domingo, 22 de julho de 2012

Através de ti (Parte II de III)

Parte II – Sequência






“Mostra-me, mostra-me o que tens, do que te estas a esconder. Eu conheço-te, sei quem tu és, partilhamos o mesmo coração, o mesmo pensamento, o mesmo sonho. E quando tudo flui, tu vogas comigo, somos mar e navio, mastro e vela, maré e maresia, somos pedaços da mesma fantasia e delírio onírico do mesmo arquétipo adormecido. Mostra-te, vê dentro de ti, não tenho segredos para ti, não há palavras por dizer ou redigir, sou o livro que conta a tua história em parágrafos de existência intermitente e pontuação cuidada. Somos canto e estrofe, nascemos gémeos na garganta do poeta que um dia quis contar a história da luz, aquela pequena luz que nos comove e tem cativos, a luz dos teus olhos, por onde eu contemplo o horizonte perdido das horas em que não me sinto em ti. Não te martirizes, nada há para esconder, eu sei o que tens.”

Seria de esperar que estivesse assustada, apavorada pelo terrível sonho que a despertou a meio da madrugada. Mas Elianor simplesmente abriu os olhos e assim ficou, estática e fria, estendida na sua cama com lençóis de flanela com desenhos. A hora da adivinhação marcava os ponteiros do relógio, encaixado entre bonequinhas de porcelana e livros de contos infantis. Faltava tanto para o nascer do sol mas uma luz brilhava pálida e ondulante, projectando as sombras longas contra a parede do quarto da menina. Elianor tenta dizer algo, mas de sua boca não saiu um único som, sentia que o vento forte que uivava lá fora lhe tinha arrastado a fala e deixado no seu lugar uma outra voz, que ela ouvira claramente dentro de si. A luz perdura, arrasta-se pelas paredes como uma canção que não nos sai da cabeça e congela a menina num instante que parece durar toda a eternidade. Elianor está presa entre o terror e a solenidade do momento e sente-se a esvaziar lentamente. Até que chega a luz da manhã e o pesadelo termina.

Com o passar dos anos, a memória daquela noite foi-se diluindo, mas manteve-se sempre presente, como uma infecção com a qual nos habituamos a lidar. Esporadicamente voltava a sonhar com a voz, que lhe sussurrava. Sei de ti, tanto quanto me sentes a mim. Podiam passar-se muitos dias, semanas, meses até, sem sonhar com a voz, ou acordar a meio da noite com a luz mórbida e fria. Mas Elianor sabia, era apenas uma questão de tempo. Dizia-lhe a voz, não precisas de te esconder, porque onde estiveres, lá me encontrarás a viver entre as linhas da tua história.
Elianor crescia, 7 anos depois era uma adolescente exemplar, excelente aluna, metódica e dedicada, um pouco calada e não muito alegre, aliás, era conhecida pela ‘menina dos olhos tristes’ e não se lhe conheciam grandes amigos. Talvez alguns colegas mais simpáticos lhe dirigissem palavra por piedade, outros para pedirem os cadernos escrupulosamente organizados e detalhados da jovem brilhante que a tantos fazia um tanto ou quanto de inveja.

Tudo normal num mundo de padrões e texturas normalizadas, onde a popularidade de uns é a inspiração de outros e a solidão de poucos a ignorância de tantos. Mas até a mais pequena flor num imenso prado pode ser da preferência de um insecto mais excêntrico ou aventureiro que ouse sair da colmeia dos eleitos e desejados. A cena é simples e fácil de descrever. Elianor sentada, só, num banco de madeira, a roer uma maçã e a rabiscar a carvão o seu caderno. O esquisso parecia um anjo que se elevava por entre rochas e arvoredo. De súbito, ele senta-se a seu lado e pergunta se ela quer um pouco do seu sumo. Estranha, Elianor afasta-se um pouco do rapaz e sorri apenas com metade da boca, enquanto se agarra ao seu mundo abstracto e monocromático. Ele diz-lhe, não tenhas medo de mim, só queria conhecer-te, gosto muito de te ver a escrever e desenhar. Ela olhou para ele e anuiu gentilmente. Também já te tinha visto por ai, sentado a ler. Qual é o livro que tanto admiras?

Caiam as folhas aos castanheiros quando eles se conheceram. No seu aniversário ele deu-lhe um pequeno frasco de perfume, ela ensinou-o a fazer bolachas. O inverno aproximou-os ainda mais e a primavera deu cor ao seu primeiro beijo. Nessa noite, a doce e leve sonhadora enfiou-se na sua cama mais apaixonada que nunca e embalada pelo sonho doce de um amor juvenil que a embalava em versos e melodias.

“Como pudeste fazer-nos isso, Elianor? Quem te disse que sim, que eras livre e que poderias sair do meu coração, viver fora do meu pensamento, quebrar o meu sonho que por ti vive e em ti para sempre viverá? Onde estiveste tu, Elianor, amarada nos braços de quem, embalada nos lábios de quem? Quem julgas que és Elianor? A mim nada podes esconder, porque nada há para esconder a quem vive dentro de ti. Pobre Elianor, pobre de ti, ai de mim. Só me resta fazer algo por ti, algo por nós. Farás o que te peço, não farás minha querida? Sim. É isso mesmo. No fundo, é isso que queres fazer. Os teus beijos pertencem-nos”
Subitamente desperta e muito, muito aflita. Sente os lábios quentes e molhados. Acende a luz e precipita-se para o espelho da casa de banho. Tem marcas de dentes no pescoço e o rosto e arranhões que sangram. Sente uma dor no peito e puxa a gola da camisa de noite e repara que tem enormes nódoas negras sobre os seios. O medo devora-a e tenta gritar, mas a garganta emudece por completo. Sente que o coração vai explodir e desmaia.

Na manhã seguinte finge estar engripada e pede à mãe que avise a escola, irá faltar 3 dias e não quer receber nenhum telefonema. Mas o telefone toca, uma e outra vez. A mãe justifica-se. Acredita que alguém fez mal à sua menina, já viu muitos gozarem-na e crê que ela foi vítima da agressão de algum idiota e faz queixa ao director de turma. Há um rapaz que é posto de castigo e mandado para a cantina onde a sua tarefa será ajudar nas limpezas durante uma semana. Reclama injustiça e diz que ama Elianor, mas a mãe dela contou uma versão diferente ao director e o castigo é mesmo aplicado. Sete, foi o número de mortos no terrível e inexplicável incêndio que deflagrou na copa da cantina nessa manhã de Primavera, duas auxiliares, três cozinheiros, um guarda e um jovem que estava a cumprir castigo.
“Somos um, tu e eu, em eterno enleio, poema gravado em pedra, almas lavadas em fogo”. Desta vez estava bem acordada, quando ouviu a voz. “Para sempre, Elianor, por toda a eternidade”.

A mãe entra em pânico pelo quarto adentro, sem se anunciar. É da escola, são notícias horríveis minha querida, ainda bem que estavas em casa”.

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