Quadro IV – Glória
Enquanto as maças adoçam ao sol do fim do Verão
Os sorrisos das crianças elevam-se por entre nuvens e brisas frescas
O cheiro a terra lavrada enche-nos de esperança e conforto
Algures, para além dos limites da nossa existência, existe algo maior
E lá, não haverá morte
Tu e eu poderemos deambular pelo parque da cidade
Longe do terror dos céus de metal
Para lá do alcance dos gritos de desespero
Para lá das balas, da lama das trincheiras, do meu sangue nas tuas mãos
Para lá do desespero de sobreviver, que nos corrói e mata em vida
Para além do olhar de quem assiste ao nosso último momento
Envolto no riso imortal das crianças que nos rodeiam, felizes
Longe dessa amargura que te irá matar,
Longe do campo de batalha, onde me sobreviveste
Perto do sonho
Eu e tu, meu irmão, todos nós
Seremos um só
Quando a chuva me escorrer pela face e cair a meus pés
Quando o som das minhas palavras for como a seda dos teus beijos
Quando o dia nascer, finalmente limpo e luminoso
Eu serei como me desejaste, minha querida
O prometido
O dono do teu primeiro beijo
O amante que te cobre os pés de flores silvestres
O marido dedicado que te seca as lágrimas
Quando eu redescobrir o que é sonhar
Irei renascer, a teu lado
Permanecer
Envelhecer
E, feliz no embalo dos teus braços,
Morrer
E o sabor das maças será mais doce
E as nuvens mais altas, inalcançáveis
A terra transbordará de vida novamente
Como no mundo imemorial das histórias do meu avô
O espírito dos homens voltará a ser uno com a da Natureza
E seremos filhos de algo maior
E não mais, nunca mais
Deixaremos que esta batalha nos ensombre em esquecimento
Mas o barco partiu e voga por entre a tristeza e a despedida
Eu ficarei, entre ciprestes, de mão dada com os meus irmãos de armas
Certos de que cumprida foi nossa missão
E em profunda exultação, ascenderemos ao Paraíso
Longe deste marisma de morte e horror
Para lá do inferno dos homens, regressaremos
Unidos, como verdadeiros irmãos de sangue
Abandonaremos os corpos destroçados que nos prendem
E assim partiremos, sem dor
Sem temor
Regressaremos ao berço da eternidade
Como heróis
E num último fôlego
Gritaremos
Glória!
Glória!
E eternamente nosso será o reino dos Céus
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segunda-feira, 25 de outubro de 2010
sábado, 23 de outubro de 2010
O Regresso dos Heróis: Memórias de Batalhas Esquecidas, em 4 Actos
Quadro III – O Valor dos Homens
O dia ainda se espreguiçava no horizonte gelado, as ervas vergadas sob o peso da orvalhada serviam de testemunha à noite fria dos dias antes da lua nova. Estava na altura de partir em missão.
Os dois batedores avançavam por entre o matagal espinhoso, em busca dos ambicionados troféus, a prova de que são guerreiros de valor, os mais bravos entre seus pares. À medida que se embrenham entre a vegetação cada vez mais densa e o Sol aquece sob os seus ombros sabem que é hora de entrar na floresta escura, onde existem menos probabilidades de serem vistos pelo homem-branco. Esta vil e traiçoeira criatura, tão parecida com os seus irmãos de tribo e, no entanto, tão diferente. Ele não é como o Lobo que caça para a sua tribo quando precisa, ou como a cobra que se defende com presas venenosas quando acossada. Ele é mais como a chuva violenta do princípio da Primavera. Se a aldeia estiver no seu caminho quando esta surge a correr pelos desfiladeiros é engolida sem piedade, para nada mais restar, pessoa, casa ou memória.
Ouve-se um ronco baixo e profundo para além das árvores. Estamos no território do puma, o feroz leão-da-montanha… Aqui não é terra para principiantes, olhos, nariz e ouvidos não chegam para sobreviver, as mãos não são tão lestas a disparar a flecha e os pés trocam os passos por entre a folhada e os rochedos que afloram escondidos entre as moitas floridas e prenhes de néctar. Esta é a vida do batedor, a vida na fronteira e para além dela, da fronteira da terra, da fronteira do medo e da alma. Para lá da encosta há terra nova, quem sabe boa para milho e inhame, com água fresca a correr, boa para caça pequena que encha o pote ou até uma via de passagem das grandes manadas de bisontes. Mas para já, tem que lidar com o ronco, o medo e a expectativa…
O prémio para quem levar a pele da besta é a pena maior da ponta das asas da águia, um símbolo de virilidade e estatuto que qualquer homem deseja. Assim, os dois batedores desenham o plano e decidem agir. Agora, não haverá lugar para passos em falso, para pingos de suor que sublinhe o odor dos dois homens. Concentração máxima. Atenção aos detalhes. Rigor, disciplina e coração a bater como um tambor de guerra. O mais experiente retesa o arco e aponta a flecha para a orla da floresta. O ajudante rasteja em total silêncio em torno da fraga onde o portentoso animal descansa, a fim de o surpreender e assim assustar o senhor da montanha.
O momento adensa-se e o tempo pára. Num segundo serão heróis ou presas… Falta só mais um esforço… um metro para rastejar e um tiro certeiro… 3… 2… 1…
(…)
Nessa noite, dois irmãos de 8 e 6 anos regressam a casa, de sorriso largo e expressão de quem venceu a maior batalha da sua vida. Como heróis, entram em casa e beijam o avô, um antigo chefe Pikuni, conhecidos pelo homem-branco como tribo dos Pés-Negros. Inspirados pelas histórias de batidas e caçadas dos idos tempos de glória, as crianças contam como foi hoje caçar o grande puma, enquanto erguem em mãos o seu gatinho de estimação, que hoje foi a estrela no filme que decorreu ali mesmo atrás, a poucos metros do seu quintal. Juntos riem-se felizes e pedem ao avô para contar mais memórias de um mundo entretanto extinto…
O dia ainda se espreguiçava no horizonte gelado, as ervas vergadas sob o peso da orvalhada serviam de testemunha à noite fria dos dias antes da lua nova. Estava na altura de partir em missão.
Os dois batedores avançavam por entre o matagal espinhoso, em busca dos ambicionados troféus, a prova de que são guerreiros de valor, os mais bravos entre seus pares. À medida que se embrenham entre a vegetação cada vez mais densa e o Sol aquece sob os seus ombros sabem que é hora de entrar na floresta escura, onde existem menos probabilidades de serem vistos pelo homem-branco. Esta vil e traiçoeira criatura, tão parecida com os seus irmãos de tribo e, no entanto, tão diferente. Ele não é como o Lobo que caça para a sua tribo quando precisa, ou como a cobra que se defende com presas venenosas quando acossada. Ele é mais como a chuva violenta do princípio da Primavera. Se a aldeia estiver no seu caminho quando esta surge a correr pelos desfiladeiros é engolida sem piedade, para nada mais restar, pessoa, casa ou memória.
Ouve-se um ronco baixo e profundo para além das árvores. Estamos no território do puma, o feroz leão-da-montanha… Aqui não é terra para principiantes, olhos, nariz e ouvidos não chegam para sobreviver, as mãos não são tão lestas a disparar a flecha e os pés trocam os passos por entre a folhada e os rochedos que afloram escondidos entre as moitas floridas e prenhes de néctar. Esta é a vida do batedor, a vida na fronteira e para além dela, da fronteira da terra, da fronteira do medo e da alma. Para lá da encosta há terra nova, quem sabe boa para milho e inhame, com água fresca a correr, boa para caça pequena que encha o pote ou até uma via de passagem das grandes manadas de bisontes. Mas para já, tem que lidar com o ronco, o medo e a expectativa…
O prémio para quem levar a pele da besta é a pena maior da ponta das asas da águia, um símbolo de virilidade e estatuto que qualquer homem deseja. Assim, os dois batedores desenham o plano e decidem agir. Agora, não haverá lugar para passos em falso, para pingos de suor que sublinhe o odor dos dois homens. Concentração máxima. Atenção aos detalhes. Rigor, disciplina e coração a bater como um tambor de guerra. O mais experiente retesa o arco e aponta a flecha para a orla da floresta. O ajudante rasteja em total silêncio em torno da fraga onde o portentoso animal descansa, a fim de o surpreender e assim assustar o senhor da montanha.
O momento adensa-se e o tempo pára. Num segundo serão heróis ou presas… Falta só mais um esforço… um metro para rastejar e um tiro certeiro… 3… 2… 1…
(…)
Nessa noite, dois irmãos de 8 e 6 anos regressam a casa, de sorriso largo e expressão de quem venceu a maior batalha da sua vida. Como heróis, entram em casa e beijam o avô, um antigo chefe Pikuni, conhecidos pelo homem-branco como tribo dos Pés-Negros. Inspirados pelas histórias de batidas e caçadas dos idos tempos de glória, as crianças contam como foi hoje caçar o grande puma, enquanto erguem em mãos o seu gatinho de estimação, que hoje foi a estrela no filme que decorreu ali mesmo atrás, a poucos metros do seu quintal. Juntos riem-se felizes e pedem ao avô para contar mais memórias de um mundo entretanto extinto…
terça-feira, 19 de outubro de 2010
O Regresso dos Heróis: Memórias de Batalhas Esquecidas, em 4 Actos
Quadro II: O Bom Soldado
- Doutor ajude-me, por favor. Não se vá embora, oiça-me, eu preciso de falar com alguém…
Está uma manhã magnífica de sol e frio, o ar gélido paralisa o olhar de quem procura o seu momento de paz, um instante no desenfrear violento do infinito devir das coisas, uma fatia de tempo para saborear, um minuto de silêncio em honra dos heróis do passado. Nas ruas não há almas, apenas pessoas atarefadas e absortas no seu dia-a-dia, nem um som para além do ruído infernal do caos tranquilo da vida nos subúrbios, tudo está em paz, à medida que o mundo desaba e a esperança de cada um colapsa como um castelo de areia fustigado pelas ondas violentas da maré da inquietude. Um dia como os outros que se passaram e tornarão a passar.
- Eu era apenas uma criança… sabe doutor, nestas coisas nunca sabemos como seria se fosse diferente. Eu queria que tivesse sido diferente, queria saber que eu poderia ter sido diferente. O doutor percebe-me, não percebe? Eu sei que percebe, eu sei que me perdoa, eu sei que se há alguém que veja para além desta face destruída pelo horror é o senhor.
Um carro passa por uma poça de água e salpica a criança que vai para a escola. O seu vestido fica sujo de lama, mas a menina não se importa, segue contente. Pois assim são as crianças, nada as suja, nada as polui, são puras aos olhos de Deus. Que a graça do Senhor te acompanhe minha menina e te proteja dos males deste mundo.
- Estão lá fora, não estão? Eu sei. Eu sei que me aguardam, sei que me vão levar e me lançarão nas trevas a pão e água. Mas sabe doutor, eu já estou nas trevas, eu sou as trevas, eu tornei-me a morte.
Casas alinhadas, já um pouco velhas mas sólidas, como o bairro que as agrupa e as pessoas que lá vivem. Solidários uns com os outros, os vizinhos revezam-se a vigiar o bairro, os olhos atentos das senhoras perscrutam os jovens rapazes que planeiam alguma ou as raparigas atrevidas que, entre risinhos, escolhem os namorados entre os mais rebeldes e ‘maus rapazes’, pois assim é a ordem das coisas. Os homens jogam-se entre vinho barato e cigarros, falam do vazio que os preenche com o desapego insalubre de quem vive, de quem se torna em cascas vazias e gastas.
- A guerra doutor começa em nós, grassa feroz pelos campos dos sonhos incumpridos e torna-nos predadores. O doutor sabe o que é um predador? É uma besta sanguinária e descontrolada, que não para até desfazer entre presas e garras a sua vítima. Que se banha no seu sangue e guarda troféus nas paredes de seu covil. O que o doutor não sabe é que os predadores não são o topo da cadeia alimentar, oh não. São joguetes doutor, meros joguetes…
Quando a chuva falta e a terra greta ergue-se o pó da desconfiança e paranóia. O vento sopra como um animal faminto e os nossos corações desfazem-se entre estilhaços de sangue e crueldade. Ninguém sobrevive neste mundo, estamos condenados. Abençoados dos ignorantes que nada sabem destas coisas, pois deles será o inferno dos céus.
- Quando nós voltamos as bandeiras e cartazes enfeitavam todas as portas. As mulheres acenavam, os homens brindavam, os sinos das igrejas retorquiam e havia alegria no ar. Mas durou tão pouco doutor, foi apenas uma efémera luz que connosco gozou, aludindo a uma possível saída, um fim do túnel. Agora, para mim, o túnel é a luz e apenas a escuridão no fim me aguarda.
O dia avança e aquece. Disparam os aspersores automáticos que saciam os verdes tapetes de ilusões e enganos que cobrem os quintais das casas. Negligente, um rapazinho atravessa a estrada sem olhar e quase que é atropelado por um carro da polícia. Sem uma preocupação no mundo, aquele menino ia a correr, sem prudência mas com a divina providência a cuidar dele. Estava seguro nas mãos dos anjos.
- Ei vi o que o homem é capaz de fazer ao seu irmão. Vi corpos desfeitos de soldados a serem devorados pelos abutres e não me chocou menos o facto de usarem um uniforme diferente do meu. Vi políticos e senhores da guerra sorrirem à mesa do pequeno-almoço, enquanto decidiam o nosso destino. Vi a morte sorrir e a convidar-nos a violar aquelas pobres mulheres que, sem nada mais que as protegesse, valiam-se de preces vãs, pois Deus estava demasiado ocupado para as livrar do mal que se abatia sobre os seus ventres. Eu vi aquelas crianças, negras de fome, brancas de desespero, azuis de agonia e cinzentas como o céu que nos encobria. Eu matei crianças doutor. Eu matei crianças...
Ao passar pela casa velha e decadente, uma vizinha mais diligente assomou por entre os farrapos da cortina e viu um vulto. Era o pobre homem, prestes a cometer uma terrível desgraça…
- Obrigado por me ouvir doutor. Sei que poderei sempre contar consigo, mas o meu momento chegou. Ir-me-ei juntar a meus irmãos. Juntos, como heróis, regressaremos para perto de Deus, a seu lado ficaremos sentados a contemplar o infinito, homens por fim, em paz. O soldado cumpriu o seu destino. Eu não posso escapar doutor, sabe porquê… eu matei crianças doutor, eu vi-as a correr para mim, em absoluto pânico e terror, a pedir guarida em meus braços, a gritar, a gritar em absoluto desespero, absoluto desespero… eu tive tanto medo, tanto medo… elas estavam em pânico, elas queriam ajuda, doutor, elas queriam ajuda… eu perdi a consciência e quando despertei, tinha despejado o cartucho de balas sobre elas… os seus corpos tombados sobre a terra suja e molhada de sangue, a inocência morreu nesse dia doutor, eu matei crianças… eu não aguento mais doutor, eu não aguento mais as noites de vigília, o horror que me consome, eu quero chorar doutor, mas não consigo, ajude-me a chorar…
Lá fora, a polícia anunciava ao ocupante que estava a cercar a casa, pedia para que baixasse a arma e saísse tranquilamente, que prometia ajudar, se ele baixasse a arma.
- Eram tão pequenas, talvez uns 5, 6 anitos, talvez irmãos e primos, talvez filhos e netos das mulheres e homens tombados em resultado do nosso raid sobre a aldeia. Talvez fossem os meus filhos, talvez fossemos nós que lá estávamos doutor, eu e o senhor, a correr para os braços de um desconhecido, uma criança grande com uma AK47 nas mãos… eram os meus meninos e meninas, filhos de Deus… eu matei crianças doutor…
Quando o negociador da polícia e os dois atiradores entraram na casa já era tarde demais. O bom soldado era agora uma carcaça, uma casca vazia, terminara sua missão com um disparo de caçadeira na boca.
Com a cabeça deitada no seu colo, com olhos tristes de quem foi a testemunha final do martírio do herói, lá estava ele, o seu cão, o seu confessor, a sua única companhia nestes últimos anos, que ouviu e registou as últimas horas do seu dono neste mundo...
- Doutor ajude-me, por favor. Não se vá embora, oiça-me, eu preciso de falar com alguém…
Está uma manhã magnífica de sol e frio, o ar gélido paralisa o olhar de quem procura o seu momento de paz, um instante no desenfrear violento do infinito devir das coisas, uma fatia de tempo para saborear, um minuto de silêncio em honra dos heróis do passado. Nas ruas não há almas, apenas pessoas atarefadas e absortas no seu dia-a-dia, nem um som para além do ruído infernal do caos tranquilo da vida nos subúrbios, tudo está em paz, à medida que o mundo desaba e a esperança de cada um colapsa como um castelo de areia fustigado pelas ondas violentas da maré da inquietude. Um dia como os outros que se passaram e tornarão a passar.
- Eu era apenas uma criança… sabe doutor, nestas coisas nunca sabemos como seria se fosse diferente. Eu queria que tivesse sido diferente, queria saber que eu poderia ter sido diferente. O doutor percebe-me, não percebe? Eu sei que percebe, eu sei que me perdoa, eu sei que se há alguém que veja para além desta face destruída pelo horror é o senhor.
Um carro passa por uma poça de água e salpica a criança que vai para a escola. O seu vestido fica sujo de lama, mas a menina não se importa, segue contente. Pois assim são as crianças, nada as suja, nada as polui, são puras aos olhos de Deus. Que a graça do Senhor te acompanhe minha menina e te proteja dos males deste mundo.
- Estão lá fora, não estão? Eu sei. Eu sei que me aguardam, sei que me vão levar e me lançarão nas trevas a pão e água. Mas sabe doutor, eu já estou nas trevas, eu sou as trevas, eu tornei-me a morte.
Casas alinhadas, já um pouco velhas mas sólidas, como o bairro que as agrupa e as pessoas que lá vivem. Solidários uns com os outros, os vizinhos revezam-se a vigiar o bairro, os olhos atentos das senhoras perscrutam os jovens rapazes que planeiam alguma ou as raparigas atrevidas que, entre risinhos, escolhem os namorados entre os mais rebeldes e ‘maus rapazes’, pois assim é a ordem das coisas. Os homens jogam-se entre vinho barato e cigarros, falam do vazio que os preenche com o desapego insalubre de quem vive, de quem se torna em cascas vazias e gastas.
- A guerra doutor começa em nós, grassa feroz pelos campos dos sonhos incumpridos e torna-nos predadores. O doutor sabe o que é um predador? É uma besta sanguinária e descontrolada, que não para até desfazer entre presas e garras a sua vítima. Que se banha no seu sangue e guarda troféus nas paredes de seu covil. O que o doutor não sabe é que os predadores não são o topo da cadeia alimentar, oh não. São joguetes doutor, meros joguetes…
Quando a chuva falta e a terra greta ergue-se o pó da desconfiança e paranóia. O vento sopra como um animal faminto e os nossos corações desfazem-se entre estilhaços de sangue e crueldade. Ninguém sobrevive neste mundo, estamos condenados. Abençoados dos ignorantes que nada sabem destas coisas, pois deles será o inferno dos céus.
- Quando nós voltamos as bandeiras e cartazes enfeitavam todas as portas. As mulheres acenavam, os homens brindavam, os sinos das igrejas retorquiam e havia alegria no ar. Mas durou tão pouco doutor, foi apenas uma efémera luz que connosco gozou, aludindo a uma possível saída, um fim do túnel. Agora, para mim, o túnel é a luz e apenas a escuridão no fim me aguarda.
O dia avança e aquece. Disparam os aspersores automáticos que saciam os verdes tapetes de ilusões e enganos que cobrem os quintais das casas. Negligente, um rapazinho atravessa a estrada sem olhar e quase que é atropelado por um carro da polícia. Sem uma preocupação no mundo, aquele menino ia a correr, sem prudência mas com a divina providência a cuidar dele. Estava seguro nas mãos dos anjos.
- Ei vi o que o homem é capaz de fazer ao seu irmão. Vi corpos desfeitos de soldados a serem devorados pelos abutres e não me chocou menos o facto de usarem um uniforme diferente do meu. Vi políticos e senhores da guerra sorrirem à mesa do pequeno-almoço, enquanto decidiam o nosso destino. Vi a morte sorrir e a convidar-nos a violar aquelas pobres mulheres que, sem nada mais que as protegesse, valiam-se de preces vãs, pois Deus estava demasiado ocupado para as livrar do mal que se abatia sobre os seus ventres. Eu vi aquelas crianças, negras de fome, brancas de desespero, azuis de agonia e cinzentas como o céu que nos encobria. Eu matei crianças doutor. Eu matei crianças...
Ao passar pela casa velha e decadente, uma vizinha mais diligente assomou por entre os farrapos da cortina e viu um vulto. Era o pobre homem, prestes a cometer uma terrível desgraça…
- Obrigado por me ouvir doutor. Sei que poderei sempre contar consigo, mas o meu momento chegou. Ir-me-ei juntar a meus irmãos. Juntos, como heróis, regressaremos para perto de Deus, a seu lado ficaremos sentados a contemplar o infinito, homens por fim, em paz. O soldado cumpriu o seu destino. Eu não posso escapar doutor, sabe porquê… eu matei crianças doutor, eu vi-as a correr para mim, em absoluto pânico e terror, a pedir guarida em meus braços, a gritar, a gritar em absoluto desespero, absoluto desespero… eu tive tanto medo, tanto medo… elas estavam em pânico, elas queriam ajuda, doutor, elas queriam ajuda… eu perdi a consciência e quando despertei, tinha despejado o cartucho de balas sobre elas… os seus corpos tombados sobre a terra suja e molhada de sangue, a inocência morreu nesse dia doutor, eu matei crianças… eu não aguento mais doutor, eu não aguento mais as noites de vigília, o horror que me consome, eu quero chorar doutor, mas não consigo, ajude-me a chorar…
Lá fora, a polícia anunciava ao ocupante que estava a cercar a casa, pedia para que baixasse a arma e saísse tranquilamente, que prometia ajudar, se ele baixasse a arma.
- Eram tão pequenas, talvez uns 5, 6 anitos, talvez irmãos e primos, talvez filhos e netos das mulheres e homens tombados em resultado do nosso raid sobre a aldeia. Talvez fossem os meus filhos, talvez fossemos nós que lá estávamos doutor, eu e o senhor, a correr para os braços de um desconhecido, uma criança grande com uma AK47 nas mãos… eram os meus meninos e meninas, filhos de Deus… eu matei crianças doutor…
Quando o negociador da polícia e os dois atiradores entraram na casa já era tarde demais. O bom soldado era agora uma carcaça, uma casca vazia, terminara sua missão com um disparo de caçadeira na boca.
Com a cabeça deitada no seu colo, com olhos tristes de quem foi a testemunha final do martírio do herói, lá estava ele, o seu cão, o seu confessor, a sua única companhia nestes últimos anos, que ouviu e registou as últimas horas do seu dono neste mundo...
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
O Regresso dos Heróis: Memórias de Batalhas Esquecidas, em 4 Actos
(Nosound - Fading Silently)
Acto I: Em ombros
O ranger do soalho acompanha o ranger das portas da memória, à medida que estas se entreabrem com o soar dos passos sob o alpendre. O aproximar do mensageiro acelera o pendular ritmado da cadeira de baloiço.
Nada lhe importa agora. Nada se sobrepõe à sua memória, que agora flui selvagem entre as portas escancaradas, varrendo qualquer esperança ou cor. O Mensageiro está à porta. Ela sabe o teor da missiva. Ela sabe o que a espera. E sabe, no íntimo recanto do seu peito onde antes o guardava que não mais o irá esperar. Ela sorri, ansiosa. Levanta-se, com a calma solene do olho da tempestade, apoia os seus braços cansados de preces incontáveis sobre os apoios gastos do berço áspero em que se aninhava noite após noite de espera e ilusão e, como Cleópatra aceitou o cesto de figos onde vinha a áspide, também ela irá aceitar a carta.
O texto não a surpreendeu, chocou ou sequer a comoveu. Dizia o que ela já sabia desde o dia em que ele partira. Algures, num país longínquo, agreste e em caos, morrera em combate o homem que um dia a tinha beijado na boca pela primeira vez, que um dia lhe tinha oferecido flores silvestres pelo aniversário, que um dia se zangou com ela quando desabafou que não se achava bonita, que um dia lhe secou as lágrimas com um sorriso meigo, que um dia a tomou no altar e que um dia partira para a guerra…
No dia do funeral chovia ininterruptamente, o céu desabava sobre os poucos que se aglomeravam para ver passar o cortejo. Em ombros, era levado o caixão de um soldado, perante os olhos de sua viúva, triste como a noite que para sempre iria cobrir os restos mortais de mais um herói que regressava tombado, morto por gente que nunca conhecera, por razões que nada lhe diziam, lançado às feras, um gladiador perdido numa terra distante...
Acto I: Em ombros
O ranger do soalho acompanha o ranger das portas da memória, à medida que estas se entreabrem com o soar dos passos sob o alpendre. O aproximar do mensageiro acelera o pendular ritmado da cadeira de baloiço.
Nada lhe importa agora. Nada se sobrepõe à sua memória, que agora flui selvagem entre as portas escancaradas, varrendo qualquer esperança ou cor. O Mensageiro está à porta. Ela sabe o teor da missiva. Ela sabe o que a espera. E sabe, no íntimo recanto do seu peito onde antes o guardava que não mais o irá esperar. Ela sorri, ansiosa. Levanta-se, com a calma solene do olho da tempestade, apoia os seus braços cansados de preces incontáveis sobre os apoios gastos do berço áspero em que se aninhava noite após noite de espera e ilusão e, como Cleópatra aceitou o cesto de figos onde vinha a áspide, também ela irá aceitar a carta.
O texto não a surpreendeu, chocou ou sequer a comoveu. Dizia o que ela já sabia desde o dia em que ele partira. Algures, num país longínquo, agreste e em caos, morrera em combate o homem que um dia a tinha beijado na boca pela primeira vez, que um dia lhe tinha oferecido flores silvestres pelo aniversário, que um dia se zangou com ela quando desabafou que não se achava bonita, que um dia lhe secou as lágrimas com um sorriso meigo, que um dia a tomou no altar e que um dia partira para a guerra…
No dia do funeral chovia ininterruptamente, o céu desabava sobre os poucos que se aglomeravam para ver passar o cortejo. Em ombros, era levado o caixão de um soldado, perante os olhos de sua viúva, triste como a noite que para sempre iria cobrir os restos mortais de mais um herói que regressava tombado, morto por gente que nunca conhecera, por razões que nada lhe diziam, lançado às feras, um gladiador perdido numa terra distante...
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