Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2014

Desafio "Inocência"

Imagem
Inocência. É este o tema do nosso próximo desafio. Claro que estão todosa pensar em cordeiros, pombas, lençóis brancos,anjos,margaridas,flautas,Éden,pureza, ingenuidade, total isenção de culpa...É,nãoé?  ;)
Até ao dia 21 de Fevereiro,deixem fluir imaginação etinta e criem contos ou poemas provocados por esta palavra tão... singela.
Não se esqueçam de associar uma música e/ouimagemaos vossos textos e de colocar a etiqueta Desafio “Inocência”.   Que as musas estejam convosco.

Cortar pelo tracejado

A menina do sono confuso Deveria picar o dedo num fuso E da ponta do dedo nasceria um tracejado Feito com caneta de feltro e mal-amado Iria de traço em traço até ao umbigo Iria de traça em traça até ao jazigo
Dormiria em grãos de café Para ter sonhos de dar ao pé Ou alinhavaria insónias aos lençóis E teria noites rápidas como os caracóis Ao amanhecer beberia chá de tília Para agradar às tias da família
Vestiria saias de princesa Com corpetes de turquesa E sapatinhos com fivelas Para dar à sola nas ruelas Prenderia os cabelos dentro do chapéu Num belo sudário para o céu
Por fim ao fim de muitas estimativas As más-línguas fazem doer as gengivas A menina de dedo picado Passa o traço pelo olho vidrado Agarra com a mão na cavadeira Só irá parar no branco-caveira
Não mais erguerei esta tocha. Cortar-me-ão as mãos em finas fatias douradas se ousar desafiá-los.O horizonte é agora um amontoado de punhais escarlate de dois gumes. Abotoando este vómito ao longo do caminho procuro a porta secreta para um assentamento de espáduas, mas esta corrente acida mastiga-me suave e parcimoniosamente, sem cessar. Cessar-fogo. Fogo sem artifício. Artífice da escultura derradeira que dissolverá este satélite obsoleto com raios flamejantes. Embala-me vagarosamente os sonhos até que o céu se desligue.

Bolo de Laranja com Trovoadas Dentro

Quando o teu avô me viu pela primeira vez, era domingo e ele andava a passear de bicicleta. Passou por mim e pela tua tia, vestidinhas de missa, e disse que eu tinha olhos de trovoada. Vi-o afastar-se agarrado ao guiador, a olhar para trás com um sorriso de sorte e certezas, até desaparecer à esquina dos Armazéns Abel Pereira da Fonseca.

Depois passou a vir escudado pelo teu tio Sebastião, como um Dom Quixote com o seu Sancho Pança, como se eu fosse um moinho de vento. Sentavam-se na sala mobilada com a poltrona velha que a patroa nos tinha dado, mesa e duas cadeiras. Ele, com o cabelo bem penteado em ondas de Clark Gable, solene no seu melhor fato como se fosse tirar o retrato. O Sebastião e a tua tia Natércia iam para a cozinha fazer café e namorar à vontade e nós ficávamos ali, de joelhos juntos, a olhar um para o outro clandestinamente e à vez, um parto difícil de palavras a embrutecer-nos. Era sempre eu quem rachava o silêncio ao meio:

 – Fiz bolo de laranja. Queres?

Sempre ach…

E is for Ego [THE ALPHADEATH CODEX]

Total Eclipse Of The Heart

Imagem
o ar novo com aroma a lavado. o espírito das cores respiráveis. semente débil na ponta dos dedos que segura a neve lânguida. 
sou vento, abismo, ave, a quem falta  chão para andar.
brandoo olhar de pássaro pousado na árvore mais frondosa. as lágrimas atormentadas pelo calor inóspito da crueldade febril. e quase humana.
escolho adjectivos que te definam sem limitar. ouso escrever ao ritmo do coração acelerado e todas as músicas me encerram dentro de mim.
aceito um copo de água em que transbordo gota. sorrio ao espelho sem reflexos. a transbordar de mim.

num apelo à memória, esqueço-me. esqueço-te. 

Visto de uma semântica de sémen a expirar o prazo chegou ao cume. Nada disto lhe servirá quando a carótida lhe explodir vulcanicamente. Não sabe morder este fruto sem se sujar todo com o sumo pegajoso que dele escorre, e a verdade é que sucumbirá antes de encontrar um outro que o entorpeça, até que as luzes se apaguem neste matadouro. As maçãs do rosto encovam-se de rancor, um rancor roxo de quem vomita labaredas de bilis pelos olhos, num bruxismo sem bruxas nem vassouras. E  o pano que nunca mais desce...

Finalmente, de fresco

O dia do casamento. Era o dia do casamento e ninguém estava convidado. O Lúcifer mostrava-se entusiasmado, demonstrando a cada minuto o quanto desejava aquele casamento. Belzebu também apaixonado, mas com receio, porque Lúcifer sempre fora muito inconstante e casar desta forma não o deixava seguro. É que nem os padrinhos tiveram tempo de ser avisados. E a roupa? Casar com roupa trivial de morte perante o Padre Deus… Não sabia como poderia correr bem. Já Lúcifer pedira para decorarem o local do copo de água, algo simples, à pressa, mas belo e celestial, em tons de Satã quando foge. Alguns, poucos familiares ajudaram, porque para muitos deles já era sem tempo esta união. Finalmente.
Mas falemos do pedido de casamento, que foi feito dez horas antes do “sim”. Lúcifer, caído (mais uma vez) aos pés de Belzebu, proferiu as palavras cruéis e com lágrimas nos olhos, fez com que Belzebu não conseguisse pensar em responder “não”, ou “vou pensar”, nem sequer “dá-me mais uns dias”. De morcegos n…

Acre

Imagem
A minha mãe contou-me que no dia em que me foi apresentar à floresta, ainda agarrada ao seu peito, fui com olhos verdes e voltei com olhos cinzentos. Nessa noite ela fez um defumadouro e lavou a soleira da porta com orvalho de Maio. Contou-me, ainda, que nunca vira uma criança trazer tantos ossos, espinhos, teias e carcaças abertas de animais para casa. Ela queimava-os discretamente enquanto os seus lábios murmuravam um esconjuro silencioso.
A minha mãe tem um dom. O seu sangue, que deveria ser o meu, é tão limpo que ela consegue ver o brilho argênteo que há em tudo o que pode restabelecer a essência da vida. Quando entrávamos nos bosques ou íamos às montanhas, as suas pupilas dilatavam como se estivesse no breu, salvo os momentos em que se dobrava para apanhar hipericão ou calêndula, quando segava zimbro e carqueja ou quando colhia pilritos e papoilas. - Eu estou às escuras, filha, para poder ver. Tu também tens de aprender a deixar-te cobrir pelo véu.
E continuava pacientemente a ten…