sábado, 30 de abril de 2011

Outros



Quando estava capaz de ler fazia renda
as agulhas segredavam-lhe beijos tilintantes nas mãos
e a linha nunca dava nós nem a levava para muito longe da estação.
Nas noites em que escorria lua cheia pelas paredes
talhava vestidos com fios de fibra pôr-do-sol que cegavam no seu sorriso de cal
apertado em fitas de trapo silenciosas à volta dos pés de pedra.
Da porta da rua nunca se chamou nem a chamavam.
Da janela, os outros injectavam o olhar linguareiro pelos espaços vazios dos cortinados
e este morria sempre na luz negra que circulava dentro de casa.
Ela, com íris que reflectiam as rosetas da barra do vestido amargo
sentia a secura da pele a raspar na suavidade do esfregão de aço com que limpava as agulhas do tempo ao mesmo tempo que no outro tempo fazia chuva enevoada de fugida.
O frio já lhe tinha partido os ossos há muitas mãos cheias pelo que estar sentada era a felicidade da ráfia encadeirada ainda não ter sido comida pelos bichos melosos do pequeno-alomoço.
Com abraços de braços perdidos ou imaginados
lembrou-se do dia em que deixou de ler e analfabetizou as voltas apertadas das linhas.
Tantas voltas para se amar e enterrar dentro do vestido pôr-de-sol cheio em quarto minguante.

4 comentários:

  1. De queixo caído... cada vez mais. You keep getting better dear TiiL.

    ResponderEliminar
  2. Eu estou... estupefacto... Lindo, fantástico...

    ResponderEliminar
  3. TiiL, como sempre a perfeição poética. É redundante comentar os teus textos para dizer que és Grande, para enumerar o quanto têm de luz e sombra, doce a amargo nas proporções exactas, para descrever o teu domínio absoluto da palavra e das figuras de estilo, a tua imaginação sem limites e, ao mesmo tempo, talhando personagens que nos são tão familiares. E tudo isto sem caires no lugar comum uma única vez. Escrever como quem respira, como se fosse fácil, como se levitasses.
    Muito, muito, muito... e, não sei porquê, fez-me lembrar logo a Eleanor Rigby dos Beatles. :)

    ResponderEliminar
  4. É mesmo "escrever como quem respira", não há muito mais a acrescentar. As frases todas juntinhas parecem no final dos textos, bordados de tão ricas que são. Parabéns.

    ResponderEliminar