Mão direita, estou de férias.

Aqui a possuída pelo diabo está de palma virada para o céu a cristalizar água salgada entre as pregas das linhas.
Escrevo-te porque na verdade preocupo-me contigo. Não te deixei nada no estômago para o jantar, nem os dentes lavados, muito menos a camisa abotoada. Tens ainda uma caneta em cima da mesa quadrada à esquerda para amestrares. Trouxe o relógio comigo pois duvidei que conseguisses dar corda antes das horas acontecerem e não quero-te desnorteada nos dias. Mas se reparares no canto superior esquerdo da estante tens uma ampulheta (fácil, não?).
Agora vou para o sol voltar-me de dorso. Só para te avisar que as unhas ficaram assustadoramente pintadas e tive de pedir a um pé esquerdo havaiano para as retocar.

Beijinhos soprados na mão… não os deixes cair quando chegarem aí. (Se caírem não fiques triste, afinal não tens culpa de estares do lado direito do corpo e estes beijos serem terrivelmente canhotos).

Comentários

  1. Era bom se as partes do nosso corpo pudessem tirar férias de nós em sítios diferentes. Mandava os pés passear à beira-mar, os olhos para a montanha, o nariz para o campo, os ouvidos para floresta, a cabeça para a Lua... Leio um dos teus textos e ponho-me logo a divagar... Excelente, como sempre.

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  2. É agradável ler os teus textos, eles ajudam-nos a sentir aquilo que sentimos, sem sabermos descrevê-lo como tu o fazes.

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  3. uma originalidade deliciosa, simples e bonito.

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  4. Muito giro, original!!!!
    (Posso mandar partes do corpo passear?!)
    Como sempre, uma boa surpresa! :)

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  5. bonito...simples e tão cheio de sentido...

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  6. Deliciosamente soprado.
    Anamar (pseudónimo)

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