Rei de Espadas (parte II de II)


Miranda Sex Garden - Are You The One

‘R_U_D_1’ tinha um estilo muito próprio a escrever. Era como ácido, primeiro fervilhava sob a superfície das nossas mentes, depois, lentamente, corroía-nos por dentro. Há 3 semanas atrás escreveu um texto bem curto chamado ‘E se eu fosse tua?’, rezava assim:


Se eu fosse tua pele,
Afagavas-me lentamente
Até estares todo arrepiado?

Se eu fosse tua fome
Deixavas-me avançar pela noite adentro
Até mirrares como uma flor na geada?

Se eu fosse o ar que respiras
Conspucar-me-ias de veneno
Até sucumbires de asfixia?

Seu eu fosse tua filha
Deixavas-me nas mãos de quem me violenta
Até descobrires que é a ti que ele quer?

Se eu fosse quem tu pensas, quem tu sabes
Se eu fosse tua, voltavas a ser meu
Como nunca fomos, um do outro…






‘King#§pades’ contemplava nervoso enquanto relia a sua última actualização de ‘Lovers in Gehenna’:

- Agora que olho nos teus olhos, directamente, sem pudor, medo ou respeito, posso dizer-te tudo o que penso e sempre pensei de ti: és uma besta… e eu quero-te! –




- O que é que estás a fazer, amor? –

Era ela, só podia ser ela. Ele sentia o peso no ar, a desconfiança latente, o sorrido doce e venenoso de quem vai saber a história toda, de uma maneira ou de outra. Mas será que ela já sabia ou apenas o está a testar? Tudo é um teste, sempre dizem e é bem verdade. Estava a ser testado, depois de hoje ter posto alguém a teste, melhor dizendo, em cheque…


Esta tarde finalmente se encontraram, cara a cara, frente a frente, homem a homem. Em território neutro, como convinha.

Quarto 209 do Hollyday Inn. ‘King#§pades’ nem queria acreditar, estava demasiado ansioso e excitado, era algo que já perseguia há meses, tinha que perceber quem era afinal, tinha que ver com os seus próprios olhos se a sua fantasia sobrevivia ao confronto humano, desprovido de interface gráfico, olhos nos olhos, homem a homem.

‘B_minE’ era uns bons 15 anos mais velho, experiente, experimentado, explorado, explosivo… Toda a sua vida tinha sido construída à volta de ilusões, mentiras, redes de enganos e de jogos duplos. De ‘B_minE’ quase nada se sabia, era elusivo, mas por vezes deixava pistas nos seus textos, de onde transparecia a sua ambiguidade sexual, um passado de múltiplos parceiros de várias naturezas, havia até quem dissesse que o grande esqueleto no seu armário não era a sua bissexualidade mas sim um amor intenso e profundo que tivera por uma mulher mais velha, quando ainda era jovem, de corpo, alma e coração. Mas um dia ela desapareceu, abandonou-o. Diz-se que ele nunca mais voltou a amar ou sequer a confiar, nem nas mulheres nem em ninguém.
Diz-se também que ele só voltou a saber notícias dela 20 anos mais tarde, através de um amigo em comum de outros tempos. Ao que parecia, ela tinha morrido de cancro há quase uma década, deixando apenas um deprimente e espartano casebre nos arredores de Évora, alugado, uma colecção de bonecas de porcelana chinesas, velhas e sujas de pó e teias de aranha e uma polaróide já descolorada dela com uma menina de 5 ou 6 anos ao colo. Nas costas da foto estava escrito a lápis “Valverde, 1994. Auri e Luna”. Pelo que se percebia, a menina deveria ter tido um daqueles infortunados episódios de acidentes infantis com objectos lacerantes, pois tinha uma visível cicatriz na face esquerda.



Esta tarde, quando finalmente se encontraram, a ideia era só falarem, verem-se em carne e osso, eles que tantos posts já tinham trocado entre si. ‘King#§pades’ queria mais. Queria que ‘B_minE’ o ajudasse a descobrir quem ele próprio era. ‘B_minE’ sabia que era da maior imprudência deixar que isto acontecesse, mas não resistiu, mesmo sabendo o perigo que é acreditar na bondade de estranhos.

Pouco o excitava nestes dias, notava-se pelo desleixo com que escrevia, deixara de ser um provocador bardo do conto erótico para se transmutar aos poucos num escriba desinspirado de pornografia rasca e sem sentido. Nem os avisos de ‘LaDyoFtHeLakE’ tomou em consideração. Ela era o fiel da balança, sempre que aquele blogue perdia qualidade ou descambava em rixas virtuais e insultos violentos a ‘B_minE’, ‘LaDyoFtHeLaKe’ intervinha, com o seu divino sentido de humor e de oportunidade, mantinha a corja na ordem era mestra na arte de brandir o chicote e de com esse gesto carregar de delírio e prazer os seus súbditos. Ela era de todas a mais madura, não tinha a acidez de ‘R_U_D_1?’ nem a provocação violenta de ‘B_minE’, mas tinha algo que nenhum dos dois tinha. O poder do êxtase colectivo. Os seus textos eram conhecidos por gerar dezenas de admiradores e de serem partilhados (roubados, copiados, plagiados…) por outras tantas dezenas de blogues menores. Ela era a Hierofante, certamente teria um apelido estrangeiro que combinava com os laivos de sangue azul que transpareciam na sua escrita. Era sábia, conhecedora dos pecados do Homem e sua principal instigadora.

No entanto, ‘B_minE’ preferiu ignorar toda essa sabedoria e optar pela fronteira com o desconhecido.



Nessa tarde, quando finalmente se encontraram, ‘King#§pades’ estava demasiado ansioso e sentia-se a tremer, os joelhos a ceder, a boca a secar e as palavras a amalgamarem-se no seu neo-córtex. Os seus gestos saiam bruscos e descoordenados à medida que via alguém que só podia ser ‘B_minE’ a aproximar-se no corredor suava em bica e doía-lhe o estômago. O escorpião estava nervoso…

Nessa tarde, quando finalmente se cumprimentaram com um tenso aperto de mão, ‘King#§pades’ deixou cair o seu telemóvel. ‘B_minE’ apanhou-o, calmamente debruçando-se sobre o chão do corredor, em frente ao quarto 209 do hotel Hollyday Inn. Quando apanhou o telemóvel, ‘B_minE’ olhou inadvertidamente para o visor e reparou na foto do casal. Ele à esquerda no ecran, de óculos escuros, a olhar em frente e barba por fazer. Ela virada para o beijar, expondo a sua face esquerda, onde era perfeitamente visível uma cicatriz de lhe cobria quase toda a bochecha ao alto. ‘B_minE’ estancou de súbito, congelou. Ergueu a cabeça e, com a voz trémula, perguntou:

- Quem é esta mulher que está contigo? –
- É a Laura, a minha … bem, entendes… namorada, vamos. –
- De onde a conheces? –
- Sei lá… mas o que é que isso interessa, estou aqui por ti, não quero saber dela agora… então, mas o que se passa? –
- Ela sabe que estás aqui? Ela sabe quem eu sou? Responde-me filho da puta!! –
- Eh, calma pá, o que se passa?!? Parece que és pai dela, porra qual é a tua agora, julguei que era a mim que querias! –
- Animal estúpido, não sabes nada meu idiota de merda! Cala-te e desaparece, vá sai da minha vista, DESAPARECE antes que te parta as trombas, sai daqui, SAI DAQUI! -


Em pânico e em total confusão, ‘King#§pades’ desata a correr, voa pelo corredor e desce os lances de escadas quase sem tocar no solo. Tudo tinha corrido mal, ao contrário do que esperava, mas sem perceber bem porque, tinha conseguido o seu objectivo, o seu coração acelerava como há muito não fazia, sentia-se vivo!
Corre coelho, corre para a toca, que o medo da morte não te apague o espanto e excitação que levas no rosto…


Enquanto ele corria, ‘B_minE’ usava o seu telemóvel para falar com Laura. LaUrA. Falaram durante 21 minutos. Falaram o suficiente para ‘B_minE’ saber que ela era a ‘tal’, aquela que ele procurava desde que vira a foto, que estivera este tempo todo ao seu lado, a escrever no seu blogue.

Are you the one?
Yes, she was the one.

Antes de desligar, minutos antes, ‘B_minE’ disse-lhe o seu verdadeiro nome e contou-lhe como conhecera sua mãe e como lhe doeu a separação. Após desligar, minutos depois, ‘B_minE’ era um homem morto. Ainda respirava, o suficiente para se manter de pé por umas horas. Eram quase duas quando estacionou o seu carro no meio da ponte 25 de Abril. Passava das três quando respirou pela última vez, o derradeiro fôlego antes do mergulho sobre as águas negras do Tejo.
...


Na manhã seguinte LaUrA não acordou mais. Em vez dela, ergueu-se Luna, agora órfã, agora liberta, agora independente para seguir o seu destino. Luna era livre, pois LaUrA já não a mantinha cativa e ‘R_U_D_1?’ tinha-se juntado a ‘B_minE’ no mesmo salto para as trevas. Luna já não tinha passado, só futuro.
Faltava porém uma pequena nódoa por limpar, um joguete por eliminar, um Rei de Espadas que ela usou para o seu bluff final e que já não tinha qualquer uso.


Espantoso o que se aprende e memoriza quando se vive com alguém uns tempos. Todos os dias, ao pequeno-almoço, ela comia uma torrada e um sumo de laranja e ele uma tigela de leite com cereais, leite que ela aquecia no fervedor, pois ele adorava leite do dia e detestava micro-ondas, uma mania qualquer que ela nem queria perceber, estava-se nas tintas. Ela acabava sempre primeiro e despachava-se para ele ter tempo de ir tomar duche antes de ir para o trabalho.


Nessa manhã, Luna estava recordada da sua infância no Alentejo, em Valverde, perto de Évora. Junto à ribeira cresciam lindos os Loendros, com as suas flores magníficas, de rosa real, que brotavam nos dias quentes do Verão. Dizia-se que o Loendro era uma planta traiçoeira, pois a flor venenosa era a melhor amiga das viúvas, antes destas o serem. Tornavam-se viúvas graças à flor, pois assim se livravam dos maridos bêbados que as espancavam e violentavam sem remorsos. Duas a três flores de Loendro, deixadas a ferver com o leite, era o suficiente para o canalha ir parar à morgue sem traços do que lhe sucedera. Seria mais um caso de ‘paragem cardio-respiratória’, que em linguagem de médico legista significa simplesmente ‘morte inexplicada/natural’, sem demais delongas.


Nessa manhã, tomaram o pequeno-almoço juntos, mas ela teve que sair a correr, já estava atrasada. Fez barulho a descer as escadas e cumprimentou sonoramente os vizinhos do andar de baixo. Uma hora depois já ele tinha tomado os seus cereais, estava ela longe dali, já instalada e à frente de todos, no seu posto de trabalho.


A meio a tarde teve que voltar para casa mais cedo, pois recebera dois telefonemas, um do colega de trabalho dele a perguntar se ela sabia onde ele estava e outro dos vizinhos do 2º esquerdo a avisarem que o chuveiro deveria ter ficado aberto sem querer, pois já estava a pingar água do tecto deles, que ficava por baixo do seu apartamento…

Comentários

  1. Muito retorcido, o sabor da vingança. A orfã dos infernos. filme noir com laivos góticos, desejos negros, sombras e demónios açaimados.
    Lê-se de um fôlego só. :D

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  2. Assim nos tem habituado Nuno Oliveira, escrita de Rei, cortante como uma espada. :)

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  3. escrita que arrepia, e deixa a pensar!

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