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A mostrar mensagens de Março, 2011

Regresso

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Pouco a pouco a calma regressa.

Cruzam-se olhares
t(ro)cam-se as mãos,
breve despertar numa dança irreverente.

Indiferente a cor do sol
apenas o azul permanece.

Em golfadas de luz nua
respirares apressados
passos em musica,
inventados os gestos
suspensos os dias,
em que as noites
são madrugadas tardias
as vontades num salgueiro
junto ao rio
num riso cristalino.

Acordo cedo.
E regresso a casa.

Trincheira

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Sei que às vezes tenho sido àspero e que magoo. Sei que me irrito por pouca coisa e que me deixei colocar do outro lado da barricada, nas trincheiras do Restelo. Sei que serei às vezes boçal e detestável e que nem nem sempre pareço ter um coração.

Sei que masquei e masco a vida como as velhas "Gorila" já depois de remastigadas e secas, sem nunca ter sabido fazer "balões" com elas, sem as colar debaixo das mesas nem ter onde as cuspir sem parecer demasiado nojento. E assim por pudor, vou mascando já com as maxilas doloridas e os dentes cariados.

E é tudo. O resto é o muro alto que um dia olhei, agora, ou amanhã, com indiferença, e me recuso a transpor, apesar dos gritos do sargento.

Ao lado jardim

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Ao encontro dos batimentos onde encosto o ouvir
no chão, do chão, entre ele e o suspiro búzio
seguimos pelo troco até à ponta fina da inspiração azul…
Temos o olhar sincronizado no trajecto
que termina num piscar lacrimejante de olhos do sol.
Vês laranja avermelhado com eles fechados
e eu, com eles abertos vejo-te retalhado em luz e sombras
entre pensamentos que se perdem num cordão umbilical de letras
e que descansam na lupa do silêncio que se incorpora com o toque falangico descrito em sulcos apertados.
No chão, do mesmo chão,
seguimos pelo tronco até à ponta diluída da expiração negra…
Temos os beijos sincronizados no trajecto
que termina num céu varicelado de estrelas.
Vês brilhos presentes com eles abertos
e eu, com eles fechados desmaio pestanas em calda de açúcar.
“Porque tens os olhos tão fechados?”
É para te bem-querer melhor.

Saudade

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Quando penso
que consigo manter a promessa,
a chuva traz-me
a tua memória
envolta
em céu develudo azul
cintilante
o teu olhar,
de esperas
e palavras proibidas.

Danço na chuva
uma musica antiga,
assim
a fruta madura,
o sentir sem nome,
o corpo em febre,
as
mãos
vazias
de
ti
.

Como resistir aos dias em que a memória me trai?

Colar de bolhas aos pés da cama

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As pessoas descrevem-me como sendo uma cabeça que deixa escapar entre fios de cabelo areia de praia. Para quem tem o mar aos pés da cama sabe que mergulhar e tocar com o nariz no fim do colchão implica uma perícia de ar afogado nos pulmões e a garantia que a fada Almo, menina almofadada com os pés pequeninos e dedos de bolinhas serve um beijo de sopro.
Ficar com o quinto dedo preso numa dobra apertada de lençol torna-se gratificante até que a anóxia dispara os olhos.
Nessa noite, de dedo garrotado, não houve onda, nem brisa, nem bolhas que fizessem o percurso descendente até ao meu nariz. Já com a assistolia presente no meu pensamento comecei a arquivar recordações e a reciclar outras porque não gosto de morrer e deixar encargos para os outros. De testamento enviado à fada Almo entreguei o corpo ao mar e esperei sem nada esperar.
Quando o nada se interrompeu e o susto apareceu espreitei de coronárias encolhidas e, sem saber se o fôlego seria aliado tive outros olhos a murmurar para mim:

Quem vê caras...vê Corações

Precisamos estar juntos na forma de pensar, de agir, para estar paz. Uma paz clara de ser percebida que é a paz da convivência. É a paz que vem de ser aceite, a paz de participar de um movimento social, de identificar-se com um grupo e fazer parte dele.Mas porque todos os dias ficam iguais e temos a sensação de estarmos correndo ininterruptamente atrás de algo que nunca alcançaremos: a felicidade e a paz interior. Parece que a realização destas duas qualidades fica sempre adiada para o dia de amanhã....

Lá atrás, quando chegávamos à frente do nosso mestre,no momento em que ele passava, todos nós abaixávamos a cabeça e a encostávamos no chão evitando trocar sequer um olhar para não incomodá-lo, porque sabíamos que ele sentia os nossos corpos no seu próprio corpo e nossos pensamentos como se fossem seus. Não era só a nossa limpeza física que levávamos, era também a nossa mente vazia. Vazia de qualquer tipo de problema...

O acto de estar presente naquele momento, estar atenta a cada pessoa…

5.4 (Conclusão)

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Quatro passos para mudar. Mudar quem pensamos que somos, mudar o que não fomos, mudar a sensação de vazio que nos preenche, mudar o ritmo a que bate o coração inquieto.
Sempre me interroguei acerca da necessidade quase permanente que temos de encenar a nossa vida, em vez de a viver, porque será assim tão mais importante parecer do que ser?

Queria-te perguntar, porque me olhas assim? Não sou eu o teu reflexo, serás tu o lado de lá do espelho onde eu me perco sempre que sonho, sempre que mergulho na noite clara da nossa memória paralela, onde desconstruímos prazeres, descodificamos desejos, desconectamos anseios, desfazemos certezas e desmultiplicamos os dias em miríades de pequenas parcelas de interacção externa entre mim, tu e os que estão simultaneamente dentro e fora de nós?

Sempre me perguntei, porque temos que negociar, negar ou aceitar defeitos e vícios, nossos e dos que por nós passam e através de nós se reflectem? Sempre te quis perguntar se subirias comigo à montanha da nos…

Duche

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Tu, tão formosa e cheia de graça, detrás desse vidro fosco cuja sombra clara me rouba o fôlego. Como se o brilho da tua pele me tornasse baço e oleoso, na mesma medida em que o gel te lava a alva pele de fada. Como se inflacionasse a minha flácida barriga de pouca cerveja e de muita fome de vida. Barriga de bicho do mato, sem letras nem óculos de ver a mesma vida, astigmatisada. Abdomenizo-me até à hiperventilação, enquanto tento pescar no mar revolto da minha trapalhice, 250 gramas de conversa de circunstancia.

Sais do duche, olhas-me esperando algo que já vomito ainda antes de abrir a boca e rebobinar mentalmente a alegadamente bela tirada com que pretendia quebrar o gelo. Sinto as têmporas dilatarem com o ricochete da tua toalha turca, com o reflexo esbranquiçado do teu olhar trocista de observadora atenta.

-"Desculpa hoje, cada vez que abro a boca ou entra mosca ou sai..."

E não acabei, inibido com a vergonha de me envergonhar. Como se estivesse preso no corpo de há 20…

Instantes finais

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III


Tento reconhecer-me num raio de sol
o vento agita a musica

dentro de mim,

confrontos sangrentos

a pele rasgada,

o corpo em febre

uma gota de água...



...a paisagem é agradável

pedaços de céu

um bando de aves

em torno da minha árvore

ensaio o voo

os telhados amontoam-se

continuo parada



ruas em prédios

multidão anónima

Lisboa

sem rio



já não há segredos

tudo foi dito

o mistério das flores

desvendado

o luar mágico

assim

o bosque secreto das palavras

sem nexo,

o tempo

devora o dia

i

n

d

i

f

e

r

e

n

ç

a ?!



Não sei o que sinto,

orgulho ferido

espelhos liquefeitos no olhar

pressa de viver

um breve gostar

sem saber de quem



a transparência do olhar

(verde)

provocou

a confissão

estranha,

confusa,

as palavras jorraram

numa tempestade

de Sol

o vermelho das faces

e dos morangos.



Silêncio.

Ritual.Rotina

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Gostava de lhe morder a polpa dos lábios até ficar em sangue, em carne viva, e era sempre assim quando chegava ao enorme e vazio apartamento antigo dele, no centro da cidade. Beijava-o até doer aos dois. Gostava do sabor adocicado da hemoglobina dele, do perfume que se lhe desprendia do hálito, de lhe sorver o fôlego.- Não sabes beijar como as pessoas normais, caramba? Tem de ser sempre até à hemorragia? – perguntou-lhe ele, da terceira vez - Que forma mais estranha de amar...- E há outra?Enterneciam-na as erecções inesperadas de rapazinho, sempre que o abraçava. Depois beijava-o, como se faz aos miúdos quando se magoam.- Pronto... já passou.Despia-o como se a roupa estivesse encharcada em ácido, com a mesma urgência dos incêndios, como só se é capaz quando se chega carregada de culpa. Pedia-lhe sempre que, por favor, não fosse gentil, não fosse como um animal dócil porque ali quem precisava de ser amansada era ela. Entrelaçavam-se como duas árvores, membros, ramos, troncos, mãos, pon…

5.3

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“Olha nos meus olhos e não digas o que vês. Diz-me por favor o que não vês”


A criança-prodígio a todos maravilhava com os seus discursos sobre a beleza das coisas, sobre a amizade que nos une e narrava os dias de felicidade em que as ruas eram pátios vivos de brincadeiras e jogos entre meninos e meninas, em alegre convívio e sob o atento mas sereno olhar vigilante das mães, avós e vizinhas que se abeiravam dos parapeitos para assomar o rebuliço que fazia pulsar a cidade.

A criança-prodígio conta-nos de coisas que deixam mais leve o coração, conta-nos de coisas que assim queríamos que fossem contadas, daquela exacta maneira, com aquele exacto desfecho em aberto, com aquele preciso tom de que precisa de dizer o que tanto precisamos de ouvir contar. Homens e mulheres, professores, doutores e gente de todos os ofícios, credos e cores se junta, para a ouvir contar sobre a beleza das coisas, os dias felizes. Então o menino conta como foi, conta como é o mundo que existe na sua mente, lavra…

Cimento

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Ao sair, deixei de respirar,
a atmosfera violeta
apaga-me a luz da consciência,
sinto o sangue jorrar pelos olhos fora.

Passo daqui a pouco nessa esquina obscura
de onde me fazes tropeçar,
regurgitar, vomitar, a minha incapacidade de expressar
todo o silêncio que vela o espantalho oco da minha inexistência funcional.

Quero meter os dedos pelos olhos dentro
e berrar até emudecer,
partir para outro pântano longínquo,
e por lá nadar habilmente como faço nesta piscina de cimento.

Transparência

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Vejo em ti:
Esse egocentrismo do teu silêncio.
Esse superior desinteresse pelo mundo.
Essa tua altivez no nunca pedir.
Essa autoconfiança dos que acabarão sós.
Essa tão característica disposição para o desastre.

Chá das horas mortas

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Quando te vi, tu e ela, pela primeira vez, a tua língua de trapos estava dilatada de anos e esses anos encarregaram-se de amputar a respiração do teu coração fraco. Nesse dia não fiquei muito tempo a olhar para ela. Olhar para ti sempre me deu mais prazer aos sentidos.
Mais tarde, o teu tronco surpreendeu-me a jorrar de um sangue que te agasalhou de coágulos até à exaustão da grande circulação. Manchei todo o meu branco mas, ainda assim, não deixei que ela me falasse. Preferi escutar-te e com isso lembrar-me do quanto me pediste para ficar perto de ti.
Próximo da hora das estrelas, os teus membros inferiores encharcados até aos joelhos de tosse produtiva planearam ceder à força do aperto e antes que conseguisse descalçar-te aquela bota, já ela te tinha vestido collants cor de vazio. Para a próxima prometo-te que a deixo entre o murro pré-cordial e os lençois da tua cama.
Quando o sol já ia a rebentar no escuro da noite, senti o peso apertado da tua mão leve no meu braço e antes de acalma…

5.2

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Permite-me que te diga, meu amor
Que para além das torpes palavras de meu torpe discurso
Existe toda uma inexplorada dimensão de meu ser
E, ainda mais além, para além do que me possas dizer
Todo um outro ser por te contar, por te dizer, por te falar
Pois quando digo o que te digo, meu amor
Sem trauma, profecia, dogma ou queixume
Sei que sabes que nada sei de ti, pobre de mim
Apaixonado por uma chama sem lume, fria como o brilho das estrelas
Cresço daninho por entre os campos do teu peito
Deserto de mim, de finas areias fustigado
De teu amor em mim não encontrar em nenhum lado

Permite-me que te escreva, meu amor
Que no Mundo inteiro não há salvação, nem terá que haver
Resta nada mais que aprender a destilar o sentimento de nunca ter
Sofrer pelo que que te disse um dia em sonhos
Entre arrepios medonhos me envolvo de pensar
Que um dia terei ousado por fim sentir,
Sonhar
Viajar entre a bruma da tua manhã, invisível entre suspiros
Nos teus olhos cravejados de luar, sem que nunca o saiba…

O brandir da Espada

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O brandir da espada,
o grito libertador,
o peito fremente, fermenta a populaça no agitar das bandeiras,
Ovação, triunfo, aclamação.

Respirar fundo,
olhar em volta,
esgares sem convicção,
o perfil lunar da face ascendente.

Cai o pano

Descende da face lunar, o perfil sem convicção,
esgares em volta, um olhar, fundo, respira.
Aclamadas as bandeiras agitadas,
Fermenta a populaça num triunfo ovacionado.

Fremente, o peito liberta o grito da espada brandida, outrora.
Como um pano caído. Escarlate.

Era uma vez

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Era a primeira vez que Dê andava de avião, estava feliz, e suspirou de prazer no momento da descolagem e nesse exacto momento Agá pariu um filho no táxi parado no trânsito da A5, o motorista ainda chamou o 112 mas teve que suar as estopinhas para enfrentar aquele imprevisto, ele com 22 anos , novato na vida e na profissão, o táxi era do pai e nele fazia uns biscates para ajudar o curso de Direito. Quando o momento chegou viu uma criatura com uma aragem de cabelo preto espigado que nascera aos gritos nos seus braços, parecia saudável pensou ele tão feliz ficou com o suor colado nas costas, nunca julguei que isto me iria acontecer e ela é tão bonita. No hospital foi muito bem tratado, sentia-se uma espécie de herói, pancadas nas costas, sorrisos, você vai ser o padrinho era o que a mãe dizia, vai ter o seu nome, chama-se Francisco não é, ela vai chamar-se Francisca, eu até gosto muito do nome, ele sentiu o calor empapar-se no corpo, pegue na sua afilhada, sou muito desajeitado, vá, seg…