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A mostrar mensagens de Abril, 2011

Outros

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Quando estava capaz de ler fazia renda
as agulhas segredavam-lhe beijos tilintantes nas mãos
e a linha nunca dava nós nem a levava para muito longe da estação.
Nas noites em que escorria lua cheia pelas paredes
talhava vestidos com fios de fibra pôr-do-sol que cegavam no seu sorriso de cal
apertado em fitas de trapo silenciosas à volta dos pés de pedra.
Da porta da rua nunca se chamou nem a chamavam.
Da janela, os outros injectavam o olhar linguareiro pelos espaços vazios dos cortinados
e este morria sempre na luz negra que circulava dentro de casa.
Ela, com íris que reflectiam as rosetas da barra do vestido amargo
sentia a secura da pele a raspar na suavidade do esfregão de aço com que limpava as agulhas do tempo ao mesmo tempo que no outro tempo fazia chuva enevoada de fugida.
O frio já lhe tinha partido os ossos há muitas mãos cheias pelo que estar sentada era a felicidade da ráfia encadeirada ainda não ter sido comida pelos bichos melosos do pequeno-alomoço.
Com abraços de braços perdidos ou …

Flores e Jóias

Ensinei te tudo o que eu sei. Não fiques triste com a minha partida.Tu bem sabes que o traço característico da existência terrestre é a impermanência.
Vivemos sob os auspícios da Mãe Terra apenas por um tempo.

Vim para a Terra, vivi a experiência humana, trabalhei as emoções, quebrei o ego e equilibrei-me na consciência serena. Agora, volto para a natureza nas ondas luminosas do Amor Supremo.

Quando te lembrares da minha passagem pela Terra, não faças nada em minha homenagem. Vai até ao jardim mais próximo e vê as flores a abrir. Elas são minhas irmãs. Observando-as, transformarás a tua saudade em alegria.

Perceberás que também me abri na vida terrestre e espalhei entre os homens beleza, perfume e cores espirituais.
Não te esqueças do nosso ensinamento mais importante:ergue a mente além das ilusões dos sentidos e abre o teu coração em agradecimento ao Amor que é a Luz de todos nós. Quando agradecemos com sinceridade, quebramos o ego e ficamos plenos de alegria.
Se querida flor e abre as pét…

O Poder de Acreditar

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Sabes, quanto mais penso nisso, mais sentido acho que faz. Se não, repara bem e diz que estou errado.

De tanto acreditar que é indestrutível, o mancebo ergue a bandeira e desfila entre rugidos de artilharia e assobios de metal incandescente, desafia o perigo e arremata toda a razão com um novo volteio da haste de ferro, ondula o estandarte e marca o seu nome na história. Assim pensa, entre o casco impenetrável da sua arrogância juvenil, envolto no kevlar da doutrina militar, imunizado pelo rito do exorcista. Acredita o bravo soldado, acredita piamente que é um herói, enquanto tomba mártir, vítima de fogo amigo, a doze mil quilómetros de casa de sua mãe…

Por acreditar que nada vale, ela afunda-se no negro olhar que a fita do outro lado do espelho. Imersa, voga durante horas, dias, semanas, anos… perde-se para sempre no vazio asfixiante de si mesma, em busca de significância, à procura de si mesma, num labirinto infestado de demónios e santos que a desprezam, por ser tão, tão … nada. …

Quando

Quando o chão vira céu estrelado...
E os corações parecem pequenos sóis.

Quando as lágrimas saem dos olhos espontâneamente...
E escorrem pelo rosto como pérolas.
Enquanto a rosa floresce no coração...

Quando o tempo e o espaço viram pura Luz branca...
E nós nos dilui mos nela.
Enquanto a mente se apequena diante dele...

Quando as palavras somem na imensidão...
E, mesmo assim, o coração nos chama...
E diz: "É só o Amor que nos leva".

Quando nós escuta mos o canto dos astros...
E senti mos o infinito nas palmas das mãos.
E quer dar passes espirituais em todo mundo.

Quando os nossos olhos também se tornam estrelas...
E vêem a vida renovando se...
Ah, só se sente gratidão.

Quando nós nos sentimos iguais a crianças
E o nosso coração diz: "SOMOS TODOS UM!"

É quando o Amor desce aqui...

Ecolalia

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Alivia-me o barulho que o mastigar faz dentro da minha cabeça. Olho para as migalhas de bolachas na camisa ao mesmo tempo que oiço os teus gemidos vindos do quarto. O som ecoa na vertical com a cama e usa-se como fumo até à sala. Na verdade não sei há quantos anos passo noites inteiras a ouvir os teus monossílabos vasculares cerebrais acidentados… só sei que o raio da noite amplifica tudo o que me queres dizer e eu não percebo.
Já sem fome, faço por não me lembrar de te perguntar se também queres comer qualquer coisa… enjoa-me ver o que comes a deslizar por um tubo que afunda-se no teu vazio ausente.
Na véspera daquele dia tínhamos ido fazer um piquenique e pelos teus sorrisos encaracolados ao canto dos lábios sabia que íamos ser felizes, ver-te bastava para ter essa certeza. “Queres também uma uva, amor?”
Do campo salpicado de primavera para um corredor salpicado de macas foi um bater de pestanas para ti. Para mim foi um espirrar de dedos vincados na cara e lágrimas de criança mo…