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NOCTURNO

Apartemo-nos, pois não andamos mais que a fingir passos em frente, olhando de lado em espelhos baços, apartemo-nos pois aqui não mora o desassossego. Desconjunta-me, necessito de fontes mais precisas de prazer, a languidez do teu corpo já não oferece o tal abrigo merecido. Deixa-me. Prescindo do teu brilhante intelecto para me dedicar ao estudo das coisas mundanas. Fingimento. É este o constrangimento que me faz neste momento avançar para a dissolução. Prefiro dissolver-nos do que ver-me diluído na pasmaceira dos dias. Não sou poeta, não faço rimas, não ouço a lua, faço da noite apenas uma passagem, como se fosse um túnel para reencontrar de novo o sol. Fazes-me lembrar a noite, por isso desdenho continuar a alimentar a tua deslumbrante beleza lunar. Passo a vida embriagado por palavras. Perdido no emaranhado de abraços em que me teimas prender. Quero ser livre. Quero ser Ícaro e se necessário voar direito ao sol. Se for esse o preço, fá-lo-ei. Não duvides! A minha existência já meio amad…

"Ânsia de Partir"

A falsa imortalidade da alma
Falsos discursos, palavras apagadas pelo tempo
Amores destroçados pela minha incerteza
Quero apagar-me deste discernimento incoerente A falsa verdade do amor
Quero distanciar-me desta dor inane
Este desejo que me estremece
Esta ânsia de partir, como se ao partir pudesse esquecer Algures por entre a primeira e a segunda hora
Por entre a escuridão que escarnece da minha bravura
O meu reflexo esconde-se por entre espelhos partidos
Quero arrancar de mim este torpor, este medo obscuro A falsa moralidade do desejo
Quero esquecer-te mesmo que deseje lembrar-te
Afogar por fim estas mágoas, estas saudades
Quero enterrar-te por fim no passado

Desafio: Reminiscência rasgada

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Não era uma gaiola apesar das grades, e eu não era um pássaro apesar do coração pequenino. Acho que a única coincidência era que ambos tínhamos o esqueleto delicado e leve. Era assim que me via: um sortido de ossos que se encaixavam perfeitamente, tal como as bolachas de manteiga naquelas latas cilíndricas achatadas com desenhos requintados. Uma repetição de sabores do início ao fim, assim como as minhas horas que passavam na mesma cadência crocante da cal nas paredes. Às vezes, até podia afirmar que as paredes pareciam casca de ovo, de onde eu queria nascer mas nunca conseguia mais do que abrir uma simples fenda. Era ali que eu manifestava a minha força, nas fendas ramificadas que se alimentavam de raízes gulosas por sol. Foi exactamente por isso que eu me desenraizei do meu chão. Sentia que o que estava à mostra era menos importante que o que estava enterrado. O que estava à mostra sofria com queimaduras solares, o que estava enterrado sofria com o escuro húmido. 
Consegui inverter a …

Desafio: Reminiscência rasgada

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Desafio com fotografia de partida… ou chegada. Até onde irá e como termina é convosco.

Não se esqueçam de associar uma música à vossa prosa ou poesia (ou ambas) e de colocar a etiqueta “Desafio: Reminiscência rasgada”. O prazo de entrega é dia 31 de Dezembro, 2017.
Até breve!

ovelhas que já não me balem

caminhava eu meio desligado pelo campo quando
me apareceu pela frente um velho pastor que com voz de tenor
se meteu a cantar assim que me viu aproximar
de repente, com o ruído, a frequência, e o canto
todo o rebanho balou e som tornara-se tanto que eu me adensava de espanto
preso ainda à imagem do velho pastor sentado e resignado
à estatia do passar do dia, que cantava enquanto versava a sua poesia
perco-me em campos e campos, e verdes e verdes
e solidões e solidões, e multidões e multidões
de nada, de tudo, faço-me à estrada para ver se me acudo
e chego ao campo e denoto que o pastor está agora mudo
fico confuso, salta mais um parafuso e os pés andam cada vez mais tortos
sem saber se é campo, se é vida, se é hora de desviver no tempo dos mortos

Um Final Perfeito... Parte X

... e vivemos felizes para sempre