terça-feira, 7 de julho de 2026

Sobre o óbvio

 

Acordo, mas não desperto. As pálpebras pesam toneladas e o corpo está crucificado à cama. Levanto-me, mas não me ergo. Ergo-me, vou até à janela, tento correr o vidro mas a cortina está presa. Afasto-a e forço o vidro. Não tenho vidro, apenas um estore antigo de ripas de madeira com a tinta lascada. Empurro e abro a janela. Acho que senti um beijo na minha face antes de acordar, acho que ouvi os seus passos a sair do quarto. Acho que era ela e não estava sozinho. Mas sei que agora estou. Sozinho. A janela continua aberta mas a cortina ainda está presa. Não sinto a minha face, não sinto o seu beijo, não sinto a aragem que vem da janela entreaberta com os estores de madeira coberta de lascas de tinta branca e suja empurrados para a frente que mal se aguentam sobre as calhas de ferro enferrujado. Os meus olhos estão a arder, porque não os consigo abrir. Forço as pálpebras mas estas pesam toneladas. Estou erguido, mas não me levanto. Estou acordado mas não desperto. Não estou.

Acordo, mas não desperto. O alarme segredou-me baixinho, está na hora. Levanto-me e tento abrir a janela, mas a cortina está presa na calha da janela. Lá fora o sol já aquece e o ar sufocante esgueira-se pela janela, consegui abri-la. Rasguei a cortina. Penso que ouvi os seus passinhos, tum-tum-tum-tum, a passarem pelo corredor, tu-tum-tum-tum. Penso que os vi, eram tão pequenos, de carinhas redondas, cabelos despenteados, sorrisos abertos e olhos brilhantes. Tum-tum-tum-tum, os passinhos ecoavam no corredor. Tentei abraçá-los e eles corriam para mim, tentei abrir os olhos para os ver melhor, mas as pálpebras pesam toneladas e as cordas apertam. Procuro as minhas mãos e não as encontro. Procuro-os a eles, os pequenos, mas não os encontro. Estou desperto, mas não acordado. Não estou. Não estamos. Não estão.

Não acordo nem quero acordar, mas sigo a rotina, Levanto-me, procuro a janela mas a cortina não me deixa ver nada, o céu lá fora está encoberto mas aqui dentro o calor foge dos meus dedos e a aragem seca a minha face. A música soa-me a familiar, lembro-me de a escutar quando era pequeno, tão pequeno, que os meus pés a bater no chão mal se ouviam. Tum. Tum. Tum… e procuravam por mim. Hoje no supermercado as prateleiras estavam desarrumadas, ainda mais do que o que é costume.  O pão não estava no seu sítio, não encontrava a minha fruta preferida e o som seco da música que embala os carrinhos de compras estava a estalar, como tinta ressequida sobre velhas tabuinhas de madeira. Mal deixam entrar a luz. Quando eu era pequeno era difícil ir ao supermercado mas, quando ia, tudo me parecia muito arrumado, obsessivamente arrumado, doentiamente arrumado. Mas é daí, é daí que eu reconheço aquela música. A rapariga da caixa sorri, lábios feitos de dentes e olhos pesados, tão pesados, tão pesados. Pálpebras como cortinas que não se abrem. Ela não está. Eles não estão. Ela nunca esteve. Eu estou, mas onde, não sei.

Desperto. Acordo. Não me levanto, os pregos afundam-se nas minhas mãos e os espinhos cravam-se nos meus olhos. Não os abro, embora sinta que o meu olhar voa leve, até à janela. Afasto a cortina, com facilidade, abro o vidro e vejo-me lá fora. O ar seco recorda-me o cheiro a rosas, quando estas eram maiores que eu, quando os passos sobre as velhas tábuas de madeira ressequida e tinta a lascar se faziam ouvir. Tum-tum-tum-tum. A fugir da aranha-tigre. A perseguir borboletas amarelas e pretas. Em busca de um beijo que queria sentir na face. Onde estás que não te vejo? Onde estás que te sinto perto. Desconfio que estou a sonhar mas sinto que sinto. Não sei o que sinto mas sinto-o debaixo da minha pele, a estalar de dor na minha cabeça. A amordaçar-me os gritos de ajuda que não sei pedir. Sinto-me cada vez mais longe. Longe de mim, ainda a tentar abrir a janela. Afastado pela cortina que não cede. Até que cede. Um rasgo deixa entrar uma fatia de sol. Morno, doce vazio. Sei onde estou, não sei para onde vou. Não estou mais aqui.

Alguém chega e abre a janela. Estou lá mas não me encontram. Fugi pelo rasgo da cortina, rompi pelo vidro e passei pelos estores de madeira velha e ressequida. De olhos abertos e sem pálpebras tudo vejo. Eu estive ali.

Eu adormeci. Mas agora despertei.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Impossibilidades

É onde a cabeça de uma sweet little sixteen cai, frequentemente. Rola, desespero abaixo e, pum, estilhaça-se no vazio. Foge, acelerada, dos clichés que fixam a mulher no bom gosto e bom senso, na arrumada, ainda que complexa, mente, e esparrama-se plana, no chão, sem conteúdo, devastada pela inconsistência das suas jovens redes cerebrais. É certo que o seu tempo de vida para trás lhe reserva uma vasta gama de possibilidades no tempo de vida pela frente. Menos dezasseis. Mais setenta e cinco, por aí. Mas o potencial não se define pelo tempo, senão pelo que se faz dele.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

 Ínfimo


sem esforço, voar

sem querer, sonhar

sem nada saber, criar

sem compreender, nada explicar


sem ver, derivar

sem sentir, magoar

sem nada agarrar, segurar

sem reconhecer, nada demonstrar


sem sofrer, caminhar

sem preencher, completar

sem nada tocar, oferecer

sem ter, nada desejar


sem direção, virar, 

sem provar, ofender,

sem mais nada entender

nada mais a acrescentar


https://open.spotify.com/track/1nQfHrwSC8XPlJHi8xpVjE?si=49f7878ebf634312


quarta-feira, 21 de março de 2018

NOCTURNO

Apartemo-nos, pois não andamos mais que a fingir passos em frente, olhando de lado em espelhos baços, apartemo-nos pois aqui não mora o desassossego.
Desconjunta-me, necessito de fontes mais precisas de prazer, a languidez do teu corpo já não oferece o tal abrigo merecido. Deixa-me. Prescindo do teu brilhante intelecto para me dedicar ao estudo das coisas mundanas.
Fingimento. É este o constrangimento que me faz neste momento avançar para a dissolução. Prefiro dissolver-nos do que ver-me diluído na pasmaceira dos dias. Não sou poeta, não faço rimas, não ouço a lua, faço da noite apenas uma passagem, como se fosse um túnel para reencontrar de novo o sol.
Fazes-me lembrar a noite, por isso desdenho continuar a alimentar a tua deslumbrante beleza lunar.
Passo a vida embriagado por palavras. Perdido no emaranhado de abraços em que me teimas prender. Quero ser livre. Quero ser Ícaro e se necessário voar direito ao sol. Se for esse o preço, fá-lo-ei. Não duvides! A minha existência já meio amadurecida está para além de quaisquer dúvidas ou incertezas.
Ris.
Eu sei que te ris aí ao fundo no escuro, no teu nicho de prazer, brincas neste momento com as tuas mãos, sinto-o.
Ris porque sabes o destino de Ícaro. Ris porque a noite volta sempre. E eu como a maré, volto ao mar, ao teu mar.
Sorris pacientemente porque sabes que volto. Permites-me estes assomos de rebeldia, jogas com tudo isto para aumentares o teu jogo de prazer, sei-o bem, demasiado bem para a minha própria sanidade.
Tens razão.
Sempre a maldita razão, volto ao teu conforto lunar, à tua poesia erótica, ao teu romantismo obscuro. Volto porque sei-me feito da mesma massa embora iludido que poderia ser de outra, mais solar, mais brilhante.
Não nos apartemos mais então, que termine esta farsa. Entrega-me o teu corpo para dele fazer vaso da minha paixão. Isso. Liberta-me dos sonhos pois deles não preciso. Liberta-me da ilusão pois ela sempre me traiu.
Sim, é o teu corpo que desejo, os teus braços lunares e os teus olhos de inocência.
Julgava eu não ter em mim a poesia, a rima certa que compõe o soneto, enganado de novo pelo sufoco de querer ser diferente.
Amordaça-me com o teu fogo, prende-me aos grilhões e dá-me prazer, lê-me Sade pois a noite é ainda apenas uma criança inocente.
Continuamos a olhar de lado em espelhos baços certos que deles nada vislumbramos. É melhor assim, dar passos falsos em frente do que morrer parado entre a noite e a madrugada.


Bruno:Carvalho

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

"Ânsia de Partir"

A falsa imortalidade da alma
Falsos discursos, palavras apagadas pelo tempo
Amores destroçados pela minha incerteza
Quero apagar-me deste discernimento incoerente
A falsa verdade do amor
Quero distanciar-me desta dor inane
Este desejo que me estremece
Esta ânsia de partir, como se ao partir pudesse esquecer
Algures por entre a primeira e a segunda hora
Por entre a escuridão que escarnece da minha bravura
O meu reflexo esconde-se por entre espelhos partidos
Quero arrancar de mim este torpor, este medo obscuro
A falsa moralidade do desejo
Quero esquecer-te mesmo que deseje lembrar-te
Afogar por fim estas mágoas, estas saudades
Quero enterrar-te por fim no passado

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Desafio: Reminiscência rasgada



A taberna tinha as paredes forradas com pequenas tábuas obliquas. De nome completo Jorge Libério Tadeu, como gostava de dizer sempre que alguém o chamava sem algum dos outros dois, estava paralelo às “tabuinhas” da parede e obliquamente encostado ao balcão.

Jorge Libério Tadeu, nem baixo nem alto, era muito mais magro do que a maioria e tinha um farto cabelo despenteado. Na rotina dos dias caminhava sempre de costas encurvadas e com passo acelerado e nervoso até parar frente à porta da taberna da rua empedrada.
As calças de ganga largas eram curtas e deixavam ver as raquetas bordadas nas meias, e não dispensava uma das suas camisolas de cavas brancas, mesmo em pleno Inverno, de forma a exibir uma tatuagem imperceptível feita a tinta-da-china.
Tinha o braço direito engessado há três anos, mas como era destro só conseguia levar o copo de tinto à boca com a mão direita. A cada “penalti” tirava o gesso do braço direito, despejava o copo de vinho directamente para o estômago sem tocar no interior da boca ornamentada dente-sim-dente-não.
Claro está, o braço direito há três anos que não via luz do sol e estava mais branco do que o gesso que o tapava, era o reflexo perfeito das sete cores do espectro visível. Era mais branco do que qualquer objecto branco que um dia tenhamos visto na vida e contrastava com o escuro braço esquerdo, negro, queimado por dias inteiros exposto ao sol em mangas cavas.

– Oh Jolita! - como todos na vila o chamavam - Vai mais um? Para o caminho!
– Espera. Estás a ver? Esta é a minha filha.

Num gesto repetido diariamente, retirava do bolso de trás das calças a carteira preta deserta, abria-a e exibia com ar orgulhoso o recorte de uma revista da socialite, gasto pelo passar dos dedos, onde se via uma criança que não teria mais do que 6 anos.

– Esta é a minha filha! - repetia todos os dias - A Luísa é a melhor aluna da escola. Quer ser médica quando crescer. Vai ser médica quando crescer!

Jolita era um filho da vila e todos o conheciam, mas ninguém lhe conhecia qualquer família, ninguém alguma vez tinha visto a sua filha ou sabia se teria sido alguma vez casado. É verdade que aos 18 anos cumpriu o serviço militar em Mafra e depois emigrou.
Regressou à vila 20 anos depois de partir, com apenas um lençol às costas onde, presos com um nó cego, embrulhou todos os seus pertences: três pares de calças de ganga, dez camisolas de cavas brancas e cinco dezenas de revistas cor-de-rosa de diferentes décadas.
Na carteira preta trazia sempre um recorte de uma das revistas que fazia questão mostrar a todos que acabassem, mais ou menos interessados, por parar ao seu lado, mesmo que por breves instantes.
Quando regressou à vila a Beatriz era um bebé de olhos azuis de uma revista de 1974 e disse a primeira palavra; dois anos depois chamava-se Ana, tinha caracóis, corria e saltava, não parava; aos três anos a Teresa, uma menina morena de olhos rasgados, vestia um tutu branco e queria ser bailarina.

Estava um frio invernal no Outono de Novembro, num pequeno barril que serve de banco estava o barbeiro Justino Correcto, com longa barba, óculos aviador escuros e bata vestida, que quando não estava a barbear estava a alcovitar:

– Aí vem o Jolita. Quem será a filha hoje? Dizem na vila que a mulher fugiu com a filha por causa da bebida. Ele não sabe onde elas estão. Não faz a mínima ideia. Parece que ela até mudou de nome e também mudou o nome da filha. Ele nem sabe como elas se chamam. Pelas minhas contas a filha já deve ser uma mulher.

Manel Paulo Anca, sapateiro de profissão, sentado de pernas cruzadas mostrava o buraco na sola do sapato esquerdo. As calças, de imperceptível cor, são as mesmas que usou em Janeiro, depois das primeiras gotas de chuva que lhe deram o último banho.

  Qual quê! Já não posso ouvir o Jolita e as histórias da filha que não existe. O excesso de “jolas” fritaram-lhe os miolos é o que é. Que mulher iria querer ter um filho com aquela triste figura? Com aquele bêbado? É um pobre diabo que inventa estas histórias para não se sentir sozinho. Eu já nem o oiço.

Luís Lentinho, conhecido por Sôr Professor por andar sempre com livros debaixo do braço, que na verdade nunca ninguém o viu algum dia realmente ler, levantou-se bamboliante, tentou coloquialmente colocar a voz, mas acabou a discursar numa linguagem que só os que beberam os mesmos litros entenderiam:

– O Jorge nem sempre foi assim. Nem sempre foi assim. É uma história muito triste. Triste. A filha do Jolita é um anjinho no céu. Ouviram! Respeitinho! Ouviram! Morreu à nascença. Coitadinha. Está enterrada num cemitério em Genève. No túmulo não há fotografia. Nenhuma fotografia. Mas o Jolita mandou escrever. Está escrito lá:
“Beatriz, Ana, Luísa, Teresa, Maria. És a minha filha. Presente do verbo ser. Para sempre e enquanto eu pisar o chão deste inferno estarei ao teu lado a ver-te crescer.”

Os anos passaram, o recorte de revista mudou na mesma carteira preta, a criança cresceu e ficou menina e depois ficou mulher.

– Viva pessoal! A minha Maria vai casar! Vai dar-me netinhos. Vou tatuar o nome deles neste braço.

De sorriso rasgado rodopiou em torno de si mesmo exibindo um recorte de um catálogo de vestidos de noiva.

– Parabéns Jolita! Vai um para festejar?
– Enche.

Bebeu num trago. Depois do último de muitos Jorge Libério Tadeu seguiu feliz para casa.



segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Acho que a única coincidência era que ambos tínhamos o esqueleto delicado e leve. Era assim que me via: um sortido de ossos que se encaixavam perfeitamente, tal como as bolachas de manteiga naquelas latas cilíndricas achatadas com desenhos requintados.
Uma repetição de sabores do início ao fim, assim como as minhas horas que passavam na mesma cadência crocante da cal nas paredes. Às vezes, até podia afirmar que as paredes pareciam casca de ovo, de onde eu queria nascer mas nunca conseguia mais do que abrir uma simples fenda. Era ali que eu manifestava a minha força, nas fendas ramificadas que se alimentavam de raízes gulosas por sol. Foi exactamente por isso que eu me desenraizei do meu chão. Sentia que o que estava à mostra era menos importante que o que estava enterrado. O que estava à mostra sofria com queimaduras solares, o que estava enterrado sofria com o escuro húmido. 
Consegui inverter a situação.
Consegui inverter a situação mas ainda não decidi se sou mais feliz agora. Até porque ainda não decidi se quero sentir-me feliz. Felicidade não me cai bem, deixa-me com refluxo fantasma de memórias.
Agora no meu canto, ao menos não tenho que me preocupar, nem sentir a pressão craniana de quem quer ir longe mas não está no mundo certo, nem na época certa. Da minha cabeça aberta podem emergir todos os instantes confeccionados em lume brando, subindo através de sonhos em vapor e ficando condensados nos rostos de quem me visita, de quem deseja-me visitar, de quem tem a chave deste jazigo, de quem já forçou a fechadura, de quem traz flores, de quem não entende porque quero estar aqui. 
É que eu quero muito ficar por aqui.


Foto: Fernando Vianna

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Desafio: Reminiscência rasgada

Desafio com fotografia de partida… ou chegada. Até onde irá e como termina é convosco.

Foto: Fernando Vianna

Não se esqueçam de associar uma música à vossa prosa ou poesia (ou ambas) e de colocar a etiqueta “Desafio: Reminiscência rasgada”.
O prazo de entrega é dia 31 de Dezembro, 2017.

Até breve!

quinta-feira, 22 de junho de 2017

ovelhas que já não me balem

caminhava eu meio desligado pelo campo quando
me apareceu pela frente um velho pastor que com voz de tenor
se meteu a cantar assim que me viu aproximar
de repente, com o ruído, a frequência, e o canto
todo o rebanho balou e som tornara-se tanto que eu me adensava de espanto
preso ainda à imagem do velho pastor sentado e resignado
à estatia do passar do dia, que cantava enquanto versava a sua poesia
perco-me em campos e campos, e verdes e verdes
e solidões e solidões, e multidões e multidões
de nada, de tudo, faço-me à estrada para ver se me acudo
e chego ao campo e denoto que o pastor está agora mudo
fico confuso, salta mais um parafuso e os pés andam cada vez mais tortos
sem saber se é campo, se é vida, se é hora de desviver no tempo dos mortos

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

São Morte




Ondulado
Do lado que a menos favorecia
Parecia uma pasta prensada contra a almofada
Fadada de durões de esponja e algodão
Algo de cordão que apertava como a angústia
Tia da opressão e mãe da depressão
Depressa São percebeu que ondulado marcava cada vinco
Com afinco na orelha daquele lado envolvido
Olvido de perguntas existenciais e de toques no ombro com suavidade
Pois a sua idade era como um copo cheio de limonada
Nada doce mas apetecível à morte
Corte forte na sorte
Suporte de coração pendurado à cabeceira
Mas cabe na feira de almas escolher
A colher que vai mexer o copo até transbordar
O bordar de uma assistolia
Assim lia São na iris enquanto soprava
Só p’ra afastar o cabelo ondulado
Do lado que primeiro se trasladava
E dava um abraço no vinco, na dobra, na sobra
Da obra com mão de bola de sabão.

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Sobre o óbvio

  Acordo, mas não desperto. As pálpebras pesam toneladas e o corpo está crucificado à cama. Levanto-me, mas não me ergo. Ergo-me, vou até à ...