A Rapariga que não sangrava... (Parte I de IV)

Nesta praça, onde tudo começou, irei contar-vos a história de Lucia.

Cena 1. Inverno


O céu abate-se sobre a cidade e desfaz-se em pungentes gotas gélidas que trespassam o incauto e devoram o fumo esparso que se esgueira por entre os cones aprumados das chaminés das casas de madeira e alvenaria. Gigantes e prenhes de negritude, as plúmbeas naves de gelo fustigam a metrópole adormecida por um inverno sem fim.

Está entregue a si própria, a derradeira espectadora deste teatro grisalho e soturno. Nós, estamos perante os tempos que nos atam as pontas soltas do pensamento, como é apanágio do comum mortal, que se intriga perante a morte mas que, torpe, desperdiça a dádiva da vida. Corremos para dentro do covil ao menor estrépito, de olhos cerrados aguardamos que o terror passe, acocorados a um canto sombrio, titubeantes e apavorados, perto da flama que afasta as bestas, entoando as palavras solenes dos rituais antigos que visavam apaziguar os eternos guardiões do mundo superior. Somos os restos que tombaram da mesa do grande devorador, ínfimos e mesquinhos, patéticas sombras entre sombras, tendemos a desaparecer, por entre a chuva e o afã do quotidiano, reféns de toda a religião que nos atordoa o pensamento livre, em eterna penitência por falhas que não sabemos como controlar, prisioneiros amarrados ao temor do invisível e impiedoso, implorando perdão por simplesmente existir e desejar, assustados e manipulados, neste Inferno sem fim.

O céu envolve-nos e acarinha a néscia dependência que todos temos do Protector, lavador de pecados, do pastor que embala seu rebanho em suave estultícia e, irrelutante, as conduz ao algoz. Gigantes perante os insectos que nos infestam as vestes, agitamo-nos em desdém pelos seres menores que se apressam a sair debaixo dos nossos pés, correndo lestos para os seus covis onde, em pânico, irão aguardar até que venha Morfeu e nos embale entre anjos que tangem lamentos em melopeia, rumo ao universo oculto da noite. Ai, em solene procissão, alinharemos nossos corpos em sinal de fé, para sobreviver a mais um dia que se avizinha. Nesse momento em que nos ausentamos da segurança da claridade, voltam os insectos e despertam Incubi e Succubi, para nosso tormento e luxúria. Envoltos na espiral de desejos e medo, tendemos a desaparecer, por entre as trevas e a apatia da narcolépsia, neste Inverno, por fim.

Ela mantem-se atenta, em serena vigília. Contudo, é impotente perante tamanha violência deste mundo e chora, à medida que o céu se abate sobre a cidade e sente a esperança a gelar e a desfazer-se em esparsas manchas de fumo sem forma. Entregue a si própria, adormece e afasta-se do afã dos insectos que empestam a cidade e aguarda pelos primeiros sinais da Primavera.

Parte II: http://aitd-text.blogspot.com/2010/07/rapariga-que-nao-sangrava-parte-ii-de.html

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