terça-feira, 4 de junho de 2013

Pobre Edward O. (versão integral)

... no meio da travessia do deserto, donde pouco ou nada brota por estes dias, revisito um dos contos que mais prazer me deu escrever, agora em versão integral. 3-em-1, não é uma promoção maravilhosa? 

from the heart,
D.Ü.





Pobre Edward O.



(Parte I de III)


Parte I: Edward O.

Edward O. 39 anos.
Vive sozinho num apartamento exíguo alugado na parte mais sombria da cidade. Conhece a senhoria, uma velha senhora que mimetiza a simpática avozinha que nos presenteia com histórias de tamanho infindável acerca de pessoas que ela conhecera e que já há muito são pasto para vermes, algures por entre mármore e ciprestes, haja paciência para a aturar…

Da sua janela vê um muro de alvenaria, antigo e decadente, como a sua alma. Edward O. tem uma vida discreta, da sua habitação para o escritório de contabilidade onde assenta meticulosamente as entradas e saídas de materiais e dinheiros da mais afamada sapataria da cidade. Edward O. regista tudo, meticulosamente, grava a azul metileno o papel amarelecido pelo tempo, velho e gasto, como a sua alma. Bem, quase tudo. Edward O. recusa-se a registar a entrada e saída de acompanhantes que satisfazem o vício do patrão. Não, estas despesas não são declaráveis para fins fiscais, oh não. Além de que a mulher do patrão o matava, sim a ele. Ela acredita que o seu homem é um santo e vê Edward O. como um verme, pequeno e mesquinho, que se alimenta dos detritos rejeitados pelo seu excelso marido.

Edward O. nada tem para contar, a vida escapou-lhe por entre os dedos, secos e ásperos, como a sua alma. Mas Edward O. hoje teve um sonho…



Pobre Edward O. (Parte II de III) 


Parte II: O Anjo Negro

Cena 1: Crepúsculo

A tarde ia avançada e Hélios beijava a linha do horizonte pela última vez, era chegada a hora de Silene se erguer sob os mortais que dentro de algumas horas se iriam recolher nos braços de Morfeu. Mas Hades espreitava, ansioso e faminto… A hora da ilusão descia sobre nós…


Cena 2: (Não-)existência

O caminho é rigorosamente sempre o mesmo: das traseiras para a ruela, da ruela para a avenida, da avenida para o beco. Mão no bolso. Chave à porta. Átrio, escadas, nova porta. Nova chave. Casa.

Despido o sobretudo e pousado o chapéu, encaminha-se para a bacia e lava as mãos e o rosto. Aquece um pouco de água para o chá e passa a manteiga no pouco de pão que ainda lhe resta da manhã. Sentado no cadeirão, lê mais alguns capítulos d’Os Irmãos Karamazov de Dostoievsky: "Com a força que sinto em mim, creio-me capaz de suportar todos os sofrimentos, contanto que me possa dizer a cada instante: "Eu existo". Entre tormentos, crispado pela tortura, mas existo! Exposto ao pelourinho, eu existo apesar de tudo, vejo o sol e, se não o vejo, sei que está lá. E saber isso já é toda a vida."

Pousados os óculos e exalado um profundo suspiro de consternação, Edward O. decide tomar a noite como berço e aninhar-se entre memórias, escurecidas e gastas, como sua alma. E era a sua alma que mais o fazia temer por tudo o que havia sido, mas mais, muito mais, pelo que não havia sido. Em breves instantes viria o abismo, a profundeza do esquecimento, o sono que tolhe o juízo do inquiridor. Dorme pobre Edward, que a noite escura te ilumine…

Edward O. Só consigo mesmo e os seus sonhos. Só entre as muralhas do infinito e perante Deus. Só. Mas por pouco tempo, pois esta noite, Edward O. era visitado por um Anjo Negro errante…


Cena 3: Mensagem


“Não te movas Caminhante. Não ouses saber quem sou nem porque te visito. Deixa fluir a narcolepsia que te enrola o sentir, pois nada há para sentir nas minhas palavras, apenas a mensagem interessa.”

Edward O. era uma erva sacudida pelo vento da tempestade, mantinha-se agarrado a si mesmo, mas ciente de que nada era perante tal força imensa.

“Em três dias a tua vida termina. Despirás tuas vestes e seguirás viagem na escura estrada. Oh pobre Edward, aproveita, aproveita bem estes 3 dias, pois são os teus derradeiros momentos na Terra.”

Edward O. não estava só consigo mesmo e os seus sonhos. Perante ele, abrira-se uma brecha nas muralhas do infinito e Deus era o farol que incendiava a noite com rasgos de âmbar e carmim. Logo a ele, a quem a vida escapara por entre os dedos, secos e ásperos, como a sua alma, fora desvelado o Apocalipse, os dias do fim…

A hora antes da aurora foi tão extensa como as histórias que a sua senhoria lhe contava, sempre que o apanhava a entrar ou a sair de casa. Mas valeu-lhe sentir na baça retina o primeiro brilho do dealbar. E à medida que o fulgor aumentava, renascia algo em Edward O. Algo vibrante e inquieto. Era vida, vida que lhe escapava e agora pulsava forte…


Cena 4: Os dias do fim

Dia 1.

Edward O. regista tudo, meticulosamente, grava a azul metileno o papel amarelecido pelo tempo, velho e gasto, como a rotina que ainda o prende.

Regista tudo, a entrada e saída da menina do dia, que vem alegrar a manhã do patrão. Aponta a despesa no seu livro sob o tema ‘Outros Serviços – solicitação de prostitutas’. Pousa o seu livro e redige a sua carta de demissão. Cerra-a num envelope cinza claro e dirige-se até à secretária do patrão. Pousa o envelope sem dizer uma única palavra ao chefe que, ainda a apertar o cinto, se sobressalta com a sua presença, enquanto tenta disfarçar ao dizer para a jovem que o acompanhava “As botas de veludo estão muito na moda este ano, a senhora vai-se sentir magnífica com elas”. A jovem desfazia um pequeno riso enquanto olhava parva para Edward O. Este sorriu de volta para ela. Curioso, Edward O. estava certo de que haveriam passado anos a fio desde que sorrira pela última vez…

Confiante e altivo, segue porta fora, passa pelo salão da sapataria, cumprimenta os clientes e empregados uma última vez, com uma vénia ligeira e um ‘até sempre meus caros’. Caminha com a aura excelsa de quem se despediu de um verme pequeno e mesquinho. Ao sair esbarra-se com a mulher do Patrão. Pede-lhe perdão. Primeiro pelo encontrão. Depois, pelos anos de ocultação e vergonha a que se submeteu. Atónita, esta deixa cair o seu caniche de colo e, mais violentamente, a si mesma, esparramada na carpete de feltro da sapataria que erguera como altar a seu divino esposo.

Edward O. 39 anos. Desempregado. Vive o seu primeiro dia na cidade, debaixo do Sol. Livre do cheiro a papel amarelecido pelo tempo e do travo a azul metileno. Azul agora, só o do céu que o cobria.




Dia 2.

O tempo voa e com ele levanta as folhas das árvores e a poeira dos anos perdidos. A água que agora te molha não é para beber, são as lágrimas que nunca derramaste, a saliva dos beijos que ficaram presos nos teus lábios, o suor de um dia de Verão passado no campo a apascentar ovelhas, a chuva que te haveria de molhar, enquanto rodopiavas a mulher dos teus sonhos, agarrada a teus braços, a suspirar por ti, enquanto carregava teu fruto em seu ventre.

Hoje vais observar as crianças no jardim, puras e doces como as camomilas que perfumam o ar. Tu és uma delas, estás mesmo ali, de mão dada ao mais pequeno, para o ajudar a subir ao banco de pedra, a gritar que te passem a bola para marcares golo, a ver no carreiro as formigas a carregarem sementes com cinco vezes o seu tamanho, a sujares os calções de lama sem te lembrares do ralhete que irás receber ao chegar a casa…

Irás dormir exausto de tanta excitação e brincadeira. E este será o dia mais feliz da tua vida.



Dia 3.

Edward O. acorda pouco após o nascer do Sol, mas hoje, não tem pressa que o dia comece, pois quanto mais depressa o inicie, mas depressa se encaminha para o seu fim…

Quando finalmente se resigna e se apronta para abandonar o leito, sente no coração uma pontada de dor forte, como se fosse o gume de uma faca a penetrar lento em seu peito. É a ansiedade que se apodera de ti, oh pobre Edward O.

Vestiu o seu melhor fato, a mais cara gravata italiana de seda e o par de sapatos de couro de búfalo que estava a guardar para o seu próprio funeral. Hoje parecia-lhe ser o dia indicado para os usar. Colocou o seu chapéu e pegou no sobretudo. Deixou as chaves em cima do aparador da entrada. Saiu e fechou a porta, sem olhar para trás.

Ao passar pelo átrio encontrou a senhoria, mas antes que esta pudesse abrir a boca para falar, Edward O. espetou a sua mão aberta em frente dela e disse com calma e suavidade: “Minha cara senhora, deixo-lhe o meu profundo agradecimento pelos anos à sua guarda, mas hoje saio desta porta pela última vez, para não mais voltar. Por favor, trate de que venha alguém mais sorridente e falador para ocupar o lugar triste e oco que ora abandono. Bem-haja, cara senhora, bem-haja.” E saiu pela porta da rua, passando pelo beco em direcção à avenida.

Edward O. passou o dia a caminhar pela cidade, até sair para além dela, caminhou até sentir a lama a cobrir os seus sapatos de pele de Búfalo, foi andando e largou a gravata de seda sob as roseiras bravas e ofereceu o sobretudo a uma velha árvore decadente que parecia gritar por um final aconchego.

Agora estava perante o grande rio, largo e grandioso. Aproximou-se das margens saibrosas e fez planar sobre as águas turvas um par de seixos mais aplastados, tendo o mais ligeiro saltitado quase até à outra margem, do outro lado, para além do seu conhecimento.

O dia chegava ao fim e no peito de Edward O. restava agora a sensação de plenitude e autoconhecimento. Ele soubera finalmente quem era, o que poderia ter sido e o que decidira ser. No que se tornara. Edward O. via-se a si mesmo reflectido nas águas paradas do rio e nada mais lhe trazia angústia ou arrependimento. Aceitara o seu destino.

O Sol cumpria mais uma jornada e puxava agora atrás de si o manto de trevas estreladas que para alguns seria apenas mais uma noite. Em 5 segundos estava terminado o terceiro dia que o Anjo anunciara.

5… 4…
Edward O. suspira de alívio e sorri. Está pronto.

3… 2…
Nada teme. Abraça a morte com a entrega de quem reconhece a própria Mãe.

A última luz que brilha no seu olhar é profunda e infinita. Como a sua alma.


Pobre Edward O. (Parte III de III)
Parte III: A Cidade Esfomeada

Cena 1. Onde estás Edward O.?

Dia após dia após dia. Edward O. acordava cansado de vazio, podia confirmá-lo sempre que olhava ao espelho. Nada olhava de volta, a não ser um profundo e negro buraco, onde um dia esteve sua alma. Não havia surpresas, excitação ou alegria. Edward O. era um escravo da rotina, retido dentro de si mesmo, esquecido do ser que um dia nasceu de sua mãe, esquecido pelo mundo, perdido dentro de pesados maços de livros e processos. 

Onde estás tu, Edward, onde te escondeste? Ainda te posso ver ai, por de trás esse baço olhar, escondido pelos milhares de anos que te pesam nesses ombros descaídos, com as palavras presas nos lábios hirtos de pesar, agarrado a nada, esse nada que te enche o peito e te sufoca, dia após dia após dia.


Cena 2. A mancha de tinta

“Rapaz, tens aqui as facturas e os balancetes do primeiro trimestre. Confirma tudo, eu vou ali receber uma sobrinha que veio de fora, não quero ser interrompido, compreendes?”

Lá dentro, no salão, uma mãe trás o seu menino, talvez com 6 ou 7 anos, para comprar uns sapatos de cerimónia. Ela é austera como o seu negro traje de viúva, rígida como uma raiz de cerejeira, de olhar furtivo e aterrador. 
Segue com impaciência os movimentos do petiz, o seu braço tenso como uma mola, pronto a disparar um tabefe à primeira desculpa. Eis que surge o primeiro, mal o infeliz gaiato ousa coçar o nariz… Este não chora, grita ou sequer soluça. Apenas se encolhe e olha para o chão. Olha para os seus pés e suspira. 

Edward O. vê tudo, regista cada momento daquele triste quadro, toma nota, em sua mente, grava-o a ferro e compara. Compara com a memória da sua infância. Com a memória de sua mãe, austera como o seu negro traje de viúva, rígida como uma raiz de cerejeira e tão afável como um violento incêndio de Agosto. Será que o menino pelo menos conheceu o pai? Ou terá este também morrido na guerra, lá longe, para além do mar, demasiado longe para cantar baixinho e adormecer o bebé, aninhado em seu berço, a criar sonhos e memória frágeis e assustadas. 
Está frio, tanto frio… Será que o menino sabe que a sua mãe também tem frio, sozinha no seu espartano leito, sem o calor de seu homem, levado para longe em nome da pátria, muito para além da desolação e dor que esmaga este coração de mãe e o deixa seco e atrofiado, como sua alma. 

Não, o menino ainda não sabe o que lhe falta, ainda é feliz, pois acaba de esboçar um sorriso para sua mãe que por um fugaz momento, quase sorriu de volta. Quase. Edward O. franze a testa e tenta recordar-se da última vez que sorrira, mas é em vão…

Volta à sua secretária, ainda meio absorto pelo constrangedor episódio. A distracção leva-o a derrubar um tinteiro e a espalhar uma pequena mancha de azul metileno sobre o papel amarelecido. Num gesto rápido e quase atlético, consegue apanhar o tinteiro antes que haja mais estrago. Senta-se e retira os óculos para esfregar os olhos. Ainda meio atarantado, olha para a mancha, que alastra devagar. Retrai-se na cadeira e tenta focar a visão, abrindo com força os olhos e piscando vigorosamente. Quase diria que a mancha tenta mover-se na sua direcção, se aproxima para lhe dizer algo, para lhe sussurrar um segredo incontável. Parece até mudar de cor, tornando-se espessa e negra, com um formato cada vez mais improvável, parece quase… um anjo!

A tarde termina abrupta e veloz, o Sol aproxima-se do horizonte e é chegada a hora de ir para casa. Não há qualquer ilusão, apenas o peso de mais um dia que se aproxima do seu fim…


Cena 3. O Rio

A violência da cidade encandeia-nos, com gritos de âmbar e carmim, rasga por entre as muralhas do exílio que nos auto-impomos, esconde-se ao anoitecer e desperta os lobos do seu torpor. A noite cai e a cidade está esfomeada…

Edward O. lembra-se vagamente de um tempo em que as crianças brincavam no jardim, os mais velhos davam a mão aos mais pequenos para os ajudar a subir ao banco de pedra, os rapazes gritavam enquanto se digladiavam por uma bola de trapos e as meninas brincavam às mamãs com as suas bonecas de faces de porcelana. 
Parecia impossível que ali houvesse medo, raiva, luxúria ou simplesmente, falta de sentimentos de compaixão e solidariedade de uns para com os outros. Hoje é cada um por si, esfomeados, encadeados pelo brilho ruidoso do farol que os orienta em direcção ao lugar que lhes é reservado, assumindo a posição de eleitos, escravos e senhores, todos se empurram e esmagam quem se lhes atravessar.

O caminho é rigorosamente sempre o mesmo: das traseiras para a ruela, da ruela para a avenida, da avenida para o beco. Mão no bolso. Chave à porta. Átrio, escadas, nova porta. Nova chave. Casa. 
Mas hoje vai ser diferente…

Começou a chover ainda a tarde ia a meio e, meu Deus, como chovia! A ampla avenida parecia agora um largo e negro rio, impossível de atravessar, onde apenas alguns carros mais afoitos tentavam em desespero cruzar, quais seixos aplastados a rodopiar saltitantes, ficavam pelo caminho, não conseguindo chegar à outra margem. 

Edward O. encolhia-se, quase desaparecendo dentro de seu sobretudo e escondido pelo chapéu, desaparecia de vista em direcção a um atalho, uma ruela estreita e sinuosa, ladeada por decrépitas roseiras e velhos choupos. Mas, há medida que subia a íngreme e soturna ruela, Edward O. sentiu que não estava só, alguém o seguia. 
Subitamente, sente no coração uma pontada de dor forte, como se fosse o gume de uma faca a penetrar lento em seu peito. É a ansiedade que se apodera de ti, oh pobre Edward O.


Cena 4. Um segundo

- Senhor, por favor, tem lume? -

Mas quem é que se lembraria de, a meio de um voraz temporal, perseguir Edward O. para lhe pedir lume? Olhando à sua volta, perscrutava a escuridão mas nada via. Sentia-se como uma erva sacudida pelo vento da tempestade, mantinha-se agarrado a si mesmo, mas ciente de que nada era perante tal força imensa. A força do destino.

- Por favor, tem lume? Pode ajudar-me?-

Edward O. virava-se lentamente para o homem atrás de si, vendo-o primeiro com o canto dos olhos, conseguia descortinar apara além da sua retina baça um enorme vulto negro que lhe apontava uma arma.

- Devagar agora. Dá-me a tua carteira e o que tiveres nos bolsos do sobretudo. Mexe-te homem, sem surpresas nem sobressaltos. Passa-me já tudo o que tens! –

Edward O. 39 anos. Sozinho no mundo. Contemplava o Anjo Negro que o viera libertar. Sentia algo vibrante e inquietante dentro de si. Era vida, vida que lhe escapava e agora pulsava forte! 

- Mas estás parvo ou quê? Mexe-te idiota, passa para cá essa carteira, tu não me desafies! Queres levar um tabefe? – 

Num acesso de clarividência e autoconhecimento, Edward O. tomara uma decisão. Olhava fixamente o seu formidável oponente e, com o olhar iluminado de um inesperado fulgor, sorri e empurra-o contra a parede!

Num segundo, Edward estaria livre. Assustado e atónito, o pobre assaltante dispara inadvertidamente a arma ao embater contra a parede, mas à medida que o dedo pressiona o gatinho e a bala inicia a sua viagem rumo ao coração acelerado e em êxtase de Edward O., este sonha com tudo o que sempre desejara, com o homem que gostaria de ter sido, com a glória de ser honesto consigo mesmo e a certeza de que era o dono de seu próprio destino...

Edward O. 39 anos. Jaz morto no chão de uma ruela. Qual cordeiro sacrificado aos lobos, a cidade acaba de o devorar. À medida que o sangue escorre, arrastado pela chuva em direcção ao grande rio que alaga a grandiosa avenida, a sua alma desprende-se de um corpo gasto e vazio. 

Finalmente, é livre…