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domingo, 14 de novembro de 2010

Cristal (Eternidade em III actos)

Acto III: A Lenda



Inspirada na antiga história que seu tio lhe contara, decidiu que era hora de visitar aquele homem tenebroso, aquela criatura que tanto transtorno lhe causava. Era hora de ir bater à porta de Mestre Fausto. Ia confrontá-lo, e perguntar-lhe que segredos guardavam aqueles cacos de vidro glorificado, aquela bonecada resplandecente, aqueles incómodos seres de cristal. Tudo na esperança de encontrar entre a parafernália de bibelôs desalmados uma última morada para o seu sopro imortal. O horror alimentado pelo catolicismo vigente de que um Inferno em chamas a poderia engolir para toda a eternidade fê-la tomar atitudes drásticas, tudo em nome da salvação da última das Khroner.

Mal Angela se aproximou da loja de Mestre Fausto ouviu a pesada porta de carvalho ranger e entreabrir-se. Ela sabia que era esperada, ainda que em mais de quarenta anos nunca tivesse posto os pés lá dentro mais do que duas ou três vezes.

- Aproxime-se Sr.ª Khroner, estava à sua espera – disse Fausto, com a sua voz seca e profunda como a caverna da alegoria.

- Salve velho diabo. Fostes vós quem andou a zombar de mim com partidas infantis para me despertar do meu sono?

- Não fui eu, mas sou capaz de saber que tenha sido. Ela passou por mim esta noite para me cumprimentar e disse que ia a tua casa.

- De quem falais? – perguntou Angela tentando passar por mais surpreendida do que de facto estava.

- Da Ceifeira, daquela que a todos visita pelo menos uma vez. –

- Um dos seus bonequitos assustadores, é isso que estais a insinuar? –

- Vossa Senhoria viu do que falo, quando se mirou ao espelho, quando sentiu o seu sopro gélido ao despertar, quando ouviu o cabo de sua gadanha a bater no solo carcomido de térmitas de seu quarto.

- Fantasmas? Pensais que me assusto assim tão facilmente? Não sou nenhuma catraia para me impressionar com historietas de tigres e traças e outras assombrações para tirar sono a crianças, ficai sabendo...

- Não diga mais nada Sr.ª Duquesa. Não é a primeira vez que tenho um Khroner na minha loja a tentar convencer-me que seus intentos são outros dos que o cá trouxeram. Quereis ver uma peça em particular, um artefacto arcaico do tempo das primeiras trevas, um pequeno e delicado objecto, um vaso.

- Não.... Sim,... como sabeis?!

- Foi vosso tio quem mo deixou à guarda, com o aviso de que mais tarde a Sr.ª Duquesa o viria buscar. Pois aqui está ele, este pequeno vaso de cristal antigo. É vosso, para fazerdes dele conforme seja vosso desejo.

Angela olhou para o vaso, surpreendida com o desfecho excessivamente rápido de sua visita. Aparentemente era apenas um vaso de cristal, simples e translúcido, sem nada que o denunciasse como mágico ou com poderes para enganar a eternidade. Fausto sorria tranquilamente, permitindo ao seu corpo magro e alto alguns momentos de descanso num velho cadeirão de veludo carmim.

- Mas estais seguramente a gozar com a minha pessoa. Para que quero eu isto? É alguma piada. Estais a divertir-vos às minhas custas, é isso, não é?

- Adeus Angela, a nossa conversa terminou!




Naquela manhã fria de Novembro, a Duquesa acordara com um solavanco violento que a fez erguer da cama repentinamente. Qual louva-a-deus bêbado, esbracejou inconsequente em busca dos óculos enquanto volteava a cabeça para um lado e para outro numa tentativa desesperada de perceber o que se estava a passar nos seus aposentos embebidos na obscuridade da pré aurora. Mas apenas o silêncio ensurdecedor se sucedeu ao tremendo baque abafado...

Angela ergueu-se e lentamente compôs-se do susto. Acendeu o castiçal de prata brasonado e aproximou-se do espelho de madeira de cerejeira do século XVII. Mirou-se e viu a sua cara pálida e ainda trémula do susto que a despertara. Tinha a cabeça pesada, como acontece quando temos um sonho demasiado intenso e perturbador.

Estava tudo no seu lugar, tudo na mesma... ela procurava por perturbações e parecia que nada se tinha alterado. Mas não era bem assim. Sobre o seu toucador, na intimidade de seu boudoir, havia agora um pequeno vaso de cristal que luzia com a primeira claridade do dealbar frio. Angela aproximou-se dele, primeiro com receio, depois, lentamente, com uma sensação de esperança e desafio. Ela estava pronta a fazê-lo, a tocar no vaso eterno, a saltar para dentro deste e para sempre iludir a morte. Era o momento, ela estava convencida de que era isso que desejava e nada iria demovê-la. Adeus carne fraca, a eternidade de Gaudentio seria o jardim de sua alma. Ângela soluçava e seu corpo tremia de antecipação. Mas a sofreguidão paga-se cara e num gesto de amplitude desmedida fez cair o candelabro no chão, onde a chama das velas foi encontrar pasto para progredir sobre o tapete persa do século XVI. Em menos de três minutos todo o boudoir estava em chamas, ardendo como se fosse o dia do juízo final para a Duquesa de Khroner. Em menos de nada, estava tudo acabado, toda a casa reduzida a escombros e cinzas...


Só no dia seguinte é que a polícia e os bombeiros puderam começar à procura dos vestígios mortais da Sr.ª Khroner. Encontraram apenas os restos calcinados de seus ossos e alguns vestígios do que antes foram os seus pertences. Pouco havia para reconhecer: os suportes da cama antiga, o espelho quebrado com a prata enegrecida pelo fumo e um curioso pequeno vaso de cristal, que dava a ilusão de ter no seu interior uma ténue luz branca a pulsar...

Cristal (Eternidade em III actos)

Acto II: A Duquesa



Ela representava os restos mortais de uma linha aristocrática extinta e esquecida. O sangue que lhe corria nas artérias empedernidas pela velhice avançada era o último vestígio dos Khroner, a família maldita que regera aquele pequeno condado durante mais de quinhentos anos. No entanto, Angela era uma mulher altiva, muito segura de si e que nunca hesitava em fazer-se valer dos seus privilégios de derradeira Duquesa de Khroner. Era a primeira a ser atendida nas lojas da aldeia ou da vila, era-lhe reservado o que de mais refinado havia para degustar e o que de melhor recorte havia para vestir ao seu corpo encurvado e senescente. Ela era gentil para quem se dirigisse a ela como Sr.ª Duquesa, admitindo mesmo que por uma vez ou outra se dirigissem a si como Sua Senhoria ou Sr.ª Khroner. Em relação a este último epíteto, o melhor era não abusar, pois mesmo Angela não gostava de ouvir o apelido infame demasiadas vezes, por muito estatuto que este tivesse.


Naquela manhã fria de Novembro, a Duquesa acordara com um solavanco violento que a fez erguer da cama repentinamente. Qual louva-a-deus bêbado, esbracejou inconsequente em busca dos óculos enquanto volteava a cabeça para um lado e para outro numa tentativa desesperada de perceber o que se estava a passar nos seus aposentos embebidos na obscuridade da pré aurora. Mas apenas o silêncio ensurdecedor se sucedeu ao tremendo baque abafado... E contudo, Angela sabia que já não estava sozinha...


Levantou-se com a calma a que noblesse oblige e iniciou o seu ritual diário de toilette. Ao dirigir-se ao espelho de madeira de cerejeira do século XVII que tinha sobre o toucador com igual antiguidade verificou algo muito invulgar. A sua imagem não aparecia nítida e contrastante com o luminar bruxuleante das velas espetadas no tridente de prata brasonado dos Khroner. Ela mal se vislumbrava na superfície de cristal e prata, apenas uma névoa aparecia, e rodopiava no sentido contrário aos ponteiros do relógio, arrastando o tempo consigo para um ponto branco baço que era o centro de toda a actividade. Angela assustou-se e num acto de pânico atirou com o castiçal para o chão.

Felizmente, as velas apagaram-se com o embate, não causando maiores estragos. Na penumbra de seu boudoir ela tentava recuperar lentamente o fôlego, quando subitamente lhe ocorreu uma antiga história que seu tio, o venerável Conde de Chambourcy, lhe contara.



O Vaso Eterno

Era um segredo antigo, dos tempos imemoriais que se sucederam à queda do Império Romano, quando os bárbaros saqueavam os despojos de Roma, Antioquia, Mediolanum, Carthago, Lutecia, Londinium... e o mundo civilizado entrava na agonizante primeira fase da idade das trevas, a era Medieval.

Era o início da Escola Universal Alquimista, onde sábios romanos, persas, orientais, árabes, hebraicos, gregos, germanos, egípcios, normandos entre outros se uniram pela primeira e última vez. O intuito final era atingir os segredos maiores da magia divina, da alquimia dos soberanos do Universo, o segredo da imortalidade da alma, a Pedra Filosofal. Numa primeira fase, muitos destes sábios morreram em resultado de experiências mal sucedidas, de misturas mortais de componentes, vítimas de conspirações entre facções...Ah, sim, a humanidade sempre fora pródiga em traição e jogos de poder.

Gaudentio era um patrício romano, filho bastardo de um poderoso senador e da sua amante dalmace, uma digna representante do povo eslavo que tanto sangue e suor romano exigiram em troca do controlo de suas terras a sudeste dos Alpes. Os seus antepassados maternos eram artífices do metal, fogo... e cristal.

Gaudentio aprendera com sua mãe alguns dos segredos incontáveis de como tratar, talhar e polir cristal e, como curioso inato, aprendera nas ruas e mercados muita da sabedoria antiga dos múltiplos povos que antes enxamearam a gorda e velha Roma. Era um virtuoso da magia prática com seres e objectos e aquilo que hoje se poderia chamar de um brilhante químico. Sabia quais os segredos que o fogo revelava, quais os elementos que viviam no âmago do cristal, e como os poderia invocar. No seu laboratório trabalhava juntamente com um foragido príncipe nardo e um velho alquimista egípcio. Juntos, trabalhavam o cristal na perfeição e criaram a solução para o tempo de espera que dizimava os clarividentes anciãos que aguardavam e desesperavam pela descoberta da matéria mágica que lhes conferiria vita aeterna, a Pedra Filosofal.

Gaudentio, Augutinius e El-Ashmeed construíram um vaso mágico de cristal, onde a alma se poderia refugiar durante séculos ou milénios até que fosse descoberto o segredo da carne imortal. Só então se poderia proceder ao transvase, o acto de passar a alma guardada no vaso para o novo corpo imortal.
O tempo tratou de fazer desaparecer completamente a Escola de Gaudentio e seus pares, e levou consigo o mistério do Vaso Eterno...




Angela sabia que era feita de carne mortal, e sabia que o fim estava próximo. Aquele estranho e insano episódio matinal poderia não ser mais do que um sonho que se arrastou para além do fim da narcose nocturna, mas era sem dúvida um aviso.

A Duquesa de Khroner não iria durar muito mais tempo na superfície da terra...

sábado, 13 de novembro de 2010

Cristal (Eternidade em III actos)

PS: recuperada de outros tempos..



Acto I: As Criaturas

Os primeiros dias de Novembro fustigavam a aldeia com chuvas fortes e ventos castigadores. Era o anúncio do Inverno, que deixava bem claras as suas intenções de ser longo e tenebroso. Era tempo das pessoas se recolherem nas suas casas, nos seus abrigos, longe das tormentas da estação. E longe dos olhares dele

Era uma criatura peculiar. Alguns diriam pacato e recatado, outros chamavam-lhe “avozinho dos bonecos”. E também havia aqueles que o olhavam com desconfiança... e medo, muito medo.

A loja era de facto extraordinária, uma delícia para os olhares curiosos, um passeio entre o maravilhoso e o macabro. Centenas de pequenos bonecos de cristal, todos diferentes uns dos outros. Muitos, a maioria, eram para venda. Dizia-se que uns vinham da Bohemia, outros eram recordações do Brasil colonial, enquanto que muitos eram italianos ou mesmo chineses. Vinham de todo o mundo, e desfilavam nas prateleiras de teixo antigo da loja do Mestre Fausto.

Mestre Fausto vivia naquela aldeia desde sempre, nem mesmo os mais velhos se lembram da chegada dele. Era um homem alto e magro, de feições vincadas e pele encortiçada, olhar fundo e encovado, e tanto era capaz do sorriso mais cordial como da expressão mais esfíngica. Tinha o dom de encantar as crianças com as histórias dos seus bonecos de cristal. Entre tantas que foram contadas, houve duas que ficaram particularmente famosas: a do Tigre e a da Traça Aqueronte, a Caveira-da-Morte. Ninguém sabe todos os pormenores, pois foram as duas contadas há muito tempo e a várias pessoas, que ouviram de maneira diferente. A cada um a música que lhe encanta o ouvido.


O Tigre

O Tigre veio da Índia, de onde mais ? Dizia-se que teria feito parte da colecção luxuosa de um rico capataz inglês, nos tempos em que a Índia era a jóia da coroa do Império Britânico.

Não tinha preço, era uma peça única, de detalhes fora do comum, um cristal deliciosamente fino e leve, sem uma única marca de entalhe, como se tivesse sido o próprio Shiva a esculpi-lo com o seu fogo.

Mas tanta beleza tinha o seu lado negro. Não era possível contemplar o Tigre demasiado tempo, não mais do que um ou dois minutos de cada vez. Quem deixasse o seu olhar perscrutar o valioso espécimen com demasiada demora caia num transe profundo, onde era visitado por pesadelos violentos e claustrofóbicos, em que imaginava ficar perdido na selva, sem saber para onde ir, e em que o Tigre o perseguia... até à morte! Se conseguisse sair do transe antes do Tigre o apanhar, ficava apenas marcado para o resto da sua vida com terrores nocturnos, mas se o Tigre o reclamasse, ficaria remetido a um estado vegetativo, com o corpo contorcido pelo pânico e a cara deformada com a máscara da morte.


A Aqueronte

Uma peça de classe incomparável. Uma enorme traça Aqueronte, mais vulgarmente conhecida por Caveira-da-Morte, dado o padrão que exibia no seu dorso, uma assustadora caveira de expressão fria e cativante. A Aqueronte era uma antiguidade que havia passado de geração em geração, sendo que o último dono, o Conde de Chambourcy, a deixou em legado ao Mestre Fausto, em honra da sua inigualável colecção de seres de cristal.

A lenda rezava que a Aqueronte vinha da Grécia dos heróis e dos deuses. Constava que a infame pertencia a Pitonisa que, no seu Templo de Delfos, o Oráculo de Apolo, adivinhava o futuro e via para além do tempo.

A Aqueronte era uma das suas duas companheiras, sendo a outra o Grifo Assírio, que se terá perdido numa das inúmeras trocas de dono ao longo dos séculos. Consta então que a Pitonisa ouvia o que a Aqueronte e o Grifo lhe diziam sobre o visitante que vinha à consulta do oráculo, e que eram portadores das vozes dos condenados, os esquecidos do reino profundo de Hades.

A Aqueronte seria a voz do barqueiro que levava os mortos para o submundo. Ela sabia sempre o que as pobres almas tinham para pagar neste mundo... e no próximo. O que o Mestre Fausto dizia era que nunca fizessem nenhuma pergunta à Aqueronte, a não ser que estivessem seguros que queriam mesmo saber a resposta. Não, o boneco de cristal não se iria mover e desatar a falar. A resposta viria mais tarde, após o segundo sono da noite. Por vezes, quem obtinha a resposta da Aqueronte durante o pesado repouso acordava insano, tresloucado, profundamente apático ou simplesmente suicidava-se em poucos dias.


Mas não lhe vou contar mais histórias de bonecos assustadores, ou de velhas lendas sem tempo. Vou-lhes contar a história de Ângela, e de como ela procurou descobrir o segredo de Mestre Fausto e dos Cristais malditos…

Sobre o óbvio

  Acordo, mas não desperto. As pálpebras pesam toneladas e o corpo está crucificado à cama. Levanto-me, mas não me ergo. Ergo-me, vou até à ...