Eu, Maria, encostada aos portões desta cidade, nomeio para meus testamenteiros aos senhores, que este virem, ouvirem ou dele notícia tiverem. Saibam que estando em perfeito juízo e sem qualquer induzimento, atesto por fé, sem testemunhas que o comprovem, ser esta a minha última vontade, a derradeira, no momento em que abdico do que fui.
Deixo cada coisa que juntei neste mundo a quem ma deu.
À minha mãe deixo a pedra do adro da igreja, a vergonha de que me vestiu, o corte de metal rombo que nos separou , o primeiro grito, o beijo que me negou.
Aos que me criaram deixo as braçadas de lenha, as costas partidas, os ilíacos e as costelas a rasgar a pele, os prantos, os trapos, as vergastadas, os beijos que me negaram.
Ao meu pai nada deixo porque nada me ofereceu.
Ao homem que me comprou deixo a cabra por moeda da transacção, a saliva obscena na minha boca, os cabelos arrancados, a cama sórdida, os beijos com que sugava todo o meu corpo apesar de eu negá-lo.
Ao homem a quem me dei deixo o feitiço, os nervos excitados, o estigma, a culpa, o adeus fácil, o amargor, os beijos de quem ama por dois que não lhe neguei.
Ao meu filho deixo o amor por entregar, o seio a secar, a procura vã de calor na pele, os beijos que não negaria ao anjo que não soube enterrar.
A todos vós deixo a falsa caridade, o olvido e o asco.
E por não saber ler nem escrever e não ter tinta nem papel, rogo-vos que aceitem como letra esta impressão lívida da minha alma.
Rogo-vos, igualmente, que me olhem enquanto seguro esta adaga e golpeio as parcas que me fizeram bastarda da vida, enquanto inspiro e bebo-lhes o sangue, enquanto me ergo contra o destino, enquanto renasço e me levanto do chão. Outra mulher. Não mais Maria.