Acho que a única coincidência era que ambos tínhamos o esqueleto delicado e leve. Era assim que me via: um sortido de ossos que se encaixavam perfeitamente, tal como as bolachas de manteiga naquelas latas cilíndricas achatadas com desenhos requintados.
Uma repetição de sabores do início ao fim, assim como as minhas horas que passavam na mesma cadência crocante da cal nas paredes. Às vezes, até podia afirmar que as paredes pareciam casca de ovo, de onde eu queria nascer mas nunca conseguia mais do que abrir uma simples fenda. Era ali que eu manifestava a minha força, nas fendas ramificadas que se alimentavam de raízes gulosas por sol. Foi exactamente por isso que eu me desenraizei do meu chão. Sentia que o que estava à mostra era menos importante que o que estava enterrado. O que estava à mostra sofria com queimaduras solares, o que estava enterrado sofria com o escuro húmido. 
Consegui inverter a situação.
Consegui inverter a situação mas ainda não decidi se sou mais feliz agora. Até porque ainda não decidi se quero sentir-me feliz. Felicidade não me cai bem, deixa-me com refluxo fantasma de memórias.
Agora no meu canto, ao menos não tenho que me preocupar, nem sentir a pressão craniana de quem quer ir longe mas não está no mundo certo, nem na época certa. Da minha cabeça aberta podem emergir todos os instantes confeccionados em lume brando, subindo através de sonhos em vapor e ficando condensados nos rostos de quem me visita, de quem deseja-me visitar, de quem tem a chave deste jazigo, de quem já forçou a fechadura, de quem traz flores, de quem não entende porque quero estar aqui. 
É que eu quero muito ficar por aqui.


Foto: Fernando Vianna

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