quinta-feira, 19 de julho de 2012

Par de botas



Era uma vez um cordel de pião que servia como atacador na bota número 39. Tinha como rotina diária espartilhar o pé e aconchegar-se num laço perfeito, tão perfeito que só podia ser feito por alguém com um único pé para calçar. Mas os vícios são como as crianças na idade dos porquês e cada vez que o cordel pensava porque não tinha pião para girar a senhora era impulsionada num rodopio de calcâneo. Sucediam-se as náuseas e os vómitos e com um estômago prostrado a cama foi a melhor forma de suavizar os estragos. A cama e um chinelo. 

Na casa do bicho papão, a bota palmilhava palavras interrogadas ao cordel: "Não és feliz aqui?” O cordel desentrelaçava: "Não sei." 
Um dia, e porque todas as estórias têm "um dia" a má circulação apaixonou-se pelo pé e a bota deixou de ser bota, foi promovida a técnica de cotão com part time em berço para o bebé do bicho papão. O cordel começou a servir de fio de pesca para meninos e meninas com ponta de narizes curiosos por "debaixo da cama" uma vez que o bebé era roliço e andava sempre com fome. 
O cordel agora já era mais feliz, porque enquanto os meninos e as meninas não eram deglutidos pelo bebé papão, ele podia brincar por entre os seus dedos pequeninos e recordar-se de como era enrolado à volta do pião. 

Mas passaram-se anos e a senhora morreu. Passaram-se anos e os meninos e as meninas deixaram de acreditar no bicho papão e nunca mais os narizes foram parar debaixo da cama. 
Recentemente o cordel encheu-se de nós e dentro dele deixou de circular a vontade de girar piões. 

Era uma vez um pião que servia como fio-de-prumo na construção de casas de bonecas. Escusado será dizer que aquelas casas eram as mais aprumadas de todas, de uma verticalidade verdadeiramente vertiginosa. Apesar de toda esta perfeição, trabalhar com o pião não era fácil, ao se sentir pendurado por um fio a sua única vontade era enrolar-se nele. 
O fio não passava de um atacador antigo de botas perdidas mas desempenhava a sua função com distinção. Mas naquele momento prender um pião descompensado enchia-o de suspiros depressivos e as bonecas já reclamavam. 
O atacador atado de palavras enlaçava: “Porque não páras quieto?” O pião girava: “Não sei.” 
Tanto se mexeu que acabou por se soltar e caiu literalmente redondo no chão. Sem função o atacador enrolou-se amuado em novelo. 
O pião agora era mais infeliz, deitado no chão, a sua barriga rodopiava preguiçosamente e só lhe valiam os pontapés de uma senhora distraída que o faziam deslizar pelo chão. Farta de tanto pontapeá-lo a senhora pegou nele e colocou dentro de uma bota que já não usava há muito tempo porque simplesmente não tinha como o fazer. Ficou fechado dentro de uma bota, preso dentro de um armário. 

Mas passaram-se anos e a senhora morreu. Passaram-se anos e aquele armário nunca mais foi aberto. 
Há poucos dias o pião sentiu-se cheio de nós de madeira e não percebeu o que aconteceu.

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