segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Dez parágrafos de Agosto



Sopro a areia entre os dedos da mão, assim como quem faz bolas de sabão. Não me lembro se estive a fazer castelos de areia ou a contar o tempo com a mão-ampulheta, só sei que adormecer é tão difícil como encher um buraco na areia com água. 
As madrugadas são passadas a enrolar a maresia em forma de rifas de quermesse. "Esta tem prémio" e dá vontade de esticar o braço para chegar ao prémio que é quase sempre umas pegas de cozinha  bordadas (pelo menos falo por mim). Mas pegar no quer que seja faz-me aquela tontura que se tem à beira-mar quando as ondas recuam e deixam os pés com cócegas. 
Decido ficar sentado nas dunas tisnadas pela noite e fazer de conta que o sol vai nascer no pôr.  

Reparei: os olhos ardem como se fossem chorar um ácido temperado com pimenta, as maçãs do rosto estão pálidas como se tivessem almoçado arroz em pó e os joelhos doem como se as rótulas estivessem enferrujadas pela humidade humilde do tempo que faz.

Não está mais ninguém na praia. E não estou chateado com isso. Se queria companhia? Sim, queria, mas não estou chateado com isso. O único medo que tenho está relacionado com o som do mar às escuras, sempre foi assim, provoca-me medo a imensidão do som de algo que considero infinito sem o conseguir ver. 
Vou enterrar os pés para ter a certeza que não me vou embora. Faço compressão com a palma das mãos na areia que está em cima dos pés e gosto do som que esse gesto faz. Oco, fundo mas ao mesmo tempo cheio e superficial com aroma àquelas loções que nascem nos coqueiros. 
E está frio. O calor já não tem capacidade e paciência para aturar jogos de xadrez com a lua. Rainha e Rei, suas altezas, nem entram em campo, seja nos pretos ou brancos. E eu, como sou peão, pouca mão tenho para aumentar a temperatura. 
A temperatura e todos os outros sinais vitais malabaristas.
Ou trapezistas.

Suspiro... um suspiro era o que me apetecia agora... daqueles que se comem à luz do dia.


4 comentários:

  1. Difícil comentar esta tua (sempre) fascinante escrita.
    Incapaz, releio ao som do silêncio, as tuas palavras que são mais do que letras em frases. Pura sonoridade do silêncio em música.
    E assim me deslumbro e brilho e espero por mais. Please
    :-)

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  2. Para mim, a leitura desta prosa trouxe-me o prometido calor do mês de Agosto, pela magia dos recursos estilísticos empregues combinados com a música escolhida. Simplesmente adorei.

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  3. um suspiro era o que me apetecia agora... daqueles que se desfazem ao nascer, que nascem só para poder morrer... desses

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  4. A tua personagem, como sempre, tem uma forma meio inocente, meio triste e inteiramente mágica de ver e estar no mundo. E tu encontras sempre as palavras a condizer. Redundante dizer o quanto gostei, não é?

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