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A mostrar mensagens de 2012

Afterglow

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hoje senti saudades tuas.
a chuva subiu pelas narinas provocando geada nos pés. encolhidos os dedos, a chuva continuou agora neve, nos cabelos curtos e mais ralos de ferrugem onde a fuligem dos comboios a vapor pincela telas de luz morta, ou apenas moribunda, dependendo da gravidade da água que agora desce para voltar a subir pelas pernas escolhidas pelos dedos encolhidos. o senhor da farmácia fez uma careta à ingestão dos dois comprimidos, para que a dor parasse. a dor amenizou o corpo que buscava descanso e nem sequer toldou o pensamento, apenas fez esquecer a dor e é tão bom parar a dor, que do seu esquecimento apenas fica um suave mau-estar sem odor, porque se a dor fosse perfumada, nem morta me esquecia dela.
por vezes tenho saudades dos dias em que me passeavas, sem dores, pelos jardins da minha infância e da tua maturidade de homem imponente pela altura e pelo carácter. a minha mão na tua, esmagada pelo anel de ouro com uma pedra azul. e eu perguntava-te porque não usavas aliança, …

o quase-homem

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O quase-homem quando nasceu Não chorou, estremeceu e quase-soluçou Enrolou-se na luz branca da primeira manhã E quase-sentiu o beijo quente da sua mãe Envolto num quase-suspiro de felicidade
Quando cresceu quase-aprendeu Entre dores, esquecimento e ilusão perdido Sobre o centro do universo e o amor quase-correspondido Quase-ferido, totalmente despojado De sentir, querer e quase-desolado
Quase-certo de suas decisões avançava Por entre escolhas quase-pensadas pensava Escolhia entre murmúrios e o eco inconstante O quase-instante da satisfação, errante Num quase-fóssil de luz guardada Como um coração sem peito para bater, cuidada Pulsante, como a quase-memória de um sentimento
Fez de sua casa um quase-lar Onde quase-nada à mesa lhe poderia faltar Desde a quase-tristeza ao poema por escrever Tudo por fazer em tempo de vida, alheado Quase-sonhava por uma rosa ser quase-beijado Nunca colhida, quase-desejada e para sempre perdida
Num quase-momento de lucidez e quase-escolha Pegou em livros …

Haikill

Fonte

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Corre a água pela Fonte, Barulhando perto ao longe, Triste e pálido mato meio sem Graça.
Sequiosa, a boca, comanda-se emudecida Pelo calor da fachada Que esconde o estro ingénito Que acende e apaga a luz do meu ser.
Temos todas as razões para viver, Mas falta-nos sempre uma razão para reparar o mundo. Porque o mundo é ingente e pequeno, Vê-se sempre perto de longe.
Brotam-se ideias e pensamentos, Mas é certo que nunca se exuma como deve ser. (Estará o solo insalubre?)
A água, pura, esvai-se Pelo desejo ávido Que mescla cada pedaço de mim.
Já nem me acho, Deslustradas, as fotos Que me pediram. (Pena, os traços do rosto que se espelham na água)
O gesto inócuo nunca me há-de dar a conhecer o incognoscível.
Fosse, talvez, o mundo feito de insipidez E fossem os dias resumidos a flores, sol e Primavera. Fosse eu a tua sede e água da Fonte a tua boca, Porque assim, num gesto vão, estaríamos conchavados.
O (nosso) mundo não é a fachada que pintamos.

Através de ti (Parte III de III)

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Parte III – Leite com mel e hortelã





- Olá, posso oferecer-lhe uma pastilha? São de lima-limão, as minhas favoritas.

Num ligeiro sobressalto, Elianor vira-se para a sua esquerda e dá de caras com o jovem simpático que partilha consigo a paragem de autocarro juntamente com duas mulheres de meia-idade que tagarelavam incessantemente. Ele sorri e aponta-lhe a caixa de pastilhas enquanto acena gentilmente com a cabeça. Elianor tenta sorrir de volta mas não consegue. Não faz mal, os seus olhos sorriram por ela.

- Vá, não se assuste, é só uma pastilha para ajudar a passar o tempo de espera. Já agora, posso sentar-me ao seu lado?

- Sim, claro, é um espaço público… -

Chega-se para a ponta e olha para as senhoras que matraqueiam alegremente como se estivessem completamente sós. Seria de esperar que, dado o sobrepeso e as varizes, fossem elas as detentoras do direito ao assento, mas não, pareciam duas adolescentes histéricas à porta de um concerto, até soltavam risos e um ou outro gritin…

Através de ti (Parte II de III)

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Parte II – Sequência






“Mostra-me, mostra-me o que tens, do que te estas a esconder. Eu conheço-te, sei quem tu és, partilhamos o mesmo coração, o mesmo pensamento, o mesmo sonho. E quando tudo flui, tu vogas comigo, somos mar e navio, mastro e vela, maré e maresia, somos pedaços da mesma fantasia e delírio onírico do mesmo arquétipo adormecido. Mostra-te, vê dentro de ti, não tenho segredos para ti, não há palavras por dizer ou redigir, sou o livro que conta a tua história em parágrafos de existência intermitente e pontuação cuidada. Somos canto e estrofe, nascemos gémeos na garganta do poeta que um dia quis contar a história da luz, aquela pequena luz que nos comove e tem cativos, a luz dos teus olhos, por onde eu contemplo o horizonte perdido das horas em que não me sinto em ti. Não te martirizes, nada há para esconder, eu sei o que tens.”
Seria de esperar que estivesse assustada, apavorada pelo terrível sonho que a despertou a meio da madrugada. Mas Elianor simplesmente abriu os ol…

Par de botas

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Era uma vez um cordel de pião que servia como atacador na bota número 39. Tinha como rotina diária espartilhar o pé e aconchegar-se num laço perfeito, tão perfeito que só podia ser feito por alguém com um único pé para calçar. Mas os vícios são como as crianças na idade dos porquês e cada vez que o cordel pensava porque não tinha pião para girar a senhora era impulsionada num rodopio de calcâneo. Sucediam-se as náuseas e os vómitos e com um estômago prostrado a cama foi a melhor forma de suavizar os estragos. A cama e um chinelo. 
Na casa do bicho papão, a bota palmilhava palavras interrogadas ao cordel: "Não és feliz aqui?” O cordel desentrelaçava: "Não sei."  Um dia, e porque todas as estórias têm "um dia" a má circulação apaixonou-se pelo pé e a bota deixou de ser bota, foi promovida a técnica de cotão com part time em berço para o bebé do bicho papão. O cordel começou a servir de fio de pesca para meninos e meninas com ponta de narizes curiosos por "…

Através de ti (Parte I de III)

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Parte I – Elianor

Sempre que entra em casa ouve uma voz que a cumprimenta. Bem-vinda, por onde andaste? Elianor, de olhos firmemente cerrados, respiração presa, queixo encostado sob o ombro esquerdo, levanta o braço direito e estende a mão na escuridão que inunda a sala de entrada. Quase que o sente. Quase. Mas não o sente. Não se pode sentir o que não está lá. Respira fundo… a mesa de cerejeira, as cadeiras almofadadas, arrumadas, marcam a ausência.

Por onde andaste, Elianor? Que ruas foram essas em que vincaste os passos apressados, que luz te afagou a face branca, branca como um anjo de porcelana, de traços finos e olhar distante. Onde estiveste Elianor? Não, não estiveste à beira da água, a sentir a brisa fresca da manhã, a contemplar as crianças a brincar com as flores. Não ficaste sentada na paragem de autocarro, à espera do número que nunca mais vinha, fingindo aflição pelo atraso, quando tudo o que querias era que alguém te visse, mesmo que não desse pela tua presença.

Quem …

As 180 do cuco

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O cuco era verde. Ou azul-esverdeado cor de céu à beira-bolor. A caixa-casa era castanha. Ou vermelha-acastanhada cor de sangue-seco. O relógio-parede não tinha cor. 
Era uma vez um cuco que sofria de bichos de carpinteiro e de cancro nos pulmões. 
 Ao canto da sala na caixa-casa do relógio-parede tossia horas e meia horas em tom expecturado-serradura e lamentava-se da lentidão do pêndulo, o qual já se encontrava metastizado pelo enjoo do vaivém. A corda, essa, já rangia velhice quando se puxavam os pesos que não passavam daqueles que a consciência às vezes tem.  Mas sem mais demora, o cuco era paliativo e as 180 vezes angustiavam todos os minutos do dia que se situavam entre as entradas e as saídas, entre a comichão do caruncho e as pinças do seu caranguejo e por isso começou a fumar a serradura que expelia. Se o mal que saiu voltar a entrar deixa-se de ter espaço para novos males e assim, ao menos, o mal faz-nos sentir bem pela familiaridade.  Hoje, finalmente e sem muito para cont…

ENTRE A LUZ E A ESCURIDÃO

Quando nascemos somos abençoados pela luz e amaldiçoados pela escuridão.


- Ouvi falar de uma mulher cujo Dom é o de conseguir apaixonar-se de verdade. Mas a sua maldição é apaixonar-se sempre por homens tristes.

- Isso não é um Dom, isso é pura estupidez. Qualquer bruxa o sabe. Há melhores maneiras de passar o tempo. E já agora qual é o interesse dos homens tristes?

- Não sei. Pelos vistos a mulher também não sabe. Acha que lhe rogaram uma praga, que foi amaldiçoada quando nasceu. Que é kármico. Que a nuvem negra por cima das cabeças é um presságio de grande profundidade filosófica, de algum tipo de sabedoria das coisas do mundo que lhe está vedado, que só através desses homens conseguirá ascender a um plano superior do conhecimento...

- Tretas. Cá para mim a mulher devia olhar-se ao espelho e apaixonar-se pela vida, que só é triste se deixarmos. Podemos sempre escolher a alegria ou a tristeza, depende da nossa vontade.

- Vai lá dizer-lhe tu isso, pode ser que ela se convença e deixe de …

Esquisso de Caeiro

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Quem me dera ser um pequeno Caeiro
E nada saber.
Tudo ver e nada crer.

(Fosse eu a surdez que pairasse no seio da imensidão deste barulheiro)

Mas calada a voz, berra a mão
E a mente surda tropeça e cai no chão.
Pequenos pedaços de mim dançam pelo asfalto
Ao som de uma música silenciada por um soluçar cabisbaixo.

Quando tudo se tenta complanar, tudo se esquiva e nada se encontra.
Nada vejo, fustiga-me o paroxismo sentimental que me confere uma paisagem cenosa.
É hora de tudo crer.
(Houvesse outro remédio)

Que se foda o Kant, que se foda o Descartes, que se foda o Sócrates,
Porque nada inibe a vontade, porque nada é intencional,
Porque o relógio quer rodar no sentido anti-horário,
Porque tudo é latebroso e nada é certo,
Porque tudo quanto que me incrassa o coração e me combure a carne
É concolor e me compele a necessidade de o menear de mim.
Porque eu não sou Caeiro e penso.
Porque eu sou dois: Alma e Coração.
Um deles se acidentará.
Que seja o coração porque a alma é eterna e descing…

All is One

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sobe o tom do meu grito ávido das tuas formas que me completam o olhar nesta noite em que me perco de encontro ao teu peito onde me fazes barco em naufrágio de cinza dos teus cigarros apagados como se as paredes de papel com que forras o nosso romance 
fossem vagas de lume possuídas por sonetos balbuciantes
os verbos que soletras
nos meus seios que te enchem as mãos
vazias das sombras
sempre que me afagas os lábios pintados de sémen
com que te beijo
o corpo cantante
tocante
alto e másculo
tantas vezes errante no meu
que é memória
em decalque de orgasmos simultâneos.

AMOR VERDADEIRO

Um mês antes de te ter
E de repente já nada é suficiente, interessante ou chamativo. Tudo tão pouco, comparado contigo e o teu sorriso. Queria estar perto de ti. Abraçar-te, cheirar o teu corpo, olhar o teu olhar vítreo, beijar-te. E já nada interessa. Só tu. Será amor? Penso em nós quando acordo, acompanhas-me todo o dia, contenho-me para não te chamar. Não me custa. É doce e manso e calmo, sei que vou fazer a viagem para te ver, talvez amanhã, ou noutro dia qualquer em breve. Será que é isto a paixão a despontar novamente? Quero que sim. Que sintas o mesmo! Preciso de to dizer, mas não posso ainda. Nem nos conhecemos. Tenho de dosear a expectativa e a emoção, adiar o inevitável, ir dando aos poucos, sem pressas de transbordar. Mas ai! Esta barragem está cheia, não posso dar-te toda a água, não te posso afogar nem ao nosso amor menino, e ainda recém-nascido, verde e vermelho…podia telefonar-te, para ouvires a minha voz, mas não sei que te dizer. Que te queria abraçar e beijar? Só isto…

Tenta contar até 3…

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Parte I – A espuma negra
- Calma, respira fundo. Afinal de contas, o que é que te preocupa tanto?-
O meu homem esconde-se entre a espuma dos seus pensamentos, que o afogam até aos dias do desperdício. De tempo, de vida, de fome. Persegue a sua própria sombra com os olhos rasgados pelo medo de nada encontrar do outro lado. Toca na sua língua e corta-se nas palavras afiadas que esta guarda para certas ocasiões sociais, quando leva a bílis a passear ou se enrola nos bigodes veteranos da ventania de outono, rumo a sul. Até que se embala na arrepiante luz da manhã que antecede a longa noite de pesar…


Parte II – Nas minhas veias o teu sangue
…se disfarçares ninguém repara, acredita. Porque mesmo as pessoas que notam o óbvio deixam que o óbvio se omita por entre as frestas sombrias dos seus medos e inseguranças. Ah, se te julgas impotente para o fazer, que dirão os milhares, milhões até que o fizeram antes de ti? Navegam cegos entre miasmas e rezas a santos ausentes. Repara, observa bem, espreit…

... de água salgada

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Lá está ele a vestir o fato bom e a escovar o chapéu. Vai outra vez ao jornal colocar o anúncio, o mesmo de sempre. Como se alguém quisesse comprar um crocodilo empalhado de quatro metros para pousar em cima de um móvel. Acho até que já não se fabricam móveis com quatro metros. Nunca se livrará de mim.

Já tivemos algumas visitas, é certo. Um artista algo bizarro que queria fazer uma escultura com  bocados de animais embalsamados e outros em putrefacção, uma senhora com tesouras em vez de olhos que me transformou em carteiras e botas com uma só mirada e um doutor qualquer de um museu qualquer que tentou ensinar-nos todas as estatísticas que lhe enfiaram na cabeça sobre répteis. Acabaram todos corridos de forma deselegante, principalmente o último quando quis explicar-lhe os quilopascais de uma dentada de crocodilo.

Como se ele não soubesse. Como se os meus dentes, “cujo número varia entre os sessenta e quatro e os sessenta e oito”, não lhe tivessem arrancado metade da perna.

Foi noutro …