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segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Desafio: Reminiscência rasgada



A taberna tinha as paredes forradas com pequenas tábuas obliquas. De nome completo Jorge Libério Tadeu, como gostava de dizer sempre que alguém o chamava sem algum dos outros dois, estava paralelo às “tabuinhas” da parede e obliquamente encostado ao balcão.

Jorge Libério Tadeu, nem baixo nem alto, era muito mais magro do que a maioria e tinha um farto cabelo despenteado. Na rotina dos dias caminhava sempre de costas encurvadas e com passo acelerado e nervoso até parar frente à porta da taberna da rua empedrada.
As calças de ganga largas eram curtas e deixavam ver as raquetas bordadas nas meias, e não dispensava uma das suas camisolas de cavas brancas, mesmo em pleno Inverno, de forma a exibir uma tatuagem imperceptível feita a tinta-da-china.
Tinha o braço direito engessado há três anos, mas como era destro só conseguia levar o copo de tinto à boca com a mão direita. A cada “penalti” tirava o gesso do braço direito, despejava o copo de vinho directamente para o estômago sem tocar no interior da boca ornamentada dente-sim-dente-não.
Claro está, o braço direito há três anos que não via luz do sol e estava mais branco do que o gesso que o tapava, era o reflexo perfeito das sete cores do espectro visível. Era mais branco do que qualquer objecto branco que um dia tenhamos visto na vida e contrastava com o escuro braço esquerdo, negro, queimado por dias inteiros exposto ao sol em mangas cavas.

– Oh Jolita! - como todos na vila o chamavam - Vai mais um? Para o caminho!
– Espera. Estás a ver? Esta é a minha filha.

Num gesto repetido diariamente, retirava do bolso de trás das calças a carteira preta deserta, abria-a e exibia com ar orgulhoso o recorte de uma revista da socialite, gasto pelo passar dos dedos, onde se via uma criança que não teria mais do que 6 anos.

– Esta é a minha filha! - repetia todos os dias - A Luísa é a melhor aluna da escola. Quer ser médica quando crescer. Vai ser médica quando crescer!

Jolita era um filho da vila e todos o conheciam, mas ninguém lhe conhecia qualquer família, ninguém alguma vez tinha visto a sua filha ou sabia se teria sido alguma vez casado. É verdade que aos 18 anos cumpriu o serviço militar em Mafra e depois emigrou.
Regressou à vila 20 anos depois de partir, com apenas um lençol às costas onde, presos com um nó cego, embrulhou todos os seus pertences: três pares de calças de ganga, dez camisolas de cavas brancas e cinco dezenas de revistas cor-de-rosa de diferentes décadas.
Na carteira preta trazia sempre um recorte de uma das revistas que fazia questão mostrar a todos que acabassem, mais ou menos interessados, por parar ao seu lado, mesmo que por breves instantes.
Quando regressou à vila a Beatriz era um bebé de olhos azuis de uma revista de 1974 e disse a primeira palavra; dois anos depois chamava-se Ana, tinha caracóis, corria e saltava, não parava; aos três anos a Teresa, uma menina morena de olhos rasgados, vestia um tutu branco e queria ser bailarina.

Estava um frio invernal no Outono de Novembro, num pequeno barril que serve de banco estava o barbeiro Justino Correcto, com longa barba, óculos aviador escuros e bata vestida, que quando não estava a barbear estava a alcovitar:

– Aí vem o Jolita. Quem será a filha hoje? Dizem na vila que a mulher fugiu com a filha por causa da bebida. Ele não sabe onde elas estão. Não faz a mínima ideia. Parece que ela até mudou de nome e também mudou o nome da filha. Ele nem sabe como elas se chamam. Pelas minhas contas a filha já deve ser uma mulher.

Manel Paulo Anca, sapateiro de profissão, sentado de pernas cruzadas mostrava o buraco na sola do sapato esquerdo. As calças, de imperceptível cor, são as mesmas que usou em Janeiro, depois das primeiras gotas de chuva que lhe deram o último banho.

  Qual quê! Já não posso ouvir o Jolita e as histórias da filha que não existe. O excesso de “jolas” fritaram-lhe os miolos é o que é. Que mulher iria querer ter um filho com aquela triste figura? Com aquele bêbado? É um pobre diabo que inventa estas histórias para não se sentir sozinho. Eu já nem o oiço.

Luís Lentinho, conhecido por Sôr Professor por andar sempre com livros debaixo do braço, que na verdade nunca ninguém o viu algum dia realmente ler, levantou-se bamboliante, tentou coloquialmente colocar a voz, mas acabou a discursar numa linguagem que só os que beberam os mesmos litros entenderiam:

– O Jorge nem sempre foi assim. Nem sempre foi assim. É uma história muito triste. Triste. A filha do Jolita é um anjinho no céu. Ouviram! Respeitinho! Ouviram! Morreu à nascença. Coitadinha. Está enterrada num cemitério em Genève. No túmulo não há fotografia. Nenhuma fotografia. Mas o Jolita mandou escrever. Está escrito lá:
“Beatriz, Ana, Luísa, Teresa, Maria. És a minha filha. Presente do verbo ser. Para sempre e enquanto eu pisar o chão deste inferno estarei ao teu lado a ver-te crescer.”

Os anos passaram, o recorte de revista mudou na mesma carteira preta, a criança cresceu e ficou menina e depois ficou mulher.

– Viva pessoal! A minha Maria vai casar! Vai dar-me netinhos. Vou tatuar o nome deles neste braço.

De sorriso rasgado rodopiou em torno de si mesmo exibindo um recorte de um catálogo de vestidos de noiva.

– Parabéns Jolita! Vai um para festejar?
– Enche.

Bebeu num trago. Depois do último de muitos Jorge Libério Tadeu seguiu feliz para casa.



segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Acho que a única coincidência era que ambos tínhamos o esqueleto delicado e leve. Era assim que me via: um sortido de ossos que se encaixavam perfeitamente, tal como as bolachas de manteiga naquelas latas cilíndricas achatadas com desenhos requintados.
Uma repetição de sabores do início ao fim, assim como as minhas horas que passavam na mesma cadência crocante da cal nas paredes. Às vezes, até podia afirmar que as paredes pareciam casca de ovo, de onde eu queria nascer mas nunca conseguia mais do que abrir uma simples fenda. Era ali que eu manifestava a minha força, nas fendas ramificadas que se alimentavam de raízes gulosas por sol. Foi exactamente por isso que eu me desenraizei do meu chão. Sentia que o que estava à mostra era menos importante que o que estava enterrado. O que estava à mostra sofria com queimaduras solares, o que estava enterrado sofria com o escuro húmido. 
Consegui inverter a situação.
Consegui inverter a situação mas ainda não decidi se sou mais feliz agora. Até porque ainda não decidi se quero sentir-me feliz. Felicidade não me cai bem, deixa-me com refluxo fantasma de memórias.
Agora no meu canto, ao menos não tenho que me preocupar, nem sentir a pressão craniana de quem quer ir longe mas não está no mundo certo, nem na época certa. Da minha cabeça aberta podem emergir todos os instantes confeccionados em lume brando, subindo através de sonhos em vapor e ficando condensados nos rostos de quem me visita, de quem deseja-me visitar, de quem tem a chave deste jazigo, de quem já forçou a fechadura, de quem traz flores, de quem não entende porque quero estar aqui. 
É que eu quero muito ficar por aqui.


Foto: Fernando Vianna

Sobre o óbvio

  Acordo, mas não desperto. As pálpebras pesam toneladas e o corpo está crucificado à cama. Levanto-me, mas não me ergo. Ergo-me, vou até à ...