sábado, 22 de outubro de 2011

NeoPornographia





Todos olhamos quando ela passa
Excitante, provocante, diabolicamente devassa
Apertamos as coxas para disfarçar a excitação
Mordemos os lábios, suspiramos em vão
Mas ela está longe de nós

Noutro dia olhamos pela janela
Miramos a doce e demente dança dela
Metemos ao bolso a mão, para disfarçar
A atenção inusitada que lhe estamos a dar
Enquanto serpenteia longe de nós

Por vezes ao passar numa qualquer estrada a vemos
E logo abrandamos, espreitamos e dizemos
Que é uma desgraça, vergonha, uma tristeza
E engolimos em seco a admirar a beleza
Dela que se enrola com um que não nós

À noite na segurança da nossa cama
Dizemos a mentira a quem mente que nos ama
Que ela é a única, aquela, a verdadeira tal
Mas longe o pensamento voa fatal
Para aquela que se abre se deita longe de nós

E quando dispara o corpo corrupto
Num esgar ou lamento profundo e poluto
Morremos um pouco no corpo do amante
Sentimo-nos perto mas com a alma distante
Enleada em quem está longe de nós

Mas o dia chega e nunca se atrasa
Ela vê-nos, sorri e nos deixa em brasa
Um acenar dela e ditada é a sorte
Embalados nos vamos nos braços da morte
Quando finalmente o escolhido é um de nós

7 comentários:

  1. Um poema simples na forma mas que encerra em si várias ideias susceptíveis de outras tantas interpretações. Essa figura feminina é a mulher (a eterna agente de perdição) que tenta e conduz à morte? Ou será a inversa: a própria morte que veste roupas de mulher, que nos recolhe nos braços e guarda, sem sentença, as nossas histórias? Gosto da escrita que deixa espaços em branco para que seja eu a preenchê-los.

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  2. "Fonográficamente" te digo que este poema afasta a morte do olhar de quem lê. E a musica é aquele instante em que o sol atravessa a chuva e vem sentar-se naquele banco de jardim, onde a velhice nos espera.
    Gostei sim.
    Anamar (pseudónimo)

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  3. Ela, sempre ela, o ser da perdição, a mulher que amamos, a mulher que nos faz transviar o olhar, a mulher que desejamos, a mulher que nos faz voar e que nos leva à loucura... tudo maravilhosamente descrito nesta NeoPornographia que nos transporta embalados numa outra dimensão...

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  4. gostei como quem gosta de coisas muito boas:))

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  5. LOL! Desculpa, um que diabo é um marco na carreira de qualquer escritor que se preze. :)
    "Morremos um pouco no corpo da amante." (lindo...) Os franceses chamam-lhe a "pequena morte", não é? O fruto proibido como a perdição final, o desejo do que se não pode ter, o humano mais que humano. Afinal, a adrenalina de que precisamos para nos sentirmos vivos. Mas o que acaba por nos perder não é a femme fatalle" mas a nossa inevitável dependência do risco e danação.
    Gostei muito. Não se arranja por aí mais um destes X-rated? ;)

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  6. este texto li 3 vezes e tirei interpretações diferentes...adorei! Primeiro vi só a mulher, depois vi muito mais!

    "À noite na segurança da nossa cama
    Dizemos a mentira a quem mente que nos ama
    Que ela é a única, aquela, a verdadeira tal
    Mas longe o pensamento voa fatal
    Para aquela que se abre se deita longe de nós"

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