quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Afterglow



hoje senti saudades tuas.

a chuva subiu pelas narinas provocando geada nos pés. encolhidos os dedos, a chuva continuou agora neve, nos cabelos curtos e mais ralos de ferrugem onde a fuligem dos comboios a vapor pincela telas de luz morta, ou apenas moribunda, dependendo da gravidade da água que agora desce para voltar a subir pelas pernas escolhidas pelos dedos encolhidos.
o senhor da farmácia fez uma careta à ingestão dos dois comprimidos, para que a dor parasse. a dor amenizou o corpo que buscava descanso e nem sequer toldou o pensamento, apenas fez esquecer a dor e é tão bom parar a dor, que do seu esquecimento apenas fica um suave mau-estar sem odor, porque se a dor fosse perfumada, nem morta me esquecia dela.

por vezes tenho saudades dos dias em que me passeavas, sem dores, pelos jardins da minha infância e da tua maturidade de homem imponente pela altura e pelo carácter.
a minha mão na tua, esmagada pelo anel de ouro com uma pedra azul. e eu perguntava-te porque não usavas aliança, se a mãe tinha. tu devias responder, mas algo sem importância, porque eu não voltava a perguntar e nunca percebi porquê. mas havia muitas senhoras que passeavam connosco, desconhecidas que ficavam a conversar contigo, sentadas no banco do jardim, enquanto eu me baloiçava, escorregava ou me rebolava na relva limpa sem dejectos de cães ou gatos, apenas joaninhas e lagartas pequeninas, alguns aranhiços e minhocas que eu encontrava quando tentava chegar, sem saber, ao outro lado do mundo. ou que se passeavam contigo e ficava eu no banco quieta, para não me perderes de vista.
parecias um actor de cinema e eras tão alto e elegante nos teus fatos sempre de alfaiate, nesse gesto de bater o cigarro na cigarreira de prata (que guardo entre tantas outras coisas) de acenderes o cigarro muito longo às senhoras desconhecidas (soube depois que usavam boquilha) esse gesto de me repreenderes com um olhar paralisante, sem precisares de dizer nada (e tanto que conversavas com as senhoras que a mãe denominava flausinas).
hoje lembrei-me de ti. e das festas que essas senhoras me faziam, eu a pensar que gostavam das minhas tranças até à cintura, ou do meu sorriso, mas tentavam apenas agradar-te, e tanto que o faziam, que por vezes te esquecias de mim e das horas e voltávamos à pressa para casa, tu no teu passo de homem alto, eu em pequenas corridas para te acompanhar, quase sem ter brincado nada.

os pés de neve derretem agora um pouco. e é salgada a chuva que me salta dos olhos, em pequenas gotas, sem subir nem deslizar, apenas em gotas que não me deixam ver-te.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

o quase-homem



O quase-homem quando nasceu
Não chorou, estremeceu e quase-soluçou
Enrolou-se na luz branca da primeira manhã
E quase-sentiu o beijo quente da sua mãe
Envolto num quase-suspiro de felicidade

Quando cresceu quase-aprendeu
Entre dores, esquecimento e ilusão perdido
Sobre o centro do universo e o amor quase-correspondido
Quase-ferido, totalmente despojado
De sentir, querer e quase-desolado

Quase-certo de suas decisões avançava
Por entre escolhas quase-pensadas pensava
Escolhia entre murmúrios e o eco inconstante
O quase-instante da satisfação, errante
Num quase-fóssil de luz guardada
Como um coração sem peito para bater, cuidada
Pulsante, como a quase-memória de um sentimento

Fez de sua casa um quase-lar
Onde quase-nada à mesa lhe poderia faltar
Desde a quase-tristeza ao poema por escrever
Tudo por fazer em tempo de vida, alheado
Quase-sonhava por uma rosa ser quase-beijado
Nunca colhida, quase-desejada e para sempre perdida

Num quase-momento de lucidez e quase-escolha
Pegou em livros e ligou-se ao mundo que sentia a chamar
Perdeu-se a navegar, trabalhar e pensar
E num quase-sufoco esmoreceu inquieto
Num espaço aberto, perdido entre milhares
Dos tais murmúrios, sussurros e apelos similares
Quase-distantes, interligados e sedentos
De propriedade de um quase-ser que quase-nada de si sabia
Apenas a quase-certeza de que lugar-nenhum ali teria

E em quase-solene meia vida decorrida
Entre espadas, parede, mar e quase-fantasia
Deixou escorrer uma quase-vontade que mais não cabia
Fora do eixo, sobre um ponto quase-fixo imaginário
Decide ser quase-altura de abraçar o seu calvário
E num quase-sonho embarcar legionário

Contempla então a quase-libertação
Entre o sólido chão e o fino ar, a encoberto
De uma quase-linha ao pescoço enrolada, não mais incerto
Destino escolhido, quase-perto por fim
Deu um salto de quase-fé, convicto de si
Num voo desenhado em final alegoria
Teve a desejada sorte, quase-sobrevivia

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Fonte


 Corre a água pela Fonte,
Barulhando perto ao longe,
Triste e pálido mato meio sem Graça.

Sequiosa, a boca, comanda-se emudecida
Pelo calor da fachada
Que esconde o estro ingénito
Que acende e apaga a luz do meu ser.

Temos todas as razões para viver,
Mas falta-nos sempre uma razão para reparar o mundo.
Porque o mundo é ingente e pequeno,
Vê-se sempre perto de longe.

Brotam-se ideias e pensamentos,
Mas é certo que nunca se exuma como deve ser.
(Estará o solo insalubre?)

A água, pura, esvai-se
Pelo desejo ávido
Que mescla cada pedaço de mim.

Já nem me acho,
Deslustradas, as fotos
Que me pediram.
(Pena, os traços do rosto que se espelham na água)

O gesto inócuo nunca me há-de dar a conhecer o incognoscível.

Fosse, talvez, o mundo feito de insipidez
E fossem os dias resumidos a flores, sol e Primavera.
Fosse eu a tua sede e água da Fonte a tua boca,
Porque assim, num gesto vão, estaríamos conchavados.

O (nosso) mundo não é a fachada que pintamos.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Através de ti (Parte III de III)

Parte III – Leite com mel e hortelã

 



- Olá, posso oferecer-lhe uma pastilha? São de lima-limão, as minhas favoritas.

Num ligeiro sobressalto, Elianor vira-se para a sua esquerda e dá de caras com o jovem simpático que partilha consigo a paragem de autocarro juntamente com duas mulheres de meia-idade que tagarelavam incessantemente. Ele sorri e aponta-lhe a caixa de pastilhas enquanto acena gentilmente com a cabeça. Elianor tenta sorrir de volta mas não consegue. Não faz mal, os seus olhos sorriram por ela.

- Vá, não se assuste, é só uma pastilha para ajudar a passar o tempo de espera. Já agora, posso sentar-me ao seu lado?

- Sim, claro, é um espaço público… -

Chega-se para a ponta e olha para as senhoras que matraqueiam alegremente como se estivessem completamente sós. Seria de esperar que, dado o sobrepeso e as varizes, fossem elas as detentoras do direito ao assento, mas não, pareciam duas adolescentes histéricas à porta de um concerto, até soltavam risos e um ou outro gritinho.

- Sabe, vejo-a muitas vezes por aqui, mas ainda não tinha conseguido meter conversa consigo… parece-me tão reservada, distante. Aposto que nunca deu por mim!

E não, Elianor nunca tinha dado por ele. Estranho, um jovem muito bem parecido, vinte e poucos, alto, atlético, face limpa e perfumada, olhar penetrante e galanteador. Nunca o tinha visto mas ele dizia que a conhecia. Elianor vacilava entre o receio e alguma irritação, afinal de contas, sentia-se observada para além dos seus desejos. Bem, se calhar não estava a considerar todos os tipos de desejos.

- Olhe, fique sabendo que não sou de grandes conversas e não tenho a certeza de onde quer chegar por isso fiquemos pelo bom-dia-como-vai cordial e guarde as suas pastilhas.

-oh, lamento se a incomodei, não era minha intenção. As minhas sinceras desculpas e não me leve a mal, não me pode censurar por tentar meter conversa com uma jovem linda e encantadora.

- vá, deixe-se de coisas, também não é nenhum drama… afinal de contas você parece-me simpático, mas eu não gosto de lima-limão, percebe, não é o meu estilo.

- ah, entendo. Posso tentar novamente amanhã? O que prefere, caramelo? Mentol? Vê, afinal também sabe sorrir…!

E sorria, abanava a cabeça como quem tenta negar as evidências esmagadoras e inconvenientes.

O autocarro chegou e lá foram os dois. Possivelmente partilharam um banco, pastilhas e algo mais. É assim que nascem as coisas boas da vida, de forma espontânea e discreta, até se tornarem exuberantes e…

- Oh, Oh menina, não é assim que me lembro dessa história!!




Elianor, sentada à mesa, bebe o seu leite com mel e hortelã, mergulha um biscoito seco.

- Mas era assim que deveria ter sido… era assim que deveria ter sido…

- Chamas-me monstro Elianor, perverso e bruto. Sim, a mim não mentes, como poderias tu fazê-lo? Somos um, nasci contigo e de ti me alimento. E tu de mim, não é meu anjo? Então não nos queres lembrar como foi? Tu até tens jeito para contar histórias, estavas a ir tão bem. Vá, tenta lá outra vez. Estava um idiota a fazer-se a ti na paragem de autocarro, deste-lhe para trás e ele ficou todo contente, andaste nisto quê… seis, sete dias? Não contando com o fim de semana, é claro!

Elianor levanta-se, dirige-se até à janela virada para este e contempla a noite que reina sobre as almas até ao resgate da luz solar. Suspira e massaja o pescoço com a mão esquerda enquanto sobe a caneca até aos lábios para mais dois goles.

- E depois, como foi? Começaram a combinar encontros, primeiro, um café de misericórdia, certo? É Assim que funciona o jogo da sedução, um café, um jantar, um cinema e um dia, um convite. Não queres entrar para tomar um leite com mel e hortelã?

Elianor, vira-se, pousa a caneca na mesa e dirige-se ao espelho da casa de banho. Olha-se longamente e decide lavar o rosto. Vai até ao quarto e pega no seu pequeno frasco de perfume. Põe gentilmente uma gota atrás de cada orelha, como fazem as senhoras de bem.

- Ah,  esse teu perfume deixa-me louco. Já só restam algumas gotas, incrível como o tempo passa… parece que foi ontem que começámos este nosso ritual. O que eu sofri para te ensinar rapariga, o que tu choraste, gritaste, até tentaste fugir… de mim? Não minha querida, eu não me posso separar de ti, nem que muito quisesse, pois tu nunca me deixarás. Tu e eu, certo? Tu e eu…



O rapaz estava deitado na sua cama, adormecido, cansado de fazer amor com aquela bela, frágil e suave criatura.

Elianor fecha os olhos, inclina a cabeça para trás e estremece profundamente.

- Obrigado, minha querida, eu agora tomo conta do recado. Tu já estás satisfeita, agora é a minha vez. Através de ti me sacio, vivo e respiro. Obrigado, minha querida, por me teres trazido mais um presente.



Na manhã seguinte, Elianor apanha o autocarro. Hoje segue só.

domingo, 22 de julho de 2012

Através de ti (Parte II de III)

Parte II – Sequência






“Mostra-me, mostra-me o que tens, do que te estas a esconder. Eu conheço-te, sei quem tu és, partilhamos o mesmo coração, o mesmo pensamento, o mesmo sonho. E quando tudo flui, tu vogas comigo, somos mar e navio, mastro e vela, maré e maresia, somos pedaços da mesma fantasia e delírio onírico do mesmo arquétipo adormecido. Mostra-te, vê dentro de ti, não tenho segredos para ti, não há palavras por dizer ou redigir, sou o livro que conta a tua história em parágrafos de existência intermitente e pontuação cuidada. Somos canto e estrofe, nascemos gémeos na garganta do poeta que um dia quis contar a história da luz, aquela pequena luz que nos comove e tem cativos, a luz dos teus olhos, por onde eu contemplo o horizonte perdido das horas em que não me sinto em ti. Não te martirizes, nada há para esconder, eu sei o que tens.”

Seria de esperar que estivesse assustada, apavorada pelo terrível sonho que a despertou a meio da madrugada. Mas Elianor simplesmente abriu os olhos e assim ficou, estática e fria, estendida na sua cama com lençóis de flanela com desenhos. A hora da adivinhação marcava os ponteiros do relógio, encaixado entre bonequinhas de porcelana e livros de contos infantis. Faltava tanto para o nascer do sol mas uma luz brilhava pálida e ondulante, projectando as sombras longas contra a parede do quarto da menina. Elianor tenta dizer algo, mas de sua boca não saiu um único som, sentia que o vento forte que uivava lá fora lhe tinha arrastado a fala e deixado no seu lugar uma outra voz, que ela ouvira claramente dentro de si. A luz perdura, arrasta-se pelas paredes como uma canção que não nos sai da cabeça e congela a menina num instante que parece durar toda a eternidade. Elianor está presa entre o terror e a solenidade do momento e sente-se a esvaziar lentamente. Até que chega a luz da manhã e o pesadelo termina.

Com o passar dos anos, a memória daquela noite foi-se diluindo, mas manteve-se sempre presente, como uma infecção com a qual nos habituamos a lidar. Esporadicamente voltava a sonhar com a voz, que lhe sussurrava. Sei de ti, tanto quanto me sentes a mim. Podiam passar-se muitos dias, semanas, meses até, sem sonhar com a voz, ou acordar a meio da noite com a luz mórbida e fria. Mas Elianor sabia, era apenas uma questão de tempo. Dizia-lhe a voz, não precisas de te esconder, porque onde estiveres, lá me encontrarás a viver entre as linhas da tua história.
Elianor crescia, 7 anos depois era uma adolescente exemplar, excelente aluna, metódica e dedicada, um pouco calada e não muito alegre, aliás, era conhecida pela ‘menina dos olhos tristes’ e não se lhe conheciam grandes amigos. Talvez alguns colegas mais simpáticos lhe dirigissem palavra por piedade, outros para pedirem os cadernos escrupulosamente organizados e detalhados da jovem brilhante que a tantos fazia um tanto ou quanto de inveja.

Tudo normal num mundo de padrões e texturas normalizadas, onde a popularidade de uns é a inspiração de outros e a solidão de poucos a ignorância de tantos. Mas até a mais pequena flor num imenso prado pode ser da preferência de um insecto mais excêntrico ou aventureiro que ouse sair da colmeia dos eleitos e desejados. A cena é simples e fácil de descrever. Elianor sentada, só, num banco de madeira, a roer uma maçã e a rabiscar a carvão o seu caderno. O esquisso parecia um anjo que se elevava por entre rochas e arvoredo. De súbito, ele senta-se a seu lado e pergunta se ela quer um pouco do seu sumo. Estranha, Elianor afasta-se um pouco do rapaz e sorri apenas com metade da boca, enquanto se agarra ao seu mundo abstracto e monocromático. Ele diz-lhe, não tenhas medo de mim, só queria conhecer-te, gosto muito de te ver a escrever e desenhar. Ela olhou para ele e anuiu gentilmente. Também já te tinha visto por ai, sentado a ler. Qual é o livro que tanto admiras?

Caiam as folhas aos castanheiros quando eles se conheceram. No seu aniversário ele deu-lhe um pequeno frasco de perfume, ela ensinou-o a fazer bolachas. O inverno aproximou-os ainda mais e a primavera deu cor ao seu primeiro beijo. Nessa noite, a doce e leve sonhadora enfiou-se na sua cama mais apaixonada que nunca e embalada pelo sonho doce de um amor juvenil que a embalava em versos e melodias.

“Como pudeste fazer-nos isso, Elianor? Quem te disse que sim, que eras livre e que poderias sair do meu coração, viver fora do meu pensamento, quebrar o meu sonho que por ti vive e em ti para sempre viverá? Onde estiveste tu, Elianor, amarada nos braços de quem, embalada nos lábios de quem? Quem julgas que és Elianor? A mim nada podes esconder, porque nada há para esconder a quem vive dentro de ti. Pobre Elianor, pobre de ti, ai de mim. Só me resta fazer algo por ti, algo por nós. Farás o que te peço, não farás minha querida? Sim. É isso mesmo. No fundo, é isso que queres fazer. Os teus beijos pertencem-nos”
Subitamente desperta e muito, muito aflita. Sente os lábios quentes e molhados. Acende a luz e precipita-se para o espelho da casa de banho. Tem marcas de dentes no pescoço e o rosto e arranhões que sangram. Sente uma dor no peito e puxa a gola da camisa de noite e repara que tem enormes nódoas negras sobre os seios. O medo devora-a e tenta gritar, mas a garganta emudece por completo. Sente que o coração vai explodir e desmaia.

Na manhã seguinte finge estar engripada e pede à mãe que avise a escola, irá faltar 3 dias e não quer receber nenhum telefonema. Mas o telefone toca, uma e outra vez. A mãe justifica-se. Acredita que alguém fez mal à sua menina, já viu muitos gozarem-na e crê que ela foi vítima da agressão de algum idiota e faz queixa ao director de turma. Há um rapaz que é posto de castigo e mandado para a cantina onde a sua tarefa será ajudar nas limpezas durante uma semana. Reclama injustiça e diz que ama Elianor, mas a mãe dela contou uma versão diferente ao director e o castigo é mesmo aplicado. Sete, foi o número de mortos no terrível e inexplicável incêndio que deflagrou na copa da cantina nessa manhã de Primavera, duas auxiliares, três cozinheiros, um guarda e um jovem que estava a cumprir castigo.
“Somos um, tu e eu, em eterno enleio, poema gravado em pedra, almas lavadas em fogo”. Desta vez estava bem acordada, quando ouviu a voz. “Para sempre, Elianor, por toda a eternidade”.

A mãe entra em pânico pelo quarto adentro, sem se anunciar. É da escola, são notícias horríveis minha querida, ainda bem que estavas em casa”.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Par de botas



Era uma vez um cordel de pião que servia como atacador na bota número 39. Tinha como rotina diária espartilhar o pé e aconchegar-se num laço perfeito, tão perfeito que só podia ser feito por alguém com um único pé para calçar. Mas os vícios são como as crianças na idade dos porquês e cada vez que o cordel pensava porque não tinha pião para girar a senhora era impulsionada num rodopio de calcâneo. Sucediam-se as náuseas e os vómitos e com um estômago prostrado a cama foi a melhor forma de suavizar os estragos. A cama e um chinelo. 

Na casa do bicho papão, a bota palmilhava palavras interrogadas ao cordel: "Não és feliz aqui?” O cordel desentrelaçava: "Não sei." 
Um dia, e porque todas as estórias têm "um dia" a má circulação apaixonou-se pelo pé e a bota deixou de ser bota, foi promovida a técnica de cotão com part time em berço para o bebé do bicho papão. O cordel começou a servir de fio de pesca para meninos e meninas com ponta de narizes curiosos por "debaixo da cama" uma vez que o bebé era roliço e andava sempre com fome. 
O cordel agora já era mais feliz, porque enquanto os meninos e as meninas não eram deglutidos pelo bebé papão, ele podia brincar por entre os seus dedos pequeninos e recordar-se de como era enrolado à volta do pião. 

Mas passaram-se anos e a senhora morreu. Passaram-se anos e os meninos e as meninas deixaram de acreditar no bicho papão e nunca mais os narizes foram parar debaixo da cama. 
Recentemente o cordel encheu-se de nós e dentro dele deixou de circular a vontade de girar piões. 

Era uma vez um pião que servia como fio-de-prumo na construção de casas de bonecas. Escusado será dizer que aquelas casas eram as mais aprumadas de todas, de uma verticalidade verdadeiramente vertiginosa. Apesar de toda esta perfeição, trabalhar com o pião não era fácil, ao se sentir pendurado por um fio a sua única vontade era enrolar-se nele. 
O fio não passava de um atacador antigo de botas perdidas mas desempenhava a sua função com distinção. Mas naquele momento prender um pião descompensado enchia-o de suspiros depressivos e as bonecas já reclamavam. 
O atacador atado de palavras enlaçava: “Porque não páras quieto?” O pião girava: “Não sei.” 
Tanto se mexeu que acabou por se soltar e caiu literalmente redondo no chão. Sem função o atacador enrolou-se amuado em novelo. 
O pião agora era mais infeliz, deitado no chão, a sua barriga rodopiava preguiçosamente e só lhe valiam os pontapés de uma senhora distraída que o faziam deslizar pelo chão. Farta de tanto pontapeá-lo a senhora pegou nele e colocou dentro de uma bota que já não usava há muito tempo porque simplesmente não tinha como o fazer. Ficou fechado dentro de uma bota, preso dentro de um armário. 

Mas passaram-se anos e a senhora morreu. Passaram-se anos e aquele armário nunca mais foi aberto. 
Há poucos dias o pião sentiu-se cheio de nós de madeira e não percebeu o que aconteceu.

sábado, 14 de julho de 2012

Através de ti (Parte I de III)




Parte I – Elianor

Sempre que entra em casa ouve uma voz que a cumprimenta. Bem-vinda, por onde andaste? Elianor, de olhos firmemente cerrados, respiração presa, queixo encostado sob o ombro esquerdo, levanta o braço direito e estende a mão na escuridão que inunda a sala de entrada. Quase que o sente. Quase. Mas não o sente. Não se pode sentir o que não está lá. Respira fundo… a mesa de cerejeira, as cadeiras almofadadas, arrumadas, marcam a ausência.

Por onde andaste, Elianor? Que ruas foram essas em que vincaste os passos apressados, que luz te afagou a face branca, branca como um anjo de porcelana, de traços finos e olhar distante. Onde estiveste Elianor? Não, não estiveste à beira da água, a sentir a brisa fresca da manhã, a contemplar as crianças a brincar com as flores. Não ficaste sentada na paragem de autocarro, à espera do número que nunca mais vinha, fingindo aflição pelo atraso, quando tudo o que querias era que alguém te visse, mesmo que não desse pela tua presença.

Quem mais te viu, Elianor? Quem te pôs os olhos em cima e sorveu o teu cheiro doce de amendoeira em flor? A quem ofereceste tu o teu olhar imenso e sonhador, entre palavras de circunstâncias e pequenos toques ocasionais na manga da tua blusa.


Senta-se sobre a cama espartana. Não mais que uma pequena almofada, um lençol de linho sem qualquer bordado e um cobertor de lã amarela. Não tem bonequinhas no aparador, nem laços pendentes sobre o espelho. Apenas um pequeno frasco de perfume, quase vazio, feito de cristal fosco. Descalça-se com os calcanhares enquanto desabotoa a blusa. Suspira e quase sorri. Estou aqui, parece murmurar, estou em casa. Solta o cabelo suavemente com os dedos finos e murmura. Talvez cante para si mesma, ou para alguém que não está ali.

Escurece rapidamente e a noite toma posse dos aposentos. Fecha-se a cena, Elianor deitada sobre a cama, ainda meio despida e em posição fetal chora baixinho enquanto esfrega o ombro direito e mostra uma nódoa negra já em fase de desaparecimento.


Novo dia, mas apenas isso, pois nada mais é novidade. Uma caneca de leite à temperatura ambiente, com um pouco de mel e uma folha de hortelã do vaso que está à janela e, virado a leste, saúda a alvorada que arranca tímida entre nuvens altas de gelo cinzento. Restam três biscoitos duros num pote de porcelana castanha, Elianor retira apenas um, mordisca-o e pousa o resto sobre a mesa. Olha para o relógio na parede, quase escondido entre o floreado mórbido e pálido do papel de parede em tons de cinza e roxo envelhecido.

Novo dia, a mesma rotina. Há uma cadeira vazia que espera por ela num gabinete perdido, longe de casa. Mas esse é o truque, estar longe de casa. Porque logo ao fim da tarde, quando voltar a casa, vai subir os degraus do alpendre, por a chave à porta, abrir devagar e assomar no vazio que a contempla. E ouvir, bem-vinda Elianor, por onde andaste?

A caminho, afastando-se da casa que se apequena a cada passo ligeiro rumo ao novo dia, Elianor recorda-se de quando era criança, do tempo passado a fazer bolachas no forno de brincar que a mãe lhe deu na manhã de Natal. Dos risos à mesa quando todos se reuniram para a ceia. De adormecer aconchegada nos lençóis de flanela com desenhos de flores e cavalos. De desejar boa noite às bonequinhas de porcelana, a quem dera também um presente naquela manha fria de Natal, um biscoito para cada uma. Lembra-se do vento que uivou terrível naquela noite, do pesadelo que lhe matou a madrugada e desfez a chegada do novo dia.


Sim, eu lembro-me de ti, murmurava Elianor, aconchegando-se a si própria, enquanto se sentava à espera do autocarro…

sexta-feira, 15 de junho de 2012

As 180 do cuco


O cuco era verde. Ou azul-esverdeado cor de céu à beira-bolor. A caixa-casa era castanha. Ou vermelha-acastanhada cor de sangue-seco. O relógio-parede não tinha cor. 

Era uma vez um cuco que sofria de bichos de carpinteiro e de cancro nos pulmões. 

 Ao canto da sala na caixa-casa do relógio-parede tossia horas e meia horas em tom expecturado-serradura e lamentava-se da lentidão do pêndulo, o qual já se encontrava metastizado pelo enjoo do vaivém. A corda, essa, já rangia velhice quando se puxavam os pesos que não passavam daqueles que a consciência às vezes tem. 
Mas sem mais demora, o cuco era paliativo e as 180 vezes angustiavam todos os minutos do dia que se situavam entre as entradas e as saídas, entre a comichão do caruncho e as pinças do seu caranguejo e por isso começou a fumar a serradura que expelia. Se o mal que saiu voltar a entrar deixa-se de ter espaço para novos males e assim, ao menos, o mal faz-nos sentir bem pela familiaridade. 
Hoje, finalmente e sem muito para contar, o cuco que sofria duplamente rebentou com os foles e esvaziou o cancro pelo chão da sala. A sorte é que ao canto a morte se dá bem por ter visibilidade reduzida e ao fazer-se de cega pisou todos os bichos de carpinteiro. Foi como se tudo fosse pó de fada madrinha. 
Só tenho pena de não ter chegado a tempo para assistir à sua morte de passarinho. 
De certeza que o cuco teve pele de não ter-me visto a dar corda quando os pesos tocaram no chão, canto, sala de estar.

terça-feira, 5 de junho de 2012

ENTRE A LUZ E A ESCURIDÃO

Quando nascemos somos abençoados pela luz e amaldiçoados pela escuridão.


- Ouvi falar de uma mulher cujo Dom é o de conseguir apaixonar-se de verdade. Mas a sua maldição é apaixonar-se sempre por homens tristes.

- Isso não é um Dom, isso é pura estupidez. Qualquer bruxa o sabe. Há melhores maneiras de passar o tempo. E já agora qual é o interesse dos homens tristes?

- Não sei. Pelos vistos a mulher também não sabe. Acha que lhe rogaram uma praga, que foi amaldiçoada quando nasceu. Que é kármico. Que a nuvem negra por cima das cabeças é um presságio de grande profundidade filosófica, de algum tipo de sabedoria das coisas do mundo que lhe está vedado, que só através desses homens conseguirá ascender a um plano superior do conhecimento...

- Tretas. Cá para mim a mulher devia olhar-se ao espelho e apaixonar-se pela vida, que só é triste se deixarmos. Podemos sempre escolher a alegria ou a tristeza, depende da nossa vontade.

- Vai lá dizer-lhe tu isso, pode ser que ela se convença e deixe de gostar de sofrer...

- Mas eu nem a conheço, e além disso tu é que ouviste essa história.

- Dela só sei que lhe comeram o coração, nem lhe vi a cara, mas creio que era bela. Alguns homens perderam-se no seu olhar, sonharam com o seu sorriso. No entanto, o último homem por quem se apaixonou escolheu deixá-la sozinha no deserto, enquanto se atirou para dentro de um poço no primeiro oásis que encontrou depois de ter desisitido de viver na floresta. Mas como o poço não tem fundura suficiente, está lá ainda, há-de lá ficar eternidades, num limbo entre o afogamento e a insanidade, e tão cedo parece que não sairá.

- E ela? Não fez nada?


- Fez. Sugeriu arrastá-lo para longe das margens do poço. É óbvio que não teve sucesso. Depois quis puxá-lo com todas as forças. Mas não tinha corda que chegasse, nem braços. Com a chegada da seca, caíram-lhe também os braços. Sabes, a mulher não soube como ajudá-lo. Atrapalhou-se, desesperou, tentou que um fio da sua voz chegasse até ele e o pudesse suster. Mas quando alguém cai dentro de um poço esses murmúrios são vãos, não atingem o fundo, soam a nada, longínquos. E além disso, as paredes são lisas e só uma vontade superior e muito forte, que brote das entranhas de quem caiu, as consegue transpor. Se o homem não se quiser levantar, não há auxílio que venha de fora que lhe valha.


- Então a mulher desistiu?


- Não, o homem é que desistiu de si mesmo. Esqueces-te que foi ele quem se atirou ao poço? Quis voltar a casa, mas como se esqueceu de onde fica, entregou-se à dormência, confundido pelo bolor e acidez das águas paradas. Para ele, assim que espreitou ao poço, quase instantaneamente a mulher tornou-se uma memória pouco consistente, desprezível até, quando comparada com o abraço frio do silêncio das paredes de pedra. Longe do mundo, é mais fácil entregar-se, sem ninguém a ver. O oblívio é uma companhia bastante dócil.


- E as árvores? Ele não tem saudades do cheiro do húmus da terra molhada? Do calor da madeira queimada, do abraço robusto dessa mulher? Não gostou de viver à sombra fresca, da abundância de comida, na quentura do carinho? Preferiu o deserto por que razão? Por ter mais luz?


- Não. A claridade do deserto faz parte da miragem que confunde os homens desperdiçados. É um dos enganos da escuridão, tanto mais tentador quando mais procuram um refúgio onde se esconder da vida. A existência de lenhador é pesada, cansou o homem. Por uns tempos, depois de voltar vitorioso da batalha, orgulhou-se por conseguir carregar o fardo. Os troncos chegaram até a ficar mais leves. Mas com o passar dos anos, um dia acordou tarde, e os seus olhos deixaram de conseguir ver as árvores. Esqueceu-se como era mau viver numa gruta, e teve saudades dos dias antes da guerra. Carregar madeira para se poder aquecer deixou de lhe fazer sentido. Achou que a vida dos outros lenhadores era pequena, e que a sua se tornara minúscula, quando tudo o que merecia era a imensidão. Quis fugir da razoabilidade duvidosa do seu quotidiano.


- Fugir novamente. Para onde?


- Fugir de si próprio. Não ter de se olhar ao espelho.


- Se se sentia tão miserável, não poderia ter-se tornado noutra coisa qualquer? Jardineiro, plantador de flores e frutos...


- Podia, mas não quis. Como não se recordava de ter plantado nada, apenas de colher os frutos, muitos deles azedos e bichados, achou que não sabia. E que não valia a pena. Mas na fuga, por acaso mirou-se num espelho de água. Quando se viu, nu e arranhado pelas silvas, não vislumbrou o presente, nem o futuro, apenas o passado. Viu-se novamente dentro do poço, coberto de musgo e lodo, parado. Achou que era esse o seu destino imutável, que não poderia contrariá-lo, que um dia, por mais que se escondesse, o poço viria até si. Viver um dia de cada vez, à espera do inevitável, era tão inútil como querer arrancar a pele.


- E onde estava a mulher? Não lhe mostrou que estava errado? Não lhe disse que ele era bonito e forte? Que a sua voz lhe fazia lembrar o marulhar do mar? Não lhe mostrou coisas belas? Não lhe ofereceu todos os seus beijos? Não lhe fez sentir que era um homem bom, destinado a amar e ser amado? Não o amparou?


- Sim. E também lhe disse que não tinha de viver na floresta, se assim não quisesse. Que conhecia outros sítios, que poderia ser pescador, ou pintar o mar, cantar os pássaros, ou voar nos céus. Que o mundo é grande e generoso. Que poderia ser tudo o que quisesse, onde quisesse, quando quisesse. Sozinho ou acompanhado. Ofereceu-se para caminhar a seu lado. Explicou-lhe que todos os homens e mulheres são livres de escolher e fazer a sua viagem.


- Se foi assim, o que sucedeu? Ele não quis a companhia? A vida dos humanos não é mais leve se se puder dividir as tristezas e partilhar as alegrias com alguém?


- As mulheres são mães de todos os homens, especialmente daqueles que nunca terminam de crescer. Alguns homens que se habituam a caminhar sozinhos e se sentem confusos com o rumo a tomar, dificilmente mostram que duvidam, e por isso não aceitam companhia. A confiança tem de ser superior ao medo.


- E o amor? Não é mais forte do que o medo? Não se pode amar sozinho.


- Quem nunca amou, dificilmente reconhece o amor, e muito menos acredita que o amor é o que de mais forte e melhor existe. Que o amor pode mudar o mundo e a vida das pessoas.


- Esse homem nunca amara?


- Talvez. Mas quando um homem deixa de se amar a si próprio, não consegue amar mais ninguém. É da troca, do dar e receber que nascem novos ramos. Sem isto a árvore seca, as folhas encarquilham-se, voltam-se para dentro. Parece que por momentos, ele se sentiu inteiro, feliz e grande, ao tomar aquela boa mulher nos braços. Mas, por falta de hábito, no seu pânico de se perder no seu corpo, os abraços persistentes sufocaram-lhe a garganta.


- O amor quando é demais sufoca?



(O amor e a sua ausência: o que nos move e o que nos mata.)


- Não, o amor nunca é demais e nunca sufoca. O que estrangula é o medo, a dúvida, a carência, a incerteza. São todas as formas de opressão e a ideia errónea de que algo no amor pode estar errado, não ser totalmente bom. Essa é uma das armas mais poderosas e pérfidas da escuridão: a disseminação da ideia de que o amor pode ser mau, que ao viver um grande amor, se perdem outros pedaços importantes da vida. Que o egoísmo, o interesse, a desunião são coisas necessárias. Que as pessoas tem de se proteger desse sentimento tão forte a que chamam amor! E o pior é que elas acreditam.


- É por isso que muitas pessoas são tão infelizes?


- Sim, é essencialmente por isso.


- Esquecem-se de que são irmãos e todos iguais?


- Claro. Deixaram de agradecer e de dar valor à amizade. Acham que a paixão é despojada de essência e um estado efémero, um devaneio transitório, um mal necessário para atingir fins pessoais. E que o amor…esse, muitos nem acreditam…


- Desculpa interromper-te, mas parece-me que esse homem perdeu a fé. Quando se perde a fé, perde-se a si mesmo. Pior do que nunca ter tido fé, é perdê-la, não achas?


- Tenho a certeza.


- E a mulher, também perdeu a fé?


- Não, a mulher, ao pensar perder o homem, encontrou-a.

- ...

- Antes, havia entregue ao homem o coração numa bandeja de prata.

- E ele? O que fez ao coração dessa mulher?

- Penso que foi ele quem o comeu. Nem percebeu que o comera, e soube-lhe bem na altura. Alimentou-o por uns tempos, manteve-o à tona. Pelo menos a mulher acreditou que sim...sabes que lhe nasceu outro coração ainda maior, onde anteriormente havia estado o primeiro?...E mais tarde, o homem acabou por confessar à mulher que, mesmo antes de a ter conhecido, andava a ser tentado por pensamentos de se jogar dentro do poço.

- Então não foi uma coincidência, terem-se conhecido naquela altura precisamente?

- Sabemos bem que não existem coincidências...adivinhas o que aconteceu a seguir?

- Não faço ideia.

- O homem enganou a mulher. Por piedade, para se livrar do peso da bandeja de prata, para não se sentir culpado por fazê-la sofrer.

- Mentiu-lhe?

- Ele achou que não. Apenas que lhe omitiu coisas irrelevantes. Disfarçou o poço com ramos de árvore tenros, e contou-lhe uma história. Disse-lhe que o poço era uma fonte, onde necessitava de ir beber todos os dias, para que nunca mais voltasse a perder-se no caminho e passasse para o lado de lá, para o deserto, onde existem muitos poços onde cair. Explicou-lhe ainda que os troncos que carregava quase sempre às costas lhe estavam colados à pele, e que só a água dessa fonte os impedia de lhe furar os ossos e cair esmagado no chão.

- E ela acreditou? Era tudo mentira?

- A mentira e a verdade são irmãs siamesas. Onde começa uma e acaba a outra? Ninguém sabe, mesmo que as consigam separar, não serão sempre gémeas? O homem de facto foi várias vezes beber à fonte. Mas quando quis que a mulher se fosse embora, já não era a fonte que o chamava, apenas o poço. Mas sim, ela acreditou.

- Quis acreditar, ou não quis ver?

- Ambas. Mas acreditou sempre em tudo o que ele lhe disse, até ao dia em que ele assumiu que lhe mentira. E que a queria longe dessa mentira. Foi quando o buraco no peito se lhe convulsionou, e sem saber como, começou a nascer o novo coração.

- A linha que separa a floresta do deserto é muito ténue e irregular; quase transparente.

- Sim, tem contornos variáveis, e a mulher nunca antes estivera naquele lugar; para lá chegar limitou-se a seguir os passos erráticos do homem.

- Achas que ele fez de propósito?

- Não. Na realidade, ele também nunca havia estado naquele lugar. Quis contar-lhe uma história bonita, para não a magoar. Sempre apreciara tudo o que a mulher lhe deu, não queria perdê-la, embora o seu positivismo esforçado e a persistência do seu carinho lhe começassem a pesar em cima do fardo de madeira.

- E a mulher, não podia afrouxar, ajudá-lo a carregar o fardo em vez de o carregar ainda mais?

- Podia, e tentou. Mas não sabia bem porquê nem como. Por vezes dava-lhe um desespero, ficava como que possúída por mil demónios, queria à viva força que o homem aceitasse a sua ajuda. Não se apercebeu de que cada vez que o fazia, o fardo se tornava ainda mais pesado. Então o homem afirmou que o fardo era só seu, que ninguém o podia aliviar e que tinha de o carregar sozinho.

- Esse fardo tinha a forma de uma cruz?

- Sim. Todos o homens e mulheres tem o seu. Há quem aceite um ombro amigo, há quem nem se aperceba de que o peso pode ser aliviado se houver confiança entre irmãos.

- Então o homem foi mau?

- O homem foi orgulhoso, mas fez mal sobretudo a si mesmo. Não te esqueças de que foi amaldiçoado à nascença.

- Mas também foi abençoado.

- Sim, também o foi. A luta entre as trevas e o sol é a mais antiga que existe, e a mais desgastante quando se trava dentro da alma de um ser. O homem está a travar uma luta muito dura. E quando se perde a fé, a força de vontade também acaba....a não ser...

- O quê?!

- Que o amor pervaleça.

- Outra vez o amor. Mas neste caso não foi suficiente?

- Talvez. Não sei.

- O homem não amou essa mulher?

- Não sei.

- E ela?

- Não sei.

- E eles?

- Não sabem.

- Quem saberá?

- O tempo trará todas as respostas. O problema é que por vezes, elas chegam muito tarde.

- Tarde demais?

- Não. Só a morte é irreversível.

- Então tarde de mais não é assim tão mau?

- Significa que se perde tempo, que poderia ter sido preciosamente vivido. Mas a vida é assim. Por vezes é mesmo preciso perder as coisas, para depois, um dia as voltar a encontrar e finalmente vê-las com olhos de ver. Apreciá-las, valorizá-las e guardá-las no único local onde nunca poderão ser perdida ou roubadas.

- Onde?

- Creio que consegues descobrir.

- Dentro do coração?

- Sim. Como um ovo que só se consegue abrir e nunca fechar, o que entra no coração das pessoas nunca mais de lá sai.

- De certeza que só a morte é irreversível?

- Sim.

- Então há esperança?

- Sim, é a última a morrer.

- E o amor?

- Nunca morre.

- Nunca?

- Jamais.

- O que acontecerá a essa mulher e a esse homem?

- Há tantas possibilidades e caminhos...É uma incógnita.

- Será que ela poderá descer ao fundo o poço e resgatá-lo?

- Não, isso nunca. Ficariam os dois no fundo. E nem seria no mesmo poço. Tal como as cruzes, cada qual tem o seu próprio poço....

- Ela também carrega uma cruz?

- Naturalmente. E durante algum tempo quis fazer de conta que a sua não lhe pesava tanto...que se ajudasse outros, a sua lhe pesaria menos...também se enganou a si mesma, essa mulher.

- E agora? O que farão?

- Esperar. Acreditar. Lutar.

- Ela ainda continua no deserto?

- Não, está na praia, a olhar o mar, a banhar-se nele, tentando que o novo coração que lhe brotou no peito não salte para fora ao pensar no seu homem-anfíbio debatendo-se sozinho no fundo do poço. Vê as plantas florir nas areias móveis, mede o tamanho do seu caule, como se organizam em torno umas das outras, conta a sua história.

- Abandonou-o à sua sorte?

- Não. Deixou de forçar uma parede. Ele pediu-lhe tempo. Para se recompor, voltar a encontrar-se a si mesmo, tornar-se mais forte. ter orgulho em si mesmo. Ela recomeçou o seu caminho. Só andando o caminho se faz, só fazendo a carga se torna mais leve. O homem sabe onde a encontrar. Se quiser, no areal. Terá de escalar as paredes lodosas da sua prisão. Se ele quiser.

- E ele? Continua no poço?

- Sai de vez em quando, mas apenas em pensamento. Enquanto não encontrar a casa onde quer viver, penso que não conseguirá afastar-se desse túnel. Mas ele é forte, é um bom homem, vai descobrir a resposta dentro de si.

- Encontrar uma casa para voltar. Onde fica?

- Fica em qualquer lugar onde alguém que nos ama nos espera.

- Ela espera-o?

- Não sei. Mas ela quer aprender a viver. Sabe que aquele que a amar irá sair-lhe ao caminho, mais cedo ou mais tarde. Nada é eterno. A não ser o amor.

- Ele espera-a?

- Ela não sabe. Mas não quer sofrer a incógnita. Afinal acredita ter alcançado um nível de conhecimento superior por ter conhecido esse homem. Não pode voltar atrás.

- Em que consiste? O que aprendeu ela?

- Não to consigo explicar, é preciso que percebas. Tudo o que é verdadeiro é uma aprendizagem. Uma redescoberta. Entre o bem e o mal, a certeza e a dúvida, é a aí que vivem os humanos. Quando as almas se tocam, dá-se o início da renovação.

- Haverá mais homens e mulheres na vida de cada um? Amarão outros?

- Possivelmente. O rio nunca pára de fluir. Há muitos caminhos. Tudo depende da convergência das vontades.

- Então e eles? Perder-se-ão um do outro?

- Já me havias perguntado isso anteriormente. És uma feiticeira muito curiosa. Agora pertecem-se. Mesmo que nunca mais celebrem o seu amor, nunca se esquecerão.

- Mas ainda há esperança?

- O homem tem de se amar primeiro. E a mulher tem de se amar primeiro. Só assim não pesarão tanto. E depois da tempestade a bonança pode vir de muitas formas. Conversas, abraços. Ou apenas sorrisos. Poderão reencontrar-se novamente, como novos seres, renovados e livres. Quem sabe amar e cuidar um do outro. Ou não.

- Valeu a pena?

- Não sou eu quem te pode responder. Mas tudo o que é puro é válido. Apenas eles saberão se o foi, se o é. Mas é certo que o resultado em tudo depende das suas escolhas e da suas vontades.


O homem jaz em agonia, lembra-se do afago terno, desdiz-se a si mesmo, escava na água terrosa, abre os olhos dentro da lama em busca de uma fonte límpida onde beber o remédio que o cure por fim da sua insanidade.

A mulher olha além da linha do horizonte, à procura de respostas e de alento, recorda-se do cheiro da pele ao encostar a sua cabeça no ombro do homem amado, semicerra os olhos contra o sol, em busca de uma fonte límpida onde beber o remédio que a cure por fim da sua insanidade.


Um homem triste pode tornar-se feliz. Uma mulher também.

Num dado momento, a saudade é o sentimento mais forte. Aparece repentinamente como uma vespa, uma lança, brisa ou rajada de vento.

No mesmo segundo, entre o céu e a terra, os seus pensamentos-olhares cruzam-se novamente.

Recomeça então o início de todas as coisas, secular e incorpóreo, que vem sempre muito antes de qualquer fim, e contido no qual se conseguem situar as pessoas realmente importantes nas vidas de cada um, as mesmas que lhes garantirão memória, que os farão sentir que ainda estarão vivos (e não somente sobrevivos) antes de morrer.


Afinal, o mistério da vida não se resume a uma benção ou a uma maldição. O maior Dom oferecido a cada um de nós é a própria vida. Podermos sonhar e lutar pela felicidade, ter a capacidade real de amar o próximo, a nossa missão.

E é nos espaços intermédios, nos interstícios soltos entre o chão duro, que toda a água enfim, corre.


MM' 31 Maio 2012

sábado, 26 de maio de 2012

Esquisso de Caeiro


Quem me dera ser um pequeno Caeiro
E nada saber.
Tudo ver e nada crer.

(Fosse eu a surdez que pairasse no seio da imensidão deste barulheiro)

Mas calada a voz, berra a mão
E a mente surda tropeça e cai no chão.
Pequenos pedaços de mim dançam pelo asfalto
Ao som de uma música silenciada por um soluçar cabisbaixo.

Quando tudo se tenta complanar, tudo se esquiva e nada se encontra.
Nada vejo, fustiga-me o paroxismo sentimental que me confere uma paisagem cenosa.
É hora de tudo crer.
(Houvesse outro remédio)

Que se foda o Kant, que se foda o Descartes, que se foda o Sócrates,
Porque nada inibe a vontade, porque nada é intencional,
Porque o relógio quer rodar no sentido anti-horário,
Porque tudo é latebroso e nada é certo,
Porque tudo quanto que me incrassa o coração e me combure a carne
É concolor e me compele a necessidade de o menear de mim.
Porque eu não sou Caeiro e penso.
Porque eu sou dois: Alma e Coração.
Um deles se acidentará.
Que seja o coração porque a alma é eterna e descinge-se a toda a parte.
Que seja a alma porque só existe um coração e se se desdoura tudo fica pobre e incompto.

(Puta que pariu estas retóricas das três da manhã feitas a ouvir duas gotas de suor a cair pelo rosto da marioneta de Ian Curtis)

Que se foda a alma e que se foda o coração,
Porque os céus são grandes e aqui tudo é pequeno,
Porque
In heaven
Everything is fine
You got your good thing
And I’ve got mine,
Porque nos céus tudo é incorpóreo.

Fosse o céu a Terra, Que a Terra se nidificava em mim.
Tudo em mim é espuma em abundância e se dissipa com o vento.
Porque o presente é uma rajada de vento
Futura de um pretérito perfeito,
Cujo alento se resume ao intento de destruir o que já foi feito.

Mas chega de utopias,
Porque não adianta querer luarejar a vida
De quem é lucífugo.

Se nem o cego aprimorou o ouvido e
Se o estuque caiu e ninguém varreu o chão,
Resta esperar que o vento sopre os pós, levante poeira,
Cegue o surdo.
Porque eu penso e sinto,
Não sou Caeiro, sou alma e coração,
E o tempo não existe.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

All is One




sobe o tom do meu grito ávido
 
das tuas formas que me completam o olhar
 
nesta noite em que me perco de encontro ao teu peito
 
onde me fazes barco em naufrágio de cinza dos teus cigarros apagados
 
como se as paredes de papel com que forras o nosso romance 

fossem vagas de lume possuídas por sonetos balbuciantes

os verbos que soletras

nos meus seios que te enchem as mãos

vazias das sombras

sempre que me afagas os lábios pintados de sémen

com que te beijo

o corpo cantante

tocante

alto e másculo

tantas vezes errante
 
no meu

que é memória

em decalque de orgasmos simultâneos.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

AMOR VERDADEIRO

Um mês antes de te ter
E de repente já nada é suficiente, interessante ou chamativo. Tudo tão pouco, comparado contigo e o teu sorriso. Queria estar perto de ti. Abraçar-te, cheirar o teu corpo, olhar o teu olhar vítreo, beijar-te. E já nada interessa. Só tu. Será amor? Penso em nós quando acordo, acompanhas-me todo o dia, contenho-me para não te chamar. Não me custa. É doce e manso e calmo, sei que vou fazer a viagem para te ver, talvez amanhã, ou noutro dia qualquer em breve. Será que é isto a paixão a despontar novamente? Quero que sim. Que sintas o mesmo! Preciso de to dizer, mas não posso ainda. Nem nos conhecemos. Tenho de dosear a expectativa e a emoção, adiar o inevitável, ir dando aos poucos, sem pressas de transbordar. Mas ai! Esta barragem está cheia, não posso dar-te toda a água, não te posso afogar nem ao nosso amor menino, e ainda recém-nascido, verde e vermelho…podia telefonar-te, para ouvires a minha voz, mas não sei que te dizer. Que te queria abraçar e beijar? Só isto? Não. Há tanto que te tenho em mente…ainda é cedo. Será? O teu passado é um deserto sanguíneo que me assusta, cheio de areias movediças. E eu tenho tanto líquido. Penso que preciso de ti para me tornar mais sólida. Precisarás de mim para encharcar o teu seco sofrimento com alguma centelha de vida? Tanto para partilhar. Contigo? Sim. Queria.

Uma semana depois de te ter visto
Tenho saudades dos teus olhos de camaleão, de que ainda não sei a cor…será que um dia saberemos os dois o que é o amor? Os dois?! Juntos? Na minha pele imperfeita e nas tuas rugas de expressão seremos os mais belos um para o outro? Será tudo tão bom como no início, e muito melhor do que ao princípio? Naturalmente não vieste como sonhei; és tão diferente. Mas tão próximo de tudo o que poderias ter sido e sempre quis, e nunca conheci, e nunca vivi, e hoje és tu que me inundas o pensamento, e um dia vai ser tão difícil, impossível conter o que sinto, e receio que novamente o diga antes de tempo, que novamente o diga só por querer senti-lo. E que ainda não sejas tu…o meu barco, meu homem. E tu tens também de te conter, não te podes agarrar demais a mim, sou perigosa, posso apaixonar-me com tal intensidade que te inundo, e depois largar-te de repente quando a paixão se diluir e já nada em nós ser fluido... Não te quero magoar, nem te deixar rejeitado, só e desamparado novamente (não podes voltar a sentir isso!), fazer nada que te arraste para um turbilhão de voltares atrás e recaíres no que te faz mal. Não podes voltar a comer dessa carne. Sei que comias frequentemente as vísceras de outras mulheres e até de alguns homens. Mas olho para ti, tão sossegado e sei que não me vais devorar o coração. Somos filhos da mesma pátria, irmãos de guerra. E tu és assim tão sensível, e eu não te quero magoar. Ainda não sei nada do nosso amor. Nada que já não saibamos não ser possível saber ainda.

Uma noite depois de te ter trazido para casa
Assim que vi a tua foto naquele jornal velho em cima da mesa da pastelaria, sabia que serias meu. Os teus dentes de marfim, a tua pele escamosa, o teu ar silencioso e profundo ficam tão bem com a cor arroxeada do meu lençol. Agora fica imóvel e em paz ai deitadinho, eu volto já, vou só ali trabalhar um pouco (tenho de pagar as tuas prestações; não me saíste nada barato. Quem te possuíu anteriormente não te tratou lá muito bem, maldito caçador de troféus africanos, vieste cheio de pó e teias de aranha e com as unhas carcomidas, mas no preço que pediu por ti não foi nada manso!). Está uma noite boa, sem vento, os habituais esperam-me e pode ser que hoje o negócio corra bem. Como ontem não fui e fiquei contigo, hoje devo chegar mais tarde, mas sabes que lá pela manhã voltarei para o nosso cantinho e serei toda tua novamente. Não me posso esquecer de te trazer um creme para a pele, está tão seca, tenho de te cuidar bem amor. Ai como vai ser bom dormir abraçada a ti novamente, apaixonarmo-nos de verdade e sermos felizes para sempre! Temos a vida toda. Agora sei que nada nem ninguém poderá beliscar o que nós temos, que é tão especial.
Só pode ser amor verdadeiro.

- Pintou os lábios de vermelho berrante, ajeitou a saia justa moldada aos quadris ainda rijos e dourada como o sol do seu país longínquo, calçou as botas pretas de cano alto, viu-se ao espelho rapidamente, colocou a peruca loura apreciando o contraste com a sua pele de chocolate, sobre o corpo magro pôs o casaco verde comprado na loja do chinês, deu-lhe um beijo na testa e saiu do quarto apressada.
Na mala amarela, também comprada no chinês, como sempre desde que o lera pela primeira vez, levou na bolsinha interior ao lado do telemóvel topo de gama da candonga, o bendito anúncio, mais valioso que um bilhete de lotaria premiado, agora devidamente plastificado ao estilo BI antigo, que dizia:
Crocodilo embalsamado. Impecável estado para colocar em cima do móvel ou no
chão. Tel: ….


Uma hora depois de ter saído à rua
O réptil permaneceu quieto no seu esgar, sorrindo satisfeito, aconchegado
na cama de casal, tapado com a manta de lã cor-de-rosa, tricotada à mão pela
sua nova dona durante a solidão das tardes frias de Inverno antes de sair para
a vida.


(Depois de tanto sangue e de um longo abandono ao esquecimento, como é bom ser o escolhido de uma p*** com sentimentos).

MM’ 12 Abril de 2012


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Tenta contar até 3…



Parte I – A espuma negra

- Calma, respira fundo. Afinal de contas, o que é que te preocupa tanto?-

O meu homem esconde-se entre a espuma dos seus pensamentos, que o afogam até aos dias do desperdício. De tempo, de vida, de fome. Persegue a sua própria sombra com os olhos rasgados pelo medo de nada encontrar do outro lado. Toca na sua língua e corta-se nas palavras afiadas que esta guarda para certas ocasiões sociais, quando leva a bílis a passear ou se enrola nos bigodes veteranos da ventania de outono, rumo a sul. Até que se embala na arrepiante luz da manhã que antecede a longa noite de pesar…



Parte II – Nas minhas veias o teu sangue

…se disfarçares ninguém repara, acredita. Porque mesmo as pessoas que notam o óbvio deixam que o óbvio se omita por entre as frestas sombrias dos seus medos e inseguranças. Ah, se te julgas impotente para o fazer, que dirão os milhares, milhões até que o fizeram antes de ti? Navegam cegos entre miasmas e rezas a santos ausentes. Repara, observa bem, espreita pela fechadura das suas mentes, penetra nos nós pequeninos que lhes enrolam o dizer, fazer de morto, viver em vão, entre o vão das ondas e o ir, fugir, reluzir como uma estrela longínqua, tão fria que se envolve em léguas de nada.

- eu sei que não presto, sei que não presto, sei. Não presto agora que me consumo entre memórias que não quero voltar a viver. Não quero voltar a viver se tu não viveres, se tu não andares por entre as minhas memórias que explodem como minas sob os teus frágeis pés de seda. Eu queria ter o meu sangue dentro do teu coração, a latejar na veia proeminente da minha testa, que eu esfrego nervosamente enquanto penso em ti. Agora, nem sei se há um ‘ti’ para pensar, pobre de mim.-



Parte III - Sem ti, nada

Cancelei as minhas dívidas e é a minha voz que levanto. Primeiro, em tom baixo e fúnebre e com a chegada da última hora da madrugada, mais viva e loquaz. Quero despedir-me deste poente que me roubava a estrela da manhã, por entre dedos de vidro fosco por onde tu, por vezes em dias de chuva quente, ainda espreitarás. Pego no carvão e faço um último esquisso na parede da tua mente. Parece que me recorda de ti, das canções feitas de pétalas e do que dizias ser parecido com o meu olhar distraído e melancólico. Encerro este capítulo de forma épica e diagonal, sem que possam um dia unir os pontos da discórdia por tanto concordarem que tive o que merecia. Hoje, seca pele de réptil, abandono-te na maré pestilenta dos amores imperfeitos e peço-te, vai para longe e abandona-me de dentro de ti. E que quem te descubra abrace esta maldição como tua e a perpetue assíncrona e harmoniosa, como o renascer doentio do sol vermelho escondido atrás das saias da última madrugada.

- arrumo a alma num pequeno pacote, dela não sentirei falta, é funesta e faminta, arrasta para dentro de si o sopro do primeiro demónio que se fez inquilino no Eliseu e zombou de Deus. Há tantos anos que esperava por este momento, oh doce morte em vida, te abraço em serena plenitude. Antes vazio como a lua nova do que de ti prenhe e escravo. Agarro-me à lâmina quente que soltará as amarras deste vício sujo que é dar-te de comer. Solto uma última lágrima falsa e estendo-me no chão a escrevinhar no portátil. Diverte-me o piscar do cursor, faz-me lembrar as dores pulsantes de quando me ocupavas e violavas sem piedade. Crocodilo embalsamado. Impecável estado para colocar em cima do móvel ou no chão. Envio o email para o jornal e agarro-me ao telefone. Alguém ficará feliz com a oferta. Alguém me fará feliz por me amar sem nada me dizer. Alguém assentará num papel arrancado oportunamente de um pequeno bloco a morada. Alguém me virá buscar, cadáver. Nota mental: deixar a porta entreaberta antes de contar até 3…-

segunda-feira, 2 de abril de 2012

... de água salgada




Lá está ele a vestir o fato bom e a escovar o chapéu. Vai outra vez ao jornal colocar o anúncio, o mesmo de sempre. Como se alguém quisesse comprar um crocodilo empalhado de quatro metros para pousar em cima de um móvel. Acho até que já não se fabricam móveis com quatro metros. Nunca se livrará de mim.


Já tivemos algumas visitas, é certo. Um artista algo bizarro que queria fazer uma escultura com  bocados de animais embalsamados e outros em putrefacção, uma senhora com tesouras em vez de olhos que me transformou em carteiras e botas com uma só mirada e um doutor qualquer de um museu qualquer que tentou ensinar-nos todas as estatísticas que lhe enfiaram na cabeça sobre répteis. Acabaram todos corridos de forma deselegante, principalmente o último quando quis explicar-lhe os quilopascais de uma dentada de crocodilo.


Como se ele não soubesse. Como se os meus dentes, “cujo número varia entre os sessenta e quatro e os sessenta e oito”, não lhe tivessem arrancado metade da perna.


Foi noutro tempo, nos antípodas desta velha casa cheia de aranhas e conservada pelo cheiro do formol. Só existia o meu estuário aberto até que o puxão de uma armadilha e bolas de fogo vindas de lado nenhum rasgaram-me escamas, pele, carne e vida. Tal como acontece com vocês humanos, a hipoxia não perdoou e lá segui o túnel de luz no final do qual estava o tal membro que abocanhei num último pulsar de sangue. A perna de um rapazola imberbe e apavorado que acompanhava um pai determinado em fazer dele um macho a sério. Foi instinto, nem sequer gosto de carne humana. Recordo-me apenas de um ou outro turista estúpido ou fotógrafo intrépido.


Logo na hora o pai decidiu que eu deveria ser embalsamado. Se o miúdo não ia prestar para muita coisa, ao menos que tivesse uma boa história para contar e um troféu para exibir juntamente com o pedaço de coxa. E assim foi. É lógico que começou por ser um acidente de caça e acabou numa luta corpo a corpo nas profundezas salobras do rio mas quem conta um conto tem o direito universalmente consagrado de acrescentar um ponto…. ou uma recta, neste caso.


A nossa história real não tem sido feliz. De regresso ao país natal, a sua obsessão com aquela fracção de segundo e com os crocodilos foi aumentando à medida que a sua sanidade mental diminuía. Tornou-se, obviamente, taxidermista. Começou por estudar o réptil, decidiu coleccionar mandíbulas e passou anos agarrado às escrituras e ao Leviatã. Depois convenceu-se que ganhara um novo sentido, uma espécie de fúria devoradora, e deixou de cozinhar a carne. De seguida veio a fase em que se pintava de branco, subia para o meu dorso e julgava-se a comandar uma legião de demónios. Colava-se à janela e fazia todo um ritual de gestos com os quais impedia o mundo de avançar, mantendo as pessoas a correr no mesmo lugar. Convenceu-se de que não poderia ter mulher e filhos porque se o fizesse a criança teria garras e rasgaria a mãe para nascer. Passou por diversos momentos complicados que culminaram no emprego no hospital e no compartimento secreto cheio de pernas embalsamadas. E então, de um dia para o outro, deixou tudo de lado.


O tempo foi passando e o pobre rapaz desaguou num homem precocemente velho e meio louco. Ultimamente anda com mais pressa de vender-me. Tal como eu, ele tem visto por aí a dama da morte. Ela derrama a sua sombra na cadeira junto à porta, ele puxa um banco, vai buscar a espingarda do pai e ficam para ali os dois horas a fio a olhar-se nas covas dos olhos.


Agora ele acha que eu sou Osíris e que quando deixar o mundo serei eu a pesar-lhe o coração. Não sei se serei. Também não sei se ele fez muitas coisas erradas ou se carrega grandes culpas. Decidi que direi que é leve mesmo que não consiga levantá-lo do chão. É que se for pesado terei de o engolir e não posso fazer isso. Roubei-lhe parte do corpo e toda a sua mente, nunca poderia tirar-lhe também o coração. Dizem que a fome dos crocodilos só é suplantada pela da noite que devora o dia… mas até nós temos limites.


Na realidade, seria como comer o meu próprio coração. Com o tempo a água salgada das suas veias e o pó das minhas, abandonadas no outro lado do mundo, tornaram-se uma só lama.