Deito-me no chão a olhar pela janela e no tempo eu me perco. O céu está cinzento. E essa cor é tudo o que eu vejo... Se os sentimentos fossem cores eu seria cinzento. Perderia-me na neblina matinal de Inverno dentro de mim própria. E nela sou apenas um vulto que lá passeia permanentemente. Nisto, já eu me perdi inúmeras vezes. Acho que na verdade, cada vez que consigo sair, iludo-me. E mais uma vez estou aqui. Perdida. Confusa... E sinto fervilhar o sangue, sinto a frequência cardíaca acelerada, as minhas mãos tremem. Algo me tornou vulnerável. Já não consigo dormir de noite. Esta imensidade de emoções corroí-me por dentro. E contar só comigo para lidar com o que sinto exige demais de mim, mais do que posso. E isto, isto que sinto e não sei... é interminável. Sinto o desespero dos gritos da minha cabeça. Os tapetes do meu quarto disfarçam as poças secas que eu deixei criar. No entanto, nada faço. Deixo passar. Acolhi-me a esta rotina emocional. Em mim ficou um pedaço de nada, um vazio, um espaço frio. Mantém-se aqui, comigo, intocável. E aos poucos e poucos, espalha-se por mim. Dentro de um poço profundo, sinto-me a cair como se nunca fosse chegar a um fim. Sinto o tempo desvanecer por entre os meus dedos. Não posso agarrar as pequenas boas sensações. Essas voam diante dos meus olhos para longe... e eu permaneço aqui, estática. Numa queda profunda sobre o incerto. E comovida, as lágrimas criam o meu amparo, onde afogo os meus pensamentos. Onde me afogo a mim mesma. E no desconhecido constante embora consciente, eu vivo. E vou deambulando a ouvir o bulício das vozes agudas que me arrepiam. 
Acolho em mim toda a melancolia que cabe num mundo. E devagar, devagarinho, calmamente, adormeci uma parte de mim junto dela que confortavelmente habita-me. E, arduamente, sinto-a manifestar-se no meu ser. 
(...)

Comentários

  1. "E mais uma vez estou aqui. Perdida. Confusa... " Perfeito! Preenches todos os requisitos para o AitD-txt ;)
    Bem-vinda Sofia! Espero que voltes aqui muitas vezes, quero ler mais! (Se não o fizeres sei a quem me queixar...)
    Que venham mais cinzentos iluminados!

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