sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Lição de Filosofia
Queria, querida menina, um universo de coisas reluzentes e macias sempre que o vento te levanta a saia plissada de colégio católico e me fixo no grande-plano da tua boca rosada e pequenina a soprar em câmara lenta a palavra redonda, toda ela manha e melaço: poooooorco-co.
Por isso, sorrio e levo a mão ao chapéu, um cavalheiro que ambicionas senil e castrado, e sinceramente te digo que gosto de te ver soprá-la – de repente, sou outra vez homem, dono de todos os músculos e vascularizações do meu corpo a mirrar.
Sabes que te farão mal, esses rapazes de pele e peito lisos, os olhos oblíquos de cobiçar as mesmas suaves arquitecturas da tua carne a que levanto altares com os meus? Dúvidas, por acaso, que vão forçar desajeitadamente a entrada em ti, inábeis máquinas poluidoras, belos e cruéis semi-deuses acéfalos, só para te deixarem cada vez mais vazia e apática ao longo dos anos? Que, depois, vão querer fazer-te filhos que te retalharão por dentro e por fora, tudo em nome da corrida desenfreada para propagarem os seus genes proletários de unhas sujas?
Claro que não... Até desejas que o façam. E com toda a justiça, reconheço. Os imparáveis mandamentos da Biologia não perdoam. Eu já fui um deles, de resto, e não foi assim tão interessante quanto se possa pensar à partida.
Hoje, todos esperam que me baste a resignação zen de dar pão aos patos, milho aos pombos e vazas à sueca com os outros reformados do Jardim da Estrela. E que me ocupem as consultas no médico da Caixa, horas intermináveis sentado nesses matadouros municipais, com outros da minha geração a quem a demência começa lentamente a escavar canais no cérebro como uma maçã bichada, a discutir as novelas e os programas da tarde e os filhos que graças a Deus estão muito bem na vida mas que nunca aparecem para os visitar, preocupado com a próstata e a tensão, à espera de uma morte piedosa durante o sono? Sim, resvalo lentamente para o AVC mas só a partir das seis das tarde, sentado no banco em frente do liceu, e apenas à passagem do sonho de morfina nas tuas coxas e do teu peito arrogante e rijo.
(Se pudesse, contava-te como ele é a minha zona de conforto anestesiada, que é a ele que imagino, branco e macio, com a sua coroa tenra e rosada ao centro, sempre que estou no gabinete médico para mais uma colonoscopia).
Dantes sonhava que também eu era uma jovem e inábil máquina de retalhar carne, para te tomar como queres. Mas, sinceramente, agora retiro mais prazer da fantasia sádica de te profanar como sou, todo sulcos e bocados pendentes, rugas e asperezas e o princípio de um perfume fétido de quase-morte. Pedir-te-ia então, minha querida, que o tomasses como uma lição de filosofia sobre como tudo é breve e caduco, uma putrefacção adiada, até a matéria desses teus 15 anos pagãos e que, por isso, deves aceitar como uma bênção cada mutilação do teu corpo e espírito, porque só quer dizer que estás viva. E talvez pudesse falar-te de como o teu sexo é o único antídoto para esta sensação de projecto de cadáver que trago dentro mas...
... mas, que lá por ser velho, não tenho qualquer obrigação moral de me sentir assexuado como uma amiba sempre que, às seis da tarde, os meus olhos embalam na cadência do balanço do teu cú perfeito.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Bons fígados
Da mesma forma que cedo mais e mais a cada volta de sessenta passos nada tem a ver com os dias em que acordava cedo para parecer senhora de mim mesma.
Por outro lado, sinto as minhas vontades distorcidas tem tudo a ver com o cinto que me prende a uma cadeira e quando digo cerrar os olhos tem tudo a ver com o desejo delicioso que tenho em serrar as carótidas.
Quer parecer-me que quando os pulmões são alimentados com o nosso próprio vómito, não há muito a teimar, nem tempo para isso. No início são eles que vomitam secreções inflamadas, no fim é a força diminuída que permite consumar a sensação de afogamento. Com tantos dias a enviar secreções purulentas para o estômago, um dia a retribuição acontece e os pulmões são nutridos com a carne mastigada pelas máquinas domésticas. Mas não é com isso que perco o interesse pela gastronomia e ainda me lambuzo com mais refeições, não muitas. As suficientes para conseguir forças e gemer ecolálias. Gemer mas há quem diga gritar, depende da sensibilidade da compreensão e se fico posicionada para o lado do buraco que tenho na anca. Um buraco directamente proporcional ao que a minha menina me abriu quando a pari. Era um suspiro aquela menina, tenrinha num tempo de fome. Não chorou e eu também não, saiu à cêpa.
Mas imagino o melhor de tudo e é o agora, com a hemorragia a desfazer-se de mim. Eles enfiam-me toalhas na boca e no nariz, porque ninguém gosta de ver sangue e isso suja, aflige, enjoa. Por outro lado nunca fui dotada de respiração cutânea. Infelizmente não os culpo pelos seus pudores e fracos conhecimentos no sistema respiratório humano. Nem no circulatório. Nem na relação de ajuda.
Espero, pelas paragens…
Na verdade a aflição dá-nos aquela sensação de suor fixado na pele, de urina quente nas pernas, de pregas coladas, de roupa que queima e de exsudado que transborda dos buracos no corpo. Tudo junto dá aquilo a que chamo abstinência gananciosa do morto. Claro que até chegar a morta o tempo dá-me os segundos retalhados em migalhas. A sensação repentina e estranha de querer sobreviver não faz sentido real nos pensamentos da minha condição. Será que a minha menina também teve esta vontade?
É de noite, no pico da noite que deixam as toalhas ensanguentadas de molho no tanque do quintal para amolecerem e serem esfregadas de manhã. Depois desamarram o cinto, tiram-me mole da cadeira e deitam-me no chão para me lavar. Soube bem aquele banho, como quem lava um porco, jorram mangueiradas contra o meu corpo e com isso arrastam toda a sujidade que desliza para os esgotos comuns da população. Sou enrolada na colcha da minha cama, a que sempre usei, desde o meu primeiro dia de casada e finalmente espero na despensa, pendurada na trave de madeira para as linguiças.
Espero pela autópsia suavemente demorada dos talheres porque o tempo continua a ser de fome e o único buraco onde posso ser enterrada é o do estômago do meu marido. Compreendo. Aqui em casa nunca fomos estranhos com a carne uma vez que a terra jamais foi fértil para as verduras.
sábado, 22 de outubro de 2011
La décaDANSE
geme baixo. ela que aprendeu a controlar a respiração ao nível do inaudível, mesmo quando a excitação se acelera e exige gritos.
dança noutro corpo que a ampara nas quedas vertiginosas de sucessivos desmaios. homem firme de pele tisnada pelo sol do ano inteiro. jovem. tão jovem, apesar da espera cansada nas tardes (em) que se querem_______________ noites. com madrugadas tardias, para que os momentos perdurem.
olha-a com ternura e desejo que intensifica orgasmos. olha-a e possui-a mesmo com a boca que insiste em calar com beijos.
toques exploratórios________ de dedos_____________ de línguas______________ de pele com que se prendem em abraços.
numa dança de desejos sempre mais e cada vez mais exigentes. tinge-se de azul o olhar e o rosto infantil é carmim de surpresa em surpresa.
_______________e é quando o rubor sobe e o calor rebenta com as barreiras de suor. e escorre o néctar por entre as pernas que se roçam inquietas nas másculas mãos de mestre. dirá então: amor é também quando os fluídos se t(ro)cam em violentos embates de corpos licorosos. asas que o vento rasa em voos de beijos profundos. uns. leves outros, que a levam até ao limite dos dois. sem limites, sem pudor, tabus que alguns inventam para esconder vícios. que se devem manter tão privados, quanto publicas as virtudes.
fecham-se em círculos viciosos de prazeres. fecham-se de olhos vendados, ao tacto que os reclama no segredo dos sentidos. ensaiam um sorriso e a noite não tem fim. é assim (est)a musica dos amantes.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Desafio X-rated: textos para adultos
Sobre o óbvio
Acordo, mas não desperto. As pálpebras pesam toneladas e o corpo está crucificado à cama. Levanto-me, mas não me ergo. Ergo-me, vou até à ...
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É onde a cabeça de uma sweet little sixteen cai, frequentemente. Rola, desespero abaixo e, pum, estilhaça-se no vazio. Foge, acelerada, do...
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Ínfimo sem esforço, voar sem querer, sonhar sem nada saber, criar sem compreender, nada explicar sem ver, derivar sem sentir, magoar sem n...