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A mostrar mensagens de Junho, 2010

A Rapariga que não sangrava... (Parte I de IV)

Nesta praça, onde tudo começou, irei contar-vos a história de Lucia.

Cena 1. Inverno


O céu abate-se sobre a cidade e desfaz-se em pungentes gotas gélidas que trespassam o incauto e devoram o fumo esparso que se esgueira por entre os cones aprumados das chaminés das casas de madeira e alvenaria. Gigantes e prenhes de negritude, as plúmbeas naves de gelo fustigam a metrópole adormecida por um inverno sem fim.

Está entregue a si própria, a derradeira espectadora deste teatro grisalho e soturno. Nós, estamos perante os tempos que nos atam as pontas soltas do pensamento, como é apanágio do comum mortal, que se intriga perante a morte mas que, torpe, desperdiça a dádiva da vida. Corremos para dentro do covil ao menor estrépito, de olhos cerrados aguardamos que o terror passe, acocorados a um canto sombrio, titubeantes e apavorados, perto da flama que afasta as bestas, entoando as palavras solenes dos rituais antigos que visavam apaziguar os eternos guardiões do mundo superior. Somos os res…

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(ou como ocupar o intervalo antes do deadline do Desafio ‘A Rapariga que não sangrava’)



Nós
Sempre sonhámos
Com alguém maravilhoso
A redentora dos hereges
Assim como tu, gentil, delicada
Uma flor nascida da lama escura
Que nos afoga sem dó ou piedade
Mas agora chegaste para nos salvar
És a virgem da Luz
Então à lama volverás
Em supremo sacrifício
Por nós
Afogada

A saudade

Esta é a história do vaso sanguíneo que sofre por já não recordar o que é ter o amor do líquido quente. Sofre desde o dia em que este lhe foi totalmente raspado com uma espátula de metal. Esse dia ficou conhecido por “coagulação final” e foi-lhe dado como justificação “teve de ser, estavas entupido de amor”.
O amor… o vaso não acredita que o amor tenha coagulado o líquido. Ele corria, ele não estava estagnado, ele estava vivo, tinha cor, tinha cheiro, tinha tacto, tinha tudo aquilo a que um líquido tem direito: espaço, porque as paredes eram elásticas; protecção, porque um dos maiores medos dos líquidos é transbordar; caminho certo, porque o vaso fazia questão de se posicionar para os melhores destinos (o seu preferido era o coração, era mágico ver o líquido a atravessar o coração) e sorrisos, porque o que faz os líquidos correrem são aqueles sorrisos tímidos, que aparecem e desaparecem num segundo, mas ficam eternamente guardados nos olhos de quem os presenciou.

Hoje, de cada vez que c…

Pimentas Sonoras

De repente, os dias parecem mais cheios de sons, e os sons parecem menos melodia e mais algazarra.

Estranhamente, também se sentia mais e mais.surda! "Pode repetir, por favor?", "Hã?", "Quê?" um pouco depois, sussurrava para si mesma, os ouvidos cansam.

Ou talvez precisem de novos sabores, experiências exóticas, pimentas sonoras.

Um silêncio absoluto,interrompido apenas pela fala da água, dos pássaros, do vento. a música do universo quando os humanos se recolhem.

Mas não existe o tal silêncio absoluto, ela sabe, mesmo assim - de que outra maneira falar das grandes aventuras, sonoras... o som dança no ar e só no vácuo seria possível experimentar a quietude mais completa.

Ela gostava de construir simulacros imperfeitos desse silêncio e dizia que a música e a gargalhada são as únicas coisas que não precisam de significar nada!


Andava obcecada com o silêncio. De repente, os dias parecem mais cheios de sons, e os sons parecem menos melodia e mais algazarra.


Pensand…

As escolhas

Interessante como aquele contacto com a têmpora é tão confortante. Quase que lhe deu vontade de se encostar mais à pistola como se ela pudesse tornar aquele momento menos doloroso ao mesmo tempo que acaba com ele.
A mão direita segura a pistola, firme, sem tremer. Está mais do que decidido e é só uma questão de alguns segundos. Em cima da mesa redonda da sala está a carta que explica a incompreensível decisão à família ausente. Ausente mas mesmo assim merecedora de saber o porquê, nem que seja para não ir inventar justificações aos estranhos quando estes lhes perguntarem “porque fez ela aquilo?”.
Ela tem tudo para ser feliz, tudo. Mas… apetece-lhe apressar as coisas e esta é a altura certa. Decidiu-se pelo tiro porque lhe parece o método mais rápido e por isso mais suave. Decidiu-se por hoje porque hoje é um dia melhor do que ontem e melhor do que amanhã e, como é véspera de fim-de-semana sempre facilita a vida aos familiares se o funeral for antes de segunda-feira, pelo menos assim não…

Buraco

Ando pela estrada.
Há um buraco fundo.
Eu caio...
Estou perdida... Sem esperança.
Não é culpa minha.
Levo uma eternidade para encontrar como sair.

Ando pela mesma estrada.
O buraco fundo esta la.
Finjo que não o vejo.
Caio nele.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.


Ando pela mesma estrada.
O buraco fundo.
Vejo que ele esta la.
Ainda assim caio... É um hábito.
Os meus olhos abrem se.
Sei onde estou.
É minha culpa.


Ando pela mesma estrada.
Ai o buraco fundo.
Dou a volta.
Vou outra estrada.

Será que aprendi? a estrada que escolher leva me aonde eu quero ir.
Mas agora com a certeza que me permite mudar sempre a meio do caminho!

Desafio de Escrita

Caríssimos,

Como há muito tempo não temos um desafio criativo por aqui, apresento-vos um novo, que partiu de um título proposto pelo Nuno Oliveira: "A rapariga que não sangrava".
Inspirem-se no tema/título e publiquem aqui os vossos textos, em formato livre, até à meia-noite de dia 3 de Julho (NOVIDADE), sábado. Participem!

Obrigada... e que a musa vos inspire. :)

:)

Mar.
Sol.
Céu.
Vela.
Água.
Sal.
Espuma.
Pele.
Sabor.
Riso.
.
Cheira a verão.

Para te dizer...

Queria muito poder, através da palavra escrita, transmitir bem mais do que na realidade consigo. Gostaria de tocar directo no teu coração,tu que lés este texto para que sentisses a vibração que me envolve num estado de serenidade, de calma e agradecimento, neste dia ensolarado. Momentos especiais assim não são rotineiros, mas a plenitude e a paz, de repente, torna-se claro e faz sentido...


Dá vontade de chegar devagar e tocar com a ponta do dedo, pedir licença e começar a comunicar ao pé do ouvido, olhos nos olhos, com amor verdadeiro sobre a beleza da vida, as descobertas feitas, as experiências libertadoras que nos permitem receber aqueles fugazes, mas definitivos insights, os quais chegam e nos transformam para sempre.
Queria contar como isso pode ser fácil e directo, visto que não precisamos procurar lá fora...
Queria dizer o quanto é compensadora esta viagem interior que pode começar simplesmente mergulhando no silêncio, ou começando a observar em volta com os olhos procurando na…

Nossa Senhora

Inamorada, entre escombros
Passeia Libera, a sonhadora
A mão invisível sobre seus ombros
Visões de espanto e assombros
Sussurra mansa, sedutora

Entre a brisa, passageira
Inebria os homens incautos
Arrepios, medo, sobressaltos
Cada um a sente à sua maneira
Somente uma vez, a primeira e derradeira

Incantata, tem a marca do fogo
Da paixão pela carne, eterna
Cegos de luxúria, entregues ao jogo
Cegos pela luz, na escuridão da caverna
Reféns do ar que tudo envenena

Passionata, o domínio
Das artes negras, do fascínio
De tudo o que se move, das trevas
Do que se esconde, entre névoas
De toda sanidade, extermínio

É o que nos move, a devoção
São os laços doces que nos prendem
São vãs promessas que a tudo cedem
Entregues a Ela, com total submissão
À Morte, absoluta Senhora da compaixão

Dou alvíssaras a quem encontrar a minha loucura perdida

"Desculpem.... Podia pedir um minuto da vossa atenção?Eu sei que não me conhecem bem. Sou apenas aquela criatura alienada que vos olha fixamente quando saem de casa de manhã e seguem apressados a caminho da vossa vida normal, muito aprumados e bem cheirosos, a gritar aos miúdos para se despacharem, a rosnar ao semáforo que não abre...Já percebi que vocês não gostam do meu olhar. Desviam o rosto porque já sabem que eu não pestanejo. Custa muito não permitir que as pálpebras se fechem. É uma teimosia que aperfeiçoei com força de vontade e à custa de muitas lágrimas mas agora domino-a na perfeição. Não cerro os olhos nem mesmo para dormir... o que é bom. Assim os sonhos não me surpreendem. Vejo-os chegar, cumprimento-os educadamente e se não gosto deles mando-os embora com elegância. Se são bons, convido-os para dormir comigo. Nunca tenho pesadelos, excepto quando dizem que estão sozinhos e não têm mais ninguém com quem partilhar a noite. Aí cedo e aceito-os na condição de saírem …

Porto de abrigo

Tentei tudo o que sei.
Naveguei todos os mares e nada encontrei.
Navego agora para os meus abismos, para o fundo da terra.
Sem histórias e sem mitos.
Navego para o fundo de mim mesma.
Navego, mas de vez em quando aparecem-me gaivotas nos olhos.
Aceito a serenidade que elas me dão.

E é quando me perco que o olhar se transfigura.
Em imaginação, em delírio, em fracasso, em desejo e em exaltação.
Quanto de azul, quanto de mar, quanto eu quereria ser o que nunca fui.
Quero gaivotas nos meus olhos.
Olho os grandes tons de azul que dominam o universo da memória.
Fragmentos de rostos que não conheço e ali ficam, impávidos, invencíveis, eternos.
Terrivelmente eternos.

Pergunto-me apenas porquê. E vejo-os. Porquê? Rostos
Vestígios de terras interditas.
E espanto-me.
Espanto-me de não os ter exorcizado.
Não quero descobrir novas terras, novos rostos.
Preciso de sair daqui. De ser rebelde.
De saber de mundos para olhar.
Olhar o mundo.

Para onde devo navegar? Como navegar neste fim de mundo?
Como escapar deste pouco …

Agora Chocolate

A gotinha de areia que trago no meu bolso foi-me oferecida por aquele que não recordo o nome, mas sei que desde então, sempre que me sinto sozinha, aperto-a com a minha mão e tudo parece tomar contornos mais suaves. Não menos importante é a pétala de vapor que guardo atrás da orelha e que me foi oferecida por aquele cujo nome ainda cá mora, mas que já não produz qualquer som quando dito. Sempre que me sinto triste coloco-a dentro do meu ouvido e ela canta-me notas harmoniosas.Todas as noites, antes de me deitar, guardo a gotinha de areia enrolada na pétala de vapor para que nenhum grão se perca. Todas as manhãs, antes de me levantar, deixo a pétala de vapor respirar fundo e passear-se pelo quarto enquanto a gotinha preguiçosa ainda dorme na palma da minha mão. Das duas, acho que a mais infeliz é a pétala porque não sabe a que flor pertence… só sabe que é pétala. A gotinha não sabe o seu local de origem, mas está sempre tão atarefada em não perder nenhum grão que não pensa muito no ass…

Ouvir

Hoje, Senhor,fico diante de ti para confessar que estou na descoberta de caminhos novos.


Diante de criaturas que falam de suas dores consigo ouvi las com a alma.


Antes, só havia um burburinho e eu tinha uma infinidade de verdades, de ansiedades que se acotovelavam no meu peito, impedindo-me de sentir o outro.


Hoje eu consigo calar me integralmente e, então, as palavras dos outros penetram nos meus ouvidos e deslizam pelo meu corpo e alma e encontram guarida no meu coração e um porto seguro nos meus pensamentos .


Sabe, Senhor, às vezes eu nem preciso responder ou finalizar caminhos. Elas, as outras pessoas, por si só vão encontrando soluções.


É maravilhoso, Senhor, observar essas outras pessoas andando calmamente, após terem realizado as suas confissões.
Assemelham-se a pássaros que encontram os seus ninhos e as mães que as acalentam no peito.


Uma outra descoberta fiz, Senhor. Posso ver as pessoas em situações de uma maneira diferente. É delicioso ver o outro lado, ver o que elas sentem e p…

Lógica

[Duas notas prévias: isto passou-se quando a minha filha tinha 11 anos. Hoje dificilmente aconteceria, o que é absolutamente normal; a música escolhida era a sua canção favorita da altura. Adorava o na-la-la-la la-la-la do princípio...]

– Pai, ontem sonhei que tu eras de chocolate.
– Ahn????
– Pois… é isso.
Esperei mas ela não adiantou mais nada. Apercebi-me que aquele era o tipo de silêncio de quem se sente comprometido.
– E então, o que aconteceu depois? – perguntei.
Mais uns momentos de silêncio,
– Bem, a certa altura tu ias a fugir.
– De quem?!
– De mim e do Pantufa.
– O quê? Que me queriam vocês fazer?
Estávamos ao telefone mas quase consegui vê-la corar.
– Comer-te.
Inventei uma resmunguice e, sempre brincando, refilei com ela dizendo coisas do género: – Que filha a que eu tenho que me transforma em chocolate e depois me quer comer!
Ela interrompeu-me.
– Mas, ó pai, tu não entendes? Tu sabes muito bem que não resisto a chocolate. Por outro lado, eu gosto muito de ti e como também…

O Tormento de Deus (Parte III e final)

Nas sombras ergue-se discreto um olhar de um vulto. Absorto pela dor que contempla, fixa os seus olhos no cordeiro, enquanto este é arrastado pelos verdugos, segue a procissão do seu calvário com ansiedade. Está entre sombras, o espectador, estático e mudo de pesar. O medo verga-o até ao chão, para lá da linha do horizonte perdido, onde a fé dos homens se desvanece entre o frenesim das hienas e abutres. Fede a morte. Tornou-se morte. Morte de toda a fé dos homens, perdido num horizonte longínquo, a vogar desolado, entre risos de escárnio e vigílias dos oportunistas. Está perdido, o vulto, dentro das sombras que infestam a sua mónada, agrilhoam seu corpo à pesada pedra, que se afunda, afunda no negro abismo, afunda no rio que a todos nos aguarda. E o mundo, envolto em gritos dos condenados, arde em violentas chamas. Tudo isto ele agora pode ver e sentir, dentro de si, para além do seu olhar, perdido no horizonte indefinido.

Passa o cordeiro, espalha o sangue entre as pedras do caminho…

O Tormento de Deus (Parte II)

Estaremos a viver os dias do fim?



Em cada rosto o desespero, a soberba, um esgar de crueldade
Em cada olhar o medo, a angústia, o gasto dos anos de labor
Nas mãos de quem nos guia a aspereza da pura iniquidade
Só no coração das mães de todos resta um pouco de amor

Algures no caminho, perdemos a direcção
Pai nosso onde estais, que é feito de vosso reino
Pai nosso, porque dormis e abandonas a criação
Perdidos no vale da Morte entoamos o nosso hino

Selo após selo, abafada mais uma prece
Sinal após sinal, renegamos o paraíso
O cálice está perdido num mundo que anoitece
Entra gritos e penumbra, apaga-se o aviso

É este o nosso destino, a cegueira
Tudo o que desejámos, sobreviver
Da morte que se oculta por trás da bandeira
De nações insanas, ébrias de poder

Mãe, porque choras, de saudade, de dor?
Mãe, rogai por nós que estamos tão sós
Mãe, alumia a nossa noite, Mãe, por favor
Mãe, não nos abandones, fica perto de nós
Mãe, protege-nos da chegada da nossa hora
Mãe, salva-nos deste horror
Mãe, …

O tormento de Deus (Parte I)

- Irmão, porque me olhas desse modo? Sabeis que jamais seria meu desejo, mas a Sua palavra prevalece!

- Tudo faria por vós, meu amado irmão, mas por favor, reconsiderai, vê-de para além da esfera negra que nos envolve, a penumbra será passageira, a brisa do rio vai alimentar nossas preces, clamai pelos anjos, virão em teu auxílio!

- Os tempos mudam, mas o Homem é o mesmo, o Leão faminto que nos devora por dentro, corrompe em absoluto. O meu sangue ferve de inquietude e nem em todo o meu esplendor poderei alguma vez abraçar tanta dor. Irmão, estendo-vos a mão, perante vós me ajoelho, ajudai-me neste meu momento de necessidade.

- Tudo faria por vós, tudo farei por vós. Mesmo que se abata sobre mim a ira do Senhor.

- Atenção agora, Deus está a chegar...

(continua)