Dez parágrafos de Agosto



Sopro a areia entre os dedos da mão, assim como quem faz bolas de sabão. Não me lembro se estive a fazer castelos de areia ou a contar o tempo com a mão-ampulheta, só sei que adormecer é tão difícil como encher um buraco na areia com água. 
As madrugadas são passadas a enrolar a maresia em forma de rifas de quermesse. "Esta tem prémio" e dá vontade de esticar o braço para chegar ao prémio que é quase sempre umas pegas de cozinha  bordadas (pelo menos falo por mim). Mas pegar no quer que seja faz-me aquela tontura que se tem à beira-mar quando as ondas recuam e deixam os pés com cócegas. 
Decido ficar sentado nas dunas tisnadas pela noite e fazer de conta que o sol vai nascer no pôr.  

Reparei: os olhos ardem como se fossem chorar um ácido temperado com pimenta, as maçãs do rosto estão pálidas como se tivessem almoçado arroz em pó e os joelhos doem como se as rótulas estivessem enferrujadas pela humidade humilde do tempo que faz.

Não está mais ninguém na praia. E não estou chateado com isso. Se queria companhia? Sim, queria, mas não estou chateado com isso. O único medo que tenho está relacionado com o som do mar às escuras, sempre foi assim, provoca-me medo a imensidão do som de algo que considero infinito sem o conseguir ver. 
Vou enterrar os pés para ter a certeza que não me vou embora. Faço compressão com a palma das mãos na areia que está em cima dos pés e gosto do som que esse gesto faz. Oco, fundo mas ao mesmo tempo cheio e superficial com aroma àquelas loções que nascem nos coqueiros. 
E está frio. O calor já não tem capacidade e paciência para aturar jogos de xadrez com a lua. Rainha e Rei, suas altezas, nem entram em campo, seja nos pretos ou brancos. E eu, como sou peão, pouca mão tenho para aumentar a temperatura. 
A temperatura e todos os outros sinais vitais malabaristas.
Ou trapezistas.

Suspiro... um suspiro era o que me apetecia agora... daqueles que se comem à luz do dia.


Comentários

  1. Difícil comentar esta tua (sempre) fascinante escrita.
    Incapaz, releio ao som do silêncio, as tuas palavras que são mais do que letras em frases. Pura sonoridade do silêncio em música.
    E assim me deslumbro e brilho e espero por mais. Please
    :-)

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  2. Para mim, a leitura desta prosa trouxe-me o prometido calor do mês de Agosto, pela magia dos recursos estilísticos empregues combinados com a música escolhida. Simplesmente adorei.

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  3. um suspiro era o que me apetecia agora... daqueles que se desfazem ao nascer, que nascem só para poder morrer... desses

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  4. A tua personagem, como sempre, tem uma forma meio inocente, meio triste e inteiramente mágica de ver e estar no mundo. E tu encontras sempre as palavras a condizer. Redundante dizer o quanto gostei, não é?

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