domingo, 26 de janeiro de 2014

Desafio "Inocência"

Inocência.  É este o tema do nosso próximo desafio.
Claro que estão todos  a pensar em cordeiros, pombas, lençóis brancos,  anjos,  margaridas,  flautas,  Éden,  pureza, ingenuidade, total isenção de culpa...  É,  não  é?  ;)
Até ao dia 21 de Fevereiro,  deixem fluir imaginação e  tinta e criem contos ou poemas provocados por esta palavra tão... singela.  
Não se esqueçam de associar uma música e/ou  imagem aos vossos textos e de colocar a etiqueta Desafio “Inocência”.   Que as musas estejam convosco.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Cortar pelo tracejado



A menina do sono confuso
Deveria picar o dedo num fuso
E da ponta do dedo nasceria um tracejado
Feito com caneta de feltro e mal-amado
Iria de traço em traço até ao umbigo
Iria de traça em traça até ao jazigo

Dormiria em grãos de café
Para ter sonhos de dar ao pé
Ou alinhavaria insónias aos lençóis
E teria noites rápidas como os caracóis
Ao amanhecer beberia chá de tília
Para agradar às tias da família

Vestiria saias de princesa
Com corpetes de turquesa
E sapatinhos com fivelas
Para dar à sola nas ruelas
Prenderia os cabelos dentro do chapéu
Num belo sudário para o céu

Por fim ao fim de muitas estimativas
As más-línguas fazem doer as gengivas
A menina de dedo picado
Passa o traço pelo olho vidrado
Agarra com a mão na cavadeira
Só irá parar no branco-caveira

terça-feira, 21 de janeiro de 2014




Não mais erguerei esta tocha. Cortar-me-ão as mãos em finas fatias douradas se ousar desafiá-los.O horizonte é agora um amontoado de punhais escarlate de dois gumes. Abotoando este vómito ao longo do caminho procuro a porta secreta para um assentamento de espáduas, mas esta corrente acida mastiga-me suave e parcimoniosamente, sem cessar. Cessar-fogo. Fogo sem artifício. Artífice da escultura derradeira que dissolverá este satélite obsoleto com raios flamejantes. Embala-me vagarosamente os sonhos até que o céu se desligue.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Bolo de Laranja com Trovoadas Dentro



Quando o teu avô me viu pela primeira vez, era domingo e ele andava a passear de bicicleta. Passou por mim e pela tua tia, vestidinhas de missa, e disse que eu tinha olhos de trovoada. Vi-o afastar-se agarrado ao guiador, a olhar para trás com um sorriso de sorte e certezas, até desaparecer à esquina dos Armazéns Abel Pereira da Fonseca.

Depois passou a vir escudado pelo teu tio Sebastião, como um Dom Quixote com o seu Sancho Pança, como se eu fosse um moinho de vento. Sentavam-se na sala mobilada com a poltrona velha que a patroa nos tinha dado, mesa e duas cadeiras. Ele, com o cabelo bem penteado em ondas de Clark Gable, solene no seu melhor fato como se fosse tirar o retrato. O Sebastião e a tua tia Natércia iam para a cozinha fazer café e namorar à vontade e nós ficávamos ali, de joelhos juntos, a olhar um para o outro clandestinamente e à vez, um parto difícil de palavras a embrutecer-nos. Era sempre eu quem rachava o silêncio ao meio:

 – Fiz bolo de laranja. Queres?

Sempre achei esquisito como é que um homem que nos diz que temos olhos de trovoada, da primeira vez que bota os dele em cima dos nossos, fica depois calado como um rapazinho quando está a sós connosco na electricidade das matinés. Mas se calhar foi sempre por causa disso que gostei dele – tinha muito mais talento para agir do que para falar.

Não podia compreender que eu não sentisse, como ele, saudades dos montes de fábula negra, com suas cabeças gigantescas de granito, tufos de gestas e ervas rasteiras; do gado a regressar ao fim da tarde numa nuvem dourada de pó a levantar-se sobre as ruas da aldeia, das procissões lideradas por velhotas de buço, devotas de ditador. Não trabalhou nas minas de volfrâmio com vontade de fugir a cada 5 minutos, a sensação claustrofóbica de uma agonia que não passa nem no sono. Não ruminava remorsos de raivas antigas que nunca vazaram, a fermentar por dentro como mau vinho. Mas, se calhar, foi sempre por causa disso que eu gostei dele – tinha a brandura dos que não se deixam inquinar pela vida.

 – Estás com olhos de trovoada, mulher...

A velha poltrona do quarto de costura da Dona Nela, a mesa pequena e as duas cadeiras, nós dois de joelhos juntinhos, lá ao fundo.

 – Fiz bolo de laranja...

Gostava que o tivesses conhecido antes de se tornar no solitário devoto que te fazia o sinal da cruz na testa, à entrada de casa, e consertava rádios na varanda, com peças avulsas compradas aos coleccionadores de nadas da Feira da Ladra. Antes de começar a ir todas as tardes à Igreja de Benfica e a refugiar-se numa bolha imune ao passar do tempo, imune ao rugir do mundo. Mas, se calhar, sempre foi por causa disso que eu gostei dele – tinha muito mais talento para os avessos que para os direitos.

Lembraste de quando ele foi e veio de Benfica ao Beato a pé, numa tarde? Desaparecia depois do almoço e só o voltava a ver ao jantar. Às vezes andava à deriva por Lisboa sem dar conta de onde estava, sonâmbulo a avançar sinais vermelhos, estorvo na corrente a dar encontrões aos operários da Rua Augusta, que iam a caminho do barco das seis da tarde. E quando saia do transe, dava por ele outra vez na Doca do Poço do Bispo, como um velho rafeiro que volta a casa pelo faro. Mas se calhar sempre foi por isso que gostei dele – voltou sempre, guiado pelo norte magnético do instinto ou pelo cheiro a bolo quente.

Foi quando começou a ligar dos sítios mais estranhos – assustado na cabine telefónica de uma rua anónima de Caneças, Carregado, Viseu - que eu soube que o tinha perdido de vez. O teu pai saía do trabalho às pressas e ia buscá-lo onde ele estivesse, a tremer e de bolsos rotos, já sem o casaco, a carteira, os óculos de ver ao perto. Quando chegavam a casa, ia sentar-se na cadeira dele da cozinha e ficava para ali horas, zangado consigo próprio e a tentar traçar a rota que seguira quando saiu de casa, sem bússola nem mapas na memória. Eu ia lá antes de começar a fazer o jantar, passar-lhe a mão na cabeça.

 - Fiz bolo de laranja. Queres?...

A última vez que o teu avô me viu foi num domingo, quase 50 anos depois do primeiro. Estava internado e eu tinha passado a tarde ao quarto de hospital que ele dividia com um nonagenário cansado de viver e um homem mais novo, que coleccionava enfartes. As famílias deles em visitas demoradas e culpadas de fim de semana, falavam baixinho das doenças umas das outras, do Sporting, do casamento da prima Matilde. Em três horas o teu avô disse duas frases. Quando me senti vencida pelo silêncio e pelo cansaço, dei-lhe um beijo na testa e peguei no casaco para sair. Os olhos dele parados nos novelos de nuvens cinzentas, lá fora.

 – Vem aí trovoada...

Já passaram 15 anos mas, às vezes, ainda sinto um sobressalto a meio da tarde, a telefonia sintonizada na Radio Renascença, a chover lá fora e a imagem dele numa rua anónima qualquer de Setúbal ou Rio Maior, a tentar voltar para casa, assustado pelo norte magnético perdido. E eu sem bolo para lhe dar.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

E is for Ego [THE ALPHADEATH CODEX]






Away from the barren heath
I wandered a thousand days seeking no man or home,
Alone, a shadow passing among the passing shadows.
For I’m condemned to be a stranger in a stranger land,
Like a beggar at heaven’s gate stretching his hand.
My destiny,
To have but not to hold, a sinner’s soulless soul,
Forever immortal, death in life contemplating
A life in death, wailing, waiting,
Wasting…

Failed, you said
To which I sad replied
Failed for I am still alive
And failed to stay
With those who died

You know,
One day a child is born,
Mother’s bliss, father’s joy,
Raised to become a strong boy,
And to take a gun for a toy.
And inside him, day by day grows
The basic instinct that every man knows
That leads youngsters to unknown battleground
And makes heavenly music from the blazing sound
Of guns and metal, grinding youth to the ground.
For the power of will
Gives birth to the joy of the kill,
To which no recruit heart is hostile

So,
I left town, bid farewell and left
Like a thief in the starry night, I crossed the hall gates
Bathed by the silver moonlight, feeling blessed.
To return to my kin I promised, once and forever,
As a hero, to be carried in shoulders,
My name in gold,
Marking the door of my once home,
Women falling at my feet, a man’s ideal reflection of themselves
Only better, stronger and with power unleashed!
An Olympic champion I would be
As no warrior you would never see
 
A long line of pale skinny lads
Spread across the cold amber dawn,
Fed the hungry machine that swallowed us all.
Glory to those that write their name in Aries list,
For they are no longer simple man to exist,
But gods in potential
Soul quintessential.

The roar of battle called our name
Like the clapping hands that reward fame.
We marched! To victory we claim,
To become praised like no other,
The rush to obey the order,
That would turn these young men
Into gory cannon fodder

Then,
Nothing!
Oblivion I prefer to recall
For instead of something
I’d prefer nothing at all

To this day remains blurry
The result of all that blind fury
Oh, human nature revealed,
In those camps written in blood!
A story of many, the story of none.
Bodies spread across the drenched sand,
I felt the sea wind sweeping the weightless souls  
As I sat and watched the hours pass, endless
Shell-shocked, in a dreadful place,
A sole survivor in a wasted shore,
Condemned to return home nevermore…

Being alive is not the same as to survive,
Because a man that lives is still a man
And a survivor, oh, some would say
Is a mere glimpse in an endless horizon,
Covered in red, masked in gray.

A crow’s lament drowned in a spiral of pain
Elyzium denied, condemned to endless blight.
From land to land I dwelled, in search of myself
And when to myself I turned, there was nobody else.
The peril of my life no longer a question to be behold,
Only the shear contemplation of a noble death,
Brought calm to this unquiet heart every now and then.

Yet, years rolled like a storm,
Washing the remains of my undead memories,
Leading me back home, or what once was one,
Not as a hero to be held in shoulders,
My luminous ego completely blown,
In a foreign shore, so long ago…

A vagabond to all, begging for food,
Watching simple men praising the glory of war,
Embracing something they didn’t understood,
Preparing themselves for the grip of disease,
To honor the dead and what for?
There is no glory in marching to hell!

Listen to the fallen, to what they tell,
Listen to the wind, the waves and the sky,
Just someone listen to me once 
And allow me to die…

Total Eclipse Of The Heart



o ar novo com aroma a lavado. o espírito das cores respiráveis. semente débil na ponta dos dedos que segura a neve lânguida

sou vento, abismo, ave, a quem falta  chão para andar.

brando o olhar de pássaro pousado na árvore mais frondosa. as lágrimas atormentadas pelo calor inóspito da crueldade febril. e quase humana.

escolho adjectivos que te definam sem limitar. ouso escrever ao ritmo do coração acelerado e todas as músicas me encerram dentro de mim.

aceito um copo de água em que transbordo gota. sorrio ao espelho sem reflexos. a transbordar de mim.


num apelo à memória, esqueço-me. esqueço-te. 


terça-feira, 14 de janeiro de 2014



Visto de uma semântica de sémen a expirar o prazo chegou ao cume. Nada disto lhe servirá quando a carótida lhe explodir vulcanicamente. Não sabe morder este fruto sem se sujar todo com o sumo pegajoso que dele escorre, e a verdade é que sucumbirá antes de encontrar um outro que o entorpeça, até que as luzes se apaguem neste matadouro. As maçãs do rosto encovam-se de rancor, um rancor roxo de quem vomita labaredas de bilis pelos olhos, num bruxismo sem bruxas nem vassouras. E  o pano que nunca mais desce...

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Finalmente, de fresco



O dia do casamento. Era o dia do casamento e ninguém estava convidado. O Lúcifer mostrava-se entusiasmado, demonstrando a cada minuto o quanto desejava aquele casamento. Belzebu também apaixonado, mas com receio, porque Lúcifer sempre fora muito inconstante e casar desta forma não o deixava seguro.
É que nem os padrinhos tiveram tempo de ser avisados. E a roupa? Casar com roupa trivial de morte perante o Padre Deus… Não sabia como poderia correr bem.
Já Lúcifer pedira para decorarem o local do copo de água, algo simples, à pressa, mas belo e celestial, em tons de Satã quando foge. Alguns, poucos familiares ajudaram, porque para muitos deles já era sem tempo esta união. Finalmente.

Mas falemos do pedido de casamento, que foi feito dez horas antes do “sim”. Lúcifer, caído (mais uma vez) aos pés de Belzebu, proferiu as palavras cruéis e com lágrimas nos olhos, fez com que Belzebu não conseguisse pensar em responder “não”, ou “vou pensar”, nem sequer “dá-me mais uns dias”.
De morcegos na barriga, Belzebu olhou para o espelho e imaginava algo mais preparado e pensado, mas por outro lado, casar assim poderia ser o melhor. Não haveria tempo para chatices, se alguma coisa corresse mal, teriam sempre a desculpa do “em cima da hora”. O seu aspecto não era o melhor, os olhos estavam muito vermelhos, a pele muito seca, as unhas muito grandes e encaracoladas. Mas Lúcifer, sempre meigo e como bom futuro marido segredava-lhe ao ouvido “estás tão bonito como no dia em que te conheci, mais bonito ainda amor”.

Já os dois no altar, porque não tiveram tempo de arranjar alguém que tocasse a marcha nupcial, perante o Padre Deus, uniram as mãos e baixaram a cabeça para receber a bênção. E que bonito que foi. Rápido e bonito.

À saída da igreja, os poucos convidados que tiveram tempo e fizeram gosto em comparecer, atiraram moscas mortas aos dois casados de fresco. Dizem que dá sorte. E agora a melhor parte: a fotografia na escadaria da igreja. (Escusado será dizer que não conseguiram contratar um fotografo.) Os noivos ao meio, os convidados espalhados pelas escadas para dar a ideia de serem muitos e o Padre Deus à pressa lá tirou a fotografia antes que o céu lhe caísse em cima. Depois fechou-se na igreja e possivelmente foi para o altar chicotear-se.

Copo de água. Foi um bocadinho aborrecido, Belzebu não gosta de dançar. Fogo-de-artifício oferecido por Mefistófeles. Rápido e bonito, também.


Lua-de-mel: isto de ter asas facilita a viagem até lá. Ficaram na lua quinze dias. Fica por decidir que criança irá nascer morta para ser filha deles. Viveram felizes para sempre.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Acre




A minha mãe contou-me que no dia em que me foi apresentar à floresta, ainda agarrada ao seu peito, fui com olhos verdes e voltei com olhos cinzentos. Nessa noite ela fez um defumadouro e lavou a soleira da porta com orvalho de Maio. Contou-me, ainda, que nunca vira uma criança trazer tantos ossos, espinhos, teias e carcaças abertas de animais para casa. Ela queimava-os discretamente enquanto os seus lábios murmuravam um esconjuro silencioso.

A minha mãe tem um dom. O seu sangue, que deveria ser o meu, é tão limpo que ela consegue ver o brilho argênteo que há em tudo o que pode restabelecer a essência da vida. Quando entrávamos nos bosques ou íamos às montanhas, as suas pupilas dilatavam como se estivesse no breu, salvo os momentos em que se dobrava para apanhar hipericão ou calêndula, quando segava zimbro e carqueja ou quando colhia pilritos e papoilas.
- Eu estou às escuras, filha, para poder ver. Tu também tens de aprender a deixar-te cobrir pelo véu.

E continuava pacientemente a tentar explicar-me como usar a foice na losna ou como secar a arruda enquanto me afastava das amanitas e da erva do diabo .

Eu caminhava ao seu lado, sem coragem para lhe dizer que o meu véu era branco e que contra ele via a luz plúmbea de tudo o que traz em si o hálito da morte.

Onde ela cheirava mostarda e cânfora eu era percorrida por enxofre e amoníaco. Sentia no meu corpo os bolores, os fossos, os miasmas, o sabor das águas paradas e da cadaverina nos animais putrefactos. Conseguia ver as larvas, os salitres e a peçonha dentro das víboras e lacraus. Nos claustros de pedra das montanhas sentia o frio de futuros túmulos. E nas pessoas via apenas as pústulas, as gangrenas, as úlceras nas entranhas, os humores negros….

Fui crescendo sob a saia protectora da minha mãe. Os vilãos não gostavam dela mas, como sabia tratar-lhes as maleitas, toleravam o seu carácter quase obscuro. Comigo era diferente. Não suportavam a náusea que sentiam cada vez que a minha mente dissecava os seus corpos enfermos e acusavam-me de estar com o canhoto. Preferiam pisar-me em vez de ouvir os meus avisos e eu aprendi a calar-me e deixá-los morrer da sua podridão.

Um dia a minha mãe chegou com veneno dentro dela. Passáramos a manhã inteira a discutir porque ela apanhara-me a cozinhar dedaleira e esporão-do-centeio na retorta. Mal abriu a porta, eu gritei-lhe, assustada, que ia ficar doente. Ela sentiu a vertigem do meu olhar branco no seu interior. Para desviar-me os olhos, empurrou-me para cima da banca das tinturas.
- Como te atreves a abrir essa boca para cuspir uma praga? – e antes que eu pudesse responder – Proíbo-te de falar até ao crescente.

Nessa noite, enquanto a febre se apoderava dela, destruí todo o arsenal que ela usava para tratar aquela gente indigna. Cada pomada, cada unguento, cada pedaço de resina. Eu purguei o seu corpo e ela, em delírio, purgou a sua alma plena de azedume. Por mim.

Quanto finalmente voltou a si, ordenou-me que explicasse porque fizera aquilo. Não respondi. Ela não queria ouvir o que eu tinha para dizer e mais valia continuar sem falar.
- Sempre soube que tinhas a lua negra dentro de ti. Fiz tudo como mandam os antigos mas tu não quiseste esperar por Ofiúco, o nosso décimo terceiro. Os teus pés e mãos esticados quase rasgavam o meu ventre, tal a tua pressa de sair sob as estrelas do veneno. A tua sombra leitosa tem vindo a crescer dentro desta casa e eu não consigo ver através dela. Amo-te, mas ambas sabemos que não podes ficar.

Parti de imediato, sem um som. Nunca mais falei.

Fui andando de terra em terra deixando o meu dom fluir e, lentamente, conquistei a fama que hoje tenho. Quando alguém bate à porta do meu casebre não são precisas palavras para saber que procuram os compassos da dança macabra. A minha mãe nunca teria compreendido, mas eu também sou uma curandeira. Algumas pessoas precisam ser curadas da própria vida.



Imagem: Hecate, William Blake