domingo, 30 de novembro de 2014

(...) 
Vejo-a ao longe. O vento bate sobre a sua face. Mas parece não se importar. Deixa ele levantar o seu cachecol à volta do pescoço. E sorri. Sorri como se tivesse a desfrutar de algo mínimo naquele momento. Observo-a de longe. Memorizo cada detalhe, cada gesto, cada ar... Decifro o seu olhar. Como se fosse um puzzle. Tento conhecer mais. Saber mais. Quero saber o que lhe fascina. Quero saber o que lhe assusta. Vejo-a como se fosse a primeira vez, e apaixono-me como se fosse a última. 
Ela vem na minha direcção. Serena, calma... O tempo pára. Torna-se apenas um conceito vago e absurdo. Deixa simplesmente de existir. Sou apenas eu e ela. Quando chega perto de mim, o seu sorriso eleva-se, o seu rosto ilumina-se. Devagar e rápido ao mesmo tempo. Algo tímido. Há algo no seu olhar. Tem olhos grandes e castanhos. Que apesar de serem escuros, quando os nossos olhares se cruzam parecem claros, brilhantes. Não sei se será dos charros. Ou se sou eu que vejo algo que poderá não estar lá. Mas se for apenas uma ilusão ou a expectativa a alimentar-me, que seja. Este formigueiro e fascínio que há tanto procurava em alguém consome-me da maneira mais inocente, ingénua. E por vezes não sei como lidar com este sentimento... não sei adaptar-me ou lidar com ele. Apenas sinto. Sei que o sinto. E deixo-o fazer sentir-se agressivamente. E ela apenas ali. Sem se aperceber do que mais desejo, anseio por. E no entanto deixo. Deixo andar... Apesar de impacientemente querer constantemente a sua presença. Assisto de um canto todos os seus passos, todos os seus movimentos. Poderá parecer exagerado. Para mim não é. Conheço-a assim... discretamente... (...)

(...) Ela inclina-se para a frente quando ri. Os seus movimentos fluem naturalmente... como se ela própria se deixasse levar pelo vento. E tem um jeito de rir tão discreto e ao mesmo tempo tão lindo, tão único... tão brilhante. O seu rosto ilumina-se quando abre um sorriso... e eu não consigo evitar concentrar-me nela... parece que me chama, que me seduz. A voz dela... A voz dela é suave, como uma música onde encontro todas as razões para a amar. E poucas são aquelas que me impedem de me perder no conforto da sua presença. Consegue provocar-me um fervilhar, uma inquietação de esperar, esta esperança que me faz querer esperar...  Talvez eu nunca consiga encontrar as palavras certas para a poder descrever na totalidade da sua beleza. Mas fico fascinada... fascinada neste mistério que ela será, que tanto quero conhecer e que à medida do tempo me deslumbra mais. Conhecê-la  demoraria uma vida inteira... talvez...  nela encontro a inspiração, o formigueiro que me faz escrever sobre a pessoa em que me perco e onde me encontro, e procurei tanto por algo assim. Conseguiu fazer-me encontrar uma inocência que à muito julgara ter perdido nas cinzas de um passado que esqueci, que deixei estar... Pensei que nunca poderia sentir algo assim, tão puro e inocente, acho que não com esta intensidade, com este desejo... (...)





domingo, 2 de novembro de 2014

Cal.de.irada





A cal ferve no poial caiado a panos quentes
Não se quer irritar os tornozelos zonzos
Quer-se que a mão de lixa abra o postigo 
que a voz mendigue sopa de letras em direcção à panela de barro
e acabe de vez com o fastio
(Talvez o maltês oiça sem assomar a cabeça)
Mas já passaram uma data de dias
em que os pés fundidos ao chão metálico
não abalam senão para o coração
de coronárias apertadas de aperto
de batimentos que são contos, cantos, contas
presos com pontos nas pontas de pranto
na bainha do poial
(cozido ou cosido a linha de alinhavar com cheiro a peixe)
debaixo da porta
que tem o postigo
que tem gente
que não abre.