domingo, 28 de dezembro de 2014

K is for Kin [The Alphadeath Codex]



In all the fallen leafs and brittle branches
In the still puddles and murky water
Inside the bleak hollows beneath the old roots

You won’t find me there
For I am dust and dirt
A feather floating amidst the locust winds
Ravaged by the echoes of a nameless name

And the itch
The unstoppable itch
That grits the nerves and gnashes bones
The venomous anxiety that swallows you whole
It’s not me
Nor by me is brought

For I am now forgot

And all that you see in front of thee
The metallic taste of a kiss ~
The denied bliss of love unfulfilled
The marks you left in your mind field
The bodies now carrion
Wasting in uncanny quietness
All the madness

That’s not me
That could never be me
For I
I am the next of kin to nothingness
I am the emptiness
The void in your eyes as you take your last breath

I am become death

domingo, 7 de dezembro de 2014




Raios serpentinando pelas frinchas desta porta, e a criança lá dentro, como estátua de sal pontua a penumbra que me cobre como um cobertor demasiado curto onde os pés sobressaem ligeiramente arroxeados do frio acumulado. Reverberam vozes agudas, longínquas, risinhos inocentes pela parede que divide do condicional, pleno de mofo e teias de aranha. Deste lado só vácuo, ranger de dentes uma boneca amputada e cega e o buraco negro que já me sugou, ruminou e cuspiu com nojo.

domingo, 30 de novembro de 2014

(...) 
Vejo-a ao longe. O vento bate sobre a sua face. Mas parece não se importar. Deixa ele levantar o seu cachecol à volta do pescoço. E sorri. Sorri como se tivesse a desfrutar de algo mínimo naquele momento. Observo-a de longe. Memorizo cada detalhe, cada gesto, cada ar... Decifro o seu olhar. Como se fosse um puzzle. Tento conhecer mais. Saber mais. Quero saber o que lhe fascina. Quero saber o que lhe assusta. Vejo-a como se fosse a primeira vez, e apaixono-me como se fosse a última. 
Ela vem na minha direcção. Serena, calma... O tempo pára. Torna-se apenas um conceito vago e absurdo. Deixa simplesmente de existir. Sou apenas eu e ela. Quando chega perto de mim, o seu sorriso eleva-se, o seu rosto ilumina-se. Devagar e rápido ao mesmo tempo. Algo tímido. Há algo no seu olhar. Tem olhos grandes e castanhos. Que apesar de serem escuros, quando os nossos olhares se cruzam parecem claros, brilhantes. Não sei se será dos charros. Ou se sou eu que vejo algo que poderá não estar lá. Mas se for apenas uma ilusão ou a expectativa a alimentar-me, que seja. Este formigueiro e fascínio que há tanto procurava em alguém consome-me da maneira mais inocente, ingénua. E por vezes não sei como lidar com este sentimento... não sei adaptar-me ou lidar com ele. Apenas sinto. Sei que o sinto. E deixo-o fazer sentir-se agressivamente. E ela apenas ali. Sem se aperceber do que mais desejo, anseio por. E no entanto deixo. Deixo andar... Apesar de impacientemente querer constantemente a sua presença. Assisto de um canto todos os seus passos, todos os seus movimentos. Poderá parecer exagerado. Para mim não é. Conheço-a assim... discretamente... (...)

(...) Ela inclina-se para a frente quando ri. Os seus movimentos fluem naturalmente... como se ela própria se deixasse levar pelo vento. E tem um jeito de rir tão discreto e ao mesmo tempo tão lindo, tão único... tão brilhante. O seu rosto ilumina-se quando abre um sorriso... e eu não consigo evitar concentrar-me nela... parece que me chama, que me seduz. A voz dela... A voz dela é suave, como uma música onde encontro todas as razões para a amar. E poucas são aquelas que me impedem de me perder no conforto da sua presença. Consegue provocar-me um fervilhar, uma inquietação de esperar, esta esperança que me faz querer esperar...  Talvez eu nunca consiga encontrar as palavras certas para a poder descrever na totalidade da sua beleza. Mas fico fascinada... fascinada neste mistério que ela será, que tanto quero conhecer e que à medida do tempo me deslumbra mais. Conhecê-la  demoraria uma vida inteira... talvez...  nela encontro a inspiração, o formigueiro que me faz escrever sobre a pessoa em que me perco e onde me encontro, e procurei tanto por algo assim. Conseguiu fazer-me encontrar uma inocência que à muito julgara ter perdido nas cinzas de um passado que esqueci, que deixei estar... Pensei que nunca poderia sentir algo assim, tão puro e inocente, acho que não com esta intensidade, com este desejo... (...)





domingo, 2 de novembro de 2014

Cal.de.irada





A cal ferve no poial caiado a panos quentes
Não se quer irritar os tornozelos zonzos
Quer-se que a mão de lixa abra o postigo 
que a voz mendigue sopa de letras em direcção à panela de barro
e acabe de vez com o fastio
(Talvez o maltês oiça sem assomar a cabeça)
Mas já passaram uma data de dias
em que os pés fundidos ao chão metálico
não abalam senão para o coração
de coronárias apertadas de aperto
de batimentos que são contos, cantos, contas
presos com pontos nas pontas de pranto
na bainha do poial
(cozido ou cosido a linha de alinhavar com cheiro a peixe)
debaixo da porta
que tem o postigo
que tem gente
que não abre.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

J is for Jaded [The Alphadeath Codex]



Say the word

A gentle scream unleashed in the roaring silence of the night
A gasping sound echoing into a blood drenched hollow oak
Eyes open engulfing pictograms of crimson light consuming light
An eerie blinding bursting light
Draws the words left unspoken

Say that word

The one that burns in my cold lips
And tears your heart into shatters
Say it like it matters
As if the stars would crumble into the land

Say it now
Because no one else can

Scream that word
Shout it aloud so no one can hear you
Rip it from your lungs into the saturated air
Say it  like you mean it
Like you really care

Say it
If you dare

Say it again and again
And again
That jaded feeling of forgiveness
And sorrow

Softly breathe it
Into my weary mouth
Say that you love me
Maybe if you mean it
Somehow

Amidst the chaos
And run-arounds
I’ll live again
But
It really doesn’t matter anyhow

Say that word

Say goodbye
Say it like you mean it
For this time
You will not be saying a lie







domingo, 26 de outubro de 2014



Deito-me no chão a olhar pela janela e no tempo eu me perco. O céu está cinzento. E essa cor é tudo o que eu vejo... Se os sentimentos fossem cores eu seria cinzento. Perderia-me na neblina matinal de Inverno dentro de mim própria. E nela sou apenas um vulto que lá passeia permanentemente. Nisto, já eu me perdi inúmeras vezes. Acho que na verdade, cada vez que consigo sair, iludo-me. E mais uma vez estou aqui. Perdida. Confusa... E sinto fervilhar o sangue, sinto a frequência cardíaca acelerada, as minhas mãos tremem. Algo me tornou vulnerável. Já não consigo dormir de noite. Esta imensidade de emoções corroí-me por dentro. E contar só comigo para lidar com o que sinto exige demais de mim, mais do que posso. E isto, isto que sinto e não sei... é interminável. Sinto o desespero dos gritos da minha cabeça. Os tapetes do meu quarto disfarçam as poças secas que eu deixei criar. No entanto, nada faço. Deixo passar. Acolhi-me a esta rotina emocional. Em mim ficou um pedaço de nada, um vazio, um espaço frio. Mantém-se aqui, comigo, intocável. E aos poucos e poucos, espalha-se por mim. Dentro de um poço profundo, sinto-me a cair como se nunca fosse chegar a um fim. Sinto o tempo desvanecer por entre os meus dedos. Não posso agarrar as pequenas boas sensações. Essas voam diante dos meus olhos para longe... e eu permaneço aqui, estática. Numa queda profunda sobre o incerto. E comovida, as lágrimas criam o meu amparo, onde afogo os meus pensamentos. Onde me afogo a mim mesma. E no desconhecido constante embora consciente, eu vivo. E vou deambulando a ouvir o bulício das vozes agudas que me arrepiam. 
Acolho em mim toda a melancolia que cabe num mundo. E devagar, devagarinho, calmamente, adormeci uma parte de mim junto dela que confortavelmente habita-me. E, arduamente, sinto-a manifestar-se no meu ser. 
(...)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Voo TP 706





Até mesmo os olhos fechados ao exterior, aceleravam o coração na corrida para o mundo a descobrir por dentro outras coisas, tão novas que lhe eram agora intimidade suprema de si.

Colecções de lembranças em caixas de cigarrilhas, douravam-lhe a pele, o cabelo, o olhar de uma luz ambarina.

De mãos dadas com o tempo, escreve, descreve, imagina… sucinta textos desfragmentados a tinta permanente, azul, cor da infância e dos laços nas tranças. 
Crepuscular o vazio do estômago quando o avião levanta voo, num misto de grito incandescente de vida escorrida dos dedos que se conformam nas mãos esculpidas. Como se fossem mármore.

Viaja em velocidade uterina, o sabor do jantar a passado, como quando se deseja muito algo que acontece decorrido tempo demais, o sabor a guardado, quase naftalina bolor de prado estéril.

Aquela noite era diferente. Imperava o contraste de uma tarde de insónias misturadas entre o fabricado, o fumo de palavras implícitas, os cheiros dos restaurantes take-away. O jantar desconfortável na busca de olhares em que as mãos eram o repasto e os dedos, sinfonia.

Queria tudo, numa fome e sede profundas, coloridas, licorosas.

Então num gesto em que se fecha e desenha, confirma o modo avião no telemóvel, na esperança de uma sms de última hora.

Cerra as pálpebras no gesto de raiva que lhe fere o lábio inferior. Entre um soluço mudo e uma lágrima invisível, engole o adocicado do sangue que é também, rubor.


sábado, 20 de setembro de 2014

Enseada





As pessoas dirão que eu procurava a morte.
Puxo o barco para a água, entro nas névoas verticais e deixo-me levar para os alcantis. Dizem que são ossos de rocha, dorsos de animais que despedaçam homens. O casco rompe-se. Não luto. O tempo escorre. 

A Cibele contou-me que existe uma cidadela nas profundezas e que o caminho para lá abre-se no nevoeiro. No início é duro, depois frio, depois escuro, depois calmo e, por fim azul.  Ela prometeu encontrar-se comigo lá um dia.  Eu não posso esperar mais.

Uma a uma revejo as escamas da minha vida. São como aqueles panos de espuma suja que ficam no areão da maré vaza depois das tempestades, misturadas com os despejos do mar.   
Dizem-me que a amargura do meu pai cheirava a álcool. No dia em que o seu homem não voltou, a minha mãe caiu de joelhos na praia e entregou-me às ondas. Nasci ali mesmo, com as suas águas e sangue a correr para o oceano. E todos os anos, no meu aniversário, ela voltava àquele lugar para espalhar uma mão cheia de sal. Não sei se para me proteger, se para sepultar o meu pai mais uma vez, se para purificar um lugar que ficou manchado.

Cresci como todos os meninos daqui, com os ventos mareiros na cara, os dedos sempre enrugados, guelras em lugar de pulmões. Ainda não tinha uma dúzia de anos quando fui para os tanques de salga e daí para a faina. O destino, por estas bandas, é tão presente e intenso como o cheiro a peixe. 
Não tardou muito até que a minha pele crestada ganhasse salitre. A corrosão transformou-se em cilício e comecei a deixar o corpo nas redes ao mesmo tempo que sufocava lentamente sem conseguir respirar o bafo do mar.  Deixei a lida. Empurrada pelas outras mulheres, a  minha mãe obrigou-me a ir à igreja.  “O moço não quer por o pé na casa de Deus”, dizia, sabendo muito bem que o que eu recusava era que Deus pusesse o pé em mim. “Talvez quando for mais velho”. Nunca chegarei lá.

As pessoas da terra, resignadas, nem reparam como têm a salsugem entranhada até aos rins. Flutuam como sargaço. Sulcam o mar para sobreviver e, em troca, deixam que o mar arranhe as suas almas. Uma vez por ano arrastam-se até à praia com a imagem da virgem  negra e vão pedir que ela guarde as suas vidas carcomidas. Vidas de salmoura. A minha nem vida é.
O ano passado, quando fiz quinze anos, o vento tornou-se menos áspero e trouxe consigo uma rapariga muito morena de cabelo emaranhado que leva os homens para as dunas. Não tem as pernas cobertas de corais como as mulheres daqui e os seus beijos sabem a água doce. Foi baptizada Maria do Mar mas conseguiu escapar-lhe. Agora é Cibele, o meu único amor, a única que me fala de liberdade mesmo que às vezes a sua voz trema. Partiu há meses.

Esta manhã encontrei a minha mãe transformada numa estátua de sal. Espero pela noite. Corro pelas ruas sujas, vou para a praia. Puxo um  barco. Não olho para trás. 
As pessoas dirão que eu procurava a morte. Nunca saberão que, pela primeira vez, procurava fugir-lhe. O tempo escorre e eu vou descendo com ele. O frio passa e vem a escuridão. Talvez seja o fundo do mar, talvez sejam já os braços da minha virgem negra. Calmaria, finalmente. O resto fica por contar.

sábado, 6 de setembro de 2014

Reencontros (ou como as realidades paralelas são inúmeras e irremediáveis)




… A mão desliza pelo ombro nu. É a alma que acaricia, não a pele branca de luz. Toca tão ao de leve que fico presa nesse gesto de uma cor para a qual ainda não existe pantone.

Ver-te é voltar a ganhar vida e o louro dos cabelos curtos recuperam o brilho antigo.

Imagino que me reconheces os passos, quase sempre apressados, por vezes pesados pelo cansaço tingido de ausência. Raramente espero pelo elevador, mais pela impaciência, que pela possibilidade do constrangimento de ser obrigada a falar com alguém, quando me apetece silêncio. Silêncio que me escorre pela memória se entranha no vento do ar condicionado e se rebela aos gestos autómatos, na cadência do respirar. 

Cheguei tarde porque queria ter sido a primeira, com a arrogante certeza de que então seria única.

Sorris-me nesse verbo musical com que inventas metáforas aluadas. Nos teus olhos um lampejo de surpresa que não consegues disfarçar, quando me olhas depressa, como se não visses.

A tua mão no meu ombro desce até á minha mão abandonada no espaço, onde o tempo é lugar - comum. A tua mão em busca de memórias.
E eu a desejar começar. Algo novo, inolvidável e sem semelhanças.

Sem dizeres nada, vais demorando o olhar, agora intenso,  em vagas de marés de amores infinitos.
Pegas-me na mão e l-e-n-t-a-m-e-n-t-e ancoramos no desejo.

Invade-me uma brisa de aroma a vinho do Porto, não sei se de livros antigos, se de cigarrilhas… se dos teus lábios.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

E porque há dias em que parece que o mundo vai acabar




tempo? parte ínfima de reticências em que nada ouço. tudo se adivinha no pouco que dizes. recolho o teu olhar mais profundo por não se materializar nos ruídos das certezas. o silêncio nas palavras. o silêncio a escutar, no delírio da tua boca. palavras de sangue.

palavra de honra que continuo a beber pedras de gelo, a derretê-las devagar, língua encaracolada de beijos escondidos como a sombra que corre invisível escurecendo o momento…

espantas-te com o meu riso, sei que o teu tempo é de agenda, mesmo antes de mo fazeres sentir. sim, pensei em retomar o início do que nunca tinha começado. 

tento disfarçar a impaciência por te sentir apressado. imagino e anseio que tragas desejos nas pontas dos dedos com que faças correr o fecho do vestido justo. olho-te e sei a cor da saliva que te prende a fala.

por momentos as mãos tocam-se. movimentos excêntricos de descobertas e memórias. devaneios com que vou entretendo a solidão.

(tenho um vinil de uma banda punk que aposto, desconheces. não to vou oferecer agora, mesmo que mansamente  me sorvas a calma desabitada do meu ser. ou a fragância que se insinua, nua).

recebo um telefonema e despeço-me. a face corada de prazer. a saber o sabor. o lábio inferior mordido pelo tempo que me ofereces.




quinta-feira, 7 de agosto de 2014

CORPOS

Encostei-te à parede e fui arrancando suavemente a tua roupa. Os nossos corpos fundiram-se sedentos um do outro. Por momentos os nossos olhares digladiaram-se numa batalha silenciosa. O brilho do teu reflectia-se no espelho do meu.
Sorvi dos teus lábios a paixão, tu puxaste-me para ti como se fosse possível fugir àquele abraço furioso.
Fizemos dos lençóis uma praia silenciosa após uma tormenta. O suor misturava-se, percorri com os meus lábios cada centímetro do teu pescoço. Com as mãos viajei pelas curvas suaves dos teus seios. As tuas unhas arranharam-me levemente as costas e eu tremi de prazer. Um arrepio percorreu a minha espinha e explodiu na minha boca sob a forma de um suspiro. Os nossos gritos lutavam uma batalha desgarrada, cada um seguido do outro até à explosão conjunta.
A nossa dança parecia interminável, o coração acelerou, a adrenalina disparou e num momento de puro êxtase perdemo-nos no limiar da razão.
Uma sensação de liberdade tomou conta do meu corpo e abracei-te na tentativa de parar o tempo. O chão pareceu parar, ofegante e feliz beijei ao de leve os teus lábios enquanto meio rouco e tímido sussurrei nos teus ouvidos um amo-te sentido.
Ali ficámos abraçados, a olhar o tecto, sob o brilho ténue das velas, sob a harmonia da melodia que brotava das colunas e que agora se fazia ouvir de novo...
And I wonder if you ever wonder the same, I still wonder...
Fixei o teu rosto, o teu sorriso invadiu o meu olhar. Com um novo beijo selei o momento e chamei o sono.

Adormecemos ansiosos pelo dia para sonhar uma nova noite.

Bruno:Carvalho

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

DOZE

Correm em mim sombras negras, correntes que escorrem pelos meus dedos moldando o mundo, por isso te digo, deves afastar-te de mim sob pena de seres consumida, depois nada mais restará e a noite será eterna.

Afagava sentado no banco do jardim as teclas do telemóvel silencioso, como se aquele pedaço de matéria inerte pudesse matar a sua solidão.
O vento levantava o pó do caminho, levava com ele o seu olhar perdido, o olhar fixo num ponto invisível enquanto as pessoas esbarravam numa linha ténue entre ele e o fluído humano imparável.
Espremia à sorte as teclas, como se de facto o grande texto revelador da sua condição estivesse na sua mente e disparasse à velocidade da luz para a ponta dos seus dedos cada letra, fazendo o sentido ansiado.
Levantou-se com o olhar ainda fixo em lugar algum, deu doze passos. Exactamente doze passos como cada hora do relógio e seguiu indiferente ao barulho, aos destroços, ao sangue derramado, enquanto o banco de jardim se desfazia sob lata amolgada e o telemóvel abandonado tocava a rebate.

Assim seja.
Será então eterna a noite, enquanto juntos vaguearmos por este lugar disperso nos sonhos, continuarão a fluir de mim negros gestos, e nos meus olhos as lágrimas secarão, pois na escuridão tudo é uniforme, restar-me-ão os gritos e a insanidade da paixão.

Bruno:Carvalho

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Dez parágrafos de Agosto



Sopro a areia entre os dedos da mão, assim como quem faz bolas de sabão. Não me lembro se estive a fazer castelos de areia ou a contar o tempo com a mão-ampulheta, só sei que adormecer é tão difícil como encher um buraco na areia com água. 
As madrugadas são passadas a enrolar a maresia em forma de rifas de quermesse. "Esta tem prémio" e dá vontade de esticar o braço para chegar ao prémio que é quase sempre umas pegas de cozinha  bordadas (pelo menos falo por mim). Mas pegar no quer que seja faz-me aquela tontura que se tem à beira-mar quando as ondas recuam e deixam os pés com cócegas. 
Decido ficar sentado nas dunas tisnadas pela noite e fazer de conta que o sol vai nascer no pôr.  

Reparei: os olhos ardem como se fossem chorar um ácido temperado com pimenta, as maçãs do rosto estão pálidas como se tivessem almoçado arroz em pó e os joelhos doem como se as rótulas estivessem enferrujadas pela humidade humilde do tempo que faz.

Não está mais ninguém na praia. E não estou chateado com isso. Se queria companhia? Sim, queria, mas não estou chateado com isso. O único medo que tenho está relacionado com o som do mar às escuras, sempre foi assim, provoca-me medo a imensidão do som de algo que considero infinito sem o conseguir ver. 
Vou enterrar os pés para ter a certeza que não me vou embora. Faço compressão com a palma das mãos na areia que está em cima dos pés e gosto do som que esse gesto faz. Oco, fundo mas ao mesmo tempo cheio e superficial com aroma àquelas loções que nascem nos coqueiros. 
E está frio. O calor já não tem capacidade e paciência para aturar jogos de xadrez com a lua. Rainha e Rei, suas altezas, nem entram em campo, seja nos pretos ou brancos. E eu, como sou peão, pouca mão tenho para aumentar a temperatura. 
A temperatura e todos os outros sinais vitais malabaristas.
Ou trapezistas.

Suspiro... um suspiro era o que me apetecia agora... daqueles que se comem à luz do dia.


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

I is for Inertia [The Alphadeath Codex]




I want to go home

I need to smell the fragrance of rosemary one last time
To step in the pebbled trail that leads to your door
Drifting towards a rescue flag, back to safe embrace
Floating like petrichor after a warm summer rain
I wish I could be there again

Say
Say my name
Whisper gently so the whole world can hear it
Muffled by sorrow
Make it echo in every chamber of your heart
Cry it so quietly until it pulls you apart
And hold it forever in a void
So it can never be destroyed

I’m now but a ripple in a dead calm sea
In the offing of my destiny
Lithe and delicate
In languor afloat
A dream I will become
Asunder from you
Strand ashore

Seraphic
Idle
The inertia takes me deep into the everlasting sleep

I will never go home
For as I slowly sink into blackness
And as the blood runs loose from my veins
Drenching ripped leather, twisted metal and broken glass
I myself become past

And through the shouting, the wailing sirens
The screams of terror and burning flesh
I recall the fragrance of rosemary
The earthy sound of my footsteps over the pebbled trail
And your smile
That luminous, glorious smile
That invited me in

The last minute of life
Is the first day of eternity
As the ineffable becomes tangible
I become aware
Everything is oh so clear
With eyes no longer shaded by fear

But rush not my dear love
For when your time comes
I’ll be the one
Waving
Waiting

I am at home


terça-feira, 29 de julho de 2014

H is for Hail [The Alphadeath Codex]




Sinister, you dare to say?
The day grows late, the sun is grey
My eyelids can no more carry the burden of Thy sight

Oh! Poor me, unable to uphold all this might, I shall hide, quick
Startled by the footsteps pounding heavily on the metal spiral staircase,
The one where the ivy looms and rats lurk,
With their beady eyes glowing like dying ambers from yesterday’s fire
May this thunderstorm soothe Thy anger and fade away
And let the night roll deep, unaware of hell’s blaze

I dread all forms of warmth
For warm feelings are too vague, mundane
And a man in my position shan’t have his name allied with piety or other things humane
Alas, this is the price to pay, for serving Thy name, my nameless shame

As I sat proudly, cloak and staff disguising the hoary and frail
I glance at the crowd reunited here once more
Hoping I’ll bring them hope for days to come
Yet for myself hope I have none

Thy wrath, Thy virtue and untarnished love
All this we expect from above, hands outstretched
Claiming for rain to pour and wash away our sins

Ah, they sing, sing to you my Lord the highest
And walk, one by one, pleading blissful life or peaceful death
Yet look at me, both in awe and fright
And kneel, bow heads to accept Thee in their fair heart
I accept the role and in Thy name I play my part

These unfortunate men march towards their twilight
In Thy name they will get through another day
Not felling forsaken, nor feeling pain
Sprinkled with holy water, feels like cruel hail

The sinister ritual unfolds beneath rusty iron skies
But in the bleakest corner of its crocked being

The priest knows it’s all lies

sexta-feira, 18 de julho de 2014

G is for Grasp [The Alphadeath Codex]



Sometimes I believe
Sometimes I accept that one day, all will fall apart
Sometimes I just know I’ll break your heart
Sometimes I can see
Clearly
A dark river runs through it
Floods the gates
Thrashes the gentle willows unable to bend before such rage
And deep
Deep within myself
Sometimes I accept
That I have become hell

And no bird will sing or cloud show silver lining
Because, sometimes
The fear is blinding
And hate is the only thing gleaming in your eyes
When sometimes, everything else just dies

And as hope withers, it cries in a whirl of misfortune
And fades to black
Sometimes, there is no turning back

And then, by cruelty veiled
Seated in a throne of spite
I give up the fight
Close my eyes
And quietly embrace the gloom
Victorious in doom
I have vanquished my soul

As I lay silently unfathomed
Sometimes I wish that all would fade away
And a that a harsh blow should strike me dead
So I may dream of faraway places no more
So I can hide from all this maelstrom
So I no longer try to grasp 
Desperately
To the last shred of kindness in this world

And as the sun sinks on the horizon and the starless skies fall
Sometimes I believe
That there is nothing left to believe at all

domingo, 9 de março de 2014

F is for Fractal [The Alphadeath Codex]




Listen
The murmur in your head
Driving you gently across
A bleak, slow, sorrowful street
Hunting edges of unmarked corpses in the night
Twitching nerve, itching skin, slippery hands failing to grip
To hope, any hope, any rope

Repeat after me
I, redeemer, drunken dreamer, sway untouched, unseen, unspoken
Under the dim lit corner, a sigh, a whispering crawling up your ear
Not here
Never here
Gravel soaked in crimson blood, the wreckage feast, the damage done
To whom? To no one

You never seen no one

Because
We are not here to be seen
But to be felt, deep, deep inside your skin
Clutching at every thought left unattended  

We are the dead
Nothingness spread across the void of your unwillingness
Marching silent in a sea of endless, endless noise, a violent noise
As a vain expression of indulgence, a zombified nation
Without a notion of time and no time for any notion of life

We are the living ones
We are
The fractal mind of a collective perpetual desolation
The ghosts that sit by your side

As you read these words
I am now the shivering across your spine

[für H.]