Pressão...

Pressão...

Parte I


O som da fechadura a desarmar desperta-me para a realidade. Finalmente cheguei a casa. O piloto automático que todos os dias me reencaminha do trabalho apaga-se, dando lugar ao modo “senta-bebe-esquece”, o meu estado favorito.

De acordo com o BI tenho 51 anos, mas a dor de cabeça que me estala os ossos do crânio insiste em informar que me devo andar a arrastar à séculos pelo peso que sinto sobre mim.
Lembro-me vagamente do que era estar vivo. Lembro-me vagamente do que foi ser feliz e empreendedor. Lembro-me, muito vagamente de me olhar ao espelho e gostar do que via...

Na cozinha, uma tigela vazia no chão lembra-me da companhia da Elisa. Durante 11 anos da minha incipiente vida fui abençoado com a gata mais carinhosa do mundo. Não era aquele tipo de bichano que vive enrolado nos pés do companheiro humano (só fala na palavra ‘dono’ quem nunca teve um gato...) ou que se desfizesse em mimos por tudo e por nada. A Elisa ‘lia-me’ com uma transparência e detalhe que jamais alguma mulher logrou alcançar. Ela sabia confortar-me sem exigir quase nada em troca, sem insistir que eu tinha de mudar, de crescer , de maturar, de ser mais empenhado, menos agressivo, mais homem, menos criança, mais isto, menos aquilo... E era com todo o prazer que eu lhe retribuía o gesto, afagando-a gentilmente no espaço entre as orelhas e o cachaço, deixando-a aninhar-se junto a mim, enquanto víamos televisão pela madrugada.

Frequentemente, a Elisa dava o seu passeio pela rua, saltando da janela da cozinha para o quintal, e daí para o mundo. Ia explorar, descobrir, socializar, andar por ai. Tinha a sua agenda, os seus encontros, a sua vida. Ia e voltava para mim, para o seu companheiro humano. Ia e voltava sempre. Há três meses atrás deixou de voltar. A roda de um carro desenfreado dum daqueles putos asquerosos do tunning, com o seu bonézinho patético e as argolas à pirata nas duas orelhas que separavam o espaço morto e atascado de diarreia onde deveria haver um cérebro e uma alma fez com que a Elisa não voltasse para mim.
Agora, quem me iria acompanhar de madrugada? Sobrava a televisão.

Desde que ela morreu que não durmo, apenas pairo no limbo etílico da minha inconsequente ausência. Arrasto as pálpebras vagarosamente, uma de encontro a outra, mas pelo meio sempre sobra um rasgão de íris e retina que insiste em sobrar para me fustigar com os ásperos fotões do mundo que ruge e brama pela minha alma.

E o que me oferece a televisão? Morte, espectáculo, negligência, sexo fácil e intimidade falsa, porcos e cabras a viver numa quinta, mas que quase parecem pessoas, notícias falseadas, aclamadas, comentadas, esmiuçadas, detalhadas, deturpadas...
Não aguento mais. Pego na caçadeira, calmamente. Carrego os canos...

No andar de baixo instala-se a confusão. Após um sonoro estrondo a bebé da vizinha começou a berrar em pânico e a velhota do 2ª esquerdo corre a ligar para a polícia...


Parte II


Era Primavera. O Sol brilhava quente numa daquelas tardes divinais de Março. É assim que a velhota se lembra do dia em que aquele casal chegou ao prédio... Já passou tanto tempo...20 anos?!?

Lembrava-se como se fosse ontem. “Chegou o casal de engenheiros”, dizia ela. Eram os meninos dos olhos dela, “gente bonita” num prédio enfadonho, fruto da explosão de ganância e mau gosto que espalhou betão pela cidade.

A velhota que sempre morou ali (talvez desde o início dos tempos...), descrevia o casal com acuidade:
“Ela era muito vistosa, uma mulher mexida e desinibida. Por onde passava levantava poeira, parecia que tinha o Diabo no corpo, mas era muito boa rapariga, benza-a Deus... Já ele... parecia que nunca estava cá! Era ‘bom dia - boa noite’ e pouco mais, sempre carrancudo e sisudo, parecia que toda a gente lhe devia e ninguém lhe pagava. Aquilo foi uma questão de tempo, sabe... feitios muito diferentes. Ela, uma moça de genica, ele um homem demasiado recatado, e... aqui entre nós... não devia dar ‘conta do recado’. Não tardou 3 anos que ela o deixou, trocou-o por outro mais à laia dela. Olhe, fez bem a pobre rapariga, por muito que ele fosse bem parecido, não lhe dava a atenção que uma moça daquelas precisa...”


Elsa, é o nome da bebé da vizinha do lado. Uma menina linda, faz hoje 5 mesitos. A Elsa vive num mundo muito limitado, entre o berço, o parque e os braços da mãe. Tem problemas de saúde algo graves, parece que nasceu com uma deficiência cardíaca congénita, além de ser extremamente alérgica.
Uma vez por outra, era ela um bebé de semanas, deparava-se com a Elisa sentada no parapeito da janela a olhar para ela. Era apenas uma questão de minutos ou segundos até a mãe vir a correr a gritar “raio da gata, a andar daqui p’ra fora, que ainda me faz mal à menina”. A mãe da Elsa detestava gatos, ainda mais os siameses. “Dizem que até se viram aos donos e lhes podem cegar d’uma vista”, dizia ela. Isso para uma siamesa de gema, caprichosa e elegante como a Elisa era apenas um desvario de gente pouco interessante.


Toda a gente assoma à janela assim que escuta o lamento das sirenes dos bombeiros e da polícia. Alguns esfregam as mãos de contentamento pelo espectáculo gratuito, outros elaboram fantásticas teorias sobre o acontecido mesmo antes de saber a quem aconteceu o quê. A velhota grita para que sejam mais lestos, pois “certamente foi uma desgraça, ai minha nossa senhora, ai que foi aqui uma grande desgraça...!”


Arrombam a porta.
Espreitam para dentro da sala de onde ventilava fumo. Deparam-se com uma televisão espatifada, um post-it amarelo sobre a mesa e um trilho de roupas que segue até à janela. Da TV pouco resta. No post-it lê-se “A Fine Day To Exit”.

Na janela vê-se um casal de gatos a roçarem-se um no outro, uma siamesa e um gato preto meio escanzelado que parece aliviado...

Comentários

  1. "Arrasto as pálpebras vagarosamente" só para não deixar de ler... as coisas que vêm dessa cave, ilimitadas e sempre de grande contéudo :)

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  2. esperei e nem dei pelo chá arrefecer...sem pressão nenhuma...essa cave...histórias fantásticas sai de lá!!:))

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