A saudade



Esta é a história do vaso sanguíneo que sofre por já não recordar o que é ter o amor do líquido quente. Sofre desde o dia em que este lhe foi totalmente raspado com uma espátula de metal. Esse dia ficou conhecido por “coagulação final” e foi-lhe dado como justificação “teve de ser, estavas entupido de amor”.
O amor… o vaso não acredita que o amor tenha coagulado o líquido. Ele corria, ele não estava estagnado, ele estava vivo, tinha cor, tinha cheiro, tinha tacto, tinha tudo aquilo a que um líquido tem direito: espaço, porque as paredes eram elásticas; protecção, porque um dos maiores medos dos líquidos é transbordar; caminho certo, porque o vaso fazia questão de se posicionar para os melhores destinos (o seu preferido era o coração, era mágico ver o líquido a atravessar o coração) e sorrisos, porque o que faz os líquidos correrem são aqueles sorrisos tímidos, que aparecem e desaparecem num segundo, mas ficam eternamente guardados nos olhos de quem os presenciou.

Hoje, de cada vez que chove, o vaso abre-se e armazena gotas de água dentro dele. São frias, são transparentes, mas mesmo assim, conseguem matar algumas saudades. Fazem-no recordar a sensação de sentir algo líquido a massajar-lhe as paredes. Depois, a água evapora e a sede volta. “Tenho saudades tuas, sou um vaso de estômago vazio”.

Hoje, o líquido quente, mora dentro daquelas palhinhas coloridas, são frias e sem vida, mas mesmo assim, conseguem simular o aconchego de um lar. O líquido ainda tem as marcas do ferro que o trespassou e despedaçou. Conta-se por entre artérias e veias que ele morreu de desgosto e dissipou-se. “Tenho saudades tuas, sou um líquido com um pulmão em vácuo”.

És um líquido? Não… Hoje és um coágulo.

Apresento-vos a rapariga coágulo, sonha voltar ao estado líquido. Sonha voltar a percorrer o interior do vaso. Sonha com o dia em que o amor a vai fazer sangrar até à morte.

Comentários

  1. é esta tua imaginação desconcertante que a todos nos deixa boquiabertos

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