietação. Era descartável.

Raspei o prato onde comeste para dentro do meu e os restos prenderam-se nos dentes do garfo. O som dele a bater no prato era como se num casamento pedissem pelo nosso beijo. Outro.

Lavei à mão, com espuma de limonada entre os dedos de cada vez que os apertava para reanimar a esponja.

Não varri o chão. Não tenho atenção suficiente para desfazer as tuas pegadas debaixo da mesa, da cadeira. Aquilo que me garante que o teu peso em sola esteve ali. Quero deitar-me e pensar à noite que irei tomar o pequeno-almoço na marca dos teus pés. No colo delas.

Nessa manhã, já com a loiça seca no escorredor, sem a tua saliva (ou resto dela) passei o dedo com força no teu prato e obriguei-o a cantar tudo aquilo que as tuas garfadas lá deixaram. Senti-me tão má, tão de ânimo tremido. Débil.

Depois. A faca da manteiga arranca bem as vistas. Escrevi o amo-te na manteiga e raspei por cima para comer-te em torradas. 

Quanto aos vestígios oculares e porque aqui tinha de terminar de forma não original, fui buscar a esfregona e numa banda sonora digna de Hitchcock vi todos os meus devaneios a cair entre o espremedor. Bateram todos no fundo do balde.