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A mostrar mensagens de Abril, 2012

All is One

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sobe o tom do meu grito ávido das tuas formas que me completam o olhar nesta noite em que me perco de encontro ao teu peito onde me fazes barco em naufrágio de cinza dos teus cigarros apagados como se as paredes de papel com que forras o nosso romance 
fossem vagas de lume possuídas por sonetos balbuciantes
os verbos que soletras
nos meus seios que te enchem as mãos
vazias das sombras
sempre que me afagas os lábios pintados de sémen
com que te beijo
o corpo cantante
tocante
alto e másculo
tantas vezes errante no meu
que é memória
em decalque de orgasmos simultâneos.

AMOR VERDADEIRO

Um mês antes de te ter
E de repente já nada é suficiente, interessante ou chamativo. Tudo tão pouco, comparado contigo e o teu sorriso. Queria estar perto de ti. Abraçar-te, cheirar o teu corpo, olhar o teu olhar vítreo, beijar-te. E já nada interessa. Só tu. Será amor? Penso em nós quando acordo, acompanhas-me todo o dia, contenho-me para não te chamar. Não me custa. É doce e manso e calmo, sei que vou fazer a viagem para te ver, talvez amanhã, ou noutro dia qualquer em breve. Será que é isto a paixão a despontar novamente? Quero que sim. Que sintas o mesmo! Preciso de to dizer, mas não posso ainda. Nem nos conhecemos. Tenho de dosear a expectativa e a emoção, adiar o inevitável, ir dando aos poucos, sem pressas de transbordar. Mas ai! Esta barragem está cheia, não posso dar-te toda a água, não te posso afogar nem ao nosso amor menino, e ainda recém-nascido, verde e vermelho…podia telefonar-te, para ouvires a minha voz, mas não sei que te dizer. Que te queria abraçar e beijar? Só isto…

Tenta contar até 3…

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Parte I – A espuma negra
- Calma, respira fundo. Afinal de contas, o que é que te preocupa tanto?-
O meu homem esconde-se entre a espuma dos seus pensamentos, que o afogam até aos dias do desperdício. De tempo, de vida, de fome. Persegue a sua própria sombra com os olhos rasgados pelo medo de nada encontrar do outro lado. Toca na sua língua e corta-se nas palavras afiadas que esta guarda para certas ocasiões sociais, quando leva a bílis a passear ou se enrola nos bigodes veteranos da ventania de outono, rumo a sul. Até que se embala na arrepiante luz da manhã que antecede a longa noite de pesar…


Parte II – Nas minhas veias o teu sangue
…se disfarçares ninguém repara, acredita. Porque mesmo as pessoas que notam o óbvio deixam que o óbvio se omita por entre as frestas sombrias dos seus medos e inseguranças. Ah, se te julgas impotente para o fazer, que dirão os milhares, milhões até que o fizeram antes de ti? Navegam cegos entre miasmas e rezas a santos ausentes. Repara, observa bem, espreit…

... de água salgada

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Lá está ele a vestir o fato bom e a escovar o chapéu. Vai outra vez ao jornal colocar o anúncio, o mesmo de sempre. Como se alguém quisesse comprar um crocodilo empalhado de quatro metros para pousar em cima de um móvel. Acho até que já não se fabricam móveis com quatro metros. Nunca se livrará de mim.

Já tivemos algumas visitas, é certo. Um artista algo bizarro que queria fazer uma escultura com  bocados de animais embalsamados e outros em putrefacção, uma senhora com tesouras em vez de olhos que me transformou em carteiras e botas com uma só mirada e um doutor qualquer de um museu qualquer que tentou ensinar-nos todas as estatísticas que lhe enfiaram na cabeça sobre répteis. Acabaram todos corridos de forma deselegante, principalmente o último quando quis explicar-lhe os quilopascais de uma dentada de crocodilo.

Como se ele não soubesse. Como se os meus dentes, “cujo número varia entre os sessenta e quatro e os sessenta e oito”, não lhe tivessem arrancado metade da perna.

Foi noutro …