Outros



Quando estava capaz de ler fazia renda
as agulhas segredavam-lhe beijos tilintantes nas mãos
e a linha nunca dava nós nem a levava para muito longe da estação.
Nas noites em que escorria lua cheia pelas paredes
talhava vestidos com fios de fibra pôr-do-sol que cegavam no seu sorriso de cal
apertado em fitas de trapo silenciosas à volta dos pés de pedra.
Da porta da rua nunca se chamou nem a chamavam.
Da janela, os outros injectavam o olhar linguareiro pelos espaços vazios dos cortinados
e este morria sempre na luz negra que circulava dentro de casa.
Ela, com íris que reflectiam as rosetas da barra do vestido amargo
sentia a secura da pele a raspar na suavidade do esfregão de aço com que limpava as agulhas do tempo ao mesmo tempo que no outro tempo fazia chuva enevoada de fugida.
O frio já lhe tinha partido os ossos há muitas mãos cheias pelo que estar sentada era a felicidade da ráfia encadeirada ainda não ter sido comida pelos bichos melosos do pequeno-alomoço.
Com abraços de braços perdidos ou imaginados
lembrou-se do dia em que deixou de ler e analfabetizou as voltas apertadas das linhas.
Tantas voltas para se amar e enterrar dentro do vestido pôr-de-sol cheio em quarto minguante.

Comentários

  1. De queixo caído... cada vez mais. You keep getting better dear TiiL.

    ResponderEliminar
  2. Eu estou... estupefacto... Lindo, fantástico...

    ResponderEliminar
  3. TiiL, como sempre a perfeição poética. É redundante comentar os teus textos para dizer que és Grande, para enumerar o quanto têm de luz e sombra, doce a amargo nas proporções exactas, para descrever o teu domínio absoluto da palavra e das figuras de estilo, a tua imaginação sem limites e, ao mesmo tempo, talhando personagens que nos são tão familiares. E tudo isto sem caires no lugar comum uma única vez. Escrever como quem respira, como se fosse fácil, como se levitasses.
    Muito, muito, muito... e, não sei porquê, fez-me lembrar logo a Eleanor Rigby dos Beatles. :)

    ResponderEliminar
  4. É mesmo "escrever como quem respira", não há muito mais a acrescentar. As frases todas juntinhas parecem no final dos textos, bordados de tão ricas que são. Parabéns.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

#LoveLetter_AITD