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A mostrar mensagens de Setembro, 2010

A Filha do Meio (Parte II de II)

Em silêncio, Elisa dirige-se para seus aposentos, frios e distantes, como a sua paixão pela vida. Na cama do meio, com todo o espaço vazio deste mundo que a separa de suas irmãs, a seu lado. Tão perto que lhes sente o bater do coração, o pulsar das suas asas, pois, ao contrário de si, Elisa, filha do meio, suas irmãs voam e espalham sonhos, por entre lírios e poças de água, trazem alegria e sorrisos. Elisa apenas tem pó e sabor a metal para oferecer, perdida no espaço vazio, um inominável monstro se esconde entre duas fadas. No meio, a fealdade, em cada lado, a virtude.

Elisa contempla, sua irmã mais velha brinca às médicas com as suas bonecas, dá-lhes injecções e receita-lhes dias nas termas, para rejuvenescerem a pele, como faz a mamã, sempre que os seus medos lhe mostram no espelho o passar dos anos e o desgaste da rotina. Ela inveja sua irmã mais nova, que a todos maravilha com cabriolices e ‘coisas de menina’, enche a sala de ‘oooohhhhh’s e suspiros.
Elisa suspira, suspira por …

Pontuação rápida

Quando se está vazia, as correntes de ar fazem-se sentir de uma forma muito oca. Batem nas paredes e voltam sempre ao mesmo sítio. Depois, como a imunidade custa muito tempo, a constipação é inevitável. Faz frio dentro de mim e, tudo o que sai são letras a precisar do aconchego das palavras. Hoje de manhã estava frio, outra vez, pelo que vesti o casaco de texto e fui para a rua, para cima da tinta que forma a linha que me leva até ao fim do parágrafo. Ponto.
Passei pela loja de chocolate e, com as bochechas cheias de doce por dentro, fiz um ponto e vírgula, para a pausa durar mais tempo. Continuei e fiquei a achar que já tinha ido longe demais, que nem devia ter saído de casa. Não sei se por culpa do chocolate me ter feito muito feliz ou, se por o doce já estar a chegar aos pés e, neste momento fazer o barulho de quem já está preso. Pegajosamente fui até ao fim do parágrafo e ao saltar fiquei pendurada pelos pés, de cabeça para baixo, na linha. Estas coisas só devem acontecer aos azara…

A Filha do Meio (Parte I de II)

Nem protegida, nem mimada, apenas ignorada
Nem como a irmã mais velha, que será doutora
Ou como a bebé, uma bailarina idolatrada
Ou como sua mãe, uma falhada sedutora
Será ela própria, em si mesmo abandonada

Meio triste, meio ausente
Nem fria, nem quente
Simplesmente, indiferente
Senta-se na mesa, para jantar
Mas nada lhe apetece mastigar
Queria simpesmente divagar

Fugir dali, para que ninguem a descubra
Das suas irmãs, tão perfeitas e adoradas
Do olhar de seu pai, que tanto a perturba
E das mentiras de sua mãe, enfeitadas

Metade peixe, metade lua
Sereia imperfeita encalhada na maré
Sem brilho ou cor, de alma nua
Não sabe o que quer, nem sabe que é
Nada a move ou seduz
Nem trevas, nem luz
Apenas uma indiferença que se afunda
Num torpor que tudo inunda
Perdida num sentimento de pesar
A filha do meio ira decidir
Terminar com sua vida, apagar
Tudo o que ainda estará por vir

(continua)


(texto publicado originalmente na revista "Máquina de Escrever" #2)

Labirinto azul

Depois de nascer, só temos pela frente uma sina, que é viver. Na chegada, para os olhos deslumbrados, tudo o que brilha é ouro. Tão logo passe o deslumbramento, acaba tornando-se óbvio que por detrás das luzes do atraente parque de diversões, há uma rede de ferro, fios e engrenagens que, apesar de bonito nada ter, serve para criar miragens esfuziantes que cativam e inebriam os sentidos e que aprisionam e escravizam a essência do Ser, que se perde quando entra o labirinto do planeta azul. E quem pensa que "nasceu para ser feliz" mal percebe que os poucos instantes de aparente felicidade têm embutido o cruel.

São as fichas do jogo da vida. Jogo no qual, a rigor, nenhum participante é mais importante do que o próprio jogo em que a vitória é pura ilusão, pois nele só há um único participante a apresentar sob diferentes vestes e com inúmeras máscaras. Jogo repleto de dores, frustrações, tristezas e sofrimentos insuportáveis. Ou suportáveis com a morte. A morte do corpo e o renasci…

Nespereira

Havemos de ir ainda à mesma árvore
Que trepávamos numa indolência animal
E ficar a tarde toda deitados nos seus ramos,
A dizer disparates ao sol,
Tu e eu, como aos 10 anos.

Hei-de fazer um amuleto
Com o teu sorriso intacto,
Perfeito
E andar com ele sempre preso ao peito
Para nunca me esquecer de rir também.

Um dia ainda há-de ser
Tudo tão simples como antes.

Vegetativo consciente

Quando o meu tempo se confunde
batem os ponteiros
os minutos querem seguir
os segundos preferem parar
a loucura conta até doze
o interior fica crescente e
quando o tempo se reconhece
o corpo realiza fotossíntese à sombra
sombra da mão que agarra o relógio
que agita o passado preso ao pulso
que abre o tempo redondo e
roí até aos ossos o som dos pés
que caminham em direcção ao ninho prometido
por um estrada que sela a confusão
que limpa com ácido as ideias necrosadas e
agora, simplesmente
pelo início do sorriso
pelo toque das palavras
pelo olhar que baloiça nas pestanas
sei que serei sempre vegetal
mas tu serás sempre a sombra do sol.
Simples.
Cada vez que o meu tempo se confunde
voa um beijo soprado pelas folhas verdes.
E a culpa é tua.
Felizmente.

Desafio "Brinca Comigo", II parte

Não, ela não se lembrava. Nem sequer sabia histórias onde aparecessem rainhas, nunca lhas tinham contado. Nunca ninguém a sentara ao toucador para lhe escovar o cabelo como se amansasse um cavalo, um puro sangue depois da corrida. Ia jurar que o espelho lhe devolvia reflexos de prata...
E ele foi buscar o melhor vestido dela, aquele que usava só em funerais e missas, e abriu-lhe o guarda jóias onde só restavam pó e souvenires baratos que os marinheiros lhe traziam de outros portos. Encaixou com cuidado, nos delicados buraquinhos das orelhas, os brincos mais decentes que lá encontrou, como se já soubesse que eram herança da madrinha, e abriu-lhe a bolsa de veludo onde guardava a maquilhagem para lhe tingir os lábios de vermelho, com toques leves mas precisos, como um pontilhado de tapeçaria.

Ele voltou sempre nos 10 anos que se seguiram, para o mesmo ritual. A princípio, de longe a longe, sempre que podia, depois regularmente, na última terça-feira do mês. Sentava-a ao toucador, ia busca…

Desafio "BRINCA COMIGO", parte I

Fazia aquilo há tantos anos que já tinha perdido a conta aos pequenos saloios corados e anafados como querubins - como ele - que lhe entraram pela porta do quarto dentro, a mando dos pais. Para se fazerem homens...
“Julgava que era para isso que a tropa servia...”, costumava pensar. Mas, geralmente, mandavam-lhos lá uns bons anos antes de irem às sortes.
Mas dele não se iria esquecer nunca. As botas ortopédicas como peças desconchavadas, grandes demais para os pés, as calças demasiado curtas, o cheiro a leite coalhado, a terrores nocturnos e enurese. Sentou-se na borda da cama a olhar para o chão, provavelmente a contar os fios puxados no tapete rosa de bazar chinês aos pés deles. Ela pôs-lhe a mão no joelho, resignada ao constrangimento de quem já sabe como aquilo vai acabar, e perguntou:
- Então, meu lindo... já fizeste isto antes?
Uma queimadura de cigarro, uma mancha de vinho, mais fios puxados, uma boneca sevilhana no aparador em frente, um par de algemas verdadeiras que um polici…

Resposta ao Desafio 'Brinca Comigo' parte II (D.Ü)

Parte II



Tinha 13 anos quando, já na cidade, me foi diagnosticada uma infecção muito grave, resultado de anos de sinusite não tratada. O médico disse que eu era um herói, um valente. Nem um gemido de choro, mas as lágrimas corriam pela face à medida que me abriam a cabeça a sangue frio, com um pequeno escopro e martelo cirúrgicos. Era para meu bem, dizia para comigo próprio, para meu bem, pois poderia ter morrido com a febre e o choque séptico que estava eminente. À medida que a visão se abatia, fruto do trauma do bater do martelo, pensava que ficara cego, para sempre. Na escuridão. Tal como no quarto negro onde eu rezava sem saber como para que a fina linha de algodão não se quebrasse. Eu era um bom garoto, só queria mesmo que a linha não quebrasse. Da última vez que consegui vislumbrar alguma coisa antes de ficar tolhido de visão consegui ver quem estava à minha frente. O médico. Duas enfermeiras. Uma senhora velhota que chorava por mim. Chorava tal como a minha mãe, em sua casa, se…

Resposta ao desafio " Brinca comigo" 2ª parte

Quando a rapariga se aproximou com todo o cuidado, verificou que o tio tinha o pescoço torcido de uma maneira estranha e os olhos abertos fixando o vazio.
Morreu, não brincas mais comigo.
Tinha rebolado pela escada abaixo tipo verme gordo e peçonhento.
A rapariga ficou a olhar para baixo durante algum tempo, depois respirou fundo e deixou sair o ar,devagar.
Pensou e assim o fez , vai ser uma tarefa terrível leva lo e abandona lo ao sabor da corrente do rio.
Vamos brincar ...vou pedir ajuda ao João ratão a carochinha ,a branca de neve e as sete anões...vou te arrastar pelas ervas ,e vais boiar velho barrigudo.

Três horas mais tarde, quando a rapariga fez sinal a camioneta ,subiu para bordo,usava o seu novo vestido de algodão branco e transportava consigo a velha e desgastada mala de cartão do tio .
Descobriu um lugar vazio,sentou se e pousou a mala sobre os joelhos, sorriu, olhou pela janela enquanto a camioneta rugia para leva la de volta a vida.
- Olha a força com que a rapariga segura naque…

Brinca comigo

Parte II
Esse beijo, selado com o meu sangue, foi o primeiro. Outros se seguiram, sempre brisas delicadas.O Verão foi chegando e nas fitas esvoaçantes das festas do povo veio a sua quarta mensagem. “Mergulha em mim”. Hesitei. Mas eram já as suas mãos que davam forma ao meu corpo. Por isso fui à falésia, olhei as vagas suaves que me esperavam e continuei a avançar, olhos nos olhos com o meu zéfiro.Deixei que tocasse cada milímetro da minha pele, que rasgasse o meu vestido, que me partilhasse com o mar, onda após onda....Na calma morte do crepúsculo, veio a sua mensagem final. “Chora por mim”. Obedeci, enquanto os seus braços me engoliam pela última vez. Afastou-se na vela de um barco e eu fiquei à deriva, sem respirar todo aquele Verão seco.Desde então o tempo ergueu-se entre nós. Cada vez que cheira a maresia oiço o seu sopro mas a brisa já não me ama, apenas me fustiga. Vagueio perdida. Pergunto de onde veio este nevoeiro. Pergunto pelo caminho. Pergunto como viver o infinito …

Resposta ao desafio " Brinca comigo" 1ª parte

Brinca comigo
Estas a ouvir
Brinca comigo
Estou aqui para ti
Como o João ratão esta para a carochinha
Como a branca de neve para os sete anões
Brinca comigo
Ninguém liga ao que eu digo...

O pequeno almoço- gritou o tio,mal a viu aparecer- E não fiques a espera que as ervas cresçam!
O tio era careca e não tinha dentes, tinha uns braços enormes e os músculos que quando se mexia pareciam serpentes.
Come rapariga!!
Sim tio
Ovos e presunto,café ,pão e doce de ameixa.
Despacha te com essa comida, rapariga - ainda agora saíste do quarto e voltas para la!

O meu tio é um monstro só se ri quando esta satisfeito consigo mesmo.
Sai da mesa,sai rapariga, vai la para fora anda vai brincar...
Tenho tanto medo...vivo apavorada quando ele entra no meu quarto.
Vamos brincar...

( continua )

Brinca comigo

Parte IA primeira mensagem chegou com as águas de Outubro, num daqueles dias em que céu pesa sobre a terra. Sentimos que algo vai romper, vai transvasar, que há um grito iminente. Mas esperamos em vão e o rastilho é interminável.Nesse dia toda a minha vida foi reescrita por apenas duas palavras grafadas com letras indeléveis, a tinta arrastada em linhas longas sobre uma folha de papel biblia, numa diáfana teia de aranha. “Brinca comigo”.Durante toda a tarde olhei à minha volta à procura de alguém que buscasse uma resposta. À noite uma tempestade assolou violentamente os meus sonhos arrancando-me a alma do chão, mas a manhã seguinte surgiu límpida e clara.Quando abri a janela reparei que o caminho para a minha porta estava transformado num tapete de folhas de árvore. Enquanto rolava feliz, cheia de lama nas pernas e nos cabelos, senti que algo se ria, deitava-se ao meu lado, tocava-me nas mãos e fitava-me sem pudor. Senti-me invadida mas não fugi.O Outono foi um tempo de es…

Resposta ao desafio " Brinca comigo" 2ª parte

Depois da experiência do homem luminoso e do filme, que na verdade era uma sugestão para viver numa eterna juventude e responsabilidade com a nossa felicidade, numa eterna reflexão sobre como se manter verdadeiro o tempo todo. Depois desse filme, depois do encontro com esse homem, João caminhou a pé até a sua casa. Lembra se de ter chegado e observado o seu cachorrinho de estimação que se chamava Toti. Ao olhar nos seus olhos, teve a estranha sensação de que nunca tinha olhado de facto para ele. Teve a certeza de jamais ter percebido aquele ser e que o brilho naqueles olhos era o mesmo que ele tinha acabado de perceber em tudo à sua volta. A diferença entre o brilho dos olhos do animal e o dos homens na rua, com quem trocara olhares, é que o Toti era presente. Sempre se colocava numa condição de afecto, de companheirismo.

Naquele dia, antes do filme, pegou o cachorrinho e colocou o no colo. Cortou lhe o pêlo da forma mais intuitiva possível... e realmente ele ficou horrível. Mas estav…

Resposta ao desafio " Brinca comigo" 1ª parte

Sempre fui uma criança solitária, o meu único companheiro de brincadeira um cachorro peludo!!

Quando eu tinha 22 para 23 anos fui ver um filme,que contava a história de um monge. Durante o filme, a personagem, olha literalmente pra audiência e fala assim: se a vida em que vocês vivem é cheia de desamor, onde cada pessoa junto à vida do outro é praticamente um fantasma e ninguém percebe ninguém, nesse universo absoluto de descaso de um para com o outro, pra mim essa vida não interessa.
O que interessa é tentar voltar a ver o mundo como os animais o vêem, como os seres sem posses o vêm.

Naquele momento, a sensação de um pré-adulto em relação àquela reflexão foi algo que produziu uma profunda angústia e um intenso sentimento de que a vida e todas as pessoas que estão vivendo à nossa volta são um sonho. Um sonho... não vou dizer que se trate de um pesadelo, porque as pessoas ainda têm momentos de felicidade, mas é um sonho sem significado, sem sentido.

João, voltou duas vezes seguidas ao cine…

Resposta ao Desafio 'Brinca Comigo' parte I (D.Ü)

Parte I


No final as memórias chegavam difusas, esparsas como a espuma que persiste sobre o areal quando a onda de maré volve ao oceano. E ao mesmo tempo tão delicada quanto as penas juvenis perdidas pelo exultante mocho-real ao abandonar de vez o ninho para voar por seus próprios meios, para longe, longe da infância partida, escuridão adentro. Uma a uma, pedaço a pedaço, eu reconstruo a minha passagem pela vida e revisito a ansiedade de a devorar inteira, de um só trago, como se de água para matar a sede infinita se tratasse.


Menino, garoto, rapaz. Foram estes os meus nomes até fazer 6 anos. Até ao dia em que me levaram à escola pela primeira vez, de cara lavada, calções roçados e descalço, saltitando entre as poças das primeiras chuvas de outono… Tinha no bolso um caniço para molhar no tinteiro e desenhar as primeiras letras do meu nome. C. Descobri nesse dia que o meu nome começava por ‘C’. Lembrava-me os últimos dias antes da lua nova, quando no céu havia ainda uma réstia de luz q…