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A mostrar mensagens de 2011

Cliché das 3 da manhã.

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Jeff Buckley foi uma gota de cristal num rio imerso de ruídos sentimentalistas. Sofredor da mediocridade do mundo, celebrava desenfreadamente a dor que o mundo lhe provocava. Deambulava-se pela vida com o desejo ardente de paz e felicidade. Via-se, também, constantemente fustigado pela necessidade de descobrir a essência da vida e do amor. Apesar de toda esta complexidade aliada à sua pessoa, Buckley carregava paletes de exaltação às maravilhas com que a vida nos podia brindar. O mundo via um sonho com pernas passear-se por ele. Era ele, era o Buckley. O presente é uma rajada de vento futura de um pretérito perfeito cujo alento resume-se ao intento de destruir o que já foi feito. Consciente da efemeridade da vida, julgava que seria sempre demasiado novo para dar pequenos passos e sempre demasiado velho para querer alcançar a poltrona. Intrigado no que se baseavam os alicerces da vida, edificava sucessivamente sonhos e mais sonhos. Eram sonhos sonhados por um sonho. Eram sonhos de uma …

30 segundos

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Imaginem só, como dizia o Lennon
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Um mundo sem ganância, desespero, crueldade
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Sem traço de violência, avareza ou maldade
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Onde me sinta digno, digno de ser um entre tantos
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Tantos que por aqui passam, sem se dignarem a olharem
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Absortos, entre pensamentos vazios a vogar
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Compram pedaços de si entre perfumes e consolas de jogos
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Decidem quem são pelas marcas e logos
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E constroem castelos no ar
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Com total desprendimento por quem está a olhar
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Por quem procura atenção, consolo ou um gesto gentil
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Longe do ritmo demente e febril
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Dos que por terem posses não se possuem de verdade
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E no afã de consumir se consomem e ardem
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Queimando o que há, o que houvesse para ter


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Relegando em vida o verbo ser
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E eis-nos como formigas, aflitas e histéricas
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A correr entre lojas centrais e periféricas
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A procurar o que não temos por ser o que não somos
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Louvamos um deus menino para não parecer mal
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Mas o nosso deus encarnado chama-se pai natal
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E corremos, compramos, encantados de…

Circo à la minute

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Na tenda do chá, onde os pensamentos fervem em poucos malabarismos e as palavras querem-se sem açúcar, trocam-se duas colheres de conversa.

Apesar de não existir uma porta a trancar a entrada, nunca aparecem mais presenças e isso torna a atmosfera da tenda como o interior de um balão de ar quente. Por esse motivo o bule foi dispensado por falta de utilidade e mais tarde foi contratado o sopra-chá, que para além de soprar para dentro das chávenas, não tem consentimento para fazer mais nada. Sopra à vez, de forma neutra e usa um sopro diferente para cada chávena por uma questão de higiene.
A água para a infusão, essa, escorre pelas paredes suadas da tenda e deixa todos inquietos com o movimento de bailarina destas. Quem morre de ansiedade são as saquetas que incham de contentamento só por imaginar a água trapezista.
Finalmente, as colheres tilintam contra a porcelana murmúrios convexos no mesmo instante em que o vórtice aturdia o olhar do sopra-chá.

Ao fim de algum tempo, o som metálico, ri…

Palmas compassadas que não ritmavam com as minhas

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_É hoje o concerto! Temos bilhetes para um camarote ! _Quantas pessoas podem estar no camarote ? _ Acho que cinco… _Tens mesmo o bilhete do camarote? Onde é que o arranjaste ..? _ Não te digo !! tenho !! e é hoje ! …rias-te …
Esperávamos  há meses pelo concerto do Gilberto Gil , ao vivo no Coliseu . Ouvíamos todas as músicas, vezes e vezes sem conta. O “Realce”, rolava no gira-discos, sempre para o mesmo lado e sem tonturas ! Ouvíamos e dançávamos, horas seguidas, tardes inteiras. Sabíamos as letras de cor.
“Realce …..Quanto mais porpurina …melhor …l ala la ….”
Pulávamos  e respirávamos tudo o que era positivo naquelas músicas que só  nos faziam crer que tudo, mesmo  tudo e apesar de tudo  …iria ficar sempre bem .
_ Tens mesmo os bilhetes ??!! Eu nem acredito - É só um bilhete,  só um  , parva ! É um camarote … _E quem é que vai ? _ Vamos nós todos … - Mas somos mais que cinco…. _Não faz mal, vais ver que cabemos lá todos .
Doía-me a barriga , a espera dava-me cólicas e  formigueiro na boca do estôm…

MÚSICA DE NATAL

“Acordei de noite. Estava frio, muito frio, e senti os pés gelados e a
alma dormente. Esperei que passasse. Fechei os olhos, enrolei-me na manta
pesada. Fiz de conta que não era eu que estava ali. Podia ser que a vontade
adormecesse. Não demorou muito tempo, e tive de me levantar. Já é tempo.
Arrastei-me até à divisão contígua, os pés descalços quase roxos. Por
não conseguir endireitar as costas nem dobrar as pernas totalmente, tive
dificuldade em sentar-me. A custo o jacto saiu, e o alívio foi imediato. Só
quero voltar a dormir, mas não posso. O dever chama-me e há gente à minha
espera. São horas.
Talvez devesse cortá-las. São espessas e estão sujas. Mas protegem-me
do ar cortante da rua. O mesmo casaco, as mesmas botas pretas. Porque me tremem
tanto as mãos? Malditas artroses. Custa-me agarrar esta côdea de pão duro e o
café está queimado. Mas, cá vou novamente.
Tudo preparado. Toma, come que precisas porque estás grávida. E tu
também meu querido. Bebe o leite. Olhe, que desta vez fica mais longe…

Trauteava rock em teclas dum piano clássico, enorme!

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Passava os dedos como quem toca teclas de piano no muro alto
Cantarolava baixinho porque não sabia cantar alto
Os dedos davam-lhe as notas imaginadas, os murmúrios confortavam-lhe apertos na garganta .

Olhava o muro alto, lá em baixo uma praia de pescadores, sempre a assustou aquele muro desequilibrado, nem percebe como ninguém cai dali abaixo, nem percebe como alguém caí assim …de si abaixo !
Tocava um piano imaginário , fazia sons de garganta .

Lembrava a praia , a areia molhada numa noite fria …quantos anos ? .. vinte ? …mais …talvez trinta ...

Lembrou barcos de pesca com pescadores encardidos do sol e do salitre , histórias de marés e de raia miúda , conversas noite fora , encostados a cascos frios… lembrou-se do “Mar à Vista” ….

Passeava encostada àquele muro que nunca entendeu , tocava as notas que sempre gostou de ouvir . E aquela cor , aquela cor de pescadores, encardidos de salitre, aquela cor, que se esbatia na sua memória, não lhe saía da cabeça .

Trauteava rock em teclas dum …

Notícia para seres descontínuos (ou o amanhã há-de vir)

Como seres descontínuos arrastámo-nos pelos caminhos

Em busca de um novo alento para as almas já velhas e gastas

Esburacadas por tanto ver e sentir...mas usadas por tão poucas pérolas.

Como partículas errantes, procurámos a cura da carência ancestral:

Em todos os lugares errados, moradas incertas, caras anónimas,

Corpos e copos vazios, mas cheios de nadas.

Apenas uns rasgos de esperança, somente uns tragos de dor ou prazer.

Onde encontrar? Quem? Porque não vieram as respostas às horas marcadas?

Como fazer? Esperar. Ainda. Tentar encontrar, dissecar, compreender.

Mas, para já, o pôr do sol trilhará uma linha contínua:

O amanhã há-de vir e chegará!

Um sítio róseo e imaterial,

Onde, em lágrimas e sangue, nos agarraremos a sorrir

Onde enfim alcançaremos um destino maior, tavez melhor,

Onde, pelo menos por instantes, não tornaremos a cair.

Lei

Bálsamo de outrora.Outrora,a inocência escrevia,E a imaginação,essa sem regraou controlo...Ia plantando a felicidade nos jardins,e alimentando os sonhos de mão cheia.
Dou por mim a chicotear-me,Quando há horas de silêncioE o embalo me traz quimera,Utopia proibida, ilimitada.Agora apenas me limito,
limitado a limitações,a vidraças intransponíveis.Avassalado por realidades reais...empíricas em demais.
Um esforço para manter o equilíbrio,Deixar os pés pela ponta dos dedos,em busca de uma ampulheta simétrica,castigadora, entre o real e a fantasia.Um contraste absurdo entre o espaço,e o tão impiedoso Tempo.
A minha loucura nasceDestas frias paredes,Por mim ornamentadas.Erguidas à luz da lei humana.

Desafio: O meu Conto de Natal

Natal,

para alguns, é paz, religião, religação, comunhão

para muitos é compras para dar à avó, para a avó dar aos outros, para outros que nem se sabe bem quem são, comprar o mundo e despachá-lo em milhões de kilos de papel e fitas

para tantos, uma época de pouco prazer e tanta memória, de quem foi, de quem nunca chegou, do que nunca fomos

e para si, como é o Natal.

Conte-nos.

Eis o desafio: Um conto de Natal, com a sua assinatura.

Terra dos doces

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Era uma vez uma princesa sem nariz. Quando nasceu soltou-se dos braços da ama que, sem intenção, encontravam-se esticados para o lado de fora da janela da torre mais alta. Pela força do impacto a coroa cravou-se na tenra carne de cabeça-bebé e o nariz saiu decapitado. Uma vez que a coroa não se podia retirar, foram feitos dois buraquinhos no ouro liso para que a princesa pudesse ver, mais um buraquinho no sítio do nariz para o ar entrar e sair. O nariz, por sua vez, foi pisado por um cego que passou junto ao local no momento exacto em que o apetrecho da respiração se colocou entre o chão e a sola do sapato do homem em questão. Não nasceu cego, um dia estava ele ainda na idade do “já parece um homenzinho” quando adormeceu debaixo da máquina de costura da melhor costureira gaga do reino que, sem intenção, soltou duas agulhas em direcção aos olhos fechados, que fechados ficaram e fechados se mantêm e talvez fechados morram. A costureira nem sempre foi gaga, estava ela a tirar as medidas …

Rouco

São estes momentos que fazem a minha inutilidade. Quando fico sentado numa cadeira, a desenrolar os novelos do tempo. Igualmente agora sinto, essa fragilidade colossal crescer dentro de mim. E a ferida que volta á carga, e arde, e arde… por não te ter dentro de mim! Já lá vai o tempo… o tempo em que te encontrava no tecto do meu quarto, fechado na doce utopia de ganhares uma forma literal no papiro. E eu sorria, e sorria, quando sentia as tuas botas de couro pisarem o meu Jardim interno. Foi contigo, e foi nas tuas rugas que aprendi a disfarçar as cicatrizes de essência. Tu
eras os pregos que estavam nos cantos dos meus rasgados lábios... Tal qual se dizes a tua arte, fingida!

Hei hei hei

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Hei hei hei ....... não estamos muito activos por aqui...::)
Toca a escrever .....beijinhos
Vou promover o blogue nas páginas do Face
beijos
Teresa Queiroz

foto: Teresa Amaro

Queda

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Raiz
nascida
na pálpebra
rasgada
um arco
curvado
num olhar
sentado

Pestana
franzina
com pé
dançado
nas narinas
torvelinha
nos lábios
é fininha

Descido
o pescoço
ao ombro
encosta
segue umbigo
hoteleiro
com pensamento
coveiro

Finalmente
afadigada
nos pés
deitada
com pálpebra
distante
e bainha
rasante

Pestana
corcunda
que dobra
não parte
ginga
pela estrada
na noite
assombrada

abraça-me , só porque te conheço o afago ...

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estás aqui ?
segues ao meu lado ?
...não conheço quem me abraça , não conheço o seu som
estás aqui ? estás ao meu lado?
já não te oiço !

não te vejo ...
já não te sinto
nunca mais te senti ...
nem vejo a tua sombra
estás aqui ?
segues ao meu lado ...?
nunca mais te consegui tocar
assim como quem já se esqueceu do som..

abraça-me ..só porque te conheço
revira-me
dá-me voltas .... grita.me ou sussurra-me ...
não me morras
tal como prometes-te ...

não andas por aqui !
nunca mais te senti ao meu lado ....
já nem sombra me és
se calhar
eu nunca mais te quis
e asseio o teu abraço ?
só porque já não sei quem me abraça outra vez ...

embaciam-me os olhos
estás por aqui ? segues ao meu lado ?
não te cheiro