Lavração de testamento


Eu, Maria, encostada aos portões desta cidade, nomeio para meus testamenteiros aos senhores, que este virem, ouvirem ou dele notícia tiverem. Saibam que estando em perfeito juízo e sem qualquer induzimento, atesto por fé, sem testemunhas que o comprovem, ser esta a minha última vontade, a derradeira, no momento em que abdico do que fui.

Deixo cada coisa que juntei neste mundo a quem ma deu.

À minha mãe deixo a pedra do adro da igreja, a vergonha de que me vestiu, o corte de metal rombo que nos separou , o primeiro grito, o beijo que me negou.

Aos que me criaram deixo as braçadas de lenha, as costas partidas, os ilíacos e as costelas a rasgar a pele, os prantos, os trapos, as vergastadas, os beijos que me negaram.

Ao meu pai nada deixo porque nada me ofereceu.

Ao homem que me comprou deixo a cabra por moeda da transacção, a saliva obscena na minha boca, os cabelos arrancados, a cama sórdida, os beijos com que sugava todo o meu corpo apesar de eu negá-lo.

Ao homem a quem me dei deixo o feitiço, os nervos excitados, o estigma, a culpa, o adeus fácil, o amargor, os beijos de quem ama por dois que não lhe neguei.

Ao meu filho deixo o amor por entregar, o seio a secar, a procura vã de calor na pele, os beijos que não negaria ao anjo que não soube enterrar.

A todos vós deixo a falsa caridade, o olvido e o asco.

E por não saber ler nem escrever e não ter tinta nem papel, rogo-vos que aceitem como letra esta impressão lívida da minha alma.

Rogo-vos, igualmente, que me olhem enquanto seguro esta adaga e golpeio as parcas que me fizeram bastarda da vida, enquanto inspiro e bebo-lhes o sangue, enquanto me ergo contra o destino, enquanto renasço e me levanto do chão. Outra mulher. Não mais Maria.




Comentários

  1. Auto de uma alma danada a arder. Adoro almas danadas... e tu sabes criá-las tão bem! Cuidado com as Marias que renascem do fogo e das cinzas. Excelente.

    ResponderEliminar
  2. Deixar finalmente o que nos dão em vida, retribuir... e numa mistura de "cada um tem o que merece" mas ao mesmo tempo, em cada palavra do testamento de Maria, ser inevitável imaginar toda a vida vivida (ou por viver)da tua personagem... os teus textos fazem sempre desejar por mais porque as imagem ficam a baloiçar nos olhos.

    ResponderEliminar
  3. Se pudéssemos deixar cada cicatriz (de carne ou alma) a quem nos infligiu isso nos lavaria por dentro? Tu também escreves com a pena que escondes atrás dos olhos que se chama alma. Digo abertamente, esta foi a resposta ao desafio que mais gostei.

    ResponderEliminar
  4. Excelente! Foi uma delicia ler este texto, nem tenho palavras para tanta criatividade!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

#LoveLetter_AITD