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A mostrar mensagens de Abril, 2010

(Sem) Contemplação

Nascera de olhos abertos, crescera a rasgar páginas e quando lera aquela frase, ainda um jovem, parecera-lhe que fora escrita como epígrafe da sua vida: “A beleza está nos olhos de quem vê”. Percebera que para aceder ao sublime bastava olhar em profundidade.De facto, nunca escutara todos os andamentos de qualquer sinfonia, nunca se encrespara com o acre do limão salgado, nunca perdera os seus dedos nas crinas de um cavalo, nunca se entregara só pelo cheiro de um corpo. E... honestamente... não planeava fazê-lo. Só queria ver em absoluto. Ser, durante toda a sua vida, um esteta da cor, um mestre da luz e da sombra, um filósofo da proporção.Tornara-se, sem hesitação, pintor.Viajava pelo mundo à procura de sensações fortes, naturalmente visuais e belas, que refundia a óleo e a carvão. Abstraía-se do resto. E quando as mãos estendidas, o sangue seco, o bolor, o pó da terra, as moscas e as unhas negras se tornavam insuportáveis, recolhia aos seus museus, ao Louvre, ao Hermitage, ao Prado…

Levemente

Se os meus pés soubessem que iam andar tanto, talvez nem aqui estivessem. Neste momento gostavam de estar a caminhar à beira-mar, único sítio onde as ondas apagam as pegadas, levam-nas para o mar e aí as deixam a navegar de forma leve.

Se a minha cabeça soubesse que ia pensar tanto, talvez nem aqui estivesse. Neste momento gostava de estar perdida no céu, único sítio onde as nuvens a conseguem levar para outras paragens leves, como se de tapetes mágicos se tratassem.

Se os meus pulmões soubessem que iam respirar tanto, talvez nem aqui estivessem. Neste momento gostariam de estar cá fora, único sítio de onde podem ver, de uma vez por todas, de onde vem o ar leve que tanto insiste em os visitar.

Mas se os pulmões não fossem tão curiosos, talvez a cabeça não precisasse de pensar tanto e os pés pudessem finalmente parar de andar às voltas.

Talvez um dia o ar leve consiga ir ter a outras paragens sem deixar nenhuma pegada. Talvez um dia as nuvens se misturem com a espuma das ondas e consigam d…

Ritual da Dissolução

I Momentum
Abre a porta da Mente
Liberta os grilhões da Alma
Agora és vulnerável
Oferece o peito à Tempestade que se aproxima

II Momentum
O medo não tem lugar aqui
O amor não tem lugar aqui
A piedade não tem lugar aqui

III Momentum
Observa a Luz que transita
Sente o calor que irradia
Prova o sal das minhas feridas
Estás cada vez mais perto

IV Momentum
O medo não tem lugar aqui
Se sentes medo desiste

V Momentum
O Amor não tem lugar aqui
Se tens amor por ti desiste

VI Momentum
A piedade não tem lugar aqui
Se acreditas que serei piedoso desiste

VII Momentum
Se resististe até aqui já não podes desistir
Eis que chegamos ao Ponto de Não Retorno
Agora começa o Grande Ritual da Dissolução

VIII Momentum
Pão, Carne, Vinho, Sangue
Sémen, Terra, Leite, Mercúrio
No teu peito está a Chave
Para aceder à Câmara Secreta
Onde Ela nos Ilude e Se esconde

IX Momentum
Onde havia calor é agora gélido
Pois eu penetrei nos Seus aposentos
E ela sorriu para Mim
E Ofereceu-se a Mim
E Ligou-se a Mim
E Abandona-te a Ti

X Momentum
Ela dan…

Pressão...

Pressão...

Parte I


O som da fechadura a desarmar desperta-me para a realidade. Finalmente cheguei a casa. O piloto automático que todos os dias me reencaminha do trabalho apaga-se, dando lugar ao modo “senta-bebe-esquece”, o meu estado favorito.

De acordo com o BI tenho 51 anos, mas a dor de cabeça que me estala os ossos do crânio insiste em informar que me devo andar a arrastar à séculos pelo peso que sinto sobre mim.
Lembro-me vagamente do que era estar vivo. Lembro-me vagamente do que foi ser feliz e empreendedor. Lembro-me, muito vagamente de me olhar ao espelho e gostar do que via...

Na cozinha, uma tigela vazia no chão lembra-me da companhia da Elisa. Durante 11 anos da minha incipiente vida fui abençoado com a gata mais carinhosa do mundo. Não era aquele tipo de bichano que vive enrolado nos pés do companheiro humano (só fala na palavra ‘dono’ quem nunca teve um gato...) ou que se desfizesse em mimos por tudo e por nada. A Elisa ‘lia-me’ com uma transparência e detalhe que jamais al…

Unidade imaginária

Hoje acordei ao som de três pancadas e, dada a violência do eco de cada uma, quase que arriscava a dizer que fizeram pontaria à minha cabeça. Acordei mas não abri os olhos, simplesmente deixei-me ficar. Ao som da primeira pancada lembrei-me das palavras e do som que elas fazem na nossa cabeça quando pensamos nelas. Pensei naquelas palavras que são constituídas por uma parte real e outra imaginária e que por isso são chamadas de complexas. Difícil é decidir qual das partes gosto mais. Será que a parte real é apenas imaginação minha, ou será que a parte imaginária é a verdadeira realidade?

À segunda pancada concluí que o melhor é ter as duas partes, poder sonhar sem nunca deixar de ter os pés na terra, ou então poder ter os pés na terra mas não sentir o chão tal é o poder da imaginação. Gosto desta complexidade… a clareza só torna as coisas desinteressantes.

Palavras e a boa disposição que elas podem trazer…

Ao som da terceira pancada abri os olhos e antes de conseguir dizer a primeira sí…

Girando...

Deviam fazer uns 5 minutos que ela girava na porta, entrando e saindo, sem conseguir decidir-se: ficar ou ir? O que é que tinha vindo fazer ali, afinal? Era um bâton que vinha comprar? Ou um perfume? Tentou lembrar- se: precisava mesmo de um bâton? De perfumes ela sempre precisava, costumava dizer que não tinha sofisticações, apenas o gosto (que estranha misturança de sentidos!) pelos bons perfumes.

OK, a situação começava a ficar horrível! Uma parte do cérebro colava na sensação de que alguém com certeza viria reclamar 'isto não é um lugar para brincadeiras', a senhora está a atrapalhar o bom andamento da porta giratória, esta a sentir se bem? ela odiava a possibilidade de ser abordada em geral, de ser repreendida fazendo alguma coisa errada em particular,nada era pior do que o olhar duro 'dos outros'.A própria imagem da mais elegante compostura. Sobretudo, não perder jamais a tal compostura. Ainda mais ali, numa terra que nem era a sua. Ridícula a última frase, aquilo…

A um passo de ti... (resposta a um enredo)

Regras para um Enredo:
Fernanda - 30 muitos anos, arquitecta. Vive num espaçoso apartamento perto da praia. É solteira, vive com uma iguana, três hamsters e uma recordação que não consegue apagar há já 14 anos: a do namorado que se suicidou à sua frente.
Paula - 20 e poucos anos, enfermeira num hospital, no serviço se Oncologia. Vive com a mãe e um irmão mais novo. É muito solitária e psicologicamente instável.
Mafalda - 23 anos, operadora de caixa numa grande superfície. É muito bonita. Vive frustrada contando as horas que faltam para ir dormir.
João - 50 e poucos anos, mecânico de automóveis. Três divórcios, dois filhos maiores emigrados na Alemanha. Vive em união de facto com uma cabeleireira com menos de metade da sua idade.


A um passo de ti.


Acto I – O Detective



“Mas isso deve ser fascinante!?”
Sim, por incrível que pareça, essa é uma das frases mais comuns que eu oiço quando conto a alguém da minha profissão. Sou detective acerca de 5 anos. Já me passaram pelos olhos muitos casos estr…

mudança de estado

Pareceu-me sempre fácil.

As conversas entre nós eram água de nascente, fluíam naturalmente, sempre. Alimentavam-se de memórias, saberes, cumplicidades, viveres mútuos e escorriam, sempre. Umas em queda abrupta. Convertiam-se em farpas de gelo, estalactites de palavras agudas. Rasgavam as minhas certezas, derrubavam os meus sólidos confortos e, ao derreterem, inundavam-me de tristeza e desassossego.

Outras não. Nos momentos em que o calor de dois corpos acolhia tépidas vontades, a sintaxe anatómica do amor expressava-se em frases de entendimento. E as verbalizações de dentro de ti enchiam o ar vazio, para num voo se aninharem aqui, dentro de mim, e escreverem textos de paixão.

As conversas entre nós não se deixavam pensar. Tudo era instinto, impulso, resposta a estímulos que a razão não compreende.
Tacteaste os meus sentidos, lambeste as minhas palavras, sugaste-me as emoções. Levaste a receita dos genuínos amantes, e obrigaste-me a esquecê-la.

Parece-me tão difícil agora. Como um dia cin…

Neo Crustáceo

Se pudesse escolher não ia. É um daqueles apertos que não passa nem com uma inspiração profunda. Inspirar ainda faz doer mais. Às vezes consigo algum consolo quando suspendo a respiração mas depois é bem pior, o ar que esteve cá fora impaciente para poder entrar ainda faz mais estragos. Penso “respira com cuidado, suavemente, sem presa”, mas cada vez que penso tenho lágrimas a atropelarem-se dentro de mim para conseguirem sair.
E se um raio caísse em cima de mim? O “ir” deixava de ser uma decisão minha, já não era eu que desistia. Ia ser uma espécie de “chegou a hora mas como podem ver, não estou em condições de ir, por isso, não vou!” Mas não, estas coisas não são assim e a bem ou a mal, eu sei que vou. Eu sei.
Posso falar contigo? Tens alguns minutos? Não precisas de dizer nada, escuta, só te peço que escutes.
Está cada vez mais perto, sinto isso. Depois, vai ser sempre assim, sempre esta ansiedade, sempre este aperto e eu… eu nem queria isto. Nem sei porque estou aqui. Posso voltar pa…

Invenção de uma dor

As pedras não se quebram.
Se ao menos as pedras se rompessem.
O dia apaga-se no meu permanente naufrágio.
Feridas cansadas de se chamarem feridas
No amanhã que devia ser um corpo incompleto.
Dias como vésperas de dias iguais.
Porque todos os dias perco o que um dia perdi.

Aqui desta Janela

Célia era uma mulher simples, bonita dedicada a sua casa e aos filhos.
Dia a dia, o avental e o lenço na cabeça e o chinelo de dedos compunha o visual dela.
À tarde, recebia o marido, toda perfumada e pronta, para servi-lo!

Os passeios eram escassos, vez por outra acontecia uma viagem, para visitar parentes.
Um dia, debruçada na janela, sonhou e como por encanto viu lá fora um mundo diferente.

Quem quiser ver novos horizontes, precisa olhar com o coração aberto e a consciência generosa... Para ver o que é real e além das aparências.
Para ver, não só as coisas do mundo, mas a luz que anima a própria vida.
Para perceber que há algo além do que os cinco sentidos podem captar.
Para ir além de si mesmo...

Ah, é preciso ver com o coração... Para não se enganar!
Para aprender a lição que o amor tem para dar.
Para apaziguar as emoções e se sentir integrado consigo mesmo.
É preciso ver com o coração... Para compreender outro coração!
Para perceber que há outras consciências, sem o corpo físico, também olha…

O tempo do compasso

O sol, para ele nascia todos os dias a partir da segunda linha da pauta musical. Durava exactamente meio tempo. 1/2. Depois durante o resto do dia, desfilavam pausas umas a seguir às outras até ele cair em si e adormecer em cima da terceira linha, dois tempos perfeitos de duração. 2.

O som da sua vida era marcado pelos tempos da colcheia e da mínima. As pausas não tinham nome porque ele não sabia ao certo quanto duravam, só sabia que o silêncio que o seu som fazia, para além de eterno, tinha a capacidade de lhe perfurar os tímpanos.

Resumo do seu dia: sol, pausas não identificadas, si. sol, pausas não identificadas, si. sol, pausas não identificadas, si. sol, pausas não identificadas, si. sol, pausas não identificadas, si. sol, pausas não identificadas, si. sol, pausas não identificadas, si. sol, pausas não identificadas, lá, pausas não identificadas, si. sol, … … …

lá!

lá??

Durava oito tempos, 8.

Ela tinha vindo de lá, de muito longe, e lá era uma cidade que ocupava o segundo espaço da pau…

Diálogos...

A cena é clássica: Um casal, sentado numa mesa de restaurante, um de cara para o outro, um sem olhar para o outro, apenas comentários casuais entre as garfadas que cavam o tempo, rítmica, metodicamente.

"Vamos sair para jantar?", "OK", "Onde queres ir?" "Tanto faz, um lugar com gente". Aqui, eles estão no tempo dos 40, um pouco antes, um pouco depois, mas já vi casais muito mais jovens e a mesmíssima cena, o que não deixa de ser ainda mais melancólico, apenas porque nós gostamos de imaginar que os jovens de alguma forma estão protegidos das nossas angústias, pois é, não estão, nem conseguir curtir um jantar a dois é questão de idade, é questão de interlocução!

Olho em volta do vento nas folhas,alguém ao telefone, uma música lá longe, uma sirene, um carro que chega, um que parte, talvez passarinhos fazendo algazarra em uma árvore da rua.tudo, todo tempo, se comunica,é som,não qualquer som, gratuito, inocente, o som do universo é fala, tem uma inten…

Fada do Lar

Estás à espera de quê para te ires embora? Hã?... Não te disse já que não te queria aqui, que me estorvas? Vai! Empecilho... Travas-me a vida toda, tu.
E não chores! Pára com essa lamechice estúpida, que quando te vejo chorar só tenho vontade de te bater. Já sei... sou uma besta, não mereço o ar que respiro, não consegues conceber como alguém pode ser tão cruel... ok, poupa-me à lengalenga. Sabes, pouco me importa aquilo que concebes ou deixas de conceber. Fartei-me dos teus olhos de cão pedinte, da tua figura paquidérmica a virar os dias à espera mais amendoins para tocar a sineta. Da tua apatia, do teu conformismo, da tua pacificidade, dos dias sempre iguais, das tuas falhas, das tuas perguntas, das tuas promessas de que vais mudar e, agora sim, tudo será diferente, tudo será como eu quero. Nunca tiveste nem terás capacidade para me bater com a porta na cara, de me dizer 'ó meu filho da puta, com quem pensas tu que falas?'. O teu servilismo incomoda-me, o teu amor incomoda-m…

Rei de Espadas (parte II de II)

Miranda Sex Garden - Are You The One

‘R_U_D_1’ tinha um estilo muito próprio a escrever. Era como ácido, primeiro fervilhava sob a superfície das nossas mentes, depois, lentamente, corroía-nos por dentro. Há 3 semanas atrás escreveu um texto bem curto chamado ‘E se eu fosse tua?’, rezava assim:


Se eu fosse tua pele,
Afagavas-me lentamente
Até estares todo arrepiado?

Se eu fosse tua fome
Deixavas-me avançar pela noite adentro
Até mirrares como uma flor na geada?

Se eu fosse o ar que respiras
Conspucar-me-ias de veneno
Até sucumbires de asfixia?

Seu eu fosse tua filha
Deixavas-me nas mãos de quem me violenta
Até descobrires que é a ti que ele quer?

Se eu fosse quem tu pensas, quem tu sabes
Se eu fosse tua, voltavas a ser meu
Como nunca fomos, um do outro…






‘King#§pades’ contemplava nervoso enquanto relia a sua última actualização de ‘Lovers in Gehenna’:

- Agora que olho nos teus olhos, directamente, sem pudor, medo ou respeito, posso dizer-te tudo o que penso e sempre pensei de ti: és uma besta… e eu que…
Ele abre os olhos e define o contorno das nuvens lentamente, volta a fecha-los como se a eternidade tivesse sincronizada com um tic-tac trémulo. Os cabelos longos e sedosos dela, roçavam-lhe na face enrugada e empedernida. Um riso quase infantil, e a respiração ressonante sentida de peito para peito quase sem recurso a audição. Um loop quase, que um mantra, abafado por um crescente olho de furacão, mais veloz que a luz, como os que corta os sonhos a meio e quase termina num ataque de asma, meio suado, meio gritado. Nada, apenas as ondas a morrerem a seus pés, alguns cães a correrem no relvado atrás de si, crianças a rirem e pontapés numa bola. Um suspiro...
um crescente olho de furacão, mais veloz que a luz, como os que corta os sonhos a meio e quase termina num ataque de asma, meio suado, meio gritado. Um loop quase, que um mantra, surge com uma respiração ressonante sentida de peito para peito quase sem recurso a audição. Um riso quase infantil. Os cabelos longos e sedosos dela, roça…

Rei de Espadas (parte I de II)

NOTA: O seguinte texto, dividido em duas partes, surgiu da resposta a um desafio colocado no extinto grupo 'Desafio 500'. O enredo era o seguinte:

Um tipo é co-autor dum blog erótico. É perseguido, insultado de maricas, travesti, e outras coisas absolutamente horríveis. Toma uma decisão. Não por causa das perseguições na net, mas sim pelos problemas pessoais que não sabemos quais são. Suicida-se.
Na madrugada de 24 de Maio, mais ou menos pelas 3 da manhã, atira-se da ponte 25 de Abril. Na manhã seguinte, o tipo que o perseguia na net morre, de repente.
Agora o Desafio está do seu lado. Pode contar-nos o que se passou?


Amber Asylum - Black Phoebe


Rei de Espadas (parte I)

“Agora que olho nos teus olhos, directamente, sem pudor, medo ou respeito, posso dizer-te tudo o que penso e sempre pensei de ti: és uma besta… e eu quero-te!”


‘B_minE’ olhava para o monitor do seu portátil, mas doía-lhe (ou talvez não quisesse aceitar) o que estava a ler…

Já estava habituado a tudo nas respostas que …