Lição de Filosofia



Queria, querida menina, um universo de coisas reluzentes e macias sempre que o vento te levanta a saia plissada de colégio católico e me fixo no grande-plano da tua boca rosada e pequenina a soprar em câmara lenta a palavra redonda, toda ela manha e melaço: poooooorco-co.

Por isso, sorrio e levo a mão ao chapéu, um cavalheiro que ambicionas senil e castrado, e sinceramente te digo que gosto de te ver soprá-la – de repente, sou outra vez homem, dono de todos os músculos e vascularizações do meu corpo a mirrar.

Sabes que te farão mal, esses rapazes de pele e peito lisos, os olhos oblíquos de cobiçar as mesmas suaves arquitecturas da tua carne a que levanto altares com os meus? Dúvidas, por acaso, que vão forçar desajeitadamente a entrada em ti, inábeis máquinas poluidoras, belos e cruéis semi-deuses acéfalos, só para te deixarem cada vez mais vazia e apática ao longo dos anos? Que, depois, vão querer fazer-te filhos que te retalharão por dentro e por fora, tudo em nome da corrida desenfreada para propagarem os seus genes proletários de unhas sujas?

Claro que não... Até desejas que o façam. E com toda a justiça, reconheço. Os imparáveis mandamentos da Biologia não perdoam. Eu já fui um deles, de resto, e não foi assim tão interessante quanto se possa pensar à partida.

Hoje, todos esperam que me baste a resignação zen de dar pão aos patos, milho aos pombos e vazas à sueca com os outros reformados do Jardim da Estrela. E que me ocupem as consultas no médico da Caixa, horas intermináveis sentado nesses matadouros municipais, com outros da minha geração a quem a demência começa lentamente a escavar canais no cérebro como uma maçã bichada, a discutir as novelas e os programas da tarde e os filhos que graças a Deus estão muito bem na vida mas que nunca aparecem para os visitar, preocupado com a próstata e a tensão, à espera de uma morte piedosa durante o sono? Sim, resvalo lentamente para o AVC mas só a partir das seis das tarde, sentado no banco em frente do liceu, e apenas à passagem do sonho de morfina nas tuas coxas e do teu peito arrogante e rijo.

(Se pudesse, contava-te como ele é a minha zona de conforto anestesiada, que é a ele que imagino, branco e macio, com a sua coroa tenra e rosada ao centro, sempre que estou no gabinete médico para mais uma colonoscopia).

Dantes sonhava que também eu era uma jovem e inábil máquina de retalhar carne, para te tomar como queres. Mas, sinceramente, agora retiro mais prazer da fantasia sádica de te profanar como sou, todo sulcos e bocados pendentes, rugas e asperezas e o princípio de um perfume fétido de quase-morte. Pedir-te-ia então, minha querida, que o tomasses como uma lição de filosofia sobre como tudo é breve e caduco, uma putrefacção adiada, até a matéria desses teus 15 anos pagãos e que, por isso, deves aceitar como uma bênção cada mutilação do teu corpo e espírito, porque só quer dizer que estás viva. E talvez pudesse falar-te de como o teu sexo é o único antídoto para esta sensação de projecto de cadáver que trago dentro mas...

... mas, que lá por ser velho, não tenho qualquer obrigação moral de me sentir assexuado como uma amiba sempre que, às seis da tarde, os meus olhos embalam na cadência do balanço do teu cú perfeito.

Comentários

  1. nunca fui grande aluna a filosofia...só posso dizer que fiquei fã desta lição!!! fantastico!!!!!obrigado bichinho de ouvido:))

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  2. Brutal, a maneira como nos fazes ziguezagear em relação ao que sentimos pela personagem central. Extremamente bem conseguido

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  3. quando estudei não tive direito a estas lições, o que é pena, pois tinha feito disciplina com notas mais altas e mais alegria.
    Estamos perante um excelente texto que nos obriga a navegar e a penetrar fundo na sua essência.

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  4. Texto duro de ler. Tal como deve ter sido duro vestir a pele desta personagem e escrever de forma a que uma parte de nós consiga entendê-lo. Como sempre, excelente.

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  5. aquele homem...senti várias coisas sobre ele ao longo do texto...adorei!
    (uma verdadeira lição!)

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  6. Adorei! Embora me tenha dorido, por já conhecer essa lição. E gosto tanto de filosofia:-)

    Anamar

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