sábado, 20 de setembro de 2014

Enseada





As pessoas dirão que eu procurava a morte.
Puxo o barco para a água, entro nas névoas verticais e deixo-me levar para os alcantis. Dizem que são ossos de rocha, dorsos de animais que despedaçam homens. O casco rompe-se. Não luto. O tempo escorre. 

A Cibele contou-me que existe uma cidadela nas profundezas e que o caminho para lá abre-se no nevoeiro. No início é duro, depois frio, depois escuro, depois calmo e, por fim azul.  Ela prometeu encontrar-se comigo lá um dia.  Eu não posso esperar mais.

Uma a uma revejo as escamas da minha vida. São como aqueles panos de espuma suja que ficam no areão da maré vaza depois das tempestades, misturadas com os despejos do mar.   
Dizem-me que a amargura do meu pai cheirava a álcool. No dia em que o seu homem não voltou, a minha mãe caiu de joelhos na praia e entregou-me às ondas. Nasci ali mesmo, com as suas águas e sangue a correr para o oceano. E todos os anos, no meu aniversário, ela voltava àquele lugar para espalhar uma mão cheia de sal. Não sei se para me proteger, se para sepultar o meu pai mais uma vez, se para purificar um lugar que ficou manchado.

Cresci como todos os meninos daqui, com os ventos mareiros na cara, os dedos sempre enrugados, guelras em lugar de pulmões. Ainda não tinha uma dúzia de anos quando fui para os tanques de salga e daí para a faina. O destino, por estas bandas, é tão presente e intenso como o cheiro a peixe. 
Não tardou muito até que a minha pele crestada ganhasse salitre. A corrosão transformou-se em cilício e comecei a deixar o corpo nas redes ao mesmo tempo que sufocava lentamente sem conseguir respirar o bafo do mar.  Deixei a lida. Empurrada pelas outras mulheres, a  minha mãe obrigou-me a ir à igreja.  “O moço não quer por o pé na casa de Deus”, dizia, sabendo muito bem que o que eu recusava era que Deus pusesse o pé em mim. “Talvez quando for mais velho”. Nunca chegarei lá.

As pessoas da terra, resignadas, nem reparam como têm a salsugem entranhada até aos rins. Flutuam como sargaço. Sulcam o mar para sobreviver e, em troca, deixam que o mar arranhe as suas almas. Uma vez por ano arrastam-se até à praia com a imagem da virgem  negra e vão pedir que ela guarde as suas vidas carcomidas. Vidas de salmoura. A minha nem vida é.
O ano passado, quando fiz quinze anos, o vento tornou-se menos áspero e trouxe consigo uma rapariga muito morena de cabelo emaranhado que leva os homens para as dunas. Não tem as pernas cobertas de corais como as mulheres daqui e os seus beijos sabem a água doce. Foi baptizada Maria do Mar mas conseguiu escapar-lhe. Agora é Cibele, o meu único amor, a única que me fala de liberdade mesmo que às vezes a sua voz trema. Partiu há meses.

Esta manhã encontrei a minha mãe transformada numa estátua de sal. Espero pela noite. Corro pelas ruas sujas, vou para a praia. Puxo um  barco. Não olho para trás. 
As pessoas dirão que eu procurava a morte. Nunca saberão que, pela primeira vez, procurava fugir-lhe. O tempo escorre e eu vou descendo com ele. O frio passa e vem a escuridão. Talvez seja o fundo do mar, talvez sejam já os braços da minha virgem negra. Calmaria, finalmente. O resto fica por contar.

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